16.7.07

A MINHA GERAÇÃO

A lucidez que aprecio no que Mexia escreve está patente neste pequeno post: Não tenho idade para escrever um livro de memórias, nem conto chegar a tal idade, mas sei que nunca poderei escrever um texto sobre «nós». A minha «geração» é uma geração do individualismo, e eu um individualista bastante radical. Estou condenado ao «eu». Ou, como dizia o doutor Cunhal e se diz agora na blogosfera, ao «umbiguismo».

20 Comments:

At 7:30 da tarde, Blogger LB said...

Serei eu o único a ver o paradoxo dessa frase? Dizer que hoje somos uma geração de individualistas é um pouco o mesmo que a Zita escrever que eram uma geração de idealistas. Estar condenado ao "eu" era ser individualista numa geração de 60. Isso sim. Não tenho dúvidas que neste momento, em Portugal, a opção mais individualista que um escritor/poeta pode tomar é filiar-se no PCP, afundar-se com ele e nem sequer ter blogue para relatar a experiência.

 
At 7:34 da tarde, Anonymous hmbf said...

Paradoxal, mas lúcida e honesta. Eu diria antes que sou de uma geração de esquizofrénicos, os esquizofrénicos do capitalismo globalizado, das novas tecnologias, das auto-estradas da comunicação. Mas isso são outras histórias.

 
At 7:42 da tarde, Blogger Sujeito Oculto said...

Além da coca-cola.

 
At 9:12 da tarde, Blogger Lutz said...

Já não sou da vossa geração, mas identifico-me plenamente com o que o Pedro Mexia diz.

 
At 10:09 da tarde, Blogger etanol said...

sou da geração 69, uma geração interactiva!
Maria João

 
At 10:36 da tarde, Anonymous hmbf said...

Sujeito Oculto, trabalhei com um senhor já de idade que chamava à coca-cola o «mijo dos americanos»;

Lutz, esta história do individualismo , se calhar, é intergeracional. Mas a minha geração é, sem dúvida, muito individualista. Tenho imensas experiências pessoais reveladoras dessa realidade.

Etanol, brinca... brinca.

 
At 11:14 da tarde, Anonymous Anónimo said...

A oposição não é entre «eu» e «nós», visto que são ambas primeira pessoa. A oposição é entre eu vs. tu e ele, nós vs. vós e eles. Muitos eus formam um nós = a afirmação de Mexia é um paradoxo.
Maria João não sejas malcriadona. A minha geração morreu mas eu sobrevivi.
gaf

 
At 2:09 da manhã, Blogger Vítor Neves Fernandes said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 8:56 da manhã, Anonymous hmbf said...

Nada há como um bom paradoxo. (Oscar Wilde)

VNF, aí está um homem sem história. É disto que a história precisa. :)

 
At 10:34 da manhã, Anonymous Sissi said...

Henrique, constato que, de facto, não somos da mesma geração...
Mesmo assim tens mais da História do que o teu individualismo gostaria.

 
At 10:47 da manhã, Anonymous Francisco José said...

És um amor, Sissi.

 
At 11:33 da manhã, Blogger jm said...

o "umbiguismo" na blogosfera não é de agora. é muito antigo. mas o sr. Mexia sempre gostou de fazer e contar a história à volta do seu "eu"... desde que o seu "eu" triste, pesaroso, deixado aos caídos pelo sexo feminino, etc., esteja num pelotão da frente, acompanhado por outros tantos individualistas que andam sempre juntos nalgumas coisas.

o sr. Pedro Mexia muito provavelmente chegará a ter idade para escrever memórias, mas já as terá escrito todas antes. o sr. Pedro Mexia tenta aproximar-se do horro pavesiano, mas não consegue, para isso, tem que arranjar uma história de vida e depois ou se mata ou mata uma mulher.

haja dignidade!

 
At 11:41 da manhã, Anonymous Sujeito Digno said...

Credo, jjjjjmmmmmm! De uma coisa não podes acusar o Mexia, ele foi honesto. No fundo, ele disse dele próprio o que tu vens aqui dizer: que é umbiguista, um individualista bastante radical. Talvez por isso, o hmbf (outro eu que eu não sou) tenha dito que lhe apreciava a lucidez. Queres post mais lúcido?

mas e tu, jm? és individualista, corporativista, comunista, colectivista, socialista, fascista, jmista?

 
At 12:31 da tarde, Blogger jm said...

sujeito digno,

o Mexia sempre foi honesto. é o unico que respeito do triunvirato Mexia, Lomba e Coutinho.

o Mexia sempre foi honesto no seu individualismo e umbiguismo! verdade. Estamos a falar do posicionamento literário. ele, para além do blog acima implícito, nunca escreveu acompanhado. mas gostou de estar no grupo dos que trouxeram a blogosfera para Portugal e dos que puderam debitar palavra sobre o assunto. mas!! não esquecer que a geração literária dele não tem unidade, mas, por isso, tem uma interpretação geracional explícita.

Pedro Mexia, José Mário Sousa, José Luís Peixoto, Joaquim Cardozo Dias e muitos outros são da geração DN e da FCSH (Berna) dos anos 90... eles faziam parte desse grupo.

Individual na criação, certo, mas agrupados e "amancebados" por uma sociedade em decadência.

Mexia sempre gostou de estar inserido no grupo individualista.

Nós não temos nada em comum... ora não será essa faceta algo que os une e, por isso, se fala deles.

Como escrevi, Mexia é uma pessoa que respeito, que sempre ouviu e respeitou os outros. É um dos poucos desse grupo que tolero na poesia, isto é, eu pego num livro dele e desfolho-o à procura de algo - há outros que abandonaram o barco , não chegando a editar, para felicidade destes.

Mas é pós-pavesiano, a sua amargura sentimental, a mulher doce que não surge na imensidão da população. o Pavese era mais prático, apesar od ódio o comsumir demasiado... espero que o Mexia não esteja nestes níveis de ansiedade.

poderia estar sentado numa mesa de café com Eliot, que mais depressa Eliot se levantava e para segredar uma frase a uma jovem, do que Mexia conseguiria esboçar um sorriso de olhar directo aos olhos verdes da rapariga esguia que se comprometeu com uma brisa que lhe arrebitou os mamilos.

Mexia, onde estiveres, hei-de espreitar o teu novo livro, que a bolsa está escassa, e não há estado mental que aguente o teu estado civil (brincadeira - para isso teria que me aguentar a mim primeiro).

e agora, respondendo a quem sou. sim, sou individualista, porra tantos de nós cresceram nesta merda do pós 1968... o que faz de mim um comunista aos olhos dos fachos, porque quando abro a boca só se ouvem toadas para caçadas aos pintos e aos coelhos.

não sou corporativista. não sou comunista nem marxista. "I wear Black on the outside
/'Cause Black is how I feel on the inside" (Morrissey) e não por ser fascista.

e não sou jmista. :)

abraços.

 
At 12:34 da tarde, Blogger jm said...

existem erros ortográficos na cena acima. perdoem, se forem capazes :)

 
At 1:19 da tarde, Anonymous sujeito perdolário said...

Sou capaz de perdoar os erros ortográficos, mas há outros que não perdoo.

Quanto ao comentário:

«é o único que respeito do triunvirato Mexia, Lomba e Coutinho»
Eu respeito todos, até porque nenhum merece o meu desrespeito, até porque se estão bem nas tintas para o facto de eu os respeitar ou não.

«nunca escreveu acompanhado»
Isto não é bem verdade. Houve também o Fora do Mundo, com o Francisco José Viegas. E o que é escrever acompanhado para lá dos weblogs? Eu acho que ele escreve muito acompanhado, mais que não seja pelos da companhia. Tu referiste alguns, os de direita. Mas também há os da esquerda amiga, como costuma dizer o GAF (outrora FAG).

«grupo dos que trouxeram a blogosfera para Portugal»
Isto para mim é novidade. Não sabia que tinha havido alguém a trazer a blogolândia para Portugal. O que é isso de trazer a blogolândia para Portugal? Primeiros blogs? O Luís N anda nisto desde 2002. Metê-los no mapa? Pacheco Pereira.

«geração DN»
Ah! Isto sim, isto é que é falar. Há, de facto, uma geração DN. A que vem do jovem. Mete lá o Kleist, o J. Mário Silva, entre outros… E mete a malta de programas como o Portugalmente, alguma da malta do extinto Desejo Casar. O país é pequeno. Lisboa ainda mais.

«Individual na criação, certo, mas agrupados e "amancebados" por uma sociedade em decadência».
Pode ser que sim, pode ser que não. Se sim, não vejo mal nisso. Se não, também não. Falta referir os ícones: M. Esteves Cardoso, V. Pulido Valente. Mais o primeiro do que o segundo, embora o Mexia arrisque transformar-se num segundo de segunda categoria. É pena. É um excelente cronista de costumes. Um poeta que tem dias nos curtumes.

«pós-pavesiano»
Somos todos. O Pavese já morreu há uns bons anos. Poucos o terão lido, menos o levarão em conta. Mas o Pavese não tem nada que ver com isto. O Pavese é gigante, o resto é tão rasteiro que só «testemunhas oculares» (Cf. Dias Felizes) como nós dão pela existência de. Há comparações e comparações. Essa, quanto a mim, não é feliz. Até porque não é disso que se trata. Não misturemos o individualismo de que fala Mexia com mamilos arrebitados. Seria misturar alhos com cerejas.

cumprimentos,

 
At 4:32 da tarde, Anonymous J.Urbano said...

Espero que daqui a trinta anos, quando fizer o seu livro de memórias, o Pedro Mexia não se descaia com algo como: Nós naquele tempo (anos 90) éramos individualistas.
O individualismo de que o Pedro Mexia fala começou nos anos 80, e em especial com aqueles que cresceram no pós-revolução, já não contaminados pelo catecismo marxista mas pelos agentes subversivos do punk e do pós-punk, Pistols , Magazine, Clash, Joy Division, e por aí fora.
Por fim, não me parece que o Mexia seja um clone do Vasco Pulido Valente, isso é um tremendo disparate. E se o podemos aproximar de um Miguel Esteves Cardoso pelo de ambos conservadorismo pós-moderno, Mexia leva a cabo um dandismo literário que não tem nada a ver com o Miguel.
Aquele “eu” do Mexia, tendo o seu quê de narcísico, é também uma afirmação ou declaração sua de independência de espírito e naturalmente política. Mas se depois de Deus e do “nós” comum também o eu entrou em agonia, parece-me que Pedro Mexia não pode senão entreter-se com um cadáver. Talvez então o que Mexia faça seja não tanto mumificar mas tentar conservar um resto dessa espécie em extinção que é o Eu. Bom, não podemos escamotear que todas estas mortes não são nunca definitivas, ou melhor, deixam à solta os seus fantasmas, pelo que ainda não nos libertámos do fantasma do Deus morto, como do Nós socialista ou nacionalista ou humanista, e o mesmo para o Eu, cujo fantasma não nos deixa de visitar ou em certos casos, atormentar. Que os fantasmas são danados para a brincadeira.

 
At 4:58 da tarde, Anonymous fantasma digno e perdolário said...

Uau. Discute-se Pedro Mexia no Insónia. Não disse que Mexia era um clone de VPV. Disse que VPV era um dos ícones de Mexia. Assim como MEC. Mexia como que junta o pessimismo do primeiro com o humor britânico do segundo. Dá naquela coisa meio balofa, meio dandy (como diz o JU), de quem não fode e fica fodido com o mundo por ver os outros a foder. São as consequências básicas do euismo com raízes capitalistas. Não vivem e olham com desdém para quem vive. Diz que não dispõe sobre a vida dos outros, mas passa a vida a comentar a vida dos outros. Sobretudo a vida daqueles que vivem. Os excessos dos outros, as festas dos outros, as mulheres dos outros, as fodas dos outros. Veja-se este post: «J. conta que «as pessoas» dizem isto e aquilo por causa deste texto ou daquele. Explico a J. que me é indiferente o que «as pessoas» dizem. Mas depois percebo o temível silogismo. É que 1) se me é indiferente o que as pessoas dizem e 2) se J. é uma pessoa 3) então é-me indiferente o que J. diz. É nestes momentos que a amizade é um gelo muito fino». Fala de si próprio falando dos outros, fala dos outros falando de si próprio. O resto é Larkin.

 
At 6:07 da tarde, Anonymous J.Urbano said...

É por causa de comentários como este, do Fantasma Digno, que misturam alhos com bugalhos e que rapidamente resvalam para o pessoal e para a lógica do ressentimento, que a maioria das vezes as caixas de comentários se tornam lugares insuportáveis, um regurgitar do inferno pessoal. Não percebem que o ódio que destilam se vira contra eles mesmos(talvez por isso se escondam) e que estão a revelar sentimentos que mais valia calar, mas em vez disso preferem converter-se em destilarias de ressentimento; e nada disso é minimamente produtivo. O problema de tão maus fígados, de tão mau perder, é não terem percebido que eles sim, os medíocres, os que estão à margem, os que ficaram para trás, os falhados, estão mais próximos da luz. Já Cristo, há mais de dois mil anos, nos elucidara do mesmo, talvez de uma forma um tanto extrema, acerca dos leprosos. Mas como lhes falta ou a abnegação da ascese, esse longa luta com a derrota, assim como o sentido da alta ou da baixa comédia, então resolvem expor em público as suas feridas infectadas, querem, no fundo, alguma atenção, senão mesmo ser salvos...

 
At 6:29 da tarde, Anonymous fantasma digno e perdolário said...

Só gostava de saber onde é que o JU viu isso tudo no meu comentário. Resvalam para o pessoal e para a lógica do ressentimento? Adonde? Em quê? O ódio que destilam? Mas qual ódio? Aliás, que eu saiba quem pessoalizou a questão foram JM e JU. Se bem percebi, discutiam-se aqui tiques geracionais. E já agora responda-me. Quando diz: «eles sim, os medíocres, os que estão à margem»... refere-se a quem? Quem são eles?

 

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