29.2.08

Fragmento #59 – Breve encontro

Quando era professora no secundário apaixonei-me por um aluno. Não estejam já a imaginar coisas, foi uma verdadeira paixão platónica. Tudo começou com um momento mágico: numa turma do 9ºano de educação visual com cerca de 30 alunos, na Escola Secundária Rainha D. Amélia que já não existe, devia ser a terceira aula, tinha como objectivo fazer uma introdução à perspectiva. Então, pedi para desenharem a vista aérea de uma cidade, explicando-lhes o que é uma planta e um alçado a partir dos desenhos que faziam; de seguida, pedi-lhes para desenharem outra vista da cidade, mas avisei-os que era mais simples utilizarem apenas rectângulos e quadrados, para a poderem construir, posteriormente, em perspectiva – a ilusão óptica que permite representar o espaço tridimensional no plano da folha. Ao passar perto da carteira de um aluno estrangeiro, soube depois que era romeno, ouvi o seguinte:
- Professora, eu não desenho prédios direitos, sou um modernista como o Bartok!
Estava à espera de tudo, menos isto: Bartok?! Contei-lhe que cantava num coro de câmara, onde já tinha interpretado as suas quatro canções eslovacas; e que admirava profundamente a obra de Bartok, achava extraordinário o levantamento que ele tinha feito com Zoltan Kodály da música tradicional na Europa central, de como se tinha apropriado e inspirado nessa matéria ancestral. O rapaz ficou atarantado a olhar para mim, disse-me que a mãe era violinista, estava cá numa orquestra portuguesa e ele estudava piano. Contei-lhe que em Portugal também tínhamos um Bartok chamado Fernando Lopes-Graça, que investigou a nossa música tradicional com o Michel Giacometti e compôs peças maravilhosas a partir das nossas raízes. Deixei-o desenhar os prédios como queria, mas voltei a avisar que era difícil representá-los em perspectiva. Ele não se assustou, inventou prédios trapézios com janelas triangulares, elípticas ou semicirculares, uma cidade composta por formas irregulares, apesar de ser lento a fazer, sinal de inteligência e preguiça. Como a sua cidade era complexa, tive de lhe explicar como se representava com um ponto de fuga, deslocando-me à sua carteira, desenhando no meu bloco à mão levantada, assim ele viu como se unificava as partes num todo – mimetisando ou não, ele depois chegou lá no seu desenho e bem. Ele era um provocador nato, nunca produzia muito, mas o que fazia era excelente. Eu estimulava-o criando paralelos entre a música e as artes visuais, mantendo-o sempre debaixo de olho, porque distraía-se facilmente e era pouco amigo de trabalho. As professoras queixavam-se dele, achavam-no snobe, imagino as provocações que faria nas outras disciplinas. Dei apenas 3 meses de aulas àquela turma, fui-me embora antes do Natal, despedi-me deles cantando uma lieder de Mozart; ainda guardo uma fotocópia da cidade bartokiana desenhada por este romeno de 14 anos. Nunca mais nos vimos, mas acho que ele também não se esqueceu do nosso breve encontro.

Maria João

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #18

AEROPORTO DE PAPELÃO



O nosso desejo é tão claro como as palavras
«Nus, os homens mortos irão confundir-se
Com o homem no vento e na lua do poente».

Não nos tirem o aeroporto do centro da cidade.
O que vamos fazer com o vazio das tardes
de Domingo? Queremos continuar a ver os aviões
de nariz enfiado nas redes, ansiosos por assistir
a um choque aéreo com explosão de artificio
ali mesmo nas nossas barbas. O Anselmo sonha
com um avião a aterrar tarde demais,
espalhando-se ao cumprido sobre os olivais
ou a charneca, abreviando
os dias podres a uma porrada de gente.
As sobras feridas enfiando as caveiras
nas lentes das câmaras de filmar darão brilho
à degradação, entrando pelas antenas adentro,
caem num sofá de morte lenta.

Já não dá adrenalina, assistir ao tráfego
dos anjos nos céus da cidade, transportando
nas asas, corpos vindos dos hospitais da morte
à solta, ou das ambulâncias gastas e enferrujadas
de brincadeiras em becos sem saída.

Queremos assistir ao choque dum jato
com um alfaneque fugindo para terras do sul.
Ao aterrarem a pique no cais de embarque,
cheio de passageiros, com bilhete para
umas férias em África, as chamas
talvez lembrem outras perdas,
como o massacre no Quénia, enquanto
a norte se brinca com os gps. As notas

musicais, marginais, vindas dos subúrbios,
seguem na viagem banal e repetitiva do bobo
corcunda actuando para o rei e sua corte. Fogo
negro vem do camião cisterna que explodiu,
atingindo as bagagens dos passageiros, cheias
de armas brancas, balas, charutos Fidel, coca
nas escovas de dentes, fotocópias de economia
e algumas cartas de acidentes romanceiros.
E nós assistindo às cinzas negras levitando
entre gritos e o voo duma pardela.

Queremos as corridas no espaço aéreo
com apostas para ver quem fura os horários
estabelecidos e aterra primeiro no verso
«O receio da morte é a fonte da arte» e depois,
olhar os candeeiros e as mentes fundidas,
esperando o chek-in para a descolagem
do último voo, alimentador das correntes
do negócio do lixo legal que vão rendendo
mansões, novos escravos. Até das entranhas
do corpo humano para experiências clinicas,
lucram uma cartada de acções na bolsa.

Aos pés duma vida de viagens adiadas
ardem ostraceiros e grifos por toda a pista
e para sempre. Por detrás duma doença
terminal explode um carro de bébé com bilhete
para o caos que já atravessou a porta.

Vá lá. Cedemos às soluções com + 1
qualquer lugar, desde que não tirem daqui
o nosso futuro circo de catástrofes urbanas.
Que chatas que seriam as tardes de domingo.

Quando se estuda os voos das aves
em chamas, podemos sentir com precisão
a dor que paira no fumo das labaredas,
provocadas pelo desequilíbrio mental
dos homens que acordam
com uma pena entre os lábios
escorrendo sangue sem alegria alguma.


Jorge Aguiar Oliveira

DISSIDÊNCIAS

Luís Filipe Menezes junta-se à luta da FENPROF, reunindo-se com os dirigentes desta organização sindical filiada na CGTP; Paulo Portas, líder do CDS/PP, contrata o advogado Garcia Pereira, líder do PCTP/MRPP, para o defender num caso contra o ministro da Agricultura.

28.2.08

Do debate

Vi o debate sobre a educação na segunda-feira passada, apesar de detestar o programa, sobretudo porque a jornalista é bruta e parece que está pronta a bater em toda a gente. Mas como o tema era as reformas na educação e já fui professora de educação visual, não podia deixar de ver. Acho a ministra da educação uma personagem sinistra, autoritária e intolerante. É assim que ela está a colocar as reformas em prática, e eu até não sou contra reformas, ela vai fazer o que quer, sobretudo gastar menos dinheiro com o ensino público e ter bons resultados estatísticos aparentes a curto prazo, é tudo política e vai ganhar sempre porque o novo sistema só irá promover a mediocridade e centralizar o poder do ministério – se existe uma instituição que impera é a mediocridade, a maior instituição na espécie humana. A classe dos professores sempre foi desunida e agora vão estar a espezinhar-se uns aos outros – aliás, como sempre o fizeram, mas agora podem fazê-lo com outros requintes. Os professores que dão melhores notas serão os melhores professores, símbolos de um sucesso aparente, têm de passar alunos, mesmo que eles não saibam interpretar um texto, ou até mesmo ler – uma realidade que já impera nas nossas escolas, sempre ouvi os professores que dão boas notas dizerem em voz alta: eu não tenho problemas com os alunos! Eu costumava dizer nas reuniões que não tinha problemas com os alunos, os alunos é que eram problemáticos. Os professores serão transformados no futuro em entertainers dos alunos no ensino público, são mal pagos para os entreterem na escola, manterem-nos lá cada vez mais tempo, tentar convencê-los de que a escola é um sítio giro; ensinar não será a prioridade, têm de aparentar sim que está tudo bem e passá-los com os bons resultados que eles não têm; e agora, cada escola tem um patrão com o poder de escolher quem está abaixo na direcção, estou a ver as (os) professoras (es) incompetentes que não sabem dar aulas, que nunca se deram ao trabalho de ensinar e por isso foram para os conselhos executivos, a serem directores-polícias de todo o resto da escola; e nos exames nacionais vão ganhar cada vez mais os colégios privados nos resultados, aí os alunos vão ter bons resultados de certeza, a elite já existe, o desfasamento vai ser cada vez maior, o ensino público vai ser uma merda, as boas escolas públicas que têm resistido contra tudo e todos vão acabar e no ensino público só vai haver professores maus, e os alunos que não têm outras hipóteses, porque os pais não têm dinheiro. Quem gosta e quer ensinar está fodido, e os bons alunos do público também estarão fodidos! Eu se voltar a leccionar no ensino secundário, só o poderei fazer num colégio privado – alguém tem uma cunha? Até sou uma gaja classificada e vou preferir ganhar mal numa escola de elite, do que ser entertainer e mal paga no ensino público – com uma série de filhos da puta a fazerem pressão para eu dar boas notas para as estatísticas, a dizerem que não têm problemas, a omitirem os problemas que existem. Porque são tão estúpidos que só pensam em safar-se, não querem encarar o facto de estarem a ensinar populações de alunos problemáticos. Bom, mas eu também sou tão estúpida que deixei de dar aulas e vivo de biscates. Sim, porque o país tem problemas sociais muito graves, eu assim estou distante desses problemas, as cidades cresceram desordenadamente, os actuais alunos nos grandes centros urbanos são muito diversos, têm várias etnias, os professores não têm preparação para os ensinarem, existe muita miséria a todos os níveis! Como é que se ensina português a uma média de pessoas que a sua língua mãe é outra? E se não sabem interpretar um texto mesmo que a sua língua materna é o português? E o resto das disciplinas se eles não sabem interpretar um texto? São muitos os fenómenos sociais, económicos e culturais das nossas populações de alunos no ensino público que não se têm em conta, sobretudo nas periferias das grandes cidades, que são a maioria das escolas. Tudo começa com a actual avaliação dos alunos: na minha área, por exemplo, como se avalia um aluno que não faz nada, só causa distúrbios nas aulas, se puder bate-te e não te entrega desenhos nunca? E agora, nem vai às aulas? Deve-se passá-lo? Bom, quem leva porrada de alunos ou for morto deve ser por sua culpa, é um mau professor, mas por enquanto ainda não começaram a matar professores. Deparei-me com casos assim numa escola em Chelas, eu não tinha medo de os classificar com 1, porque não podia dar 0, apesar de os colegas me olharem de lado nas reuniões e me colocarem logo em causa – tinham medo de retaliações. Em sítios como Chelas e muitos outros nas periferias de outras grandes cidades do nosso país é que vai ser lindo. Se a avaliação dos alunos no público agora é o que é, como é que vai ser a dos professores? O panorama é triste, devia de facto ser efectuada uma grande reforma no ensino público. Começava-se pelas turmas, teriam metade dos alunos, em vez de 30, seriam 15 no máximo, aí já começava a haver hipóteses de ensinar tendo em conta que cada aluno é um indivíduo diferente. Depois eram os currículos, separavam-nos logo no 7º ano: em ensino técnico, com uma componente mais prática e o ensino corrente, uma grande percentagem aprendia logo uma profissão para ser inserido no mundo do trabalho após o 9º e o resto poderia seguir para a Universidade (como se faz na Alemanha). Foi o Sr. Presidente Cavaco Silva que acabou com o nosso ensino técnico – vieram os cursos da CEE, financiados, com os devidos desvios de fundos e sem qualquer aplicação prática ou resultados na nossa sociedade, para além de serem um biscate para a população mais nova na altura, podiam ganhar uns dinheirinhos. Mas uma reforma como eu a imagino custa imenso dinheiro, implica mais professores contratados e com uma formação diferente – nomeadamente, para o ensino técnico. E TINHAM DE REVER A AVALIAÇÃO DOS ALUNOS, com critérios claros para se avaliarem depois também os professores. E os alunos também avaliavam os professores e os professores que avaliavam os seus parceiros tinham de ter formação para isso e critérios claros para efectuarem as avaliações. O que se está a passar é uma tristeza. Vai haver um bigbrother nas escolas públicas, uuuuu, a pressionar os professores a darem bons resultados para as estatísticas, acho que de futuro vai haver um bigbrother em cada esquina mesmo, um representante do governo a ver se a coisa está como convém aparentemente. Espero não estar a ser pessimista e que tudo seja feito da melhor maneira e a ministra tenha bom senso. Ela desconhece a realidade das escolas nos grandes centros urbanos ou não quer ver a realidade da maioria das escolas públicas, com populações multiculturais que são um autêntico cocktail molotov. Eu acho que quando começarem a matar professores, não é um mero caso isolado de violência, ou um ou outro professor onde se coloque as culpas no próprio, dizendo que tinha mesmo cara para levar um estalo, ou era tão fraco que foi morto, eu acho que quando a violência imperar nas nossas escolas públicas, houver esfaqueamentos e sangue, vão ter de as fechar e pensarem em verdadeiras reformas no ensino que tenham a ver com as realidades socio-económicas do pais – aí vai ter de haver uma revolução à força!

Maria João

A BOLA NA CABEÇA

Purovic dedicou o golo Stojkovic. O golo é tão ridículo que Purovic perdeu uma boa oportunidade de ficar quieto. E, desse modo, arriscar-se a marcar um segundo golo.

O DEBATE

Na passada segunda-feira, a Ministra da Educação foi à TV pública debater-se com uma sala infestada de stôres convocados por e-mail e por sms. A Ministra, muito bem penteada e de lábios carminados por um batom meticulosamente distribuído pelas beiças, falou num tom maternalista sobre as medidas madrastas que tem vindo a patrocinar. Os stôres, quase invariavelmente com ar de stôres, iam rindo trocistamente das intervenções da Ministra. Também abanavam muito a cabeça, numa sinalética que ora indicava indignação ora denunciava insatisfação. Indignados e insatisfeitos, aplaudiam-se, porém, uns aos outros. Entendendo hoje os apupos à Ministra, fiquei sem entender o que aplaudiam uns aos outros. A primeira stôra a falar fez questão de sublinhar que não era comunista, para logo a seguir falar como um deles: «Obviamente acredito que todos os professores são bons». Pode alguém discutir o papel dos professores na educação partindo de premissas destas? Isto não apenas denota um cinismo insuportável, como arrisca resvalar na hipocrisia de sempre. É por estas e por outras como estas que eu nunca hei-de entender que tendo o Ministério da Educação denegrido tanto os professores, tendo esse mesmo Ministério contribuído tanto para a desacreditação dos professores, os professores continuem a ser, segundo as estatísticas, das classes profissionais mais bem vistas pelos portugueses. Das duas uma: ou o Ministério trabalha muito mal ou estas estatísticas são mais uma prova dos tão propagados analfabetismo e iliteracia portugueses. E os professores são todos bons.

27.2.08

75 ANOS

Estarei hoje em Rio Maior para falar sobre Ruy Belo. A sessão deverá ocorrer às 16:30, na Biblioteca Municipal, após a inauguração de uma exposição sobre o autor de Toda a Terra. Será também apresentado um prémio de poesia, atribuído pela CMRM, que terá Ruy Belo como patrono.

RUY BELO (27/FEVEREIRO/1933 - 8/AGOSTO/1978)



ROYAL LABEL BLACK

(a Ruy Belo)

Este homem procura as cores mais secas do nosso entendimento;
vai connosco até à rua; responde-nos
um cigarro primeiro, uma construção na areia, depois um ferro
a espetar nas dunas e no mar
enquanto o mar houver e a paz durar;
come connosco à nossa própria mesa; ama a nossa mulher
e experimenta o odor da nossa casa aonde os nossos filhos
lhe entram pelos joelhos, o cobrem de carícias, lhe atiram
a satisfeitíssima bola de brincarmos aos adultos quando é tarde
ou os dias apresentam um cariz de pouca chuva.

Divide o nosso frango, a frugal fruta, as sobras do almoço
e sai-nos portas dentro quando o pôr-do-sol, a solução do sol, o sol
das terras de portugal e das noites de madrid
dialoga connosco, connosco estabelece a nítida fronteira
entre aeroportos, casas – oh as casas – e a mulher que,
podendo ser a de um estivador, do camisola amarela, desse
irreverente basquetebolista que por um grande azar não é das nossas relações,
foi, é, será sempre a mulher
encontrada e perdida na poeira, nas arcas, nas infâncias multicoloridas
que parcimoniosamente nos excedem.

Procura, sim, procura as cores do nosso entendimento;
bebe do nosso vinho; vai à missa connosco; veste-nos
a pele de lobos esfaimados nesta selva de ratos onde os ratos
se confundem com navalhas, intelectuais empalhados, inquiridores
por conta d’outrem (e própria), só para que o amor
um pouco sobreviva, exíguo e tenso; ri
às bandeiras despregadas como só um menino, como só
alguém que sabe da poda pode rir
enquanto os táxis, o choro, as dores de consciência
- que afinal não há, embora os cais… – atravessam o meio-dia, desesperadamente.

Ah, este homem procura as cores mais secas
do nosso entendimento; limpa-se
às nossas toalhas; chega
ao extremo de utilizar a escova privada da nossa privadíssima higiene; rompe
os nossos sapatos (meias inclusive); joga
à pancada connosco, ao eixo; e rouba-nos a carteira
como só quem sabe sorrir pode roubar-nos, pode
assinar de cruz por nós, solucionar
o problema da nossa talvez habitação
sem prestígio nenhum, ao menos uma praia de consolação em que morrer

com o mesmo à vontade, modéstia e alegria
deste homem que procura,
procura as cores mais secas do nosso entendimento.


Amadeu Baptista

PALAVRAS

Conheço as palavras pelo dorso.

Bom dia, Carla. Sendo-me impossível responder-te de momento, resolvi colocar o mesmo desafio ao meu vizinho Ruy Belo. Muito prestimosamente, ele acedeu com 12 palavras que, julgo, também serão parte do teu dicionário pessoal: aldeia, infância, deus, terra, palavra, árvore, pássaro, mar, mulher, cidade, solidão, morte. Manda igualmente dizer que todas estas palavras ele pôs num poema.

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #17

GANDA MALUCONA



Nasceu num bairro camarário
de pé descalço e palavras porcas.
Quando o pé teve chinelo fez rabo
de cavalo e enfeitou o decote.
Chica-esperta, cercou um totó
coca com guita do Bairro Azul
roubando-lhe o apelido, o anel e
a estrela do baile. Anos depois,
cuspiu restos dum beijo e virou-se
para um paxá do petróleo. Piscou
o olho aos diamantes e exigiu
muitos barris de oiro negro
no divórcio das areias.

Entre convivências de cinismo
e intriga, brilhou nas fotos
das revistas cor de rosa
com um cravo vermelho entre
as mamas, de braço dado
a um político mafioso da moda.

A pechisbeque puta caviar pensava
poder comprar tudo e todos
com os cheques chulados,
sem entender que

uma gaja nunca se confunde
com uma deusa. Quanto muito
com uma senhora.

O Senhor não a deixou ter filhos
talvez por ser mais maldosa,
invejosa e egoísta do que as outras
todas juntas. Algumas até trincam
o coração aos filhos. Outras,
teimosas, desafiam-no e adoptam
futuros clientes para os psicólogos.
Têm dinheiro, Dr. antes do nome,
uma cunha e sabe-se lá se luvas,
nos bolsos. Mulher sem filhos
é pior que bicha sem homem.

Estas são uma praga na franja
do poder. Metem o dedo no decreto-lei,
na notícia, na editora, no evento,
na puta que as pariu.

Pelos anos ofereci à macaca
células cancerosas com lacinho
e tudo, dizendo-lhe: Não te ouves,
não me ouves, nem ouves ninguém!
Avisando-a para não se atrever
a tocar com um dedo nas carnes
do meu homem. Como é mulher
atreveu-se por inveja e desafio.

Ceguei-a com palavras ácidas
para que cada manhã fosse um susto,
cada tarde um terror e cada noite
uma derrota na sua ambição.
Mesmo assim,

à traição cravou
no meu peito a andorinha
e voltou de flash o Outono.

Jorge Aguiar Oliveira

25.2.08

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #16

GRANDE GAITA



Acorrentaram-me ao pau e chicotearam-me
a alma com terços de pedrinhas em plástico
fabricados numa exploração infantil algures na China.
Elas sabem-no. Elas já são por si uma caixa registadora
dum negócio obscuro cheiroso a tráfego de influências
e armas do reino à deriva entre as brumas
do estado falsificando o direito.

A alcateia das irmãs não me perdoavam andar
pelo santuário a desafiar a calmaria dos olhares
e dos desejos sexoados, dos enxames de peregrinos
segurando uma vela de cera numa mão
e com os outros cinco dedos acendendo
a que crescia debaixo das calças.

Os peregrinos rezam para os prazeres da carne
não se sobreporem à fé e ao terço. E lá vão percorrer
a Via Sacra sem o desejo se evaporar no espaço
indo entre uma oliveira e uma nuvem.

Cruzámo-nos de novo, agora em Valinhos, e ele
escorregou de novo no olhar e foi bater uma
punheta entre o perfume dos eucaliptos. Eu vi
o descuido. Que culpa tive ò rançosas?

Para estas mulherzinhas que passam o tempo em luta
com o demónio dentro de si, o pecador fui eu.
E cercando-me de ladainhas marianas, atiraram-me
picos e pingos de sangue do corpo do filho do outro
que também é pai delas. Ao benzerem-se,
anestesiaram o meu olhar. Ficando presa fácil,
entreguei-me ao gang de pinguins amestrados.
E na cilada acorrentaram-me ao pau do desejo
de despir a batina do padre, ressuscitando o desejo
da carne num sonífero cântico, minutos antes,
na catedral, e passar-lhe a piça pela água benta
e depois – Olé Maria!

Ninguém precisaria saber. Seria mais um segredo
em Fátima. Talvez um dia viesse a figurar no museu
uma pia baptismal com dois pénis lá dentro
em cera com o título: Alegre Aparição.
Dissolvido o estrume levantam âncora, rumo
ao oceânico eco das mentiras crónicas.

O altar está às escuras. Quem quiser luz,
coloca uma moeda na caixa de esmolas e
os holofotes farão de si uma vidente. Vinda a luz
chega a imagem da senhora numa das suas múltiplas
roupagens tipo barbi, onde se travesti de remédios,
em dores, dos prazeres e da graça, ou luzia
maminha de fora, ou do leite. E mazinha surge
com facas espetadas em seu peito, amedrontando
criancinhas ou com anjos decapitados ao redor
da sua coroa, mais mórbida que uma sadomasoquista.
Como numa sexshop, o negócio é deixarem
uma moeda numa qualquer ranhura de esmolas
para espreitar o show, com velas ou luzes
eléctricas. O cheiro do horror de pensar que as velas
de cera reciclada já serviram para a reciclagem de milhões
de promessas de entes queridos no crematório numa
algazarra de arrependimentos inúteis, dá vómitos.

Também só vai ao espectáculo quem quer.

E entram em cena as mamas, os braços, as pernas,
pés e crânios em cera. Só o Anjo de Portugal é de pedra.
Uma pedra rolando no precipício do divino. Avançam
os exércitos agora e sempre. Galinhas, carneiros
embalsamados depois da Lúcia em cera, encarcerada
num aquário de vidro, donde sempre disse
o que lhe permitiram que dissesse. As palavras
presas ao texto gravado na cassete em pescadinha
de rabo na boca, lembra uma louca moribunda
numa rua qualquer sem saída. É uma trovoada
de revolta de quem vê as moedas lançadas à terra
pelo povo, eternamente doente na sua anorexia
dos seus saberes mais profundos. E dói ver
tanta miséria por ali, por aí.

E se já queimaram nas fogueiras homens,
mulheres e crianças, é porque a atracção pelo fogo
lhes está nas células do sangue. Venha São João,
as alcachofras e as danças, numa noite num quarto
dum seminário onde numa labareda arde um grito
infantil violado que mais tarde, desculpará cristo
por nada poder fazer para o acudir porque
estando presente na cruz pregada na parede,
sob a cama, mas, nada pôde ver pois era noite
e a lua estava encadeada de néons
e o quarto entregue à escuridão.

São dolorosas visões, pesadelos em espiral
quase no fim. Restam-me três
bombons para a morte ferida.

A manta na cama é falsa como a língua padreca.
Como são falsos os lençóis, as fronhas, os terços,
as panelas, os ramos de flores. E dizem que por ali
descansaram os corpos do Francisco, da Jacinta,
da Lúcia e dos pais e mais... e a multidão acredita.

O povo sempre adorou teatro. E o Vaticano sempre
soube levar à cena grandes manipulações de palco,
onde o espectador faz parte integrante da companhia.
Mas, quando uma ovelha se afasta do guião do rebanho
na pastagem e parte à descoberta dos bastidores,
corre o risco de ser encontrada, enforcada – dizem
por engano – com uma corda do cenário aparece
parecia um lobo! Dizem.

Parecia um ovni pingando pus
por cima das pegadas dos dinossauros
deixando um rasto de luz roxa no firmamento
e um carneiro nasceu com duas cabeças ontem.

No terreiro desse tempo esbocei
um ramo de pensamentos em cada mão
e enviei um sms a um desconhecido.

Quero o direito de abandonar este corpo na sucata
quando entender e não ficar à mercê da ditadura
da democrática sopita deslavada de cotovelinhos
empacotada por vilões. Quero mais sal e comer
à hora que quiser. Quero a folha de hortelã
da eutanásia no meu prato, porque eu não sou
do vosso amarrotado mundo,
da vossa ordem brutal e sanguinária.

Quem quiser ajoelhar para broxar, ajoelhe.
E ajoelhe quem quiser rezar. Mas deixem andar
e voar quem quiser. Deixem as barcas atravessarem
os céus e os pássaros construírem os ninhos
na sombra do beijo do trovão, na galáxia
enamorada por sonhos desvairados de doçura,
longe dos tormentos e das infecções da alma.
Sem tempo de se lançarem no espaço, já vi
línguas de ajoelhados serem crucificadas
por não se reverem na cruz e na sua lei.

Como gostava de poder escolher
meu amigo
entre o silêncio e a solidão.

Jorge Aguiar Oliveira

23.2.08

A CASA



MJLF, A casa, técnica mista s/ papel, 30x21cm, 2008.



Maria João

22.2.08

PALAVRA DE ORDEM: PROIBIR

Depois de ter expulsado o homem, Deus colocou diante do jardim do Éden os querubins e uma espada de fogo, que se movia dum lado para outro, de modo a impedir o caminho para a árvore da vida.
A ler Luis Rainha, no Cinco Dias.

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #15

CONFERÊNCIA COCO CAJU



Antes do coffe break, discutem
olhares sobre a vamp Europa,
aberturas, consensos, espaços,
princípios, protecções e mais
um colhão de papéis impressos
com futuro de excelência.
Nos intervalos lá vão vorazes
comprar enfeites caros, sapatos
de verniz e folhos de seda pura
de dentuça arreganhada.
Da cubata ao apartamento
de luxo numa acrópole ocidental
foi um tiro, um cartão do partido.
E suas excelências ajeitando
o nó da gravata a cada minuto

e, em cada minuto pingado,
falta um pingo de água,
um grão de milho

a um olhar que morre
ao longe tão perto
nos braços de sua mãe.

Jorge Aguiar Oliveira

21.2.08

NICK CAVE*



* Selecção de Jorge Aguiar Oliveira

PRECARIEDADE


A política no meio dos interesses da imaginação é o mesmo que um tiro a meio de um concerto. Um ruído dilacerante, sem ser enérgico. Não combina com o som de qualquer instrumento.
Stendhal

Não consigo sentir outra coisa senão piedade. Pobre Julien, nascido excepcional na rasa província, tão cheio de sonhos e ambições. Gorado hipócrita entre hipócritas, escravo de uma imaginação para lá do concebível, apaixonado cínico de pernas trémulas e pés resvaladiços. Pobre Julien, atropelado logo à partida pelo sangue que teve em sorte. E partiu lá da sua província para a cidade, cortejando o poder, armadilhado de cautelas e de prudência, mas ignorante da única fé dos poderosos: a humilhação. Estava escrito no destino de Julien, como escrito está no destino de todos os arrivistas, que o seu lugar, mesmo que não tivesse sido traído pelo coração, seria sempre o lugar dos desterrados. A vaidadezinha dos homens mal nascidos tem dentes frágeis, raramente chega para o orgulho altaneiro dos poderosos. Facilmente se torna ridícula, contraproducente, censurável, pois facilmente cede às intrigas e às urdiduras que matizam as relações entre ilustres. Mas não só entre ilustres. Mal de todos os homens é a mentira, a idiotice, a grosseria, a soberba, mal de todos os homens que invejem o lugar alheio, a posição, o estatuo que não lhes calhou na rifa. Que isto de conquistar estatutos é uma treta: mesmo chegando-se incólume ao zénite, será no zénite que todas as nódoas serão apontadas. Pobre Julien, receando a desconsideração dos que mais invejava ao mesmo tempo que lhes tinha ódio. Vivia o desgraçado nesta contradição, tornando-se o que mais odiava, também ele armadilhado de manhas, mas debilitado pelo remorso. Aparência, tudo é aparência neste mundo sombrio, a luz é aparente, a sombra é aparente, e tudo é ciúme, calúnia, inveja, a província, a urbe, tudo é ambição, mudam os modos, permanece a inépcia da virtude, tudo é esse lugar que se deixou na infância, esse lugar ingénuo, malandro mas ingénuo, inofensivo, tudo é esse lugar perdido, à medida que crescemos no sentido da «asfixia moral». Pobre Julien, tão precário. Como precário é hoje o trabalho da grande maioria, e precárias são as tarefas, os efeitos, as consequências, a função, como precário é hoje o resultado do trabalho, o serviço prestado e o pagamento, como precária é a prestação, a honra, a palavra, como precária é inclusive a paixão, e apenas precária não é a hipocrisia porque para essa há sempre um recibo verde a sorrir de gratidão. Julien, andamos a pagar o imposto das tuas tolices, da tua fuga, desse amor desprotegido que te traiu, andamos todos a pagar a honradez do teu gesto final. Tivesses tu sido um galgo do imperador e não o rafeiro das ruas encardidas, tivesses ti rasurado o amor da consciência ou a consciência do amor, tivesses tu gozado a aparência de uma sátira, a cortesia mistificada dos nobres, tivesses tu declarado apenas o orgulho enfadonho dos humildes, o carácter inabalável dos mortos, tivesses tu decidido voltar à terra prometida, não para amar mas para destruir, e seríamos todos apenas um suicídio desencorajado. Assim, resta-nos sermos uma morte absolvida e continuarmos a perpetrar os mesmos crimes, o mesmo desprezo por nós próprios e pelos demais, o mesmo infortúnio. De nada nos valerá que queiramos morrer, carregaremos para sempre essa vontade absolvida pela absoluta inoperância do desejo. Agir, agir… mas como, se a toda a hora sentimos o embaraço da acção?

MUSEU

DOIS OBJECTOS INQUIETANTES



O PÃO

Eis o pão sobre a toalha:
não se agita, não grita
- está ali, simplesmente
como uma ilha a descobrir
pelo sabor e o cheiro.

Um pão morto, um pão vivo
o cortado ou o inteiro?

O pão por vezes geme
como uma égua louca
e cresce, cresce ardendo
no sangrento e lavrado
triste e desabitado
nevoento, esfomeado
céu da boca.

O pão é a substância
dum bicho transformado:
o tempo e a terra
onde foi criado.


O PRATO

Que experiência
levar com ele na cara!

Filósofo ou poeta
marinheiro ou pastor
ou doutra profissão
em que o físico tenha o principal papel
o prato é sempre prestável
excepto quando há circunstâncias
atenuantes. Então
não dá tréguas nem descanso: que se amanhe
quem nele come!

As flores são num prato
normalmente decoração. Pois que nele
têm os legumes a carta de nobreza: o azeite
é um rio de frescura, atravessando
saiba-se lá que inóspitas planuras
de justíssima gula.

Nele repousam os peixes
os capões
os arrotos dos convivas. Má educação seria
deixá-lo cheio.

Do prato à boca
se ganham insuspeitadas malícias e sabedorias.


Nicolau Saião
in “OS OBJECTOS INQUIETANTES” (1993)

20.2.08

DI VERSOS, N.º 12

Di Versos, N.º 12

Acabou de me chegar às mãos o n.º 12 da revista Di Versos – Poesia e Tradução, onde tive o prazer de colaborar com singelas versões de quatro poemas do chileno Nicanor Parra. Os poemas em causa são: Solo de piano, Mudanças de nome, Teste e Cartas do poeta que dorme numa cadeira. A revista Di Versos é coordenada por Jorge Vilhena Mesquita e José Carlos Marques, tendo estado na sua fundação, além dos actuais coordenadores, Carlos Leite e Manuel Resende. Neste número poderão encontrar, além da minha colaboração, poemas de António José Borges, António Salvado, Avelino de Sousa, César Vallejo e Juan Ramón Jiménez (traduzidos por Nicolau Saião), Claudio Rodríguez e Ricardo Paseyro (traduzidos por António Salvado), Cláudio Willer, Cristino Cortes, Dante (traduzido por Avelino de Sousa), e. e. cummings e Seamus Heaney (traduzidos por João Tomaz Parreira), Giannis Ritsos e René Char (traduzidos por José Carlos Marques), João Miguel Henriques, J. T. Parreira, Nicolau Saião, Rafael Rocha Daud, Rui Tinoco e Tomas Tranströmer (traduzido por José Carlos Marques, Anna Olsson e Sérgio Lopes). Deixo uma das minhas versões de Nicanor Parra:

SOLO DE PIANO

Já que a vida do homem não é senão uma acção à distância,
Um pouco de espuma que brilha no interior de um vaso;
Já que as árvores não são senão móveis que se agitam:
Não são senão cadeiras e mesas em movimento perpétuo;
Já que nós próprios não somos mais que seres
(como o deus mesmo não é outra coisa que deus);
Já que não falamos para sermos escutados
Senão para que os demais falem
E o eco é anterior às vozes que o produzem;
Já que nem sequer temos o consolo de um caos
No jardim que boceja e que se enche de ar,
Um quebra-cabeças que é preciso resolver antes de morrer
Para depois poder ressuscitar tranquilamente
Quando se abusou da mulher;
Já que também existe um céu no inferno,
Deixai que também eu diga algumas coisas:

Eu quero fazer um ruído com os pés
E quero que a minha alma encontre o seu corpo.

in «Poemas Y Antipoemas» (1954)


Nicanor Parra nasceu em San Fabián de Alico, localidade perto de Chillán, no sul do Chile, em 1914. Filho de um professor primário e de uma costureira, cresceu no seio de uma família de artistas, onde se destaca a cantora Violeta Parra. Nicanor estudou Matemática e Física no Instituto Pedagógico da Universidade do Chile. Mais tarde, viverá nos Estados Unidos e em Inglaterra, onde se dedicará à Cosmologia na Universidade de Oxford. Grande parte da sua actividade profissional resume-se ao exercício da docência. Interessa-se pela poesia surrealista desde muito cedo, sendo posteriormente um leitor atento dos poetas anglófonos. Iniciou a sua carreira poética junto do grupo dos chamados «Poetas da claridade», advogando uma poesia ao alcance de todos, espontânea e inimiga do hermetismo. Publica a sua primeira obra, «Cancionero sin nombre», em 1937, obtendo o Prémio Municipal de Poesia. Mas a sua obra afirmar-se-á como uma das mais marcantes no contexto da poesia hispano-americana a partir de «Poemas y antipoemas» (1954), onde propõe uma “antipoesia” que resulta da fusão do chamado poema popular com a ironia, a força transgressora, o absurdo e o humor negro, a iconoclastia de um certo surrealismo, na sua raiz Dadá, mais “dessacralizador e corrosivo”.

ISTO INTERESSA-ME #5 (O RESCALDO)

Fernanda Câncio, no Cinco Dias, aclara a questão: «eu, como a maioria das pessoas que escreveu no blogue sim no referendo, conheço o miguel abrantes. vi-o, jantei com ele, sei onde trabalha. e sei que não é assessor do governo. mas, sendo as coisas e as acusações o que são, este meu affidavit não deve servir de muito ao miguel abrantes (nem a mim, for that matter). paciência — é a verdade». Depois disto, e perante as sucessivas fugas para a frente do promotor do boato, que não só não prova o que afirma como subverte o que outros escrevem, não nos resta senão deduzir que é paupérrima a estirpe de alguns jornalistas portugueses.

RESSUSCITAR

Através da notícia falsa da suposta morte de Manuel Rosa, responsável pela Assírio & Alvim, fiquei a saber que o JL tem um weblog. Há boatos que vêm por bem.

É A VIDA

Tenho o BPI à perna porque não paguei as anuidades e os juros sobre a falta de pagamento das anuidades de uma conta que não movimento há 6 anos. A Segurança Social quer-me fazer pagar 150 euros por mês porque não desconto o que devia descontar no partime. O partime não paga o que devia pagar porque o que lá vou buscar não chega ao ordenado mínimo nacional, nem com os prémios (por sinal, cada vez mais difíceis de obter tendo em conta a exigência absurda dos objectivos). A minha mulher está toda feliz da vida porque a aumentaram em 50 euros. A caderneta continua a crescer. Vou fumar mais um cigarro, beber a primeira mini do dia e seguir os conselhos do JPT: «deixe essa caralhada para quem a merece». Haverá espaço para mim em Moçambique?

P.S.: JPP diz que vai haver uma explosão. Já tarda.

MALAGUETA

Um post sobre a poesia de Fernando Guerreiro, anteriormente publicado no Insónia, aparece agora na revista on-line Malagueta. Aqui.

DIZEM QUE É AMIGO DO SEU AMIGO #7


Diogo Vaz Guedes nasceu em Lisboa em 1963. Licenciado em Organização e Gestão de Empresas, passou pela Logoplaste, Interfinança, Sofip, SFIR, Finova, Finanvés, PLEIADE, Restelo Investimentos, Imolusa, Finobra, FICON, Fitran, Mague, Tecnasol e Termague. É Presidente da Comissão executiva da Somague desde 1997 e foi uma das figuras destacadas do Compromisso Portugal, um movimento de gestores com um sonho: «contribuir para que a nossa sociedade atinja patamares mais elevados de bem-estar, coesão e felicidade de uma forma natural e sustentável». Com António Mexia, presidente da EDP e ex-Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações do Governo de Pedro Santana Lopes, lançou a Aquapura, uma marca turística de luxo. «A ligação de António Mexia ao projecto foi explicada pelo próprio "pela amizade que o une a Diogo Vaz Guedes", e pelo facto de " ser um projecto com alma".» Diogo Vaz Guedes acaba de ser multado, pelo Tribunal Constitucional, em 10 mil euros, tendo a Somague sido igualmente condenada a pagar 600 mil euros, por financiamento ilegal do PSD nas eleições autárquicas de 2001. O Tribunal Constitucional divulgou ainda que decidiu multar o PSD numa coima de 35 mil euros, acrescendo a este valor os 233.415 euros recebidos de apoio indirecto prestado pela Somague. Parabéns Portugal.
*Apanhado de notícias publicadas em vários jornais on-line.

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #14

RATAZANA JOLI



Havia uma Hera com folhas de sangue
a crescer no muro, mesmo defronte
ao meu martírio. Não topando nada
arrastavas teus passos aziagos
e um sapato sujo com merda
e passos desconsolados.

Arrepanhaste a rede metálica
para eu passar rasteiro junto ao cheiro
nauseabundo da ratazana morta e
aos detritos espalhando pólens
infecciosos. Partilhámos um abraço
sem chama na sombra grande
e escura do gasómetro. O guarda
vigilante lia um gratuito da manhã,
sem atenção alguma aos perigos
ao seu redor e ao teu plástico beijo.

Os Taliban industriais atacam
as águas dos rios, dizimando tantos
seres como decretos, multas e
denúncias, que nascem e morrem
na permanente renovação do furto
para a vida abastada, destes terroristas
excêntricos de óculos de sol,
mercedes e Viti Levu no olho do...

Voltando a ti, pouco ou nada ficou
para além da meia-hora. Nem uma
gargalhada vazia entre os dedos.
Nunca mais me lembrei meu lindo,
a não ser quando topei uma ratazana
esborrachada no asfalto. Aí
lembrei-me de ti.

Imaginei-te sentado à mesa
em tua casa, a rata esperneando
no teu prato cuspido de palavras
de arrependimento por um dia
teres dito sim no altar.

Jorge Aguiar Oliveira

19.2.08

Micros da Borderline #6



Publicaram um texto meu intitulado “Pedras” na revista Umbigo nº 23, foi ilustrado por Ana Biscaia. Não conheço a ilustradora, mas acho que ela apanhou muito bem o meu lado paranormal, arrisco mesmo a afirmar que esta página se trata de um encontro imediato do terceiro grau. O que é que vocês acham?

Maria João

Um poema* de Joaquim Manuel Magalhães e uma foto de Robert ParkeHarrison

Talvez Deus exista
para não haver terror.
Acordo além dos sedativos
com o que de mim não sei
no ferro dos pesadelos.

Os pombos entendem
quando vamos morrer,
atacam a janela,
o quarto ressoa
aos seus apelos,
plumagem rouca
na fraga fluvial.

E cumprimos o que somos
incapazes de ser.


* Selecção de Jorge Aguiar Oliveira

18.2.08

CASA DE LOUCOS

Goya

Ainda não entrei na casa, até porque nunca cheguei a sair. Para entrar numa casa é preciso estar fora da casa. Pode alguém entrar numa casa nunca tendo saído de casa? Tudo aponta para que, dentro em breve, entre na casa. Dizem que é uma casa iluminada com tectos de vidro, dizem que lá dentro todos os homens andam nus e todas as mulheres os acompanham na nudez, dizem que ninguém sente vergonha por isso. Esta casa assemelha-se, neste ponto, ao paraíso. A casa dos loucos assemelha-se ao paraíso, no paraíso o homem e a mulher também andavam nus e não sentiam vergonha por isso. Neste momento encontro-me só, estou deveras parado na minha solidão. Fui abandonado dentro deste casulo, conheço todos os seus compartimentos, falta-me o ar de tanto os conhecer. Há anos que vejo sempre os mesmos compartimentos, amedrontam-me todas as noites, todos os dias, todas as horas, como destinos exactos embaraçados no fastio das horas. Lembro-me que havia um destino exacto à nascença: uma dívida saldada com a morte. E penso: nascer é sermos colocados nesta prisão, a vida uma luta, uma fuga ensaiada, uma permanente tentativa de fuga, o louco o fugitivo, o fugitivo que conseguiu escapar aos muros, às paredes, aos guardas da prisão e entrou na casa iluminada onde ninguém sente vergonha por andar nu. Mas depois penso também nos olhos desmaiados dos loucos, nos dentes cariados dos loucos, nos dedos queimados dos loucos, sinto as cabeças latejantes dos loucos dentro da minha cabeça, sinto essa dor como um silêncio isolado na barriga do ruído. Detenho-me nas palavras, preciso deter-me nas palavras. Que é isso de um silêncio isolado na barriga do ruído? Não sabem. Eu explico, eu explico todo o sentido das afirmações inexplicáveis, fui dotado desse dom de dar razão ao irracional. Eu explico. Um silêncio isolado na barriga do ruído é uma mancha de tinta numa tela desnudada, é um som único, um acorde fora de pauta, é uma variante parasita, é o Deus nos acuda da liberdade. Da janela inexistente deste lugar onde vivo fechado, avisto a dormência dos dias, os partos descobertos dos adolescentes desencaminhados, plantas resplandecentes, como insectos desfeitos contra as lanternas dos veículos, como uma chuva que tudo arrasa, destrói, arruína, destroça, um caminho imprudentemente desviado. Vejo estrelas cadentes, sombras vigorosas, mulheres que vociferam contra os maridos, os alicerces de toda uma cultura desmoronando-se aos pés das exigências domésticas, quotidianas, comuns. Porque é preciso pagar as contas, atrasar o relógio biológico, responder às horas do estômago, porque é fundamental matar a sede de estar vivo, ainda que às portas de uma casa cuja luz nos cega ou, porventura, nos ilumine irremediavelmente. Precisamos de uma luz sem remédios.

ISSO AÍ

Vi a entrevista e estou a ver os comentadores na SIC-notícias (on-line). Um fala das beliscaduras, outro fala do olhar fechado por duas vezes, há também quem veja nervos onde outro vê um político profissional, reconhecem-lhe o domínio das técnicas de comunicação e um dos comentadores irrita-se com os truques do Primeiro na fuga às questões. Quanto ao resto, são unânimes: «não, isso aí… correu-lhe bem».

EXPOSIÇÃO


Mais informações aqui.

LABIRINTO #12


MJLF, O Fio de Ariadne, aguarela s/ papel, 30x21cm, 2008.


Maria João

ISTO INTERESSA-ME #4 (e último, até prova em contrário)

Todo o post de Eduardo Pitta sobre o assunto, sendo de relevar, a esta altura do campeonato, a questão final: Então e a bloga que sabia, recebia recados por telefone, tinha documentos comprometedores, quiçá retratos de Abrantes escapulindo-se pelos elevadores da Gomes Teixeira...?

DIZEM QUE É AMIGO DO SEU AMIGO #6

Começa assim a entrada na Wikipédia para Joaquim Pina Moura: Joaquim Augusto Nunes de Pina Moura (Loriga, concelho de Seia, 1952) é um político (corrupto) e economista português. (sic) Licenciado em Economia e pós-graduado em Economia Monetária e Financeira pelo ISEG, frequentou o curso de Engenharia Mecânica da FEUP. Pertenceu ao PCP, fundou, em 1992, a Plataforma de Esquerda (entre os fundadores deste movimento de dissidentes do PCP encontravam-se José Barros Moura, José Luís Judas, Raimundo Narciso, Mário Lino, José Magalhães e Miguel Portas), aderiu ao PS. Foi Secretário de Estado Adjunto do Primeiro-ministro António Guterres, Ministro da Economia e das Finanças e Ministro das Finanças, tendo também sido Deputado à Assembleia da República, pelo Partido Socialista. Foi consultor do Banco Millennium BCP na área da energia. A 21 de Julho de 2004 foi contratado para presidente da Iberdrola Portugal, tendo convidado Fernando Pacheco, seu ex-secretário de Estado do Orçamento, para ocupar um lugar de executivo na mesma empresa. Confrontado com a incompatibilidade ética de exercer as funções de deputado e ser Presidente da Iberdrola, respondeu que "a ética da República é a ética da lei". É também membro do Conselho de Administração da Galp Energia, da NeoEnergia (Brasil) e da Eléctrica da Guatemala (Guatemala). Foi eleito para o cargo de Administrador da Media Capital pela Assembleia-geral realizada no dia 3 de Maio de 2007. Parabéns Portugal.
#1 #2 #3 #4 #5

*Apanhado de notícias publicadas em vários jornais on-line.

QUATRO

A Little Trip to Heaven (2005): realizado por um islandês, de seu nome Baltasar Kormákur, com Forest Whitaker no papel de investigador ao serviço de uma companhia de seguros norte-americana. Um filme sobre fraudes, a olhar de soslaio as intenções das seguradoras e a hipocrisia que está na base dos chorudos seguros de vida. Tem muita chuva e alguma neve, mas não aquece nem arrefece.

Il Caimano (2006): mais uma farpa de Nanni Moretti na Itália de Silvio Berlusconi, desta feita sob o prisma de um produtor de cinema a braços com as dificuldades na produção de um filme que pretende caricaturar o próprio Berlusconi. A promiscuidade entre os poderes económico e político, com as devidas consequências para o mundo das artes. Em suma, o triste paradigma da cultura parasitária.

Goya’s Ghosts (2006): pobre Goya, tão mal tratadinho nesta película de Milos Forman. Javier Bardem acaba por assumir o papel principal, vestindo o manto do padre Lorenzo, um vira casacas corrupto que salta do Santo Ofício para a Revolução Francesa e procura, a todo o custo, preservar-se das trafulhices que perpetrou enquanto andava de cruz ao peito. Goya passa completamente ao lado, num filme que mais valia intitular-se Brother Lorenzo.

Ocean’s Thirteen (2007): terceiro tomo da pandilha gerida por Danny Ocean, desta feita com Al Pacino no papel de vítima. Mas nesta série do realizador Steven Soderbergh a gente fica sempre do lado dos ladrões, até porque nos parecem mais humanos do que as vítimas. Estas não passam de agentes disfarçados de competência num universo de ladroagem consentida. Sou fã, diverte-me, venha o próximo.

Entre todos estes filmes, algo comum: a fraude, a promiscuidade, a hipocrisia, a corrupção do poder. E o prazer que nos dá assistir à sabotagem desse mesmo poder.

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #13

NA ÓRBITA DO PIÃO



Olhei para ele, ele para mim
e só tínhamos um atalho
a percorrer e um pouco de nada
para comer. As palavras

foram escasseando aos pés
da tristeza das nossas vidas.
Sós, só nos restava morrer
antes do tempo. Mas quem
teria coragem de parar o corpo
e abandonar o outro no fundo
do poço dos dias insípidos
onde a luz é um charco
de alfabetos de solidão?

Encontrei um pião abandonado
num beco sem nome e lembrei
vagarosamente alguma infância
apoquentada, ficando horas
a fio a rodar o pião
no tampo da mesa de granito,
sem saber como infectar os sóis
e as luas que me restavam.

Olhou-me e nada disse.
Das palavras restavam patilhas
e pernas de letras presas
nas esquinas do farpado vento.
Junto ao pé seco do alecrim
um escaravelho preto agonizava
de patas viradas para a órbita
do astro mortal. Apontou
lá para o cimo e avistei
anjos estrangulados
entre os dentes dum garfo
limpo de comida plástica.

– Que falta nos fazem
as nossas mães!

Foi o qu’eu consegui dizer-lhe.
Então as lágrimas disseram
a saudade que dela tinha.

Oferecendo-me uma carícia,
passou a sua mão sobre
a minha parando o pião.

Do tecto azul invisível
caiu uma pena impura
da asa dum anjo nu

Jorge Aguiar Oliveira

16.2.08

O EVADIDO

Para o manuel a. domingos.

Já não me recordo muito bem como foi, mas deve ter sido mais ou menos assim: vi Barfly (1987), de Barbet Schroeder, com Mickey Rourke no papel de Henry Chinaski. Fui imediatamente assaltado por uma insaciável curiosidade acerca daquele escritor que passava a vida nos copos, à porrada nas traseiras de botequins decrépitos, vivendo como quem aposta todos os dias a própria vida. E, se bem me recordo, foi aquele pormenor dos poemas soltos, vagueando ao ritmo da desgraça pelas vielas das cidades, em folhas dactilografadas ou manuscritas, caídas na sorte ou no azar de quem lhes pegasse, foi esse pormenor, dizia, que me atiçou ainda mais a curiosidade: afinal, quem seria Henry Chinaski? Vim a saber, então, tratar-se do alter-ego do escritor Charles Bukowski (1920–1994), um alemão emigrado nos Estados Unidos da América (do Norte) a quem calhou, vá-se lá saber se por destino ou por opção, a missão de nos iludir com a senda dos malditos. Insere-se naquele grupo vasto de escritores que cativam pela recusa da normalidade, ou, se preferirem, pela incorporação de tudo o que possamos julgar à margem da lei e no limite da sanidade. Mas falemos de literatura. Que há nos livros de Bukowski que possa interessar tanto, pelo menos tanto, quanto interessa o folclore da sua vida? Talvez a resposta se encontre, precisamente, no primeiro livro que lhe li: «Eu escrevo ficção.» / «O que é ficção?» / «Ficção é um aperfeiçoamento da vida.» (Mulheres, Trad. Fernando Luís, Publicações Dom Quixote, 1992) Não estranhem se não encontrarem na crueza da escrita deste autor, uma crueza sempre tão colada ao que alguns chamarão, sem estarem cientes do que isso seja, de realidade, não estranhem se não encontrarem nessa crueza um qualquer sinal de aperfeiçoamento. Não é fácil encontrá-lo, pois ele esconde-se por detrás de uma aparente nudez. Essa nudez, que tantos sublinham, é apenas o disfarce de quem descobriu estar irremediavelmente perdido dentro de si próprio, de quem se encontra, afinal, A Sul de Nenhum Norte, pois esse é o lugar de todos os que escrevem sem outro intento que não seja o de se entregarem à sorte ou ao azar das palavras. É um autor profundamente melancólico, este Bukowski. Se quiserem uma comparação mais rasteira, a sua escrita é como um strip-tease, há sempre nela aquele engano dos artifícios, aquele disfarce de um corpo débil por dentro, rijo por fora, perdido no imo, achado nos músculos, nos nervos, nos ossos, na carne. É o corpo intoxicado de quem cambaleia, a passos inseguros, para a segurança da morte. Poderão outros falar de niilismo, abjeccionismo, neo-decadentismo, etc, etc, etc… para mim, toda aquela violência será sempre uma outra forma de evasão. Uma evasão sem rumo, certa da sua inutilidade, mas ainda assim uma evasão.

LABIRINTO #11


MJLF, A Catedral, aguarela s/papel, 30x21cm, 2008.
Maria João

JAY-JAY JOHANSON*



* Selecção de Jorge Aguiar Oliveira

ESPERANÇA

Foi uma semana difícil, uma semana de imenso trabalho, pouco dinheiro, foi a semana de repor o IVA, foi a semana em que regularizei, finalmente, a minha situação nas SS (Segurança Social), foi uma semana de paredes partidas e canalizações novas, foi semana de comprar uma máquina de lavar roupa, em suma, um semana com um São Valentim deveras cansado. Também foi uma semana de revelações, a semana do já apelidado “caso Abrantes”, reveladora, até à data, de um único facto inquestionável: a insinuação e a boataria não escolhem idades nem classes profissionais. É uma tristeza viver neste permanente diz-que-diz-que, engordura o pensamento e emporcalha o ambiente. Perante o cenário de pocilga, só uma boa notícia para fechar a semana: «um objecto do tamanho de um carro carregado de um gás tóxico altamente combustível está completamente descontrolado em órbita e prestes a cair na superfície do planeta Terra». Que venha a cair sobre Portugal não é hipótese que me desagrade. Seja o Satellite of Love o pórtico da nossa esperança.

Um poema* de Ruy Cinatti e uma pintura de Françoise Nielly



Poema do Pacto de Sangue


Nobres há muitos. É verdade.
Verdade. Homens muitos. É muito verdade.
Verdade que com um lenço velho
As nossas mãos foram enlaçadas.

Nós, como aliados, eu digo.
Panos, só um, tal qual afirmo.
A lua ilumina o meu feitio.
O sol ilumina o aliado.

Agua de Héler! Pelo vaso sagrado!
Nunca esqueça isto o aliado.
Juntos, combater, eu quero!
Com o aliado, derrotar, eu quero!

A lua ilumina o meu feitio.
O sol ilumina o aliado.
Poderemos, talvez, ser derrotados
Ou combatidos, mas somente unidos.


* Selecção de Jorge Aguiar Oliveira

15.2.08

USURPANDO

Pedir perdão servirá de alguma coisa? Rebobinar o filme da história e reconhecer que os do nosso sangue erraram, ou agiram de uma forma medonha, só aos ignorantes e aos hipócritas pacificará as consciências. As crianças aborígenes da «geração roubada» jamais reaverão a infância que a natureza lhes havia destinado. Mas pede-se-lhes desculpa e pronto. E ponto. Como se pediu já, vezes sem conta, aos descendentes dos índios americanos contagiados e massacrados, dos judeus errantes reduzidos a cinzas ao longo de séculos, dos escravos que sobreviveram à medonha viagem transatlântica. Um dia pedi-la-emos também aos netos dos africanos que não morreram exaustos junto às margens das praias peninsulares. E, tolhidos pelo arrependimento, continuaremos distraídos perante o trabalho macabro que nunca pára. Lá longe, entre remotas gentes ou fora da nossa vista.

ISTO INTERESSA-ME #3

Francisco Almeida Leite resolveu pegar nos meus posts (#1, #2) sobre uma suposta Central de Bloggers ao serviço do Governo. Citou o que lhe interessava (não contesto), omitindo o que verdadeiramente me interessa (contesto). De facto preocupa-me que possa haver uma Central de Bloggers ao serviço do Governo, paga do nosso bolso e com o dinheiro dos nossos impostos, tal como adverte, denuncia, acusa, refere, o que queriam, o próprio Francisco Almeida Leite. A ser verdade, é, sem dúvida, preocupante. Importa, porém, esclarecer a verdade. E isso só pode ser feito por quem afirma tão convictamente a existência dessa tal central. A não ser provada a existência da tal central, o denunciante chama a si a autoria de um boato. Coisa feia, o boato. Mas chama também a si uma série de dúvidas sobre as suas próprias honestidade, ética profissional (Francisco Almeida Leite é jornalista) e, pormenor cada vez mais descurado, decência enquanto cidadão. Seria grave que «um grupinho de assessores do Executivo», «pagos do nosso bolso, com o dinheiro dos nossos impostos», de facto existisse. Tão grave, pelo menos, quanto um cidadão e jornalista fazer uso de um espaço comunicacional público para, na base do diz que disse, denunciar factos que carecem de prova. É essa prática, por exemplo, que está patente nesta “estória”: «há uns tempos um importante blogger, por sinal de direita, terá recebido um telefonema no seu local de trabalho de um tal de "Miguel Abrantes". Sucede que o blogger em causa trabalha, dizem-me, para o Estado. A ser verdade, chamo a isto intimidação». A ser verdade? Façamos então todos alarde não da verdade, mas do que possa ser a verdade. Por exemplo, ser Francisco Almeida Leite um extraterrestre dotado de poderes divinatórios. Quando não se hesita neste tipo de métodos, talvez com a mera intenção de pressionar alguém que tem todo o direito ao anonimato, é bom que se provem as afirmações. Caso contrário, estaremos no domínio do tudo é possível. E no domínio do tudo é possível, até eu ouço muitas vozes e todos os dias recebo a visita de inúmeros espíritos omniscientes.

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #12

DE TRELA PARA A CELA



Atravesso os dias esquecendo
o passado dos dias, passando
este dia contando os dias
que faltam para a minha sombra
atravessar o portão de ferro.

Há dias muito tristes. Lavo a solidão,
passo a ferro e dobro em quatro
antes de a guardar na gaveta
da madrugada e nada mais para contar.

Não sei se quero voar, não sei
se quero ficar, não sei nada.
Este corpo apodrece no tudo
o que escrevo e rasgo para ninguém
chorar. Já nem quero receber visitas
e só falta evaporar-me no canto
da coruja que habita a sombra
das grades a esborrachar-me
o desespero.

O meu companheiro de cela passa
inerte pelas tardes olhando o tecto,
assistindo ao envelhecimento dos sonhos
e a tosse é um pequeno trovão a romper
o silêncio do tédio amealhado.

Um miau de gato roçou as grades
da janela depois dum azar beliscar-me
o ombro com convite para
uma punheta trocada num sorriso
predador. Poderia dizer-te que
entre quatro paredes o mundo chega
e o mundo parte, mas é mentira.
As paredes estão cá. A prova
é o sangue escorrendo na memória
da semana passada ter tentado
matar uma ideia de fuga
contra o branco e o cimento.

Já nem tenho uma indignação
para partilhar contigo. Estou arrumado
como um rinoceronte a sangrar
num canto da selva cálida.

Aqui temos a mesma profissão:
ourives da solidão. Escuta e conta
os salpicos da madrugada a caírem
no charco do vazio. Vê se assim
adormeces antes das lágrimas
acordarem a crua e negra noite
sempre bêbada de tão moribunda.

Nem o sonho obrigatório
de se voar um dia daqui, é maior
que o obrigatório cumprimento
das regras de coabitação entre
os que cospem e os que aguentam
o cuspo no rosto. Entre eles, passa
simplesmente uma nuvem negra
puxando por um cordel uma lua cega.

Não posso pregar um calendário
com um homem nu na parede,
nem pedir um livro com palavras
que me denunciem aos guardas,
e aos bufos comerciantes.

A verdade é que o olhar me dói.
Dói-me a recordação da minha mão
dada à tua. Dói-me o desejo
de sentir o teu odor a morrer
como um sopro nas encostas
do meu corpo. Dói-me as frases
que não posso desembrulhar
nas conversas. Dói-me não poder
velejar para além do real
que me cerca e desaparecer
entre os brilhos dos cristais
do conto a qu’eu ainda não cheguei.
Dói-me o braço, o ante-braço e
a mão, o estar longe de ti
e o nunca mais.

O mundo cá fora é
a minha cela. Aí dentro,
a tua cela é um mundo.

Jorge Aguiar Oliveira

LABIRINTO #10

MJLF, Estudo para a catedral, caneta s/papel, 30x21cm, 2008.


Maria João

14.2.08

LOST


No Natal passado ofereci à Ana a primeira temporada da série norte-americana Perdidos. Confesso que nunca fui fã destas séries, vou acompanhando uma ou outra com vago interesse e não perco muito tempo a debruçar-me sobre os argumentos. Assim foi com Perdidos, com CSI, 24, House M.D., entre outras. A verdade é que comecei a ver a primeira temporada de Perdidos e, num mês, acabei a comprar e a ver a segunda e terceira temporadas. É um facto: no espaço de um mês vi todos os episódios de Perdidos que passaram até hoje na televisão portuguesa. Só uma razão, por mais voltas que dê, pode explicar o vício: gostei da série. Interrogo-me porquê. O que haverá nesta série que me prende como nenhuma outra me prendeu antes? De há uns dias para cá que cogito sobre o assunto, exerço a autorreflexão em busca de uma teoria, procuro no imo da alma uma explicação. Não sei como colocar o problema, mas a melhor forma de o partilhar é a que encontrei para compreender a obsessão, do mesmo tipo, com filmes sobre prisões e prisioneiros que tentam fugir das prisões e guardas corruptos que lixam a vida aos prisioneiros. Os perdidos da série Perdidos, no fundo, são prisioneiros. Não são prisioneiros em fuga, mas são prisioneiros tentando sobreviver na mais enigmática de todas as prisões: uma ilha. No entanto, a ilha é apenas o espaço geográfico onde decorre essa luta pela sobrevivência. Porque eles próprios são, cada um à sua maneira, um outro tipo de ilhas. A ilha é um espaço importante, na medida em que, como muitas ilhas, ela conquista no nosso imaginário uma ambiguidade que é a da beleza misturada com o isolamento, a de uma espécie de duelo com a própria incomunicabilidade. Há em todo o argumento desta série uma provocação permanente da lógica: aqueles sobreviventes estão em estado de luta pela sobrevivência, a sua sobrevivência depende, em grande parte, da forma como torneiam ou dominam os dramas que trazem do passado, as tragédias pessoais que transportam na memória, os medos, as frustrações, as experiências recalcadas. No fundo, não estão perdidos na ilha. Estão perdidos dentro de si próprios. São os seus piores inimigos. Talvez a experiência na ilha seja antes uma espécie de teste, uma prova de orientação que me leva a crer não serem tanto aqueles personagens sobreviventes de um voo acidentado mas antes indivíduos em queda permanente. São, como todos nós, um desastre em exercício.

2,5 MILHÕES

Os números da vergonha: 2,5 milhões de pessoas são traficadas anualmente em todo o Mundo. Cerca de 250 mil (10%) são oriundas da América Latina e 1,4 milhões (56%) são originárias da Ásia. 161 países são afectados pelo tráfico de seres humanos, seja como países de origem, trânsito ou destino. A ONU estima que este negócio renda anualmente 31 700 milhões de dólares para as redes de tráfico. »

ISTO INTERESSA-ME #2

Relativamente ao post anterior impõe-se um esclarecimento: concordo, em muitas matérias, com as tomadas de posição expostas no Câmara Corporativa, nomeadamente quando investe numa marcação cerrada aos lacaios de uma indústria que se faz passar por informação. No entanto, a questão agora é outra. Os autores do Câmara Corporativa foram apontados com acusações que importaria esclarecer. A saber: se de facto estão a ser pagos com dinheiros públicos para produzirem o weblog em causa. É claro que quem faz uma acusação destas tem que a provar, mais que não seja por mero dever moral. Não sendo ela provada, resultará apenas em mais um triste caso de boataria à portuguesa. É-me completamente indiferente se o Câmara Corporativa for realizado por funcionários do PS, mas ser pago com o dinheiro dos impostos de todos os portugueses já não me pode ser indiferente. Quanto ao resto, julgo que os ataques ad hominem, sobretudo se realizados sob o escudo do anonimato, são sempre contraproducentes, pelo que preferencialmente evitáveis. Mas a denúncia feita por Francisco Almeida Leite é demasiado grave para que lhe passemos indiferentes.

13.2.08

ISTO INTERESSA-ME

João Villalobos, do Corta-fitas, corroborou a tese de Luís Pedro Nunes, do Eixo do Mal, segundo a qual o Câmara Corporativa, de Miguel Abrantes, é nada mais nada menos do que um espaço mantido por assessores do Governo ao serviço da contra-informação na blogosfera. Miguel Abrantes, do Câmara Corporativa, que segundo Francisco Almeida Leite, do Corta-fitas, não passa de um pseudónimo partilhado por dois ou três serventes do executivo cor-de-rosa (com hífenes fica mais bonito), reagiu citando Filipe Moura, d’O Avesso do Avesso, para quem Luís Pedro Nunes, do Eixo do Mal, representou algures o pior de ser português. Vai daí, vários cowboys têm-se manifestado sobre o assunto, disparando sempre contra o mesmo alvo, o tal Miguel Abrantes, que, a acreditar nos serviços de informação da oposição ao Governo socrático, não passa de um mercenário fantasmagórico, ou dois ou três ou quatro, teclando a peso de vencimento «pago do nosso bolso e com o dinheiro dos nossos impostos». A questão que nos entusiasma hoje é, pois então: quem és tu, Miguel Abrantes? Sejas tu um outro ou um mesmo, certo é que és. E que sabes muito e quase tanto dizes. Tudo na boa. Agora que o dinheiro dos meus impostos vá para isto é que já me aleija um poucochinho, pelo que talvez não fosse má ideia esclarecer se é realmente para pagar esta merda que vai metade do que eu amealho todos os meses.

ESTÓRIAS DOMÉSTICAS


Ao passar do anúncio, a minha mulher diz-me que agora anda tudo doido com a Carla Bruni. Eu olho-a com olhos de comer e confesso-lhe não entender porquê. Ela não percebe o meu apelo e responde-me que é por causa do Sarkozy. Subitamente apaga-se-me a vontade.

Exposição “Vai Fazer Bom Preço”

Eis uma exposição que eu gostava muito de poder ver, até porque o JPT coloca muito bem o problema (tendo em conta as amostras e “a ideia” da exposição): «A visitar por todos - em particular pelos que têm, seja por profissão seja por aspiração, a ideia de representar (até analiticamente) a gente que faz o real. A ver se despem um pouco o seu ver.»

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #11

FOTOCÓPIA GATUNA



venho resgatar
o que me roubaste
um dia

um beijo e um segundo

não eram meus

foram deixados
por um vil canalha
cópia de ti
que ao partir
nem me olhou

mesmo assim
o beijo e o segundo
são meus

fazem parte
da lembrança

Jorge Aguiar Oliveira

12.2.08

DESCULPAS DE MAU PAGADOR

Poucos fenómenos humanos me irritam tanto como as desculpas de mau pagador. Às desculpas de mau pagador, como se não bastasse serem desculpas, são ainda de mau pagador. Concordarão comigo tratar-se de um insuportável acréscimo de sordidez. Mas as desculpas de mau pagador não me indignam, apenas me irritam como uma espécie de borbulha causadora de muita comichão. E há delas que causam mesmo muita comichão. Por exemplo, quando alguém diz que não consegue encontrar um livro. O que fez para o procurar? Estará à espera que o livro lhe salte aos olhos num passeio pela rua das montras? Eu cá, sempre que quis encontrar um livro, encontrei-o. Pode custar-me mais ou menos, mas nunca desisto de procurar um livro que pretenda encontrar. Até encontrá-lo, mesmo que esse objectivo me ocupe a vida inteira, jamais me passará pela cabeça dizer que não o consigo encontrar. Porque o que me agrada verdadeiramente é poder dizer: foda-se, finalmente encontrei-te.

ESTAR CIENTE

Thomas Ruff, 2003.

Estou ciente de que pretendo continuar por ti adentro como uma larva rompendo a casca de uma maçã. Também estou ciente de que, por esta altura, já todas as maçãs foram trincadas, nenhum Deus se conformará com a sapiência dos homens e os ramos da árvore, de tão secos, servirão apenas para estender passarinhos cansados de voar. Há países onde investigam essas coisas, países onde se conclui o voo estatístico dos pássaros, grande rodagem, asitas pneumáticas, quilómetros e quilómetros de ar percorrido contra tudo e contra todos, só para aqui chegarem. Cansados. E pousarem nos ramos secos destas árvores. Estou bem ciente, crê, de que sempre que sonho contigo, com a tua boca sugando-me o caralho, é no corpo de outro homem que me vejo. Talvez a censura esteja aí, em ver-me sempre no corpo de outro homem, em pensar que um dia será possível ver-te de costas e confirmar todas as expectativas. Porque eu sei, quando te vejo de costas, que o teu rosto muda. Tu não sabes porque não vês. Mas eu estou perfeitamente consciente de que o teu rosto muda quando eu te vejo de costas. Podes perguntar-me como fica então o teu rosto? Posso dizer que fica tão suculento quão sequioso, desperto numa espécie de músculo distendido, mas assim como quem fecha os olhos enquanto degusta o sorvete. O teu rosto fica radical, e eu fico como se nunca o tivesse visto antes. Por isso estou ciente de que a censura está dentro de mim, que a censura é, deixa-me deformar o marquês, uma falta de hábito. Tu já reparaste quão ávidos somos na censura do que é belo? Censuramos as palavras, as imagens, os factos, até as ideias mais belas, pois temível é o mundo que coloque o belo à frente do nariz dos homens. A beleza cega, cega como um vírus contaminante, desvia os homens do essencial (do necessário?), provoca-lhes sensações inimigas do repasto, convoca-os sob a assinatura feroz de um sangue cálido e imparável. A censura é o que nos garante esse alimento insidioso da máquina social: o bom senso. E ela começa logo no alimento, pois como qualquer aparelho nós não cagamos senão o que comemos e não comemos senão o que cagamos. A única diferença está na forma como trituramos o alimento. E aí, repara, há várias formas de triturarmos o alimento. Diz quem sabe que, só para dar um exemplo, um belo corpo é sempre mais apetecível quando se mostra sombreado, sugerindo-se na transparência, saltando do decote, ou quando irrompe do tecido. Diz quem sabe que é debaixo desse nevoeiro que a nossa imaginação melhor atiça o desejo, melhor ateia o fogo instintivo da beleza: mensurável, como li num poeta que ora não lembro, na intensidade do tesão. Diz quem sabe que é assim. Na volta, somos apenas rendilhados na composição maquiavélica de um esquema que consiste em provocar-nos desejos, ânsias, inquietações, apetites, com o estigma da proibição. Mas eu não me conformo. Não me conformo que perante tal estigma o teu rosto me apareça assim, e que de costas voltadas tu não te assemelhes mais a uma torre em chamas, uma aldeia bombardeada, um edifício implodindo, corpos estilhaçados, quilómetros de campas onde dormem biliões de esqueletos perdidos para sempre durante um voo de uma ave migratória que, entre dois destinos, cumpre a sua existência. Só nunca hei-de entender porquê? Porquê tantas horas perdidas com recusas e providências cautelares?

É grande o barulho dos carros
neste começo de manhã.
As crianças falam alto
na escola ao lado.

Há uma azáfama geral
na preparação do dia
a ser mastigado em seus andaimes;
a ser degustado em suavidade;

isso é o que não se sabe.
Mas vai ter que existir o dia,
giro que gira frente à luz,
luz que persegue enquanto dura.

Todos então arrumam suas expectativas
neste começo de manhã
enquanto, na distância sem muros,
um moleque mija na paisagem.

Ildásio Tavares

Ildásio Tavares
nasceu na Fazenda São Carlos, hoje cidade de Gongogi, a 25 de Janeiro de 1940. Em 1962, já depois de um bacharel em Direito, licenciou-se em Letras. Estudou várias línguas e nunca abandonou a vida académica. Publicou artigos, contos, poemas, ensaios e romance, tendo também assinado diversas canções gravadas pelos mais ilustres intérpretes da chamada música popular brasileira. Em 1968 estreou-se em livro, com Somente um Canto. O poema que aqui reproduzimos apareceu no n.º 7 dos Cadernos de Poesia Hífen.

LABIRINTO #9


MJLF, Ruas de água, aguarela s/papel, 21x30cm, 2008.


Maria João

11.2.08

CAUSAS ESTRUTURAIS

Tenho estado a ver o P&C e a comer línguas de gato. De vez em quando puxo de um cigarro e dou uma ventilada. Assim como assim, com saúde é que não hei-de morrer neste país que me põe doente. Este P&C é um retrato perfeito, extraordinário, magnífico da democracia em que vivemos. A Procuradora-Geral Adjunta Maria José Morgado bem pode afirmar que está no combate, há que ter esperança, ‘bora lá, força, havemos de os catar, que com aquele ar pesaroso, tristonho e melancólico não engana ninguém: estamos quilhados. Ele já não é a morosidade nem a falta de condições, a legislação enrodilhada e o tráfico de influências, sempre em hora de ponta neste país. E o Dr. Paulo Morais, ex-vice-presidente e vereador para o Urbanismo na Câmara Municipal do Porto, atira-se aos legisladores dizendo que os agentes políticos estão mais dependentes de quem os financia do que de quem os elege. Isto está tudo inquinado. A casa só não vem abaixo porque o maço de Ventil ainda não acabou, as línguas de gato estão saborosas e a plateia bate algumas palmas. Brindo às palmas, mas com uma rapidinha.

DIZEM QUE É AMIGO DO SEU AMIGO #5

Joaquim Ferreira do Amaral nasceu em 1945. Licenciou-se em Engenharia de Máquinas no Instituto Superior Técnico, iniciando a sua carreira na função pública como chefe de gabinete do secretário de Estado das Indústrias Extractivas e Transformadoras, no governo provisório de Pinheiro de Azevedo, depois do 25 de Abril. Ocupou a mesma pasta no V Governo Constitucional, de Maria de Lourdes Pintasilgo (1979), aderindo posteriormente ao PSD. Foi secretário de Estado da Integração Europeia, no primeiro Governo de Pinto Balsemão, ministro do Comércio e Turismo (1985-1987 e 1987-1990) e ministro das Obras Públicas e Comunicações (1990-1995) nos governos de Cavaco Silva. Em 1994 assinou o contrato para a construção da Ponte Vasco da Gama com a Lusoponte. Para fechar o negócio, deu-lhe exclusividade na construção e exploração de qualquer nova ponte entre Vila Franca e a foz do Tejo. Ocupa hoje o cargo de presidente do conselho de administração da Lusoponte, estando de momento a renegociar o contrato com o Estado (que ele próprio fez enquanto ministro) face a uma eventual terceira travessia no Tejo.* Parabéns Portugal.
#1 #2 #3 #4

*Apanhado de notícias publicadas em vários jornais on-line.

E DEUS CRIOU A CENSURA

SEMPRE A APRENDER


Akron/Family, I’ve Got Some Friends
Love Is Simple, 2007

Aprendem-se muitas coisas nas caixas de comentários dos weblogs, mesmo quando não estamos especialmente preocupados em aprender certas coisas nas caixas de comentários dos weblogs. Isto tudo para dizer que fui ver: era fácil, bonito e barato. Experimentei e agora a ver vamos. Sobre os Akron/Family tenho a dizer que conheço apenas o tomo mais recente, uma edição dupla que inclui CD e DVD, intitulado Love Is Simple (2007). A confiar no AllMusic – é sempre de confiar – editaram anteriormente três compilações, a primeira das quais datada de 2005. Gosto. Julgo que conciliam muito bem ritmos desbragados com melodias a modos que arrebatadoras. O mais fácil seria encaixá-los na fornada post-rock, com canções alternando entre a influência tribal e o country ou, como agora se diz por aí, ao jeito folk psicadélico (música psicadélica à base de guitarras acústicas com cordas de aço soa-me bem). Mas as coisas nunca são tão simples como aparentam, se exceptuarmos certas coisas aprendidas nas caixas de comentários dos weblogs. Alguns temas deste Love Is Simple têm para lá umas guitarras eléctricas com um balanço muito bluesy, o que me leva a pensar estarmos perante uma caldeirada de tendências musicais cozinhadas num caldeirão de fantasias literárias. Simples.