26.5.08

O edita por escrito

3.

Não cheguei a tempo da sessão de abertura do Edita 08.
Se fosse uma sessão de cinema ou um concerto e não tivesse comprado bilhete, recusar-me-ia a entrar no recinto.
Faço questão de acompanhar o todo de tudo o que decido tomar parte. Mas a própria vida não é assim…
Tanto assim que ninguém assistiu ao seu próprio nascimento. Poucos se lembram de quando abriram os olhos para a vida. Muitos não se lembram por esse dia ainda estar para vir.
Já que não me foi permitido assistir à minha vida desde o início, há que estar lúcido até ao último dia, para ver quem me acompanhará até à estação de partida.
Nunca deixarei de ter esse desejo. Quando era pequeno desejava partir uma perna, para ver quem verdadeiramente gostava de mim e que me assinaria no gesso.
Mas nunca consegui partir uma perna. Nem partir uma perna a alguém.

*

Adiante que se fazia tarde.
Foi uma confusão para encontrar o albergue. E outra confusão para que a recepcionista encontrasse o meu nome entre os convidados.
No quarto, afinal de contas, não havia a confusão que eu esperava. O quarto afinal não era camarata, mas sim individual. Confusões, a haver, só na casa de banho que compartia com um tal de Juan e que nunca conheci, por talvez se tratar do Don Juan e nunca ter dormido na sua cama, ou talvez um pseudo Don Juan, pois o verdadeiro donjuanista vai com tudo e com todas e tampouco me sujeitou à sua tentação…
O albergue era uma casa rural e caiada, idêntica à dos Algarves que eu conhecia tão mal como conhecia as Andaluzias. Do pátio, parcialmente coberto para proteger do sol que se levantava ao meio-dia e não caía até às oito da tarde, ouvia-se e cheirava-se e quase via-se o mar.

*

Chegado ao Teatro del Mar, a recepcionista encaminhou-me em passo de cerimónia para o auditório.
No palco, discursava um idiota que se julgava inteligente por ter chegado à conclusão que as novas tecnologias não representavam uma ameaça para a galáxia Guttenberg, se as usássemos como uma ferramenta auxiliar. Seguiu-se uma mexicana que falava a medo e só ganhava alguma convicção quando apelava para que os presentes comprassem a merda da revista dela para ajudar uns indígenas que estavam em vias de extinção.
Fiquei até ao fim dos discursos, com a ingenuidade do estreante que desconhece que o público não pode intervir com perguntas ou comentários. Queria propor à mexicana, a título de exemplo, que fomentasse a fornicação entre os indígenas, em vez de nos foder a cabeça com converseta.
Saí do auditório e fui apresentado ao organizador do Edita, o Uberto Stabile, que me informou que eu era o primeiro português a chegar ao evento e me apontou para a estantuguesa vazia onde podia colocar todo o catálogo da Canto Escuro.
Antes de jantar, dei uma volta por Punta Umbria. Lembrei-me que precisamente há um ano estava a voar de Estocolmo para Dublin, a atravessar céus nunca antes atravessados por mim.

*

Procurei um restaurante típico e barato, que estivesse a transmitir o Chelsea-Liverpool e não estivesse ninguém do Edita.
Acabei por entrar num que estava a passar o jogo, na verdade todos estavam, e que se revelou típico e barato porque dois valencianos pagaram-me parte da conta sem darem conta e até me fizeram estar-me nas tintas por estarem para o Edita.
Mais tarde, no Reflexos Bar, um dos valencianos fez a única perfomance que conseguiu fazer mais calar-me a mim e ao outro valenciano, ambos ao balcão, do que o coro de shius da plateia durante as demais perfomances.
Vítor Vicente
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1 Comments:

At 1:33 da tarde, Blogger etanol said...

Estou a apreciar estes teus apontamentos sobre as terras da Andaluzia e com muita curiosidade com o que vem a seguir :)
Maria João

 

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