4.12.06

Concetti spazialli

As telas monocromáticas rasgadas, que Lucio Fontana produziu com a intenção de «aprofundar criticamente a própria noção de pintura», produzem em mim uma certa ambivalência: não sei se me revejo mais no monocromático ou no rasgão. Sei que o mundo não deve andar muito distante disto, de uma tela monocromática rasgada.

Estas coisas têm o dom de me deixar a mioleira em frangalhos. Era assim nos tempos do espanto provocado por um urinol, parece continuar a sê-lo. Interrogo-me sobre isto: o mundo não deve andar muito distante de uma tela monocromática rasgada. Se calhar sou eu a ver coisas, mas noto uma certa abnegação no acto de rasgar a cor. Gosto disso e convém-me muito, apesar das minhas tenras, ingénuas e inexperientes 32 primaveras. É curioso que a propósito destas provocações muita tinta tenha corrido, uma mais negra que outra. Esforço-me por pintar a minha passagem pelo mundo, tanto quanto me é possível, com as cores primárias de quem passa o tempo e brinca e respira. Verdade seja dita que não tenho outras cores à disposição, nem me esforço por tê-las. E mesmo que as quisesse, reconheço que as não mereceria. A minha mãezinha chama-me simplório, eu digo-lhe que a culpa é do pai, a mana concorda, a mulher dá-me carinhos. Apercebi-me cedo que isto do desassossego tem as suas compensações, mesmo saindo caro ao conforto. Resta-me o gosto pelo copo, de política e de catarro estou cheio, inclino-me para a pesca e para passeios pela serra. Reparo agora que estou para aqui num esforço tremendo a armar-me em engraçadinho e que não tem graça alguma pôr graça nas verdades: o mundo é definitivamente uma tela monocromática rasgada.

1 Comments:

At 10:12 da tarde, Blogger etanol said...

Belas fendas no amarelo.

 

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