17.6.08

BUZINÃO

Hoje há buzinão contra o aumento do custo de vida e a especulação do preço dos combustíveis. Percebesse-se a relação, mas não se percebe a forma de protesto. O buzinão exige um gasto de energia que está para lá das minhas possibilidades. Não tenho ouvidos para o buzinão, o meu veículo consome tanto combustível que, sempre que buzino, parece que tusso. Eu hoje protesto em silêncio. Contra o aumento do custo de vida, sim. Custa-me tanto a minha vida, a minha vida que não tem preço. Protesto contra o aumento do custo do que não tem preço, porque me custa tanto o preço a pagar pela vida que tenho. Mas protesto em silêncio, não vá algum ouvido sentir o meu protesto. E, dessa forma, sentir o custo da sua vida inflacionado. Não quero inflacionar o custo da vida de ninguém, por isso protestarei em silêncio. O meu buzinão é todo para dentro, circulam filas intermináveis de pesados e de ligeiros nas vias rápidas, nos itinerários principais, nas auto-estradas, nos carreiros, nos caminhos secundários, nas estradas nacionais da minha vida. Estará tudo a buzinar, mas ninguém conseguirá ouvir. Será um estremecimento. Eu protesto contra a especulação do preço dos combustíveis. Na verdade, protesto contra toda a forma de especulação. Mas mais ainda contra a especulação do preço dos combustíveis. Os combustíveis aumentam o custo da nossa vida, são o sangue inflamável da nossa imprudência. Eu tenho uma paixão ateada dentro de mim e protesto contra ela, é uma paixão que se move a combustíveis tão onerosos, tão difíceis de suportar, que o melhor é mesmo transitar lentamente com a mão na buzina estridente do meu peito. Protesto contra o custo inflacionado da vida que levo, protesto contra a especulação dos meus combustíveis. Eu movo-me a gasolina, eu movo-me a petróleo, eu comovo-me ao mais caro combustível que é possível imaginar. Tão caro, tão dispendioso, tão difícil de suportar que não poderei senão protestar parado. E em silêncio.

2 Comments:

At 2:17 da tarde, Blogger L. said...

não gosto de buzinões, gambozinões ou outras formas de protesto cuja única consequência é a dor de cabeça demorar mais tempo a passar

 
At 5:01 da tarde, Blogger hmbf said...

Muita aspirina não é a solução.

 

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