4.10.06

A PAZ

Se eu te pedisse a paz, que me darias
pequeno insecto da memória de quem sou
ninho e alimento? Se eu te pedisse a paz,
a pedra do silêncio cobrindo-me de pó,
a voz rubra dos frutos, que me darias
respiração pausada de outro corpo
sob o meu corpo?

Perdoa-me ser tão só, e falar-te ainda
do meu exílio. Perdoa-me se não te peço
a paz. Apenas pergunto: Que me darias
em troca se ta pedisse? A sabedoria?
Um cavalo de olhos verdes? Um tronco de madeira
para nele gravar o teu nome junto ao meu?
Ou apenas uma faca de fogo, intranquila,
no centro do coração?

Nada te peço, nada. Visito, simplesmente,
o teu corpo de cinza. Falo-lhe de mim,
entrego-te o meu destino. E dele me liberto
só de perguntar-te: Que me darias se te pedisse
a paz
e soubesses de como a quero revestida
por uma crosta de sol em liberdade?

Casimiro de Brito

Casimiro de Brito nasceu no Algarve em 1938. Poeta, romancista, contista e ensaísta, começou a publicar em 1957 (Poemas da Solidão Imperfeita) e, desde então, publicou mais de 40 títulos. Dirigiu várias revistas literárias, entre elas Cadernos do Meio-Dia (com António Ramos Rosa), os Cadernos Outubro/ Fevereiro/ Novembro (com Gastão Cruz) e Loreto 13 (órgão da Associação Portuguesa de Escritores). Esteve ligado ao movimento Poesia 61, um dos mais importantes da poesia portuguesa do século XX. Ganhou vários prémios literários, entre eles o Prémio Internacional Versilia, de Viareggio, para a melhor obra completa de poesia, pela sua Ode & Ceia (1985), obra em que reuniu os seus primeiros dez livros de poesia. »

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