6.2.09

LEMBREM O POETA

Poderei acaso esquecer o que vejo?
Nuno Júdice

Cheguei a casa às três da manhã, depois de um serão a organizar campanhas de namorados e a encher estantes novas com dicionários, BDs e livros de medicina alternativa. Sentia-me extenuado e profundamente entediado com o cor-de-rosa das promoções, as capas garridas dos livros, as mil e uma versões disponíveis, todas adúlteras, do Kama Sutra. Eram três da manhã. Ainda liguei o computador, espreitei os e-mails, vi as últimas dos weblogs. Apanhei um acidulado post da menina limão que teve o mérito de me desenjoar dos açúcares das campanhas. Copiei-o, guardei-o, não fosse a citrina lembrar-se de o apagar. Não sei porquê, passou-me pela cabeça que o pudesse fazer. E fê-lo. É pena. Eu assinaria por baixo tudo o que ela escreveu naqueles dois parágrafos. O assunto era a última sessão de Os Livros Ardem Mal, descrita pelo Luís como “sem magia”. Uma das razões apontadas foi a chateza do ilustre convidado da sessão, o poeta Nuno Júdice. O Luís relata que saiu da sala depois de ter ouvido Júdice dizer que não vislumbrava ninguém na “produção poética contemporânea”. Não admira, pois há muito foi o poeta de A Noção de Poema assaltado por uma miopia geral que facilmente se vislumbra nos poemazitos dados à luz no weblog A a Z. Não fosse o caso de supormos uma inclinação provocatória nas palavras do trovador, lembrá-lo-íamos das suas próprias palavras escritas a propósito da revista Criatura: «Entre um parágrafo introdutório e uma nota final, ao longo de 110 páginas, o leitor vai descobrindo 15 novos poetas com a surpresa de vozes originais e que dominam plenamente a linguagem poética». Quem assim fala, fiquemos entendidos, não vislumbra. Estas falhas de memória são admissíveis e compreensíveis se tivermos em conta o milieu português, sempre tão dependente de panegíricos sem conteúdo e ávido de distinções repetitivamente patéticas (notem-se os recorrentes discursos acerca de cânones e novíssimos e poetas maiores e livros da maturidade e mais isto e mais aquilo…). Mas, mesmo tendo em conta a possibilidade meramente provocatória e cínica na não-resposta de Júdice, é bom que o lembremos. Nuno Júdice nasceu no mesmo ano de poetas como Eduardo Pitta, Jaime Rocha, Helder Moura Pereira ou Jorge Fallorca (cito apenas 4 para não ser exaustivo). O leitor que os leia e descubra por si próprio o que terá a obra de Júdice que falta às restantes. Eu, pessoalmente, prefiro um Fallorca esfalfado a um Júdice cheio de tesão (coisa que me é inimaginável depois de o ter visto, já lá vão uns anitos, dar-se ao ridículo num programa de Inês Pedrosa sobre a vida em casal – acho que não sonhei). Para simplificação, tenhamos apenas em conta as datas de nascimento. Depois de Júdice nasceram Fernando Guerreiro (quanto a mim, o mais singular dos poetas portugueses da sua geração), poetas mais ou menos prolixos, originais e divulgados tais como Carlos Mota de Oliveira, José Alberto Oliveira, Paulo da Costa Domingos, Amadeu Baptista, Bernardo Pinto de Almeida, Gil de Carvalho, Carlos Alberto Machado, Jorge Fazenda Lourenço, Ana Luísa Amaral, Joaquim Castro Caldas, etc. Não me importa discutir a relevância das obras (as obras são os poemas), importa-me atacar a falta de memória – o mais avassalador dos males nos tempos em que vivemos – de um poeta em particular. Se o assunto for a relevância das obras, o que dizer do esquecimento de nomes como os de Jorge Sousa Braga, Luís Miguel Nava ou Adília Lopes? Seria curioso saber, por exemplo, o que pensa Fernando Pinto do Amaral – outro chato – destes esquecimentos de Nuno Júdice. Júdice não vê nada porque, como tantos outros, só se vê a si próprio, porque meteu «as mãos pelos ouvidos até chegar ao cérebro». Que terá ele encontrado?

3 Comments:

At 5:52 da tarde, Blogger L. said...

ja que estamos numa de assinalar óbitos...

gostavas dos the cramps? foi-se.

 
At 6:43 da tarde, Anonymous Pedro Gabarito said...

pq é que o fernando pinto do amaral é chato?

 
At 5:55 da tarde, Blogger Luís said...

Henrique, deu-se o caso de, na sessão referida, o Poeta ter querido citar o nome da revista Criatura e este lhe não ter ocorrido.
Mas isto não tem remédio. Muitas vezes parece estarmos a falar sozinhos. Ninguém diz nada, ou então aparece um gajo que pergunta porque é que o F. Pinto do Amaral é chato. Deve ser um dos poucos portugueses que ainda não teve um livro apresentado ou premiado pelo Fernando.

 

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