11.1.08

(Chuva)


A água dilui a consciência, gota a gota
encharca as imagens, agitam-se os seus reflexos,
tremem apenas um instante sobre a ferida. Nunca
acabará a chuva. Na memória chove,
volto a ver os charcos da infância, uma manta
encharcada sobre vagas cabeças, e um rosto
muito fugaz de mulher. Sempre esteve a chover,
os pássaros fugitivos procuravam aquecer-se
no nosso sangue. Aquela boca de tépida lua
emudecida e fria, sobre a erva húmida…
Onde leva a água essas sementes?, em que mar
desaguam?, em que mãe germinam?, acaso
a alma é terra e, logo, já madura, frutificam
sob o tremor da memória? Tocar o mundo
com as nossas mãos cegas, e logo, na recordação,
outro mundo renasce mais intenso. Aquela
mão pousada sobre o tempo, aquela fronte
com o seu gesto de argila, e este turvo afã
do homem em levantar a sua casa destruída
sob a tempestade, esta inquietação de abrir
nas ondas de todos os regatos a entranha
acesa do musgo. Sim, em que oceano,
em que leito se vertem as palavras?, que cais
abrigam os seus barcos? O céu é água parada,
e o pó, e os vestígios que espelham e abrasam
na sua luz a consciência. Todos náufragos sob
igual aguaceiro, peregrinos do sonho,
crescendo sob o peito do tempo, sustendo-nos
sobre a mão incerta de um deus que nos ignora.


Tradução de Amadeu Baptista.

Miguel Florián

Miguel Florián nasceu em Ocaña, Toledo, no ano de 1953. Licenciou-se em Filosofia Pura, dedicando-se, posteriormente, ao ensino. Crítico literário e poeta, colaborou em várias publicações colectivas. Traduziu diversos poetas franceses e portugueses. Começou a publicar em 1992, com o volume Los mares, las memorias. Desde então, vários prémios foram atribuídos a obras suas. O poema que aqui reproduzimos apareceu no n.º 9 dos Cadernos de Poesia Hífen.

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