24.1.07

Pactuar com o Diabo

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Há 20 anos, Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião organizaram e anotaram uma antologia, de título Sião, editada pela frenesi. Peguei hoje, por mero acaso, nessa antologia e reparei num sublinhado que fiz no fragmento aí reproduzido de Malaquias Ou A História De Um Homem Barbaramente Agredido, de Manuel de Lima. Diz assim: «O Diabo não se importa tanto com as pessoas; são as pessoas que se importam demasiado com ele. É uma entidade desvalorizada pela propaganda da oposição por ser razoável com as chamadas fraquezas humanas. Gosta dos artistas, dos homens de ciência e de todos os que trabalham com elementos. Tem um extraordinário sangue frio para ouvir com desdém as calúnias a seu respeito. Interessa-se pouco por política. (p. 61)» Nutro simpatia pelo Diabo, o Malvado, desde que descobri ser ele o mestre das sombras. Em dias de muito calor é a sombra do Diabo que nos acode e arrefece. Deus castiga-nos com seus raios, ainda mais agora com a camada de ozono debilitada. Mito associado às forças perturbadoras da consciência, as forças do corpo, o Diabo é, digamos assim, o tesão de Deus. Não fosse o Diabo e a virgem jamais teria parido, pois, quer queiramos quer não, mesmo a imaculada concepção possui a marca indefectível do terreno, do raso, do corpo, do sémen, do gozo, do riso, da morte. Para ser perfeito, Deus só pode ser, a meu ver, algo diabólico. Por isso não me espanta que o Diabo goste de artistas, esses energúmenos filhos de Deus. Quer dizer, os artistas são, na mesma proporção, aqueles que sublimam a desgraça e os que revelam o excesso, são, na mesma proporção, associados da luz divina e escravos da sombra diabólica. Toda a arte resulta dessa ambiguidade: se é a mão de Deus que inspira, é, por outro lado, a mão do Diabo que faz expirar. Não há consciência sem corpo nem corpo sem consciência, não há corpo que não seja já consciência nem consciência que não seja já corpo. Não há Deus que não seja Diabo nem Diabo que não seja Deus. Eu sei estas coisas todas por uma razão muito simples: há muito fiz um pacto com o Diabo. Mas ao contrário do Dr. Fausto, cujo nome de baptismo era o mesmo que o meu, não pretendo do Diabo grandes glórias luxuriantes. O meu pacto é de outro tipo, como aquele que Al Berto sintetizava desta forma: «sei que darei ao meu corpo os prazeres que ele me exigir. vou usá-lo, desgastá-lo até ao limite suportável, para que a morte nada encontre de mim quando vier.» Reparem bem: «os prazeres que ele me exigir». Não se trata de impor ao corpo prazeres que ele não exige, mas tão-somente dar-lhe os prazeres que ele exigir. Mesmo que esses prazeres sejam tradicionalmente mais associados à consciência do que ao corpo ou mesmo aos instintos. Por exemplo, escrever. Escrever, para mim, só faz sentido se for uma entrega diabólica aos ímpetos do corpo. Escrever é uma resposta às exigências do corpo. É preciso usar e desgastar as palavras até ao limite suportável, até que elas deixem de ser um corpo que se esquece sempre que a morte chega. É preciso esquecer a morte, mesmo que em cada palavra ela nos faça lembrar a sua omnipresença. Por isso me limito a escrever como quem morre na vida, como quem vive na morte, como quem dá ao corpo o que ele exige.

6 Comments:

At 1:12 da tarde, Blogger MC said...

Uma delícia, Henrique!

 
At 6:48 da tarde, Blogger LB said...

Que grande texto, grande grande texto Henrique. Porra. Até fiquei um bocado eufórico. Quanto ao mafarrico, parece ser um belo aliado então. Eu sempre que quero uma atmosfera negra e escrever «zangado» espeto com um bom heavy metal nos meus ouvidos, tipo black sabath ou guns n'roses. É uma espécie de pacto com um diabo pop star, nada de demasiado sério... ;)

 
At 8:21 da tarde, Blogger etanol said...

Este texto mais do que diabólico, tem sim algo de dionisiaco. boa pá, o corpo vivo na escrita, a embriaguez!

 
At 2:46 da manhã, Blogger Miguel. said...

grande texto sim senhor...e até tem piada, tenho andado com este "livrito" nas mãos e tenho lido alguns inéditos que estão publicados nesta célebre organização de textos e poemas, feita por tão ilustres senhores, o meu ultimo post é um poema retirado deste mesmo (sião)... agora irei ler com mais atenção o fragmento que aqui nos apresenta.

H. Miguel

 
At 1:24 da tarde, Blogger hmbf said...

Obrigado a todos pelos comentários.

 
At 8:10 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Meu caro, quando quizer se expressar use um pouco de bom senso e tente falar algo que realmente tem algum sentido, dificil tentar entender algo tão vago. Algumas palavras deixam o texto mais poetico, porem se não forem bem usadas deixam ele vago.. sem sentido algum.. igual aos seus pensamentos..
Deus não nos castiga, nos da o prazer de poder contemplar.. a o Diabo nos da a sombra e escuridão, bah, e o q tu ve nisso? Nada! Quando quizeres espor uma opinião sua não utilize de sentimentos de revolta, e sim de sentimentos de sabedoria.. resumindo, tenho pena de vc ja que não consegue nem organizar seus pensamentos... Limpo o rabo com o seu texto!

 

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