11.7.06

O PROJECTO

Projecto

- Então.
- Ando a trabalhar num projecto.
- Ai sim, de quê?
- Ora (abrir os olhos), num projecto.
Insisti:
- Pois. Entendo. É sobre quê o projecto?
Não cai bem (Como Um Som Ao Fundo):
- Pá, é um projecto. Estou a trabalhar num projecto que ainda não está acabado.
Com tamanha dedicação explanatória tive que perceber. Reagi:
- Ahhhhhhhhhhhhhh!
Agora ele insiste:
- É isso, ainda não o acabei. É mais uns tempos. Ainda é projecto, estás a perceber?
Eu não percebia. Nadíssima. Nada de nada. Zero. Mas começava a desconfiar.
Voltei:
- Um projecto de um projecto, portanto?
- Não (olha o infinito__ paragem de autocarro)...agora já é mesmo o projecto.
A luz abrilhantou-lhe os olhos (;noite). O receio inicial cedeu à proclamação optimista:
- É um projecto original! Uma coisa diferente, que ainda não foi explorada, percebes?

Pensei, pensei, pensei em desistir de continuar a pensar. Disse-lhe:
- É assim mesmo. O que é preciso são projectos originais, que não estejam explorados. Olha, como o teu...
- Ah, obrigado...obrigado.
- Eu também ando a trabalhar num projecto - expliquei-lhe.
- Ai sim, e que tal é que vai o teu projecto?
- Vai bem, obrigado. É um projecto secreto.
- Não podes dizer sobre o que é que é, então ?
- Poder podia. Mas deixava de ser secreto. Além disso, ainda não acabei de decidir por que é que ele é secreto. É que é ainda um projecto, e sabes como é.

Ele sabia, eu também fiquei a saber. Um projecto é algo que não se explica. É isto.

Rui Costa

14 Comments:

At 11:58 da manhã, Blogger manuel a. domingos said...

pois é, é só projectos! o meu ainda estou para descobrir qual é. mas ele anda aí, a pairar.

 
At 12:25 da tarde, Anonymous Anónimo said...

se pelo menos metade dos projectos se concretizassem, viveriamos num mundo com pessoas mais felizes e não de Homens sempre à procura do mesmo pote de ouro...no fim de um arco-íris em constante mutação.Mas tudo tem um começo...:)
Pb

 
At 3:18 da tarde, Blogger Susie said...

pois...

 
At 5:28 da tarde, Blogger etanol said...

Projectos? O monstro azul com a língua roxa é engraçado.

 
At 7:56 da tarde, Anonymous Anónimo said...

é da fase realista, como as cerejas.o monstro é a avozita.
Rui Costa

 
At 2:20 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Percebo o itinerário especulativo, embora também eu já tenha desistido de continuar a pensar...não posso no entanto compreender por que raio é que um projecto deveria de ser algo "que não se explica". A não ser, claro, que este ainda se insira na fase realista, a das cerises...? Se não se explica, talvez se sinta ou finja, como o poeta...??? O projecto do fingidor (o do Rimbaud), que também disistiu de pensar (e fingir) a dor que deveras sente não pode ser definitivamente explicado.

S. 500

 
At 1:31 da tarde, Blogger etanol said...

O quê? O monstro azul tem a língua roxa porque andou a comer cerejas? E depois mascarou-se de avozita? Que guloso!
Maria João

 
At 1:55 da tarde, Blogger margarete said...

hehe, o projecto do monstro guloso, portanto :)

 
At 2:53 da tarde, Anonymous Anónimo said...

S.500: explicar eu explico, a explicação é que pode ser inexplicável.e gosto muito da palavra fingir, ainda mais que de tangerinas.é bom mote.
Rui Costa

 
At 3:14 da tarde, Anonymous Anónimo said...

margarete: quem não for guloso que atire a primeira bomboka.
Rui Costa

 
At 4:02 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Rui:As bombokas levou-as o Pai Natal no trenó.Agora...só há estas e são para mim!
PB

 
At 2:20 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Conheces a planície onde florescem os botões da flor do limoeiro? Eu também gosto muito de ser (ou melhor dizendo, de procurar o projecto de) "l'autre", na terra de ninguém entre o sentir e o pensar, o fingimento. Não sei se prefiro o sentir fingido, ou o fingir sentido...talvez fingir tão completamente nos transporte para a Nuvem em volta...?

S.500

 
At 1:33 da tarde, Anonymous Anónimo said...

S.500: pois eu procuro que as metáforas sejam entes metabólicos, ou seja, bichos. fingir com o corpo todo posto nisso é um acto de amor.
Rui Costa

 
At 1:45 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Hoje com menos pontos de interrogação: partilho gostosamente esta viagem no projecto que não se explica, e no qual deixou de se pensar.Também partilho o metabolismo dos bichos e o fingir da efémera (ainda que para sempre) vulnerável (e logo aí autêntica) entrega como num acto de amor.

S.500

 

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