19.10.08

O MAIS IMPORTANTE NÃO É O MELHOR

Através do A Terceira Noite, fico a saber de um inquérito, dirigido a “escritores, críticos e jornalistas da área da cultura”, sobre os melhores livros da literatura portuguesa do século passado. Os resultados poderão/deverão ser acompanhados no weblog Os Livros Ardem Mal. O primeiro a responder foi Frederico Lourenço, entre outras coisas tradutor de Poesia Grega de Álcman a Teócrito. Para Lourenço o melhor livro de ficção publicado em Portugal no século XX foi A Ilustre Casa de Ramires, de Eça de Queirós. Nos parágrafos onde se explica a escolha, podemos ler o seguinte: «Por muito que tente, não consigo, de facto, entusiasmar-me com a ficção portuguesa. Claro que há livros que li com admiração: O Livro do Desassossego (Fernando Pessoa), Sinais de Fogo (Jorge de Sena), Finisterra (Carlos de Oliveira). (…) Li muitas páginas de romances de Agustina Bessa-Luís com o entusiasmo arrebatado que nunca me suscitaram as leituras de Vergílio Ferreira (autor imensamente sobrevalorizado). Mas haverá um romance de Agustina que funcione em pleno como “livro”, no sentido em que aplico esse termo à Ilustre Casa de Ramires? Duvido». Não concordando com tudo o que afirma Frederico Lourenço, nomeadamente com o “desprezo” declarado pela obra de Vergílio Ferreira, aprecio muito esta clareza de ideias. O livro de poesia portuguesa escolhido foi Geografia, de Sophia de Mello Breyner Andresen: «É para mim o melhor livro de poesia portuguesa do século XX pela simples razão de que nenhum outro livro me tem dado tanto prazer e tanta felicidade ao longo de vinte e cinco anos de releitura continuada». Está explicado. No entanto, os mestres da tertúlia no Café-Teatro do TAGV gostam de complicar as coisas. Guardam uma última pergunta na manga. Pergunta traiçoeira, manhosa, tipicamente académica. E a pergunta é:

Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

Esta distinção entre melhor e mais importante é capciosa, porque legitima uma hierarquização objectiva do gosto. O mais importante deixa de ser aquele que é melhor. Pressupõe-se que o melhor apenas o seja subjectivamente, para Frederico Lourenço ou para outro leitor qualquer, partindo do princípio, algo pretensioso, de que o mais importante resulte já de uma objectivação histórica, não contaminada pelo gosto individual, assente em pressupostos académicos, críticos, imunes à tal subjectividade dos juízos de gosto. Ora, isto não faz sentido algum. Os livros mais importantes só podem ser os melhores e os melhores só podem ser os mais importantes, pois os mais importantes são sempre os melhores para um alguém que existe, que é concreto, não para um alguém abstracto. De que me vale dizer que este ou aquele livro é o mais importante do século XX se ele não for o melhor para alguém? Quem determina a importância de um livro? Os leitores, os catedráticos, os próprios livros? Frederico Lourenço, imbuído de espírito académico, responde à questão sem sequer a questionar: «Aqui não tenho qualquer dúvida na resposta. O mais importante livro de ficção portuguesa do século XX é O Livro do Desassossego de Bernardo Soares; e o mais importante livro de poesia, a Mensagem de Fernando Pessoa (o único livro de poesia que Pessoa publicou em vida)». Gostava de saber por que não são estes mais importantes livros os melhores? Sendo Pessoa, como afirma Lourenço, o autor mais importante (e que de longe mais admira) da literatura portuguesa do século XX, o que justifica que os seus livros sejam relegados para segundo plano em prol de obras alheias? Por que não são estes livros admiráveis, fundamentais e importantes os melhores? Que obscuras e subliminares razões justificam que o mais importante não seja o melhor?

13 Comments:

At 6:12 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Às vezes a terapia funciona, sabe? Talvez possa eliminar o ressentimento que lhe causou algum desses 'mestres' quando não deu pela sua existência. Pode é não ser suficiente para o convencer a não falar de coisas que não entende. Não vou assinar isto, porque desconfio que sabe onde eu moro...

 
At 6:40 da tarde, Blogger hmbf said...

Além de desconfiado é cobarde. Estaria tudo dito, não fosse a acusação mesquinha de ressentimento. Nenhum dos aventados mestres poderia dar pela minha existência simplesmente porque eu não existo no mundo da proficiência. Eu vim de um planeta distante. Mas “vosselência” deu pela minha presença e muito me lisonjeia sua atenção. Por isso, só por isso, sinto-me tão feliz que por aqui continuarei a debitar sobre coisas que não entendo sem esperar, obviamente, ser por “vosselência” esclarecido.

 
At 8:36 da tarde, Blogger Luis Eme said...

excelente questão.

e acontece, apesar de parecer incongruente...

pode-se diferenciar o melhor do mais importante, pela influência positiva que este último (sem ser uma obra prima)poderá ter tido na nossa vida...

 
At 9:29 da tarde, Blogger hmbf said...

Sim, isso é verdade. O melhor livro que li não é seguramente aquele que foi mais importante para mim, no sentido de mais ter influenciado a minha vida. Mas esse é um outro contexto. Aqui estamos a falar de livros fundamentais da literatura portuguesa do séc. XX. Não me parece que neste contexto a distinção faça tanto sentido. Porque uma coisa é o que um livro significa para mim (sujeito concreto), outra coisa é o que ele significa para a literatura portuguesa (sujeito abstracto). Seria preciso perguntar à literatura portuguesa, ouvir a resposta que ela tem para nos dar.

 
At 10:59 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Ah ah perguntar à literatura portuguesa, ouvir a resposta que ela tem para dar... vê-se que este sujeito realmente não existe no mundo da proficiência... (atenção não sou o mesmo anónimo de há bocado, sou outro)

 
At 11:43 da tarde, Blogger np said...

Esta coisa dos anónimos é um bom exemplo do que somos nós, os portugueses de hoje, mas que mesquinhez.
Não que a questão essencial me interesse, não acredito em mais importante nem, tão pouco, em melhor, mas mandar bocas assim é coisa que me faz um pouco confusão.
Gente mais ressabiada.

 
At 12:01 da manhã, Blogger hmbf said...

NP, eu também não. Perguntas destas servem apenas para legitimar a afectação dos académicos, os quais se arrogam no poder de determinar o que é mais ou menos importante. Seja como for, o exercício tem piada. Eu gosto de saber quais são os livros que as pessoas preferem. E gostei muito das respostas do Frederico Lourenço, pareceram-me honestas. Tenho passado pelo teu blog e vi lá mais uma montagem fotográfica muito fixe. Parabéns à autora. Quanto a anónimos destes, passam-me completamente ao lado de tão insignificantes que são. Por isso mesmo não fecho a caixa de comentários nem lhes dificulto a entrada.

 
At 12:33 da manhã, Blogger Luis Eme said...

eu também pensei que a verdadeira questão devia ser essa, Henrique, mas por ela ser tão "parva" e abstracta, preferi dar-lhe alguma substância.

 
At 1:23 da tarde, Blogger etanol said...

Talvez a resposta de Lourenço se prenda também com o facto de Fernando Pessoa ser o nosso autor do séc. XX mais universal, ele é conhecido em todo o mundo. Nos anos 80 assistimos a uma especie de boom Fernando Pessoa, na altura estava a estudar no secundário e lembro-me que tive mais empatia com a poesia de Mário de Sá-Carneiro. Não sei se foram os académicos a definir a importancia de Fernando Pessoa no Séc.XX. Eu gostei de ele ter a coragem de escolher " A ilustre casa de Ramires" do Eça como o melhor romance do séc.XX.
Maria João

 
At 3:49 da tarde, Blogger Ente lectual said...

acho estranho a abordagem que faz ao tema, henrique, parece que a ideia lhe ocorreu pela primeira vez. Bom desenvolvimento, seja como for.

saudações e etc

 
At 8:12 da tarde, Blogger hmbf said...

Etanol, também gostei muito da escolha do Eça. Mais ainda da explicação subsequ...

Ente, não percebo o teu comentário. Podes explicá-lo melhor para que eu melhor me possa explicar.

 
At 8:47 da tarde, Blogger Victor Oliveira Mateus said...

Bem, eu não me quero perder nesses
debates de "a Litª não pode responder" (lá tinha de voltar à questão dos universais... bah!), nem em temas de tão elevada envergadura, só gostava de colocar
algumas questões muito ingénuas:

a) se a terapia funciona por que razão um anónimo é um anónimo?

b) o que costuma fazer o Sr Fialho
aos seus interlocutores para eles andarem tão assustados?

c) isso de anónimo, homens sem rosto (ou mulheres?), encapuzados, etc., tem alguma coisa a ver com
Auschwitz, modelos de comportmento
neofascizantes e coisas afins?

d) como é que se vê qual foi "O"
livro mais importante (não "para
mim"!) do século XX? Pela influên
cia que exerceu no processo de modelagem de comportamentos e atitu
des? Por ter sido causa (quase me
apetecia dizer:"no mundo da proficiência"!) de alterações funda
mentais em dadas estruturas sociais? Por ter motivado altera-
ções radicais em dados paradigmas:
de ver o mundo, de o interpretar,
estilistico-formais (no campo da
arte),etc) Sim, façam o favor de
me explicar como se encontra isso
"de livro (Singular!!!) fundamental
do século XX", mas expliquem-me devagarinho pois as minhas dendrites já não são o que eram.
E, à guisa de conclusão, duas achegas, que são também duas questões:

1º Dizei-me, ilustres eruditos, em que escola, movimento ou época
os intelectuais (?, na cultura ocidental, polemizavam encapuzados?

2º Dizei-me, ó almas atemorizadas,
onde se compram marretas para dar
nos administradores dos blogues,
quando eles nos baterem à porta

 
At 9:32 da tarde, Blogger hmbf said...

Excelente, Victor, excelente. A alinha d) é a que me interessa. Soubesse eu responder-te, não me colocaria as mesmas qyestões.

 

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