20.7.07

REDE, VIRTUAL E O QUE NÃO SABEMOS SER MAIOR QUE NÓS (Sugerido pelo último comentário de J. Urbano; com um convite aos leitores do Insónia para que...

...se deixem contaminar do atraso do verão)

A rede não acaba enquanto houver circulação de energia, e acho que isso não acontecerá enquanto um lugar (pensamento, objecto) não for simultaneamente todos os outros lugares. Quando uma parte do universo, pensamento, objecto, molécula, estiver completamente ligado a tudo o resto deixa de ser o indiviso (resistente à rede) que é e passa a pertencer a um todo homogéneo que é a concentração de energia que no universo anuncia nova explosão. Nesse universo de rede total cumpre-se a alquimia completa: tudo se transforma em tudo, e tudo fica igual a tudo. É de facto uma “desintegração da rede”, porque nada mais se cumpre na busca do que ainda não é. Essa rede total futura é tão auto-poiética e auto-subsistente como a que existe hoje; nós estamos habituados a pôr deus fora do universo, é só uma questão de pô-lo cá dentro (da rede). Por deus entendo o conjunto de possibilidades do universo em cada momento (para dizer que é consubstancial ao que existe; e para dizer que não é perfeito – caminhante para o estado homogéneo que coincide com a rede total e o fim da rede, antes do próximo universo - antes do mundo).

Quanto ao virtual, parece-me que tem na história do pensamento uma posição simétrica à de deus: os humanos parece que têm mais facilidade em conceber deus como o que vem antes de nós e o virtual como o que vem depois de nós. Acho que o virtual sempre cá andou. A “invenção” da linguagem foi um passo mais no sentido da virtualização: tornar presente o que não está presente, uma coisa em vez da outra: o símbolo, a distância (um link mais na rede). A criação do livro. O livro é um virtual: ser possível ler um pensamento de alguém que já “morreu” (outro grande link mais na rede – com o passado, ou não só?). Temos uma concepção de corpo muito auto-referencial; uma imagem tem tanto corpo como um cão, creio. Entendo corpo como um estado de (des)organização simpático. Se só um humano tivesse cordas vocais, ou mãos pra escrever, ou se os volumes cerebrais fossem muitíssimos díspares, seria impossível desenvolver uma linguagem. Ao mesmo tempo os corpos das galinhas são simpáticos (até podemos comê-las), e as imagens não nos matam (sempre). Tenho a impressão que chamamos virtual àquilo que o nosso corpo, na forma presente, ainda não suporta (como o download instantâneo de uma vida).

Quanto à questão da causalidade, é aqui que entra o único deus (agora quase no sentido de “criador”), em formato mínimo, que ainda me resta: não achar provável a possibilidade de uma parte do universo destruir o todo (o universo todo); e isto parecer-me fazer parte de um código genético qualquer. Se assim for, pode ser que o que chamamos causalidade seja o conjunto de combinações que podem ocorrer sem efeitos demasiado destrutivos.

O Pontal parece gostar do corpo pós-humano (que é apenas o humano que vem), e se “nada se detém” só pode ser porque não tem mesmo raízes, ou seja, verdade: circula. Claro, a alegria será “quase neutra”. Ou não se conhece ou não se pode ser alegre. O estado de rede total é homogéneo e também neutro. Mas não é pra já. Cada um vivendo galhardamente a sua ideia de verão.

Agradecendo a J. Urbano a motivação para fingir, uma vez mais, dizer mais do que sei.

Rui Costa

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