8.9.06

Pinto de Verde

Gostei do texto que Eduardo Pitta escreveu sobre a edição recente, pela Relógio D’Água, da obra completa do grande Cesário Verde. É um bom texto, com muita informação útil ao leitor comum e algumas questões pertinentes. Li-o no Mil Folhas e voltei a encontrá-lo no da literatura. Estando aqui tão à mão, não posso deixar passar em claro uma parte desse texto: «A poesia moderna portuguesa começou aqui. As cartas são trinta e duas, metade das quais dirigidas a Silva Pinto — que já em 1901 publicara onze no volume Pela Vida Fora —, e surpreendem sobretudo pelo vocabulário. Com efeito, salvo em situações de natureza muito particular, não é frequente um homem dirigir-se a outro chamando-lhe «tigre amoroso». Discurso directo: «O que eu hoje recebi de ti justificou-me, sem necessidade e mais uma vez, a grande lealdade da tua alma diferente de todas que tenho observado. És um tigre amoroso.» Nas notas, Teresa Sobral Cunha justifica o eufemismo com práticas «então muito em voga no jornalismo aguerrido», explicação contrariada pelo próprio Cesário, quando, no post scriptum de outra carta para Silva Pinto, escreve o seguinte: «O alto das cartas escrevo-o sempre depois da carta feita. Faço-as na loja e pode alguém ver ao passar o tratamento que nos damos.» E assina: «Teu amigo exclusivo, único e excepcional». Ficamos conversados em matéria de correspondência “aguerrida”.» Qual a ideia? Insinuar uma relação amorosa entre Cesário e Silva Pinto? Apontar o dedo à eventual pudicícia de Teresa Sobral Cunha? O que ganha a obra de Cesário em ficarmos na dúvida se este terá ou não sido homossexual? O que é que uma hipotética homossexualidade de Cesário pode acrescentar à obra? Interessará tal assunto ao leitor comum?

9 Comments:

At 3:28 da manhã, Anonymous lyra said...

Você é corajoso, caro henrique, pois arrisca-se a que lhe chamem homofóbico.
Já tenho empregue, sem remorso nenhum, antes a palavra "heterofóbico", que é o que certos senhores e senhoras parecem ser, tal o proselitismo e afã que colocam a esmiuçar um vocábulo mais carinhoso ou incomum que qualquer escriba dirigiu a um amigo.

Há uns tempos, andavam de roda do Camões, ansiosos por metê-lo na galeria dos "Gay Portrait", apesar das Lianores, da Bárbara-escrava, das Dinamenes, da Catarina, etc, etc.

É irrelevante literariamente e quase persecutório, essa de andar investido em sherlock Holmes de hipotéticas tendências homossexuais,
Mas o Cesário não foi aquele que escreveu "o ramalhete de papoulas a sair dos teus seios como duas rolas"? (estou a citar livremente).
Não consta que nesse tempo houvesse silicone, nem injecções de hormonas...

 
At 11:41 da tarde, Blogger dama said...

Só duas reflexões, Henrique, embora eu ainda n saiba s sou "pró" ou "contra" a pertinência da orientação sexual de um(a) autor(a) na avaliação da sua literatura:~

1. "O que é que uma hipotética homossexualidade de Cesário pode acrescentar à obra?" Neste caso, a obra de que estamos a falar é a correspondência. Assim sendo, então ter-se-á de colocar a pergunta de para que serve a publicação da epistolografia dum(a)autor(a). Para iluminar a obra? E como? Aí, obviamente, através da vida, e aí, também, se pode dizer que a vida não interessa à obra. A não ser que a epistolografia seja considerada obra. A mim parece que pode ser, e então a "hipotética homossexualidade" de Cesário, que não só é insinuada nas cartas como especulável através de outros factos biográficos (o afastamento entre Cesário e S. Pinto possivelmente provocado por outra "hipotética" relação homossexual deste último, nomeadamente com Narciso de Lacerda), talvez seja relevante. De qualquer forma, o que parece espúrio, como indica o Eduardo Pitta, é, academicamente, relegar tais indícios para o plano "mais do que hipotético" de uma convencional verborreia aguerrida entre os autores finisseculares. Ou então, teríamos de ter um enquadramento para isso (por acaso, até existe um que eu me lembre, no volume do século XIX-inícios de XX da História de Portugal dirigida por José Mattoso - mas aí haveria que ratificar/verificar o seu fundamento; e, por outro lado, "aguerrida" pareceria sempre um termo infeliz, por comparação, por exemplo, com "feminil" ou, admito, outro termo ainda melhor)

2. Interessará tal assunto ao leitor comum? Cada vez mais julgo que os leitores de suplementos literários são francamente incomuns. Se o assunto lhes interessa a eles/elas? Olha, é bem capaz. Nem que seja porque o "gossip" se calhar também faz parte duma leitura informada.

 
At 4:06 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Quem fala em "leitor comum" é o próprio crítico. Li o artigo na íntegra.
Como leitor aficcionado de poesia, não me interessa nada se o Cesário, na correspondência privada, chamou tigre ou gazela ao amigo. E duvido muito que os próprios achassem pertinentes ou desejáveis estes "aclaramentos".

Ao serviço de que "engagement", sempre discutível, nos terrenos da Arte, se pretende dar relevo a um pequeno "fait divers"?

 
At 3:15 da tarde, Blogger dama said...

Caro anónimo,

Tem razão. Ed. Pitta fala em "leitor comum", mas noutro contexto, mais ou menos este: o relativo a "afinal existe, ou o que é, O Livro de Cesário Verde?"
Depois, se não lhe interessa saber como Cesário tratava os seus correspondentes, talvez de facto não lhe interesse a correspondência de Cesário. Tem todo o direito. Mas, precisamente, é a edição, dita crítica, dessa epistolografia que está em causa.

 
At 8:12 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Caro Alf.

Está em causa, com a referência detalhada às anteriores edições da poesia, reconstituindo até uma lauta parte inicial do "Sentimento de um Ocidental".
Eu até gostei do texto e o autor merece-me respeito, pela sua grande implicação na difusão da escrita poética. Mas, detesto compartimentos estanques. Com tanta segregação, tanta cartilha e sectorialismo básico, neste pobre planeta,a propósito de tudo e de nada,haja ao menos liberdade de interpretação, no que resta.Sem bandeiras, por favor.

Por aqui me fico, pedindo desculpa da reserva da minha identidade e fazendo notar que não me servi da qualidade de "anónimo" para dizer aleivosias.

 
At 10:58 da tarde, Blogger dama said...

O anonimato não me incomoda. Eu também não assino com o meu nome (repare só que sou dama, e não alfinete; não me troque o género, por favor :))
Quanto ao resto, tb não me agradam sectarismos. Mas não tenho nada contra múltiplos pontos de vista. Por isso, não desdenho que uma leitura de Cesário do ponto de vista duma reflexão sobre a homossexualidade possa fazer (mais) alguma luz sobre (mais) alguma coisa. Um abraço.

 
At 12:00 da tarde, Blogger ângela said...

Interessante este diálogo. Bom encontrar-te tb aqui, Dama (hoje tens lá uma palavrinhas) Mas indo ao que interessa: concordo contigo para variar. POde ter algum interesse para a letura da Obra de Cesário a sua "homossexualidade, como para Nobre,tb. Já estamos longe do estruturalismo radical e a epistolografia, como paratexto, também faz parte da obra. Não deverá ser, na minha opinião, assunto central. Parece-me que ajuda sobretudo a abrir a leitura a outras temáticas que não as dicotomias estafadas (cidade/campo, por ex.) como:a mulher-mãe, ou a Vida e a Morte (veja-se o cntributo excelente de Cabral do Nascimento)
Peço desculpa pelo abuso do tmpo de antena, caro anfitrião.

 
At 12:41 da tarde, Blogger hmbf said...

Disponham.

Já agora, devo esclarecer que a minha postura nesta matéria poderá ser considerada um pouco radical. Não a vou desenvolver agora, mas adianto que sou liminarmente contra a publicação do que quer que seja sem a expressa autorização do seu autor. Detesto epistolografia, sobretudo quando não autorizada por quem de direito. Julgo mesmo tratar-se de pura necrofilia, “violação” dos mortos, profanação de cadáveres. Quanto à homossexualidade de um autor, estou-me nas tintas para ela se não for parte consubstancial da obra. Mas adianto, obra que valha apenas pela dimensão «homoerótica», pela exposição da homossexualidade do seu autor, não me interessa para nada. Há poetas portugueses dos quais gosto muito onde essa dimensão aparece de modo descarado, de Botto a Nava, de Al Berto a Jorge Aguiar Oliveira, de Isabel de Sá a José António Almeida, etc, etc, etc. Mas essas obras valem não só pela exibição das inclinações sexuais dos seus autores. No caso de Cesário, não me parece que haja qualquer interesse, a não ser meramente académico, especulativo ou, como diz um anónimo, “compartimental”.

 
At 12:44 da tarde, Blogger hmbf said...

P.S.: É óbvio que quando afirmo qeu «sou liminarmente contra a publicação do que quer que seja sem a expressa autorização do seu autor» estou a referir-me a cartinhas às namoradas, amigos e etc. Não gosto. Nem mesmo se forem entre Sena e Sophia. :)

 

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