1.10.08

APRENDER A CONTAR #15

ENQUANTO OS OUTROS DORMEM

O homem acordou com a estridência aflita da campainha da porta. Deu um pontapé nos cobertores e ergueu-se logo com o coração desperto de quem há muito esperava por aquele momento espavorido. E às apalpadelas atravessou o corredor para acender a lâmpada do patamar.
Só depois abriu a porta, alarmado.
Na sua frente surgiu um ser bojudo, enfiado numa farda de debrum vermelho fora de moda, com o terçado de estilo antigo suspenso do cinturão.
— Que deseja? — perguntou o homem a fingir-se mais estremunhado para ocultar o pânico.
O guarda-nocturno tartamudeou, mesureiro:
— O meu colega da área próxima pediu-me que viesse preveni-lo de que o seu paizinho se encontra muito doente.
E acrescentou com ternura agressiva:
— Não percebo porque o senhor não tem telefone.
— Hã? Hã? — gaguejou o homem, agora a aproveitar a cólera de angústia que o invadiu, para não ouvir a voz secreta que o perseguia desde criança: «O meu pai vai morrer! O meu pai vai morrer!» «Sim», pensava, «não tenho telefone.» Exactamente por isso. De propósito. Para impedir que o avisassem da agonia do pai (durante anos e anos viveu sepulto nesse terror) e poder assim furtar-se covardemente ao último adeus daqueles grandes olhos de lágrimas vivas. — Obrigado, obrigado. Boas noites.
E a exagerar a dor, para provar a si mesmo que sofria, voltou para o quarto — apenas um farrapo de pensamento na sombra.
Então, principiou a vestir-se com rapidez raivosa. «Depressa! depressa!» Calças, camisa, casaco, gravata para quê?, e não tardou a sentir-se transportado de treva em treva pelas escadas até à rua.
Nevoeiro. É extraordinário como ele ia ali a correr naquela cidade construída de gotas de água viscosa, o céu baixo e opaco, as ruas com filas de halos esborratados por cima dos candeeiros. E aquela impressão tumultuosa de se ter perdido num longo túnel de ecos revoltados...
Por fim um automóvel lançou um jorro de luz húmida e o pobre homem divisou, ao dobrar da esquina, um magote de noctívagos a olharem para o ar, perto do muro baço de um jardim onde um cão latia lancinante. «Um táxi! Um táxi! Não há meio de aparecer um táxi!», dizia dentro de si, para se iludir, enquanto se juntava ao grupo, de cabeça empinada como os outros, em busca do que ninguém conseguia enxergar no nevoeiro.
— É um gatinho que amarinhou o pau de bandeira com medo do cão — gemia aos gritos uma mulher com curvas amolecidas de velha cortesã de horas mortas. — Como é pequenino, aguenta-se mal, e vai cair. Vai cair, coitadinho. Chamem os bombeiros!
A dor absurda da desgraçada furava a noite de indignação histérica, aliás bem real em todos os espectadores do destino trágico do gato, em que se distinguia, no outro lado do muro, uma vozinha gelada (da dona do bicho, talvez) aos berros:
— Ai que ele cai! Chamem os bombeiros para o salvarem! Chamem os bombeiros!
Entretanto, ao lado do homem que esperava pelo táxi, para retardar a chegada a casa do pai agonizante, deteve-se um velho de olhos turvos, punhos raivosos, desejo de se dissolver na neblina... Sim. Agora tinha a certeza. Absoluta. A mulher atraiçoava-o. Vira-a com o outro, de mãos dadas, os infames! E, irado, apostrofou o grupo:
— Telefonem aos bombeiros! Não deixem morrer o pobre animal!
Que coisa estranha!, ter o pai à morte e sentir-se assim tão vazio e indiferente. Por isso, nos sonhos secretos sempre desejara que o pai desaparecesse misteriosamente durante uma das suas viagens, para o pouparem àquele momento terrível — mas inevitável, INEVITÁVEL!
— Chamem os bombeiros!
Aliás, bem lá do fundo da humilhação turva do velho traído subia a alegria feroz de se saber livre... Finalmente liberto da dúvida que o devorava há meses com dentes de lama.
E repentinamente todas aquelas dores se fundiram num grito único final que acompanhou a queda do gato, esmigalhado no solo.
— Chamem os bombeiros!
O pai na agonia... A traidora de mãos dadas com o miserável... Uma mancha sangrenta no passeio.
O táxi não havia meio de aparecer.
(Os outros dormiam.)

José Gomes Ferreira (1900-1985), O Irreal Quotidiano, Círculo de Leitores, pp. 72-74, Maio de 2004.


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