6.12.07

HÁ DIAS EM QUE TUDO ME DÓI

Há dias em que tudo me dói.
Doem-me as mãos que desconheço
esfomeadas de dias, dói-me o olhar,
que se fecha diante da noite,
dói-me tudo, sem fim.

Doem-me os homens que matam
em nome de nada,
doem-me a guerra e a hipocrisia
dói-me o mundo, por dentro de mim,
doem-me as ruas desertas das cidades
aos fins-de-semana
e doem-me os rostos
de quem me olha, como se nada houvesse
para te dor. Dói-me até a própria dor.

E também me doem a ignorância e a soberba,
doem-me as crianças que caminham descalças,
e dói-me a sua alegria de não haver alegria,
doem-me a esperança
e o optimismo generalizado de quem anda cego,
dói-me a indiferença de quem pode,
dói-me tudo, até à agonia.

E também me dói a música,
doem-me os livros que nunca lerei
e doem-me os que amei
e dói-me Celan, Sílvia Plath
ambos, de coração colado aos lábios,
e dói-me a cegueira de Borges,
à procura de uma rosa
na penumbra do olhar.

E doem-me os labirintos onde nos perdemos,
os sonhos e as vielas,
onde perdemos amigos,
e doem-me esses amigos que já morreram e que nos
olham, do alto da sua claridade azul.
E dói-me tudo, até quase deixar de me doer,
dói-me tanto, até já nada fazer sentido.

E também me dói o vento e as árvores carregas de frutos,
doem-me as searas maduras de verão
onde o sol brinca com a memória,
entre espasmos de luz dourada,
doem-me os calamos de Withman,
a fraternidade que não existe,
dói-me o amor e dói-me a vida
cintilando na brevidade de cada flor,
doem-me as papoilas, os prados
onde o olhar se perde à procura de um lugar,
que vem lembrar-me o que não me doía.

E dói-me tudo, em certos dias,
que de tanto doer não aprecem dias.

Maria João Cantinho

Maria João Cantinho nasceu em Lisboa, no ano de 1963. Passou a infância em Angola, tendo regressado a Portugal com 10 anos de idade. Licenciou-se em Filosofia, tendo posteriormente realizado o mestrado, o qual deu origem ao livro O Anjo Melancólico (2003). É jornalista e escritora, com obra publicada nos domínios da poesia, do ensaio e da ficção. Publicou o seu primeiro livro de poesia, Abrirás a Noite com um Sulco, em 2002.

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