24.6.07

O GATO VENEZIANO


Para a Maria João
no dia do seu dia de anos.


Ordet que te trago à mesa:
o ronronar do gato veneziano,
apanhado a engolir um piano
de cauda demorada.
Parecia um morto naquele soalho
turístico de Agosto a 40.º.

Quando o vi pensei nos cegos,
sempre mortos do lado errado.
E se soubesse tocar piano
tinha espalhado aquele negro todo
pelas teclas brancas do teclado.

Como sou fraco de dedos para tudo
o que não meta mortalhas e rosas,
ataquei duas talhadas de melancia.
É como diz o poeta: há que aproveitar
«bem o tempo antes que
comece o passado
a parecer-te
mais longo que o possível futuro».

E como ela era boa, a melancia,
noite por dentro do dia,
fresca, líquida, esplendorosamente clara.
Quanto ao gato, passei-lhe o flash
pelo pêlo
e vim-me embora de gôndola
a pensar nos cegos de Lisboa
que não têm zelo
nos pianos servidos à mesa da palavra.


Notas:
Ordet, como é óbvio, remete para o milagre A Palavra (1955), do realizador dinamarquês Carl Theodor Dreyer. O segundo verso da primeira estrofe foi decalcado de Artaud: «Morto, morre-se do lado errado, não é a via que devemos tomar». Os quatro últimos versos da terceira estrofe aparecem no poema carta a uma iniciante, de Alberto Pimenta.

3 Comments:

At 11:17 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Parabéns, querida Maria João!

Sentimos a tua falta, lá no ensaio!

Patrícia
(Ah, eu sou soprano!)

 
At 11:32 da tarde, Blogger etanol said...

Ordet, mesa, gato veneziano, piano, calor, Artaud, Pimenta, tudo isto combina bem com melancia, meu, és um verdadeiro esteta hendonista epicurista, porque ainda por cima inclui notas de rodapé.
Grande abraço amigo
Maria João
nota de rodapé: o tinto com melancia é perigoso, parece rolha de cortiça!
Maria João

 
At 2:57 da tarde, Blogger etanol said...

Patricia, aparece mais vezes, tu sabes bem que um soprano é a alma na harmonia, isto por cá tem sempre falta de agudos limpidos.
Maria João

 

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