9.1.09

UM SAPATO PARA MUDAR O MUNDO (1)

para o Zé João


1. Segundo notícia do Público de 08.01.2009, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, anunciou recentemente a vontade de construir um muro a separar a favela do “asfalto”. Não é a primeira vez que se constroem muros, apesar de os tempos terem sido difíceis para alguns (poucos) muros durante as últimas décadas do século passado.

2. Se a ideia de construir muros não é original, podemos dizer que assume agora renovado papel ao reduzir a escala: já não serve apenas para separar a nossa cidade do invasor estrangeiro, não, o muro erige-se agora dentro da própria cidade (dizer cidade é dizer país, nação, “comunidade” mais ou menos heterogénea). A divisão transporta-se para o dentro, selando os habitantes da cidade como estrangeiros uns dos outros.

3. O processo não começou agora. Os muros construídos no pensamento chamam-se preconceitos. A tecnologia deu uma ajudinha no bloqueamento dos buracos por onde recebíamos o mundo: auriculares nos ouvidos, óculos GPS nos olhos. E mais abaixo as mãos, delicadas, pressentindo as teclas do telemóvel.

4. A cada um o seu muro portátil. Um muro sólido como uma utopia, auto-suficiente como uma má metáfora. O anjo da guarda que merecemos e nos ausculta as ideias sem precisarmos de abrir a boca. É óbvio, havemos de ter o paraíso. Havemos de ter um paraíso para cada um.


Rui Costa

1 Comments:

At 6:20 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Os muros da exclusão são o resultado da incapacidade da sociedade civil –todos nós- e da classe política, para agir de forma concertada combatendo a falta de tolerância à diferença e de uma surdez compulsiva, resultado do medo do desconhecido. Mas não tem de ser uma fatalidade:)
PB

 

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