28.9.08

APRENDER A CONTAR #12

O ALMOFADÃO DE PENAS

A sua lua-de-mel foi um longo arrepio. Loura, angelical e tímida, o duro carácter do seu marido gelou as suas sonhadas criancices de noiva. Ela amava-o muito, no entanto, por vezes sentia um ligeiro estremecimento quando, ao passear juntos, de noite, pela rua, deitava um olhar furtivo à elevada estatura de Jordán, mudo há mais de uma hora. Por sua parte, ele amava-a profundamente, sem lho dar a conhecer.
Durante três meses — tinham-se casado em Abril — viveram uma felicidade especial.
Sem dúvida, ela teria desejado menos severidade nesse rígido céu de amor, uma mais expansiva e incauta ternura; mas o impassível semblante de seu marido continha-a sempre.
A casa em que viviam influenciava um pouco os seus estremecimentos. A brancura do silencioso pátio — frisos, colunas e estátuas de mármore — produzia uma outonal impressão de palácio encantado. Dentro, o brilho glaciar do estuque, sem a mais leve fresta nas altas paredes, acentuava aquela sensação de desaprazível frio. Ao ir de uma sala para outra, os passos ecoavam em toda a casa, como se um longo abandono tivesse sensibilizado a sua ressonância.
Nesse estranho ninho de amor, foi onde Alicia passou todo o Outono. Não obstante, tinha acabado por deitar um véu sobre os seus antigos sonhos e continuava a viver adormecida na casa hostil, sem querer pensar em nada, até que o marido chegava.
Não é de estranhar que emagrecesse. Teve um ligeiro ataque de influenza que se arrastou insidiosamente, dias e dias; Alicia nunca mais se recompunha. Por fim, numa tarde pôde sair ao jardim apoiada no braço do seu marido. Olhava indiferente para um e para outro lado. De súbito, Jordán, com uma profunda ternura, passou-lhe lentamente a mão pela cabeça e Alicia começou imediatamente a soluçar, lançando-lhe os braços ao pescoço. Chorou longamente todo o seu calado pavor, redobrando as lágrimas à menor tentativa de carícias. Depois os soluços foram diminuindo, mas ainda ficou longo tempo escondida no seu pescoço, sem se mexer nem pronunciar palavra.
Esse foi o último dia em que Alicia esteve levantada. No dia seguinte amanheceu esvaecida. O médico de Jordán examinou-a com extrema atenção, ordenando-lhe cama e descanso absoluto.
— Não sei — disse o médico a Jordán, na porta da rua e ainda em voz baixa. — Está extremamente débil e eu não encontro nenhuma razão para isso. Sem vómitos, nada... Se amanhã acordar como hoje, chame-me imediatamente.
No outro dia Alicia estava pior. Houve consulta. Constatou-se uma anemia com desenlace agudíssimo, completamente inexplicável. Alicia não voltou a desmaiar, mas corria de forma visível para a morte. Durante todo o dia, o quarto tinha as luzes acesas e em total silêncio. Passavam-se horas sem que se ouvisse o menor ruído. Alicia dormitava. Jordán vivia na sala, também com todas as luzes acesas. Passeava sem cessar de um extremo ao outro da sala, com incansável obstinação. A carpete abafava os seus passos. De vez em quando entrava no quarto e prosseguia o seu mudo vaivém ao longo da cama, detendo-se um momento em cada extremidade a observar a sua mulher.
Alicia rapidamente começou a te alucinações, a princípio confusas e flutuantes, que depois desceram ao nível do chão. A jovem, com os olhos desmesuradamente abertos, não fazia outra coisa senão olhar para os tapetes a ambos os lados da cabeceira da cama. De repente, uma noite ficou assim, a olhar fixamente. Pouco depois abriu a boca para gritar e as suas narinas e lábios encheram-se de pérolas de suor.
— Jordán! Jordán! — clamou, rígida de espanto, sem deixar de olhar para o tapete.
Jordán correu para o quarto e, ao vê-lo aparecer, Alicia lançou um grito de horror.
— Sou eu, Alicia, sou eu!
Alicia olhou-o desorientada, olhou para o tapete, voltou a olhar para o marido e depois de algum tempo de estupefacta confrontação, serenou-se. Sorriu e tomou entre as suas a mão do marido, acariciando-a durante meia hora, a tremer.
Entre as suas alucinações mais teimosas, havia uma em que um antropóide, apoiado sobre os dedos, no tapete, tinha fixos nela os seus olhos.
Os médicos voltaram inutilmente. Havia ali, à frente deles, uma vida que se acabava, dessangrando-se dia a dia, hora a hora, sem que se percebesse absolutamente como. Na última consulta, Alicia jazia em estado de estupor, enquanto eles lhe tomavam o pulso inerte, ora um ora outro. Observaram-na longo tempo em silêncio, e a seguir foram para a sala de jantar.
— Hum... — aquele que era o seu médico encolheu os ombros desalentado. — É um caso sério... Há pouco que fazer.
— Só me faltava isso! — bufou Jordán. E bateu bruscamente com os nós dos dedos na mesa.
Alicia foi-se extinguindo no seu delírio de anemia, mais grave à tarde, mas que perdia a intensidade nas primeiras horas. Durante o dia a sua doença não avançava, mas todas as manhãs acordava lívida, quase em síncope. Era como se a vida abalasse unicamente à noite em novas golfadas de sangue. Ao acordar, tinha sempre a sensação de estar atirada na cama, com um milhão de quilos em cima. Desde o terceiro dia que este abatimento não a abandonou mais. Quase não podia mexer a cabeça. Não quis que lhe tocassem na cama, nem que lhe arranjassem o almofadão. Os seus terrores crepusculares tinham agora a forma de monstros que se arrastavam até à cama e trepavam com dificuldade pela colcha.
Depois perdeu o conhecimento. Nos dois últimos dias delirou sem cessar, a meia voz. As luzes continuavam funebremente acesas no quarto e na sala. No agónico silêncio da casa não se ouvia senão o monótono delírio que saía da cama e o surdo retumbar dos eternos passos de Jordán.
Por fim, Alicia morreu. Depois, quando a criada entrou, para desfazer a cama, já vazia, olhou admirada para o almofadão.
— Senhor! — chamou Jordán em voz baixa. — No almofadão há manchas que parecem de sangue.
Jordán aproximou-se rapidamente e dobrou-se sobre ele. Efectivamente, sobre a fronha, de ambos os lados da cova deixada pela cabeça de Alicia, viam-se pequenas manchas escuras.
— Parecem picadas — murmurou a criada depois de um momento de imóvel observação.
— Levante-o para a luz — disse-lhe Jordán.
A criada levantou-o, mas imediatamente o deixou cair e ficou a olhá-lo, lívida e a tremer. Sem saber porquê, Jordán sentiu que os cabelos se lhe eriçavam.
— O que é? — murmurou com voz rouca.
— Pesa muito — articulou a criada, sem deixar de tremer.
Jordán levantou-o; pesava extraordinariamente. Saíram com ele e, sobre a mesa da sala de jantar, Jordán cortou a fronha e o invólucro com um só golpe. As penas superiores voaram e a criada deu um grito de horror, com a boca toda aberta, levando as mãos crispadas às têmporas. No fundo, entre as penas, mexendo lentamente as peludas patas, havia um animal monstruoso, uma bola vivente e viscosa. Estava tão inchado que apenas se lhe via a boca.
Noite após noite, desde que Alicia caíra à cama, o bicho tinha aplicado sigilosamente a sua boca — ou melhor, a sua tromba — às têmporas dela, chupando-lhe o sangue. A picada era quase imperceptível. Sem dúvida que ao princípio, a remoção diária do almofadão tinha impedido o seu desenvolvimento; mas desde que a jovem deixou de se poder mexer, a sucção foi vertiginosa. Em cinco dias, em cinco noites, tinha esvaziado Alicia.
Estes parasitas das aves, diminutos no seu meio habitual, em certas condições chegam a adquirir proporções enormes. O sangue humano parece que lhes é particularmente favorável e não é raro encontrá-los em almofadões de penas.

Horacio Quiroga (1878-1937), Contos de Amor, Loucura e Morte, trad. Ana Santos, Cavalo de Ferro, pp. 61-64, Fevereiro de 2003.

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