23.7.07

ESPÓLIO

No fim de tudo, quando os adorados
Membros forem torrões no pó incrustados,
Quando os móveis tiverem, muito antigos,
Dado ceia aos cupins, fogo aos mendigos,
Quando os papéis rolarem já nas poças
E o chão pisarem nem nascidas moças,
Quando outras gerações, sem nome nosso,
Olharem para o céu sempre em esboço,
E os restos nossos, sem que a vida atine,
Dormirem num promíscuo de vitrine,
Sem um vínculo mais, um gesto, um preço,
Sem mesmo as casas, sem seu endereço
Também mudado já, sem um resquício
Do nosso rude amor, nosso suplício,
Então só sobrarão, no tempo emersos,
Uns versos, como sempre, uns rijos versos.

Alexei Bueno

Alexei Bueno nasceu no Rio de Janeiro, a 26 de Abril de 1963. Começou a publicar em edições de circuito restrito, tendo conhecido maior projecção já na década de 90 do século passado. No entanto, estreou-se em 1984 com As escadas da torre. Autor de vasta obra, notável pelo diálogo que estabelece com a tradição e invulgar entre as tendências mais marcantes nos seus contemporâneos, Bueno trabalha também como editor. Neste contexto, são da sua responsabilidade edições das obras completas de poetas como Mário de Sá-Carneiro, Olavo Bilac, Almada Negreiros, entre outros. Traduziu autores tão variados como Poe, Nerval e Mallarmé. Tem colaboração dispersa por diversos órgãos de imprensa no Brasil. »

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