17.7.07

J.Urbano said...


Muito da boa literatura vive nessa terra de ninguém. Llansol pelos típicos preconceitos de quem julga a literatura e o seu tipo de trabalho literário uma espécie de epifania, e de acesso privilegiado ao ser, ao segredo; envolvendo a escrita, o texto, numa espécie de celebração litúrgica, e nesse sentido colocando o seu tipo de trabalho textual muito acima do miserável romance de acção, vil e profano. Não percebe que também o pensamento vive da acção, de um enredo conceptual, que também ele se movimenta para um desenlace, e o que são as figuras senão espectros, duplos de duplos. Que o difícil num romance menos ficcional não é misturar-se com um certo gaguejar filosófico, que quase sempre dá maus resultados, mas destruir, esmagar as ideias, a esfera conceptual na vida própria do corpo ficcional, que a filosofia seja destruída e desapareça na máquina literária (não importa se poesia se romance, e por aí fora), e nem Llansol escapa ao ficcional. Não foi por acaso que Deleuze acabou por se referir a personagens conceptuais. Dar cabo da ficção é eleger a verdade, como se houvesse verdade, como se a verdade não fosse a maior, a mais brutal mentira. E só assim os textos de Llansol podem ser inseridos no âmbito da literatura, senão seriam textos de outra índole, como a religiosa, textos sagrados.

(aqui)

0 Comments:

Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home