2.9.07

AS TUAS COSTAS

Saem de uma toalha de banho, o luxo mais elementar de um
hotel em Mohàcs.

Nenhum esforço lhes pode dar um começo mais adequado, nem
mesmo a linha da raiz que a natureza lhes concedeu se
equipara a este gesto de puro acaso.

Toda a intenção se vê contrariada pela evidência da sua
conjunção com um designer têxtil sem pretensões.

Simultaneamente, nasce a seguinte ilusão:

Da orla enrolada da toalha, agora macia, depois dos
primeiros contactos inteiriçados, emerge e cresce o fóssil
de uma flor inominável.

O seu caule nodoso aninha-se numa concavidade baixa, dobra-
-se, envergonhado na consciência da sua beleza.

Acompanhando-o, uma elevação longitudinal forma de ambos os
lados a zona mais destacada das folhas.

Resistindo a um reconhecimento mais exacto, ela remete a sua
perífrase para o recurso a formas mais concretas.

As suas folhas encostam-se então como um planalto a uma
depressão que começa a elevar-se, arqueiam-se como as folhas
de salva, para finalmente se afundarem de novo em formações
rochosas mais macias.

Numa linha curva levemente animada, tudo isto se encaminha
de ambos os lados para o caule, que engrossa aí, formando um
receptáculo agomilado.

O pescoço, porém, só pelo perfume partilha da ilusão saída
da toalha de banho de um hotel em Mohàcs.


Tradução de João Barrento.

Michael Donhauser

Michael Donhauser nasceu em Vaduz, no Liechtenstein, em 1956. Vive em Viena desde 1976. Estudou literaturas germânicas e românicas e publicou vários volumes de poesia e prosa. Traduziu poetas como Arthur Rimbaud, Francis Ponge e Michael Hamburger, tendo-lhe sido atribuído, em 1990, o Manuskripte Prize. Posteriormente, venceu o Christine Lavant Poetry Prize (1994) e o Christian Wagner Prize (2002). A sua obra iniciou-se em 1986, com o livro Der Holunder.

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