5.12.08

APRENDER A CONTAR #54

O MONSTRO DE TRAPOS

Deixemos de parte os pormenores de como começara a guardar restos de pano. Talvez fosse pobre, e os restos as únicas coisas no orfanato que podia considerar suas. Talvez fosse rica e tivesse começado a juntá-los quando, a estudar num colégio privado para as elites, manchou um vestido preferido com Cabernet e recortou quadrados do tecido antes de deitar fora o resto. Não interessa quem ela era ao certo, nem como tinha começado.
O que interessa é o seguinte: Adorava colchas. Queria fazer uma.
Guardava os pedaços de tecido num armário. Ia-os coleccionando, quem sabe se pedindo e poupando, ou talvez comprando o que lhe chamasse a atenção.
Acumulou tecido. Tinha em consideração como cada cor ou desenho combinava com outros. Observou as colchas acabadas em casa de amigos e nas paredes de museus. Cada vez mais, os seus pensamentos eram dedicados às colchas que iria fazer.
Mas sempre que se preparava para coser as suas ideias, acontecia qualquer coisa. Tinha uma aventura amorosa, ou um bebé, ou um divórcio, ou outro bebé, ou um emprego, ou uma promoção, ou a morte de um familiar, ou um problema com a bebida, ou um acidente de automóvel, ou uma depressão suicida. Sempre que se preparava para começar a sua primeira colcha, a vida metia-se-lhe pela frente. Ou então apoiava a mão na porta do armário e sentia-se muito cansada, demasiado cansada para começar algo tão complicado como uma colcha.
No meio de tudo isto, envelheceu. E no meio de envelhecer, morreu.
No dia em que morreu, abriu-se a porta do armário. O monte de trapos caiu e espalhou-se pelo corredor. Abriu-se a porta de casa. Os trapos saíram à rua.
Como? É possível que se tenham arrastado ou deslizado pelo chão. Ninguém viu o monte mexer-se. Ninguém vê. Mas ele mexe-se. Aparece num sítio e depois no outro.
Um dia, o monte de trapos está no passeio junto à estação dos autocarros. Um homem acabado de sair da viatura vê o monte, põe-se a pensar, e entra na estação para comprar um bilhete para a outra cidade mais a norte.
Mais tarde, uma mãe que observa o filho a brincar no parque julga ver qualquer coisa nos arbustos. Aproxima-se para ver melhor. Não passa de um monte de trapos sujos e esfarrapados. Ainda assim, pega no bebé ao colo e afasta-se a correr.
No deserto, um artista pinta uma paisagem contendo o monstro de trapos. O monstro é escuro, indistinto e bem podia ser outro dos pedregulhos. Mas não é. O quadro não vende. Mesmo depois de o artista pintar por cima do monte de trapos para aí colocar um pedregulho ― definitivamente um pedregulho ― as pessoas olham para o quadro e pressentem que algures ali se esconde algo terrível.

Bruce Holland Rogers (1958), in Pequenos Mistérios, trad. Luís Rodrigues, pp. 84-85, Livros de Areia, Novembro de 2007.

#1 / #2 / #3 / #4 / #5 / #6 / #7 / #8 / #9 / #10 / #11 / #12 / #13 / #14 / #15 / #16 / #17 / #18 / #19 / #20 / #21 / #22 / #23 / #24 / #25 / #26 / #27 / #28 / #29 / #30 / #31 / #32 / #33 / #34 / #35 / #36 / #37 / #38 / #39 / #40 / #41 / #42 / #43 / #44 / #45 / #46 / #47 / #48 / #49 / #50 / #51 / #52 / #53

3 Comments:

At 12:48 da tarde, Blogger Janaina Amado said...

Que texto fantástico (esta foi terrível)! Não conheço a literatura de Bruce Holland Rogers. Creio que não foi publicado no Brasil, não o encontrei nas buscas. Vou atrás da edição portuguesa, obrigada pela indicação.

 
At 11:12 da manhã, Blogger hmbf said...

O livro em causa é muito bom. Sugiro uma visita ao sítio do autor: http://www.shortshortshort.com/ .

 
At 8:07 da tarde, Anonymous PequenoHorizonte said...

A qualidade deste blog não é susceptivel de ser colocada em dúvida. Gostei bastante.

 

Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home