29.3.07

Uma espécie de prosa em verso

Quando eu era pequeno, meu pai contava-me histórias de meninos sem sapatos, de calções rotos, que aprendiam na escola nomes de rios, saudações à pátria, modos de curvar a espinha à fotografia de um velho pendurado defronte ao senhor deus pais crucificado.

Eram meninos cheios de sonhos alimentados a pão de milho, couves com feijão e azeitonas, de quando em vez, para amedrontar a febre, uma canja de galinha e copos de água pura, do poço, benzida.

Ficava espantado a ouvir meu pai lamentando-se do infortúnio, das noites passadas no curral, embrulhado entre uma burra e uma cabra, aproveitando o calor dos bichos para enganar a geada que caía desse céu explicado na terra por catequistas mais sábios que Deus.

Meu pai começou a trabalhar ainda não tinha onze anos feitos, com um primeiro par de sapatos sem solas em honra da freguesia. Mal sabia que passados sete anos, com uma filha nos braços, uma casa a meio de ser erguida, teria de partir para a saudade, onde em esperança caiou paredes, ladrilhou salas, espalhou tectos por cima do pensamento, fazendo sombra à revolta proibida.

Trouxe raivas no regresso, traumas, inimigos nunca vistos, terroristas de tanga, a viverem em palhotas, que sabiam tanto da vida como a vida sabia das aldeias naquele tempo parado entre o nada e coisa nenhuma. Uma sardinha para três? Ali só chegavam as sardas dos bufos, desconfianças, cismas, receios nunca ouvidos na telefonia até ao dia em que se cantou: há bulha na capital.

Meu pai veio para a rua, prometendo contar-me um dia a sua história como quem conta ao futuro o que resta de uma memória recalcada e esquecida. Isto era para ser um poema, fica assim, como uma espécie de prosa em verso estirado na preguiceira burguesa dos meus dias. Pode ser que um dia conte à minha filha a história de seus avós, pode ser que um dia ela me conte a sua, pode ser que a sua não venha a ser muito diferente daquela que eu ouvia, espantado, meu pai contar.

10 Comments:

At 1:58 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Faleceu o poeta Luís de Miranda Rocha.

 
At 3:37 da tarde, Blogger Fernando said...

que belo texto, henrique.

 
At 5:16 da tarde, Blogger etanol said...

Belo texto, é bom escreveres estas histórias, também para as tuas filhas lerem um dia.
Maria João

 
At 5:32 da tarde, Anonymous sara monteiro said...

mais que belo. Como aquelas pessoas de quem se diz "mais do que bonita".
Sedutor e vivo, com ar de verdade.

 
At 5:40 da tarde, Anonymous kaku said...

Muito os pais gostavam de contar sobre a sardinha que alimentava três e mesmo contar sobre o dia em que aquele vizinho que, depois dos três terem comido, apanhou a espinha do chão e a saboreou como o melhor dos manjares. Definitivamento, os nossos pais viveram aqui, no mesmo interior de um mesmo país.:)

 
At 11:33 da tarde, Blogger RAA said...

É um texto belíssimo.

 
At 11:35 da tarde, Blogger RAA said...

E o título está excelente.

 
At 9:06 da tarde, Blogger hmbf said...

Muito obrigado a todos.

 
At 9:34 da tarde, Blogger Vida Involuntária said...

Henrique,

Ando a dar uma volta à sua "microbiose". Esta - outras ainda não li - está bem esgalhada. Eficaz osmose de um olhar que mediatiza textualmente e sem poeticidades balofas ou "non-sense" frívolo, uma realidade outra.
Parabéns.

Mas, a propósito da "bulha" na capital, contava-se uma anedota em 74, acerca da intentona das Caldas:

Qual é a cidade mais virgem de Portugal?

Lisboa. Que nem os das Caldas lá conseguiram entrar. rs rs rs...

 
At 11:58 da manhã, Blogger hmbf said...

Já conhecia essa das Caldas, I. Mas olhe que eu nessa altura, apesar de ainda não ter vindo ao mundo, era mais escalabitano que outra coisa qualquer. Os meus pais nasceram numa aldeia de Rio Maior, muito perto da aldeia onde nasceu Ruy Belo, terra das mocas, fascista até ao tutano. E é curioso como esse conservadorismo permanece ainda hoje entre aquelas gentes, como se fosse uma praga sem remédio.

 

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