Do moleskine enquanto moscardo






O livro publicado em 2001 (Edições Tema), que certo senhor obrigou a margarete a oferecer-me, mostra uma senhora então com 23 anos a escrever sobre o ritual de acasalamento das ostras, poemas com óleo (“é horrível, negro, pastoso, altamente desprovido de estética […] mas quando cai no chão fica tão bonito!”), bancos de autocarro (“…como são infelizes os bancos de autocarro! Decerto clamam pela liberdade, por um estado menos plano, de preferência com espinhos para ser livrarem das confrangedoras peidas.”) e outros temas destilados por alguém que tem com a experiência (sensível, estética, filosófica) uma relação invulgarmente despoliciada. O assunto surge como figura e não como personagem, quer dizer, sem respeitar enredo previamente arquitectado e sem servir propósito ou espécie de moral, ainda que apenas a do principio-meio-fim. O sujeito existe alterado (“Estou a enjoar, enjoo muito facilmente e enjoo-me mais facilmente ainda.”), há consciência dupla e a ironia disso (“sou egocêntrica, só falo de mim e das minhas coisas. Estou a brincar com o meu “soutien”, é verdade, preciso muito de apoio”), e humor misturado com as coisas, por exemplo chuva (“tenho-te confundido muito com a chuva.”) ou distância (“tenho tido muito frio/tenho tido os olhos cinzentos/tenho sentido a tua distância como quem acorda/a meio da noite.”)

Neste queijo há um número que me intriga: os 7% de visitantes que vêm de países desconhecidos. Quanto ao resto, nada me espanta. Há cada vez mais gente por esse mundo fora que não dorme. Muitos chegam aqui à procura de: livros de areia, poemas sobre corações partidos, poemas fúnebres, passos para desenhar caras, falar dos amigos, cantilenas, Pedro Mexia, tesão, por que se colam os cães às cadelas durante o acto sexual, escrita fragmentária, papelotes de Lisboa, Nietzsche, a origem da tragédia, apontamentos, cadáveres esquisitos, poesia pornográfica de Gregório de Matos, pequenos poemas, ilustrações do dicionário do diabo, poemas fixes, epígrafes, maquilhar como dracula (sic)… Só isto pode justificar as 1030 visitas diárias, ainda que não explique os 7%. Esses, provavelmente, vêm ler o que escrevemos.
Cevam a vontade, cabeça de porco
do pai, leitão das tias cevadas também,
o poio da moral na testa sarro da comichão,
guinamos as tetas, fanamos o sortido,
gonza no peito prenha ao estertor
do tinto, cabeça camuflada rapada das
ideias,
mete-a física no cono, a musa dela.
Rui Costa
MJLF, Quebra-cabeças, instalação na casa das artes de Tavira, 1992.
Chega hoje ao fim a campanha do referendo sobre a despenalização do aborto nas condições previstas na pergunta a referendar. Nesta matéria, como se constatou ao longo do último mês, há dezenas de posições diferentes em cada um dos lados, mas obrigatoriamente arrumadas no NÂO e no SIM. Independentemente de todos os argumentos que vieram ao debate uma coisa é certa: se ganhar o NÂO continuam os abortos clandestinos realizados em péssimas condições que afectam sobretudo as mulheres das camadas sociais mais baixas e jovens, muitas delas adolescentes. Assobiaremos então para o ar e a dizer: no passa nada. Se ganhar o SIM abre-se uma possibilidade para essas mulheres e jovens poderem realizar um aborto (que fariam sempre, quer haja, quer não haja mudança na lei penal) com condições de assistência médica e com dignidade. Por isso voto SIM.