9.4.08

TORNADO


Quando eu era pequeno contavam-me histórias de tornados, de homens levados pelo vento, de casas aspiradas pelo céu, animais rodopiando no ar como se dançassem. Contavam-me histórias de homens espetados em forquilhas, atrelados separados das máquinas, tractores lavrando o ar e culturas desfeitas. Com o tempo, fui percebendo que a meteorologia que me contavam estava condicionada pelos acasos das intempéries. Mas, dentro de mim, um tornado foi ganhando forma, desfazendo as culturas da minha alma, atirando-me contra as paredes dos sonhos, arrasando tudo o que fui construindo nos terrenos da memória. Esse tornado a que alguns chamam esquecimento acompanha-me há muito, obriga-me a sucessivas mortes lentas, uma espécie de suicídio intermitente, mas algo constante. Eu mato-me todos os dias para que algo possa viver além de mim. Os destroços que ficam à passagem desse tornado interior são palavras inarticuladas, textos imperceptíveis, ideias confusas, imagens sem nexo, são casas assoladas por um desejo construtivo que nunca logra atingir os fundamentos necessários a uma habitação coerente e homogénea. É um problema demasiado frequente, este de não termos tempo para construir com homogeneidade a nossa casa, de sermos uma antecipação constante à ordem, de não nos controlarmos, de nos entregarmos a um impulso e de nos deixarmos orientar por esse mesmo impulso. Para quem está de fora, a ciência dos instintos revelará desordem, desorganização, desinteresse, desleixo. Nos casos mais complacentes, pode inspirar alguma ternura, um certo afecto motivado por algum reconhecimento, o reconhecimento de um pouco de talento sem freios nem rédeas. Quem está de fora não pode entender que não há governo para o vento, sobretudo quando ele nos toma na forma de um tornado. Quem está de fora não pode entender. Pode apenas escutar e, escutando, saborear a candura do desalinho ou repelir-se com o desarranjo das definições. Por isso acautelo-me e, de certo modo, desvio-me de quem está de fora, pois quem está de fora jamais compreenderá que cá dentro nada há de partilhável, é tudo tempestade, tormenta, inferno, agitação, é tudo inquietude, desalento, desencanto, desilusão, é tudo um nome gretado pela acção demoníaca das palavras. Quando eu era pequeno, contavam-me histórias de tornados. Prefiro não contar histórias dessas às minhas filhas. Terrível seria vê-las também serem levadas pelo vento, tornadas naquilo que eu sou sem nunca o haver desejado.

3 Comments:

At 2:17 da tarde, Blogger manuel a. domingos said...

porra pá!

 
At 3:43 da tarde, Blogger marta said...

bem Henrique, isto dito assim, com a Diamanda... touché.
gosto das tuas verdades.
e gosto muito da Diamanda.
um beijo.

 
At 1:18 da tarde, Blogger hmbf said...

outro para ti.

 

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