10.10.08

LIDOS OU RELIDOS EM 2008 (5)

“KAFKA ON THE SHORE”, Haruki Murakami, Vintage (2005)

título em português: “Kafka à beira-mar”



foto: não é o Murakami.


1. Seria fácil descartar este livro como um arraial de técnicas de literatura-pop, sobretudo sendo-se um daqueles escritores que acredita na realidade textual, a tal que o trabalho de linguagem geraria sem enorme referência à realidade dita exterior.

Se tal se pretendesse, começaríamos a partir do tema imediato: um rapaz de 15 anos, Kafka Tamura, foge de casa de seu pai, um artista malévolo que ele (ou outro mesmo-Nakata?) acaba por matar, para depois dormir com a sua mãe e a irmã mais velha, ambas desaparecidas quando ele tinha quatro anos. Uma encenação do complexo de Édipo, exercício ao agrado do que me parece ser o “renascimento pós-moderno”, a melhor expressão que arranjo para apontar para o seguinte: se a verdade não existe, se o que existe são versões, então todas as explicações são altamente (re)aproveitáveis (renascíveis) numa vertente ficcional do mundo onírico, aquele em que começámos a mover-nos quando a imagem (a primeira metamorfose do sonho) nos começou a sugerir um desprendimento progressivo do corpo sólido (ainda mais terra do que ar). Quer dizer, tudo o que foi dito, todas as teorias, todas as religiões, todas as verdades, por muito antiquadas ou bizarras que nos pareçam hoje, são altamente simpáticas para sonharmos nelas. Ora, o tema “clássico” (o complexo de Édipo) é transformado por Murakami num material-sonho vastamente... contemporâneo. É precisamente da forma como os materiais lívidos e quotidianos são transformados no material dos sonhos que se deve falar quando se fala da perícia deste escritor. Se ser pop é democratizar os sonhos enlatados (sopas, experiências, metabolismos), então ele tem lata. E sonhos já somos, embora pouca gente dê por isso.

2. A história paralela é a de Nakata, sexagenário sem memória e inteligência, por causa dos cogumelos que comeu numa expedição adolescente com os colegas da escola e que o fizeram entrar em coma. Nakata recebe um subsídio do Governo e complementa o rendimento encontrando gatos desaparecidos, uma vez que o acidente lhe trouxe a capacidade de conversar com gatos. Numa das buscas Nakata vai dar a casa do pai de Kafka. Depois prossegue viagem até Shikoku, onde encontra Kafka, e são afinal dois seres que se movem entre os kami, a palavra japonesa relacionada com o xintoísmo que pode ser traduzida como “deuses” ou “espíritos” mas que também se pode referir a rios, montanhas, árvores. Kafka Tamura encontra a sua mãe com a idade de quinze anos, numa projecção da directora da biblioteca onde encontrou refúgio. Coisas do inconsciente e que ajudam a vencer o tempo, como os soldados do fim da história, que não envelheceram desde que desistiram de continuar a fazer a guerra.

3. Há clichés, adereços feitos obrigatórios num mundo de feitiços pop (o nosso mundo). Os teóricos da verosimilhança diziam-nos que os leitores gostam de se projectar psicológica e afectivamente nas personagens. Murakami amplia o mundo-pop e tudo é verosímil, incluindo passear, falar e fazer sexo com os nós-kami, e eu também acho que sim: este saloon está demasiado pequeno, o sonho está no meio de nós, e ademais o Porto é uma cidade horripilante para quem, como eu,


Rui Costa

3 Comments:

At 12:55 da manhã, Anonymous Anónimo said...

1-horripilante horriconante...:)))

2-Mito de Édipo e não "complexo".
Quem inventou o "complexo",(um dos 4 da Psicanálise) baptizando-o com o nome do protagonista do mito clássico foi o Sigmund Freud.

3-pop-democrático é muitas vezes um lugar instável e indeciso, que cheira a óleo de fritos requentado e cheiro a urina nas esquinas.

leitor do leitor

 
At 3:12 da tarde, Anonymous Anónimo said...

1. (Sem ofensa ou cumprimento,) o leitor do leitor tem uma cara de lourenço chapada :))

2. Eu percebo essa distinção mas não me importei de aqui (quase) os confundir (mito e complexo), porque acho que naturalmente se confundem (pelo menos em parte). Freud chamou-lhe “complexo” mas o complexo já existia antes de Freud (não apenas como mito) – mas tb sei que esta afirmação desvaloriza o poder criador da nomeação (atribuição de nomes). No meu texto, clássico está entre aspas por causa disso, de ser clássico e contemporâneo, anterior a Freud e não anterior a Freud – e aqui já estou a dar importância à tal “nomeação” de Freud (porque é verdade que o “tema” é composto em boa medida por ele.)

3. instável e indeciso é tudo. o pop e a democratização, em conjunto ou insoladamente, são temas enormes e difíceis, que merecem mais do que simplificações arrasadoras (eu li o “muitas vezes”).


Rui Costa

 
At 3:42 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Qual Lourenço? O do "Labirinto da Saudade"? Hmmm, duvido que ele se atrevesse ao neologismo "horriconante"; embora, de uma vez em que tive o prazer de lhe falar, a conversa "descambasse" para a Madonna e respectiva iconografia: umas cuecas pretas que ela atirava para o público e de qwue vendedores espertalhões, fazim réplicas rapidamente.
Isto é verdade. Não é micronarrativa.

A questão do Édipo, foi simplesmente:
o mito é clássico e o "complexo" nasceu enquanto teorização psicanalítica no séc. XIX. Tal como o conceito da "líbido" humana,da "sexualidade infantil", etc, todas essas "descobertas escandalosas" para a época.

Enfim, continue a mostrar as "postas" de leitura.Pode ser que o Lourenço...apesar dos 85...

Abraço
Leitor do leitor

 

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