25.1.07

IVG #36

Disse numa recente iniciativa dos Médicos pela Escolha que o feto é "um anexo sem autonomia" da mãe até às 24 semanas.
Só aí ganha autonomia para sobreviver. Até lá, tem os órgãos em esboço, mas não são funcionais. E um esboço é um esboço. Isto da definição das oito semanas como aquelas em que acaba o período embrionário e inicia-se o período fetal é um artifício. O pulmão só funciona a partir das 28 semanas. A tiróide só segrega hormonas aos quatro meses. O cérebro só amadurece a partir dos cinco meses, aí os neurónios conseguem permitir ao feto o movimento voluntário. Se perguntar às mulheres quando sentem o primeiro pontapé, todas são unânimes em dizer seis meses.
Do lado do Não citam a ciência apontando vida desde a fecundação, o coração que bate.
Funciona desde as três semanas, mas as válvulas só se formam aos cinco meses e só aí os vasos sanguíneos chegam a toda a parte. Agora, é facto científico que a nova vida inicia-se na fecundação.
É um contra-senso.
Não. E por isso é que todo o embrião humano tem de ter estatuto e dignidade e ser protegido. Mas repare que em cada dez casais totalmente férteis a tentar ao mesmo tempo, só dois conseguem uma gravidez. Os outros também fazem embriões, mas estes não se implantam, ou abortam por deficiência até aos três meses. São dados internacionais.
O período das dez semanas para a despenalização parece assim um limite igual a qualquer outro...
As dez semanas vão ter muita elasticidade, porque há várias datações. Dez semanas pela última menstruação são 12 para a ovulação e 14 para a datação da ecografia. E como a maioria das interrupções voluntárias da gravidez (IVG) são entre as oito e as 12 semanas, é mais do que suficiente. Trata-se de impedir que quem não pode avançar com a gravidez vá fazê-lo em casa com um troço de couve, ou vá a uma curiosa e haja complicações. Lembro-me que em 1985, quando fazia urgência de ginecologia, tinha pelo menos uma complicação de abortamento por semana! Só eu! Lembro-me de como essas mulheres eram tratadas pelos médicos. Era atroz! Raspagens sem anestesia para as fazer sofrer, a vingar-se, insultos, recusa de direito de visita.
Falou na protecção do embrião, mas alinha num movimento pelo Sim.
Claro. Devemos tentar arranjar todos os artifícios necessários para que qualquer rapariga que engravida leve a gravidez a termo. É nossa obrigação enquanto médicos saber por que não o podem fazer. Se o problema é a família ou o parceiro, devemos oferecer-nos como mediadores. Se invocarem razões económicas, devemos chamar uma assistente social afectiva e compreensiva que as acompanhe e lhes indique meios de subsistência.
Está a dar razão ao Não...
Não. Porque a grande fatia, como revelou um estudo da Associação para o Planeamento da Família, é de raparigas muito jovens que dizem que não estão preparadas naquele momento da vida para ter um filho. Porque são pequenas, estudam, não sabem quem é o pai... Aí temos duas opções ou um sistema ditatorial que obriga a mulher a levar adiante a gravidez e a persegue se ela não levar, ou protegê-la e permitir que aborte de maneira higiénica, rodeando-a de uma série de medidas para que tal não volte a acontecer. E, felizmente, sendo muito rigoroso em termos de fisiologia fetal, o feto não é capaz de sobreviver fora do útero. Idealmente, se pudéssemos tirá-lo logo e dá-lo para adopção, seria a solução. Mas como não tem viabilidade, a primazia é da mãe. Para nós o mais importante é o respeito pela vida que está à nossa frente: a da mulher.
E o argumento de que isso vai banalizar a IVG?
Segundo o estudo da APF, a maior parte das mulheres que abortaram usava métodos contraceptivos, abortou até às dez semanas e tinha formação secundária ou superior. A gravidez é um acidente de contracepção e 90% não repete a experiência. E depois, obviamente, as pessoas têm que ser responsabilizadas. Se eu fosse ministro, as pessoas pagariam a IVG, a não ser que não tivessem capacidade económica. Lembro-me que em França, em 1993, uma rapariga pagava 30 contos para uma IVG num hospital público. Até por uma questão de sacrifício. Não acredito num aumento. Ninguém faz isso de ânimo leve.
O Não busca noutros países justificação da tese do aumento.
É diferente. Se Portugal tivesse despenalizado o aborto no 25 de Abril, a população era então mais pobre, menos culta, haveria um aumento, porque as mulheres já não iam ter medo de pedir ajuda. Teria havido, como noutros países, uma ascensão inicial e depois uma descida até à estabilização. Hoje, há formação.
Fabrica vida e dá a cara pela despenalização do aborto. Contra-senso?
Não! Pelo contrário! Ajudo os casais a ter bebés e continuo a dizer que são o grande milagre da vida! Mas o que lhes digo é que a coisa mais importante da vida deles não é o bebé. Com os que fazem dele o mais importante, geralmente corre mal. O grande motivo deles é o amor que os une. E o bebé é uma dádiva extra, que não pode substituir esse amor. Se me perguntar se numa situação dramática escolho a minha mulher ou a minha filha, a minha mulher tem prioridade. O bebé é uma dádiva, mas não pode ser à toa! Numa fase em que não está preparada, mais vale não destruir a vida da mulher!
No Juramento de Hipócrates no final da formação, jurou pela protecção da vida.
Todas as interpretações são possíveis... Aquilo que os professores mais sensíveis nos transmitiam era a preservação da vida como a entendemos hoje. Da vida no seu todo, do corpo e da alma, a saúde também é mental. Daí nesta discussão dever dar-se primazia à mulher. Como nas interrupções em caso de doença da mãe. Dá-se-lhe primazia, porque o feto não tem autonomia. Não vejo qual é o problema dos médicos com isto.
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4 Comments:

At 2:47 da tarde, Anonymous Anónimo said...

estava aqui a escrever um 'discurso' sobre este homem, na verdade o que me apetece dizer é que se eu escolhesse uma pessoa a quem fazer uma vénia seria este "médico com H* grande"


* H de humanidade

 
At 3:09 da tarde, Blogger Alvaro said...

Obrigado Henrique. Vou copiar este post, que me parece uma das intervenções mais esclarecidas e de alguém que o pode fazer com propriedade.

 
At 10:35 da tarde, Anonymous Anónimo said...

obrigado por este texto...
e fica uma história veridica e que remete a outro eu...
"era uma vez... uma jovem sem grandes conhecimentos de educação sexual, filha de uma mãe que já foi mãe aos 40...
Ficou grávida aos 23 e as primeiras palavras do homem com quem dormiu e perdeu a virgindade foram: - sei lá se é meu...
Não interessam as lágrimas, todos choramos por alguma coisa que perdemos... entre a coragem de ter um filho de um homem que passou a odiar e uma mãe que não ia aceitar decidiu pelo aborto...
O dinheiro foi emprestado por uma amiga, o orgulho obrigou-a a ir só.
Foram seis contos e uma anestesia com cálices de vinho do Porto, até hoje ficaram o registo dos gritos em quartos semelhantes e da voz bondosa da senhora que de copo na mão perguntava "doí?"
Não havia marquesa nem local para por as pernas, era um divã com um colchão que fazia cova no meio.
O regresso foi de autocarro no 27 que o dinheiro não dava para táxi, em casa a desculpa do mau estar foi o período que tinha chegado mais cedo...
Às dez da noite na casa de banho e enquanto lavava os dentes para preparar a ida para a cama esvaiu-se em sangue.
Quinze dias de cama e palavras amargas de uma mãe que não compreende que exista sexo sem casamento, 50% de sangue e uma raspagem. Depois da primeira semana de criticas duras de uma mulher que se orgulhava do seu pudor e da sua seriedade seguiram-se 2 meses sem que uma palavra mais fosse dita.
Nesse dia tinha uns calções de fazenda cinzentos meias pretas e uma camiza bordeux e já passaram 25 anos... será preciso questionar se um aborto marca uma mulher?"

 
At 2:51 da manhã, Anonymous uma que vota "sim" said...

O que marcou e quase assassinou essa jovem mulher foi uma sociedade patriarcal e déspota, uma ciência genética ainda pouco desenvolvida que não conhecia ADNs nem invertigações de paternidade.
Como teria sido diferente se a Mãe tivesse sido uma aliada e não uma pobre colonizada mental e cruel paladina, do que seria "Próprio" das mulheres sérias. Sim, porque ao homem nunca foi exigida a virgindade e a abstinência. Antes pelo contrário.

Logo foram as condições terríveis que a marcaram e não um acto perfeitamente lícito a nível das suas circunstâncias e que podias ter sido feito legalmente, em boas condiçõers sanitárias, já nessa altura, noutros países europeus e até cá em Portugal( embora aqui, ilícito). Se você fosse alemã ou inglesa, nunca tal lhe sucederia. Nós é que nascemos num país merdoso, de fêmeas galinhas, que nem no 25 tiveram rasgo, coitadinhas, nosso senhor castiga, para exigirem justiça e humanidade. Está bem que as do Iraque ou da Nigéria estão piores. Mas, não estão no "Ocidente Europeu Civilizado".

Tenho pena de não ter visto este post e estes comentários, na devida data.

Mas, ainda a propósito de "Éticas", hoje ouvi o Laborinho Lúcio dizer:
"O incesto é éticamente reprovável, mas ninguém é preso por incesto".Evidente que se não referia a abusos sexuais sobre menores ou a violações.

Bom post, henrique.
Havia de se fazer panfletos dele.
Porque muitos médicos são repelentemente o oposto deste.
E acredito que o deus dos "nãozeiros" o apoia.

Vi.

 

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