25.9.08

APRENDER A CONTAR #9

OS PENSAMENTOS DE UM VELHO ARTISTA

Envelheceu o escritor. Tem oitenta anos. Está atordoado pela glória das suas obras em prosa e dos seus poemas, e pela velhice. A sua muita confiança interior e a aprovação das pessoas contribuem para embotar-lhe o juízo. Mas não o embotam inteiramente. Observa que sob a admiração oficial de muitos, existe uma leve frieza de poucos. As suas obras não são tão admiradas por alguns dos jovens. A escola deles não é a sua escola, e o estilo deles não é o seu estilo. Pensam e sobretudo escrevem de modo diferente. O velho artista lê e estuda conscienciosamente as obras deles e acha-as abaixo das suas, e considera a nova escola inferior, pelo menos não superior, à sua. Julga que se quisesse, poderia escrever desse modo. Mas, por certo, não imediatamente. Precisaria de 8, 10 anos para entrar no espírito do novo estilo — e agora aproxima-se o tempo de morrer.
Há momentos em que despreza as novidades. Que importância têm? Um pequeno número de jovens que não gosta tanto dele! São, porém, milhões os que o admiram. Mas sente que diz sofismas a si próprio. Ele também começara dessa maneira. Era um desses mais ou menos cinquenta jovens que fizeram nova escola, escreveram num estilo diferente e mudaram a opinião de milhões que honravam alguns dos antepassados e alguns velhos artistas. Os últimos facilitaram muito a vitória dele com a sua morte. Disso deduz o velho escritor que é coisa vã fazer arte com as suas vogas que mudam frequentemente. Por certo também a obra destes jovens será provisória como a sua — mas isso não o consola.
Na evolução dos seus pensamentos e elucubrações, observa com amargura que o Entusiasmo e o Poético de cada escritor, quando envelhecem 40 ou 50 anos, começam a parecer bizarros ou ridículos. Talvez — isto é uma esperança — deixem de ser bizarros ou ridículos quando envelhecem 150 ou 200 anos — quando, em vez de serem démodés, são antigos.
E também dele se apodera alguma dúvida sobre o valor absoluto ou abstracto de muitas das suas críticas. Aqueles escritores que criticava quando era jovem e a quem substituiu, talvez os criticasse porque não os entendia — não por falta de génio, mas provavelmente porque a força do entendimento se corrompe pelas conjunturas de uma época ou se calhar pelas vogas. O exterior da sua crítica era em tudo parecido com a crítica que lhe fazem os jovens de hoje. Não mudou de opinião — pelo menos na maioria dos casos. A maior parte daqueles velhos artistas critica-a hoje como há 60 anos. Mas isso por certo não é grande prova de que a crítica que lhes faz seja correcta. É prova de que, psiquicamente, é o mesmo jovem de então.

Konstandinos Kavafis, Poemas e Prosas, trad. Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis, Relógio D’Água, pp. 142-143, 1994.

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