9.2.09

APRENDER A CONTAR #64

DE PROFUNDIS

Um caminhante que passava à margem dumas ruínas foi cair num velho poço esgotado pela estiagem. Então, sepultado num matouço de camarinheiras que cresciam no fundo meio arenoso, e respirando o ar vaporizado que se encontra na proximidade das nascentes, pôs-se a considerar a situação. As pedras, veiadas de ferro, estavam deslocadas, e nas brechas enraizavam-se os juncos e as plantas dormideiras. Uma sucessão de sombras ondulava na borda do poço, como vultos que hesitam e se entrecruzam.
― Olhem cá! ― disse, debaixo, o tal, que continuava prostrado, a modos de protesto. ― Tenho tão pouco tempo para esperar! Vamos, tirem-me depressa daqui!
Ninguém lhe respondeu.
― Salvai-me! ― gritou, com voz desvairada. Ergueu os braços e pôs-se a implorar auxílio e a rogar piedade, insinuando promessas, votando a sua alma às forças que o libertassem daquele antro silencioso. Ninguém lhe respondia. E ele passou a injuriar as sombras que, acima de si, ora se distendiam, ora se aglomeravam, como que trocando alvitres e segredos, dispersando-se em seguida em saltos bruscos, para logo voltarem, dissimuladas. A voz reboava na profundidade do poço. Lagartixas, que dormitavam no limiar das suas luras, dispararam num rabiar vertiginoso, fazendo desprender torrões de lama seca.
― Ainda me apedrejais, raça de cães! Quanto tempo tenho de esperar para que se retirem e para que me esqueçam? Até quando tenho eu de esperar?!
Tudo estava calmo. Teiazinhas cintilavam, tecidas em pentágono entre os juncos. As sombras dos espinheiros, de recorte fugidio e quase humano, permaneciam sobre o bocal do poço, com o seu movimento instável provocado pela aragem.

Agustina Bessa-Luís (1922), in Contos Impopulares, Guimarães, pp. 47-48, Fevereiro 2004.

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