21.6.07

AS FRONTEIRAS


Era no tempo improvável da etnografia.
Vestíamos jeans e corríamos no restolho,
viravam-se nos lameiros os fenos
três dias depois de ceifados
à lâmina, vivíamos depressa
a ler os poetas ingleses ou a debulhar
o milho nos sobrados, espalhava-se no chão
a caminho da igreja o alecrim.
Parece que foi no séc. XIX
entre retratos a sépia e os bilhetes
do expresso de Lisboa comprados
na Cunha a ver os concertos de jazz.

O que nos traiu não é fácil de dizer.
Agora é apenas como se um estranho caleidoscópio
misturasse a tristeza e o êxtase
do que fomos,
do que quase
chegámos a ser.

José Carlos Barros

José Carlos Barros nasceu em Boticas no ano de 1963. Licenciado em Arquitectura Paisagista, começou a publicar poesia em 1984: Pequenas Depressões. Publicou, em prosa, O dia em que o Mar Desapareceu (2003). Está representado em várias publicações colectivas. Já deste ano é o volume As Moradas Inúteis, em edição bilingue, publicado na colecção Palavra Ibérica.

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