8.5.08

A PAZ, O PÃO, HABITAÇÃO, SAÚDE, EDUCAÇÃO

Enternece-me a fé inabalável na lei, a crença no julgamento justo, cego, como convém, e célere. Enternece-me não pela ingenuidade que manifesta, mas pela entrega à benignidade dos homens. Só uma coisa justifica a lei: o pólo maldoso dos homens. Logo, não podemos esperar dos homens senão um mais ou menos ágil contorno das leis. Os homens não são bons nem maus, são homens. Esse é o seu defeito. Por isso fazem leis, supondo que, respeitando-as, podem ser melhores. Cabe a quem faz as leis, obviamente, zelar pelo cumprimento das mesmas. O espanto advém do pressuposto contrário. Vejamos o actualíssimo exemplo dos recibos verdes. A lei está feita, ninguém a cumpre – incluindo quem deveria zelar pelo seu cumprimento – mas pouco ou nada se faz contra essa situação. Outro exemplo: informa o jornal P que «28 mulheres foram vítimas de tentativa de homicídio nos primeiros quatro meses de 2008, dezassete morreram e onze estão em estado grave». Isto não são números, não são estatísticas, são pessoas, são seres humanos, são a dolorosa constatação da nossa desumanidade. Que fazer contra isto? Avaliar o impacto da aplicação da lei, manifestar disponibilidade para monitorizar a aplicação da lei? Conversa estranha, não às 17 já mortas, mas às restantes 11 que ainda sofrem no corpo as chagas da nossa hipocrisia. Não se trata apenas de avaliar e aplicar leis. Trata-se de transformar toda a sociedade, de dar cabo de uma cultura e impor uma outra. E isso, só com leis, não se consegue.

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