25.12.08

APRENDER A CONTAR #56

DIÁLOGO COM UM FOGÃO

Apresentou-se-me: gordo, largo, a grande bocarra cheia de fogo.
«O meu nome e Franklin», disse ele.
«És então Benjamin Franklin?», perguntei.
«Não, Franklin somente. Ou Francolino. Sou um fogão italiano, uma invenção excelente. É certo que não aqueço lá muito bem...»
«Sim», repliquei, «isso já é do meu conhecimento. Todos os fogões com belos nomes são invenções excelentes, mas aquecem medianamente. Gosto muito deles; são dignos de admiração. Mas diz lá, Franklin, como sucede isso que um fogão italiano tem um nome americano? Não é estranho?»
«Estranho? Não, esta é uma das leis secretas, sabes? Uma lei secreta das interrelações e das complementaridades, a natureza está repleta de leis semelhantes. Os povos cobardes têm canções nas quais a coragem é exaltada. Os povos desprovidos de amor têm peças de teatro nas quais é exaltado o amor. E assim se passa igualmente connosco, os fogões. Geralmente, um fogão italiano tem um nome americano, tal como um fogão alemão tem, usualmente, um nome grego. São alemães, e crê no que te digo, em nada aquecem melhor que nós, mas chamam-se Heureca, ou Fénix, ou Despedida de Heitor. Liberta grandes recordações. E, assim, também eu me chamo Franklin. Sou um fogão, mas poderia de igual modo ser um homem de Estado. Tenho uma grande boca, gasto muito, aqueço pouco, cuspo fumo por um tubo, tenho um bom nome, e liberto grandes recordações. É o que sucede comigo.»
«Seguramente», disse eu, «guardo grande respeito por vossa excelência. E pois que é um fogão italiano, certamente se poderão igualmente, assar castanhas dentro de si, não é verdade?»
«Isso é possível, na verdade. É um passatempo. Há muito quem goste disso. Outros também fazem versos ou jogam xadrez. Decerto se poderão assar castanhas no meu interior, por que não? Na verdade, queimam-se, no entanto o passatempo lá está. Os homens gostam de fazer passar o tempo, e eu sou uma obra humana. De facto, cumprimos a nossa obrigação, nós, os monumentos, nem mais, nem menos.»
«Um momento! “Monumentos”, é como disse? Considera-se um monumento?»
«Mas, certamente. Todos nós somos monumentos. Nós, os produtos de indústria, somos todos monumentos a uma qualidade ou uma virtude humana, uma qualidade rara na natureza, e que somente nos homens se encontra em elevado grau.»
«E que qualidade é essa, se faz favor?»
«O sentido para o inoportuno. Eu, juntamente com muitos outros, sou um monumento a este sentido. Chamo-me Franklin, sou um fogão, tenho uma enorme boca que devora a madeira, e um grande tubo através do qual o calor encontra a via mais rápida para o exterior. Tenho ainda ornamentos, e dois obturadores que se podem abrir e fechar. Também isto é um belo passatempo. Pode-se brincar com eles como com uma flauta.»
«Estou encantado, Franklin. Encontro-me ante o fogão mais inteligente que jamais vi. Mas, afinal, como é: de facto, é um fogão, ou um monumento?»
«Quantas perguntas! Não é do seu conhecimento que o homem é o único ser que associa às coisas um “sentido”? Para toda a natureza, o carvalho é o carvalho, o vento é o vento, o fogo é o fogo. Mas, para os homens, tudo se passa de forma diferente, tudo está cheio de sentidos, e de interrelações! Tudo para ele se torna sagrado, tudo é simbólico. Um assassínio é um acto heróico, uma epidemia o dedo de Deus, uma guerra é evolução. Como poderia, então, um fogão ser somente um fogão?! Não, ele é igualmente símbolo, é monumento, é um proclamador. E é por isto que é amado, e lhe tributam respeito. É esta a razão por que possui ornamentos e obturadores. É esta a razão por que ele põe, no pouco que aquece, a sua única finalidade. Esta a razão por que se chama Franklin.»

(1919)

Hermann Hesse, Contos Maravilhosos, trad. Isabel de Almeida e Sousa, Difel, pp. 213-215, 1990.

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