11.2.06

José Miguel Silva said...

É espantoso como uma actividade, como a poesia, onde nada há a ganhar e tudo a perder, onde o mais que se consegue, no âmbito dos emolumentos, é um ou outro convite para umas breves férias em Paris ou S. Paulo, sob o pretexto de algum colóquio ou feira do livro (algo que acontece muito esparsamente e só para quem tem o gosto de cultivar amizades nas altas esferas dos Penes Clubes ou de qualquer ministério da literatura) é espantoso, dizia, como esta actividade pode gerar tamanhos ódios. Se estivessem em jogo lances de milhões de euros, vivendas nos Algarves, iates ou automóveis de seis metros, enfim, até se “compreenderia”. No fim de contas, o mundo mental da maioria dos chamados literatos não é muito diferente do de qualquer contabilista, e a burguesia de espírito floresce ali tão viçosa como na cabeça de qualquer mestre-de-obras endinheirado.
Mas este rancor sórdido que alguns alimentam contra A ou B, só porque esses A ou B nunca dedicaram às suas produções mentais a atenção de que eles se julgam credores, parece-me uma coisa bem triste e mais digna de piedade do que de reprovação. É preciso ter-se uma vida intelectual muito exígua para passar o tempo a rosnar contra alguém que, se de repente os olhasse com benevolência, passaria certamente a ser considerado um génio. Mas rancor e água choca, cada um bebe a que quer. E não viria, pois, mal nenhum ao mundo se estes rancorosos guardassem para si ou para a intimidade da sua correspondência o fel acumulado em anos e anos de ressentimento.
O que me parece intolerável é que estes promotores de si próprios não sejam capazes de deixar escapar uma única oportunidade para vir a público verter sobre os seus “inimigos” (e que só o são no escuro das suas cabeças, pois os ditos “inimigos” nunca lhes fizeram outro “mal” que não fosse o de os ignorar) toda a espécie de farpas e remoques; farpas essas concebidas de maneira a escamotear aquilo que realmente os incomoda: que A ou B nunca tenham escrito sobre as suas pessoazinhas. E é assim que a todo o momento deparamos com pontas de veneno sopradas por medíocres do tipo Gastão Cruz ou A. Barros Baptista ou Osvaldo Silvestre contra alguém (J.M.M.) cujo mais insignificante verso vale mais do que tudo o que esta ralé conseguirá algum dia produzir. Uns porque sabem (embora nem as paredes confessem) que nunca serão senão poetas de quinta ordem; outros porque não passam de parasitas vivendo à custa da cultura que os seus “inimigos” produzem e se sentem descontentes e angustiados com essa sua posição subalterna e vampirizadora; outros ainda por mera inveja ou por ressentimento (nascidos do facto de não conseguirem produzir algo capaz de brilhar com luz própria); por todas estas razões e mais algumas (todas elas mesquinhas e denunciadoras de uma visão do mundo similar à de uma rã na borda do seu charco), estas alminhas do seu próprio purgatório têm como único desporto enxovalhar quem não os vê, quem não os reconhece ou quem não lhes envia livros com floridas dedicatórias e manifestações do mais “sincero apreço”.
O que esta infecciosa pardalada merece é o maior dos desprezos. Fosse eu muito chegado aos sentimentos cristãos, e sentiria mais pena deles do que sinto; mas a verdade é que os meus sentimentos de compaixão, prefiro canalizá-los para os verdadeiros necessitados deste mundo. Já os abutres, os peçonhentos e os invejosos, só merecem o silêncio que em geral recebem. Um silêncio, de resto, que os enfurece ainda mais, que os faz rabear como demónios eléctricos, que lhes povoa de fantasmas as circunvoluções cerebrais, e que um dia os fará morrer sozinhos, como sempre viveram (ainda que com muita algazarra em seu redor); um silêncio que, fosse eu mais sensato, nem sequer teria quebrado.
Para finalizar, não posso deixar de assinalar que o depoimento da Inês Lourenço revela uma grandeza moral inacessível a esses grilos da cri-crítica literária e da poesia repolhuda, acima mencionados. Se mais nenhuma razão houvesse (mas há), só por isso já ela seria digna das maiores felicitações. Porque a triste verdade é que movimentar-se (por pouco que seja) nos meios literários e conseguir escapar de ser um crápula, acreditem, é obra, e mais raro do que neve no Rossio.
José Miguel Silva

2 Comments:

At 1:33 da manhã, Blogger Jorge Melícias said...

Oh, José Miguel, faz um favor a quem tanto admiras: não lhe faças mais favores.
Em primeiro lugar porque o senhor não deve estar "nem aí" para todo este bate-boca cibernético. Em segundo lugar porque "procuração" de tal monta (e não acredito que ta tenham passado) é em demasia para costado tão tenro.
Mas se um dia quiseres reincidir e tentar de novo subir na consideração de quem tanto estimas, lembra-te antes que o fervor religioso não faz, por sí só, um bom acólito. A inteligência também conta.
E sobretudo, entende, duma vez por todas, que nem todos professamos a mesma religião. Há mesmo quem não goste de papas.

 
At 11:33 da manhã, Blogger nd said...

Investigando na net acerca da poesia do José Miguel Silva, encontrei isto do Melícias. Há gajos com vocação para serem uma asneira completa. Voaram quatro anos sobre este post, o gajo refina e nós envelhecemos. Abraço num passado que já lá vai.

 

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