31.8.07

A FESTA

Tiago Barbosa Ribeiro sugere que os seus leitores escrevam sobre «a vergonhosa reincidência das FARC na Festa do Avante». Sobre o mesmo assunto, o ano passado, escrevi o que me valeu indiferença, à excepção de uma breve reprimenda de leitor amigo. Este ano conto uma história. Marquei presença na Festa do Avante, se bem me lembro, duas vezes. Na última delas lembro-me de uma cena curiosa, que se passou durante a actuação dos Xutos & Pontapés. Durante o concerto, se bem me lembro, o vocalista da banda fez o seguinte comentário apontando para o pavilhão do MPLA: «Cada crachá comprado ali servirá para comprar balas que matam pessoas». Cito isto de memória, pelo que as palavras não terão sido bem estas mas o efeito foi o mesmo. O Tim, vocalista dos Xutos & Pontapés, tinha, provavelmente, toda a razão, assim como terão razão as pessoas que não fazem férias em Cuba, na China ou noutro país qualquer que seja governado por ditaduras desumanas. Às vezes questiono-me se essas mesmas pessoas não adquirirão produtos nas lojas dos chineses, mas isso é a velha história da hipocrisia nacional. Assim como é a velha história da hipocrisia nacional não levantar a voz contra as traficâncias, ditas boas oportunidades de negócio, que os países ditos democráticos vão fazendo com essas escabrosas ditaduras. O que sei é que, em país democrático, o PCP está no direito de convidar quem quer que seja para uma festa que é sua e os cidadãos estão no direito de não ir a essa festa. Cada um tem os amigos que quer. Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és. Eu deixei de ir à Festa do Avante, votei no PCP, se estou recordado, uma única vez (para a Junta de Freguesia), não compro produtos made in China, nunca passei férias em Cuba, etc, etc, etc. Mas às vezes interrogo-me se não deveria ter-me separado da minha mulher quando, recentemente, ela adquiriu um Ford. A Ford, como sabeis, é uma multinacional americana. Comprar um carro destes, seguindo o raciocínio do Tim, pode bem ser uma forma de patrocinar a guerra no Iraque, que nos deu, em tempos mais recentes, pérolas do respeito pelos direitos humanos como Abu Ghraib e Guantánamo. Enfim, dúvidas, paradoxos e contradições com os quais temos de aprender a sobreviver.
Ler também: Morte aos assassinos. E a sequela Morte aos assassinos (2). Em absoluta concordância com o Sérgio Lavos, abstenho-me de desenvolver o tema.

8 Comments:

At 3:49 da tarde, Blogger Alvaro said...

De acordo quanto à Festa. Já quanto ao Ford sou um pouco mais radical: não esqueçamos o que representa a Ford para a evolução da sociedade que culmina nos nossos tempos. Bem sei que todos os outros fabricantes representam hoje o mesmo sistema. Mas é na Ford que ele é inaugurado, verdadeiro paradigma da massificação do consumo e, por consequência, das múltiplas desigualdades que ela cria. «É pá, mas hoje já não há nada a fazer quanto a isso…», alguém me diz. Pois é, mas a verdade é que continua a haver Festa do Avante!, apesar dos terramotos nos países pseudocomunista, continua a haver quem se empenhe para levar a cabo um acontecimento cultural de mérito, continua a haver quem passe por lá sem ligar à propaganda política. Continua a haver quem acredite que há alternativas a este estado de coisas. Ah, e que eu saiba os Xutos não deixaram de ir à Festa do Avante!, apesar do comentário. Ou deixaram?

 
At 4:10 da tarde, Anonymous Anónimo said...

sinceramente ñ me parece q os casos possam ser comparados... as farc são incomparavelmente mais graves

 
At 4:13 da tarde, Blogger hmbf said...

São?

 
At 10:58 da tarde, Anonymous Eduardo Barrento said...

Prefiro pensar, sem deixar de saber que estou a ser contraditório, que a ford também cria postos de trabalho e que os xutos abanaram, um pouco, a coisa por dentro... é impossível viver sem contradições.

Se quizermos ser radicais, então por e simplesmente não andariamos de carro, (e eu só tirei a carta aos 37, e só ando de carro qd é indispensável) pq se não fosse a ford eles não existiriam para a maioria de nós.

Também não utilizariamos muita (a maior parte) da tecnologia dita boa (por ex. aquelas que salvam vidas) porque são quase sempre resultado de experiências desenvolvidas no domínio do armamento e que permitem, depois, essas tecnologias...

Quanto ao não viajar para esses países, será que não é melhor que aquelas populações vão tendo algum contacto com pessoas do "outro mundo"?

Tirando certos casos, não sou por esse tipo de boicotes. Por exemplo nunca comi no McDonalds, mas não digo q não venha a acontecer...

 
At 1:23 da manhã, Anonymous hmbf said...

Eu prefiro pensar que o Parque Nacional Peneda-Gerês ainda existe.

 
At 10:56 da manhã, Blogger JPT said...

Meu caro, um grande abraco. As saudades que eu tinha desse elixir rejuvenescedor que e' o grande dito "multinacional americana" Bem haja, bem haja

 
At 11:03 da manhã, Anonymous hmbf said...

:)

o JPT sabe bem o que eu quero dizer. aliás, o artigo na wikipédia é esclarecedor: Ford Motor Company is an American multinational corporation and the world's third largest automaker based on worldwide vehicle sales. (http://en.wikipedia.org/wiki/Ford_Motor_Company)

:)

mas tem a sua graça.

 
At 10:04 da manhã, Blogger JPT said...

claro que tem graca. Abraco

 

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