6.9.06

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Caro Filipe Moura,

Só duas notas sobre uma polémica que julgo dispensável. Miguel Esteves Cardoso não é um assunto tabu. É, de facto, uma espécie de guru à volta do qual se reúnem muitos pedantes, alguma gente ambiciosa, certa malta, como bem dizes, da “cool-tura” (à direita e à esquerda) e outros tantos palermas com discursos inconsequentes, vazios e arrebitados. Mas tenho dificuldade em considerá-lo assunto, quanto mais tabu. Agora o que não me parece correcto é acharmos que na defesa daqueles que admiramos tem de haver sempre uma sacrossanta reverência. Eu, ao contrário de ti, admiro o cronista Miguel Esteves Cardoso. Dizê-lo não implica, do meu ponto de vista, ser-lhe reverente ou concordar com tudo o que escreva. Mas a ele se deve, por assim dizer, a introdução de um “estilo” na imprensa portuguesa que, se outros méritos não tem, teve pelo menos o mérito de nos fazer rir. Isso nem é mau nem bom em si mesmo, mas jamais poderá ser considerado mau de todo num país tão dado a vetustas e cinzentas posturas. Tens razão em apontar o dedo ao espírito estupidamente - porque faccioso - gregário e, por isso mesmo, “carreirista”, cegueta e estéril da “inteligentzia” que veste as camisolas da direita sob o alto patrocínio da Mec & Company. Mas a comparação com o “povo eleito” é, perdoar-me-ás a sinceridade, estapafúrdica. Tal como tu ou como eu ou como outro indivíduo qualquer, as pessoas têm o direito de se baterem pelas suas convicções, crenças, pelos seus axiomas. É mau quando o fazem de modo autómato e cego, mas isso é lá com elas. Caber-nos-á denunciar tal cegueira, segundo o nosso ponto de vista. O que me parece errado é ver automaticamente nisso um sentimento de religiosidade que imponha barricadas e eleve o debate, mesmo o mais aceso, a um estatuto de guerrilha que não tem nem pode ter. Esse tipo de comparações vale o que vale, ou seja, nada. Sobre JPC, nada tenho a dizer. Li-lhe duas crónicas e por aí fiquei. Não me interessa. Já do AG, nem uma crónica lhe li. Só posts. Aquele que referes é bem sintomático da indiferença que me merece. Quanto à Charlotte, o fio é outro. Assume posições políticas para mim inconcebíveis, mas incompreensível seria que eu esperasse o oposto de alguém que se localiza nos antípodas das poucas convicções que tenho. No entanto, fala-se por ali dos Gregos e, de quando em vez, colocam-se questões interessantes como esta: «a ambiguidade é um erro?» (lá pelos arquivos de 2003) Não se trata, portanto, de weblog vazio de todo, ainda que, a espaços, possa parecer de todo vazio. Ademais, a Charlotte sempre foi uma simpatia. Mas o que mais me surpreendeu no teu post, por ser leitor assíduo do teu weblog, foi a conclusão: «Não quero perder mais tempo com gente (de esquerda e de direita) cujos valores são completamente diferentes dos meus – e aqui é mesmo uma questão de valores de que se trata -, a verdadeira negação da “ética protestante”.» Cada qual gere o seu tempo como bem sabe e pode, mas dispensar assim a diferença, o debate entre opostos, é, de certa maneira, ceder ao espírito gregário acima criticado. Facilita a discussão, pois claro, mas incorre no risco da vacuidade. Todas as polémicas blogosféricas têm-se revelado uma perda de tempo, mas não deixam de ser um belo entretém para o espírito crítico. Assim interpretarei esse teu desabafo.

Saúde,

7 Comments:

At 8:48 da tarde, Blogger Filipe Moura said...

Muito obrigado pelo teu post, de que gostei muito, Henrique. Oportunamente escrevo qualquer coisa sobre ele. Saúde para ti também.

 
At 9:19 da tarde, Anonymous Anónimo said...

há uma "correlação" evidente entre essa "cool-tura" e certas "crenças" e "axiomas" – como a do “povo eleito” – que ultrapassa, pela força que tem, os cálculos probabilísticos mais ingénuos. de resto, assumida na maior parte dos casos.

Rui Costa

 
At 9:31 da tarde, Anonymous hmbf said...

Explica-te.

 
At 7:01 da tarde, Blogger João Miguel Almeida said...

Concordo com o post. Quanto ao posicionamento político do MEC, segui o percurso contrário ao de outras pessoas: de extrema crítica a uma certa condescendência. Explico-me: apesar dos seus pontos de vista ultra-conservadores, a verdade é que as intervenções políticas de MEC, que eu saiba, limitaram-se a apoiar e a ser apoiado por Gonçalo Ribeiro Telles. E é difícil não simpatizar com Ribeiro Telles. Por causa da ecologia e por, vindo do catolicismo monárquico e integralista, se ter demarcado do Estado Novo relativamente cedo, em 1958, tendo sido chamado à Pide nesse ano, por causa de posições públicas assumidas nas eleições de Humberto Delgado.
Durante os anos delirantes de Paulo Portas-Santana Lopes não ouvi falar de MEC. Se calhar andava distraído e o homem escreveu algumas crónicas de apoio que eu não li, mas se ele tivesse ambições de poder teria aproveitado a oportunidade.
O MEC é, ou foi, um grande cronista. A questão é saber se as qualidades/método que fazem dele um excelente cronista não o prejudicam como romancista, dramaturgo ou ensaísta político. Fazer generalizações engraçadas sobre os portugueses chega para uma crónica. Um romance ou uma peça de teatro de crítica de costumes precisam de personagens densas. A «ética protestante» e sucedâneos não favorecem apenas o capitalismo, também inspiraram Ibsen e Bergman. Para escrever ensaios a sério não basta ter «impressões». As ideias são necessárias.

 
At 12:48 da manhã, Anonymous Anónimo said...

henrique:
há uma ligação forte entre a "cool-tura" MECiana de que se falou aqui (ou subprodutos ou pseudoprodutos delas) e a produção de frases como "a um acto de guerra responde-se com um acto de guerra".

João Miguel Almeida:
intervenção política não é apenas apoiar este ou aquele. política é tudo aquilo que faz quem existe dentro de um sistema de linguagem. as crónicas também são “políticas” porque revelam uma hierarquização pessoal das coisas do mundo. O herberto helder também é presidente da república.

 
At 11:55 da manhã, Blogger João Miguel Almeida said...

Caro anónimo,

Eu sei que tudo o que se escreve é político e não me iludo sobre o fundo reaccionário de MEC, mas não deixo de observar que as incursões políticas, no sentido específico do termo, de se sujeitar a votos para passar da crítica ao poder ao exercício do poder, foram bastante inócuos. Principalmente quando comparados com as incursões políticas do seu companheiro de jornal, Paulo Portas.
Continuo a apreciar o MEC cronista e encaro com indiferença as suas tomadas de posições políticas e o seu papel de «guru» cultural.

 
At 12:52 da tarde, Anonymous Anónimo said...

o anónimo era eu, esqueci-me de assinar.
Rui Costa

 

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