17.5.07

CIRCULAÇÃO AMOROSA

Cuidava que amor já se findara,
até vê-lo de face, recomposto
entre asfalto e edifício, nuns alindes
de tempo muito outrora merecido.
Cuidava que carpir só me restava,
diante de impassíveis formas neutras,
o meu próprio pretérito exilado
na mais interior e inacessível
ilha que me permito, enquanto a bruma
delia-me, no peito, a tatuagem
celebrante de ingénuos madrigais
compostos entre beijo, espada e rosa.
Cuidava me tornar, fonte exaurida,
um somente lugar no descaminho,
cemitério de seixos, sem o móbil
que cumpre o ser do rio e seu destino.
E nem mais matinava nos mundéus:
a espreita, o soslaio, o sutil
em que se guarda amor no anteminuto
de quando a nossa posse é consumada.
E onde nos consumimos. Ah, cuidava
cuidava ser a coisa maninha (alma ou carne)
tudo o que finalmente me compunha,
era eu-mesmo, repleto, concluído.
Como se, antes oculta, vindo amor
fosse momento em branco o onde se enflora

nosso endereço escrito no infinito.

Ruy Espinheira Filho

Ruy Espinheira Filho nasceu em Salvador, Bahia, em 1942. Jornalista, mestre em Ciências Sociais, doutor em Letras, professor de Literatura Brasileira, publicou vários livros de poemas. Estreou-se na década de 70, com Heléboro (1974). Reuniu a sua poesia em 1998. Tem ainda publicados livros em prosa, de ensaio, crónicas, contos, novelas e dois romances.

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