26.1.07

Perguntar ofende? #3

Em boa hora Vítor Leal de Barros alertou-me, num comentário no último post desta série, que eu ainda não tinha abordado a questão do poder. De imediato pensei nas ditaduras do Séc. XX e lembrei-me que «O Príncipe», de Maquiavel, foi o livro de cabeceira de todos os grandes ditadores – sim, porque para agirem da forma que agiram, eles não partiram do nada, reflectiram sobre a história ocidental, eram homens cultos e sapientes em certas questões. Bom, não vou expor aqui os conselhos que Maquiavel deu aos príncipes, vou sim colocar-vos questões sobre o poder, a partir de imagens. Como a minha formação é nas artes plásticas, penso que as imagens, por vezes, têm um efeito mais imediato que as palavras; mas as imagens também podem mentir, como nos mostra David King em «The Commissar Vanishes – the falsification of photographs and art in Stalin’s Russian» - Metropolitan Books, New York, 1997. David King é um conhecido fotógrafo e designer inglês, que foi director artístico da revista Sunday Times entre 1965 e 1975. Em meados dos anos 70, numa viagem à Rússia, ele descobriu que as fotografias de vítimas do estalinismo tinham sido apagadas, propositadamente, da posteridade. O autor começou então a recolher milhares de imagens e documentos sobre este facto histórico, do qual resultou a publicação. David King é também, actualmente, detentor de um dos maiores arquivos sobre a revolução russa e já publicou diversas obras com documentos e imagens do seu espólio, nomeadamente, uma conhecida fotobiografia de Leon Trotsky. Observem com atenção as seguintes imagens legendadas:

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«The Commissar Vanishes», pág. 25 – fotografia publicada em 1939, no livro «Stalin» comemorativo dos 60 anos do nascimento do ditador. Trata-se de uma reunião de bolshevikes em 1915, exilados em Monastyrskoye, Sibéria. Stalin encontra-se de pé, atrás da mulher de Suren Spandarian.

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«The Commissar Vanishes», pág. 22/23 – Fotografia original desta reunião, efectuada no Verão de 1915. Da esquerda para a direita, na fila de trás: Suren Spandaring, Stalin, Lev Kamenev, Grigorii Petrovsky, Yakov Sverdlov e Filipp Goloshchekin. Na fila de baixo: Fedor Samoilov, Vera Schweitzer, Alexei Badaev e Nikolai Shagov.

A primeira fotografia foi apresentada como documento histórico oficial durante cerca de 50 anos na União Soviética, as gerações deste período aprenderam a história do seu país com imagens falsificadas. O original era omitido, como podem ver é bem diferente. A primeira vez que observei as fotografias deste livro, fiquei cheia de medo; porque foi possível apagar pessoas de fotografias, retocando-as manualmente com tinta de forma a que elas continuassem a ter uma certa verosimilhança, com meios rudimentares. Tudo isto se passou bem antes de inventarem o photoshop. Hoje em dia, com o avanço tecnológico podem executar-se todo o tipo de simulações, ao nível das imagens e até mesmo no audiovisual. Se já existe o antecedente no estalinismo, não poderá voltar a acontecer no futuro, utilizando meios ainda mais sofisticados? Será que já acontece e nós nem sabemos?

Maria João

6 Comments:

At 10:30 da tarde, Blogger FAG said...

É verdade, deve haver centenas de fotografias históricas assim amputadas ou falsificadas. E é tragicamente fascinante que a história possa ser reescrita com truques de falsários. É por isso que prefiro a memória histórica nas suas outras várias formas de se perpetuar - a poesia, a narrativa escrita (a maior parte das vezes nas suas eloquentes entrelinhas). Na Rússia há ainda uma memória sem imagem nem documentos: não há família que não tenha tido alguém vítima das repressões e do terror stalinista. Essa memória herda-se, digamos, no sangue.

 
At 10:54 da tarde, Anonymous Anónimo said...

outro caso paradigmático de falsificação de imagens é o da comuna de paris, provavelmente já deves ter ouvido falar...

concordo com fag, a memória da pele é bem mais difícil de apagar.

sem querer correr o risco de teorias da conspiração, a manipulação audiovisual é uma evidência... parece haver provas verosímeis de que o ataque ao pentágono no 11 de setembro não aconteceu realmente como nos foi contado... há uma outra teoria que quer fazer crer que o armstrong nunca pisou a lua para fazer aquelas imagens maravilhosas... esta não me convence muito, mas o interessante aqui não é saber se tudo isto é verdade ou mentira, o que estes fenómenos provocam é uma dúvida constante no ser humano. a verdade e a mentira perdem o seu significado, o seu valor semântico, e são substituídas pela dúvida que descredibiliza e amorna a realidade e o verdadeiro significado dos factos...

...tudo isto é muito pós-moderno... :)

um beijo e bom fim de semana

 
At 11:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

no fundo o que eu pretendo dizer quando falo da 'dúvida' é: deixa-se de saber no que acreditar... o que tínhamos como grandes valores desmoronou e parece que está difícil encontrar um rumo

 
At 5:30 da tarde, Blogger etanol said...

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At 5:31 da tarde, Blogger etanol said...

Fag: tens razão, existe a memória que se herda no sangue. E o facto de alguém publicar os verdadeiros documentos, está a ilustrar o que aconteceu. Stalin foi um dos maiores assassinos da história e estas fotografias ilustram como ele foi ficando cada vez mais solitário nas imagens - tal como no filme Ivan, o Terrível, o czar foi ficando amargamente cada vez mais só.

Vítor: ainda não estou a sofrer da teoria da conspiração, também, mas desconfio um bocado do modo como algumas noticias chegam até à opinião publica, até que ponto elas não estarão já filtradas pelo poder?
Maria João

 
At 11:30 da tarde, Blogger Leni said...

Muito estranho, a segunda foto é a que me parece ser falsa, as pessoas que faltam na primeira aparecem na segunda com uma tonalidade mais clara, enfim destoam, tanto na profundidade como no ângulo.Espero não parecer pedante mas é o se pensa ao ver a foto.

 

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