21.12.07

RECEITA PARA UM NATAL


Primeiro, ficar parado
durante um momento, de pé
ou sentado, numa sala ou mesmo
noutra dependência do lar.
Depois preparar
os olhos, as mãos, a memória
e outros utensílios indispensáveis. A seguir
começar a reunir
coisas, por ordem bem do interior
do coração e do pensamento:
a ternura dos avós, uma mancheia;
rostos de primos distantes, uma pitada;
sons de sinos ao longe, quanto baste;
a recordação duma rua, uns bocadinhos
um velho livro de quadradinhos
duas angústia mais tardias, alguns restos de azevias,
a lembrança de vizinhos ainda vivos mas ausentes
e de uns já passados.
Quatro beijos de seres amados ou de parentes
um cachecol de boa lã cinzenta aos quadrados
e um pouco de azeite puro e fresco
igual ao que a mãe usava noutro tempo saudoso.
Mexe-se bem, leva-se ao forno
e fica pronto e saboroso

- mesmo que, nostálgica, se solte uma pequena lágrima.

Nicolau Saião
do livro “Os olhares perdidos”

2 Comments:

At 12:38 da manhã, Blogger manuel a. domingos said...

muito bom!
estes poemas que andas a publicar do autor são todos muito bons.

 
At 2:05 da manhã, Blogger Ultraperiférico said...

Faltou explicar se a receita deve ser servida antes, durante ou depois de invadir os shoppings no obediente cumprimento do dever de despachar freneticamente os últimos cêntimos do subsídio de Natal. Tirando isso, a receita não parece má de todo.

[Personagem de Fricção].

 

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