19.10.08

APRENDER A CONTAR #27

UMA MULHER PIEGAS DE YPSILANTI enviou-me urna carta há uns anos. Ela sabia que eu também era piegas, que é como quem diz, que fui durante toda a vida um democrata do norte, seguindo a tradição de Franklin Delano Roosevelt, amigo dos pobres diabos dos trabalhadores. Ela ia ter um filho — não era meu — e queria saber se fazia mal em trazer uma criatura tão doce e inocente a um mundo tão mau como este.
Escreveu-me: «Gostava de saber o que pensa sobre uma mulher de 43 anos que vai finalmente ter um bebé, mas que tem reticências quanto a pôr urna criança num mundo tão assustador.»
Não faça isso! Era o que lhe queria dizer. Pode ser outro George W. Bush, ou uma nova Lucrécia Bórgia. O miúdo teria a sorte de nascer numa sociedade na qual até os pobres são obesos, mas o azar de nascer numa sociedade na qual não há um plano de saúde nacional nem educação decente para a maior parte das pessoas, na qual a injecção letal e a guerra são formas de entretenimento, e na qual frequentar a universidade custa os olhos da cara. Nada disto se aplicaria se o miúdo fosse canadiano, ou sueco, ou inglês, francês ou alemão. Portanto, continue a praticar sexo seguro ou então emigre.
Mas o que respondi foi que o que fazia com que estar vivo me parecesse quase valer a pena, para além da música, eram todos os santos que conheci, que podiam estar em qualquer lado. Quando digo santos, refiro-me a pessoas que se portam de um modo decente numa sociedade espantosamente indecente.

Kurt Vonnegut (1922-2007), Um Homem Sem Pátria, trad. Susana Serras Pereira, Tinta-da-China, pp. 115-116, Julho de 2006.

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