9.9.07

A TRAVESSIA

Na sexta-feira passada fui ao norte entrevistar o escritor A. Dasilva O., o primeiro escritor que citei num texto por mim publicado. Contei a história aqui. Boa conversa, cerveja fresca, memórias, literatura, o país e o futuro. Sempre a merda do futuro, como dizia o José Mário Branco. À noite, encontrei-me com uns amigos da velha guarda. Um tipo qualquer que fazia anos convidou-nos para umas guitarradas num bar onde, tinha eu para aí 16 anos, comecei a converter variadas experiências “alucinogénas” em versos extraviados cuja única intenção era, como no poema Insónia, de Álvaro de Campos, dizer que «passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada, e até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo». Lembrei-me agora disso tudo porque, faz este mês dez anos, foram esses versos de Álvarto de Campos a epígrafe que escolhi para o meu primeiro opúsculo. Há dez anos. Passou o tempo num instante, e, com o tempo, não tendo passado as insónias, passaram muitas das ilusões de antanho. Tudo por causa da merda do futuro. Só sei que nestes dez anos que passaram muito sangue tem corrido para a página, muito corpo tenho eu vazado na página. Para quê? Para nada. Para o esquecimento. Para a terra. Para ser enterrado a olhar o umbigo. E escrevia eu, então: matar o pensamento / é essa a missão dos dias / a vida é o sabor dos que esquecem / até a memória mais não ser / que um mero curvar de testa. É tudo mentira. A vida é antes o sabor do esquecimento. E a memória, a luz que nos alumia na travessia do deserto.

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