31.3.07

A CADEIRA DE GLENN GOULD

o chão erguido para as duas mãos do branco,
um trevo de quatro pés,
o amuleto redentor.

Emanuel Jorge Botelho

Emanuel Jorge Botelho nasceu em Ponta Delgada, Ilha de São Miguel, a 11 de Agosto de 1950. Publicou, entre outros, aMARgura (1979), Full Auto Shut off (1981), Poemas do Arremesso ou O Elogio da Pedra (1982), Cesuras (1982), Sardas (1984), Casos de Bolso (1993) e Perguntas Queimadas (1996). Está representado em várias antologias e colaborou com diversas revistas literárias, entre as quais, mais recentemente, a Telhados de Vidro.

INSÓNIA





Joaquim Rocha, Insónia, 2007.

29.3.07

O meu herói do dia

Eu não trocava o exílio por nada neste mundo.

Uma espécie de prosa em verso

Quando eu era pequeno, meu pai contava-me histórias de meninos sem sapatos, de calções rotos, que aprendiam na escola nomes de rios, saudações à pátria, modos de curvar a espinha à fotografia de um velho pendurado defronte ao senhor deus pais crucificado.

Eram meninos cheios de sonhos alimentados a pão de milho, couves com feijão e azeitonas, de quando em vez, para amedrontar a febre, uma canja de galinha e copos de água pura, do poço, benzida.

Ficava espantado a ouvir meu pai lamentando-se do infortúnio, das noites passadas no curral, embrulhado entre uma burra e uma cabra, aproveitando o calor dos bichos para enganar a geada que caía desse céu explicado na terra por catequistas mais sábios que Deus.

Meu pai começou a trabalhar ainda não tinha onze anos feitos, com um primeiro par de sapatos sem solas em honra da freguesia. Mal sabia que passados sete anos, com uma filha nos braços, uma casa a meio de ser erguida, teria de partir para a saudade, onde em esperança caiou paredes, ladrilhou salas, espalhou tectos por cima do pensamento, fazendo sombra à revolta proibida.

Trouxe raivas no regresso, traumas, inimigos nunca vistos, terroristas de tanga, a viverem em palhotas, que sabiam tanto da vida como a vida sabia das aldeias naquele tempo parado entre o nada e coisa nenhuma. Uma sardinha para três? Ali só chegavam as sardas dos bufos, desconfianças, cismas, receios nunca ouvidos na telefonia até ao dia em que se cantou: há bulha na capital.

Meu pai veio para a rua, prometendo contar-me um dia a sua história como quem conta ao futuro o que resta de uma memória recalcada e esquecida. Isto era para ser um poema, fica assim, como uma espécie de prosa em verso estirado na preguiceira burguesa dos meus dias. Pode ser que um dia conte à minha filha a história de seus avós, pode ser que um dia ela me conte a sua, pode ser que a sua não venha a ser muito diferente daquela que eu ouvia, espantado, meu pai contar.

28.3.07

Elogio do popular.



O papel das histórias populares foi pertinentemente sublinhado por Jean-François Lyotard em A Condição Pós-Moderna. No capítulo sexto dessa obra, intitulado Pragmática do saber narrativo, Lyotard distingue o saber em geral do conhecimento e da ciência, atribuindo ao saber uma abrangência de enunciados que escapa ao carácter denotativo da linguagem científica. O saber, porque não apenas denotativo, encontra assim na narrativa a sua linguagem veiculativa par excellence, já que a forma narrativa admite «uma pluralidade de jogos de linguagem» que escapa aos enunciados denotativos da ciência. No entanto, parece-me haver qualquer coisa de redutor na forma como o filósofo francês encarou a história popular, atribuindo-lhe sobretudo um papel transmissor do «grupo de regras pragmáticas que constitui o vínculo social». Lyotard fala nas narrativas populares como veículos de transmissão de modelos, mas refere igualmente o poderosíssimo efeito rítmico, por exemplo, das lengalengas infantis, relevando a cadência na prosódia dos adágios, dos provérbios, das máximas, como meio de efectivação dessas regras. A consequência disto será, grosso modo, uma cultura mais dependente do saber narrar do que da significação daquilo que é narrado. Ou seja, não importa o que se narra, importa é que se saiba narrar. As narrativas populares funcionam, assim, como uma espécie de mantras, cuja execução relega para plano secundaríssimo o significado dos sons pronunciados. É por isso que o bom narrador não é apenas aquele que lê, mas aquele que lê de determinada maneira, aquele que nos leva a aceitar a narrativa sem uma necessidade imediata de interrogação sobre o sentido do que está a ser narrado. Como disse, julgo ser demasiado redutor perspectivar a narrativa popular apenas sobre estes dois prismas, pois muitas vezes ela ostenta uma dimensão crítica dos próprios modelos sociais, quando não uma extensão à ruptura com esses mesmos modelos. O que se me afigura mais pertinente nos dias de hoje é pensar nos modelos da própria narrativa popular enquanto vinculativos de uma resistência à deterioração do saber. Cada vez mais reduzido ao seu carácter técnico, o saber que é hoje transmitido nas escolas, inimigo da reflexão, do tempo, da pausa, do ócio, da memória, escravo da prática, encontra nos modelos da narrativa popular um lugar de resistência à pesarosa ausência de referências, assim como um aliado subtil de práticas que podem optimizar os processos de concentração. É essa dificuldade de concentração, porventura resultante do culto do zapping, associado à prática das novas tecnologias, o que mais contribui, creio eu, para um desinteresse hoje generalizado por um saber que não seja meramente técnico, um saber que exija algo mais do que um uso eficaz do Copy & Paste, essa fabulosa e feérica firma das sábias luminárias que ameaçam tomar conta do mundo sob os desígnios de um facilitismo que não só se promove como se exalta em terra de chicos-espertos. Talvez algo que vem do povo possa ainda fazer qualquer coisa pelo povo. Não custa tentar.

TEATRO DA BONECA

A menina tinha os cabelos louros.
A boneca também.
A menina tinha os olhos castanhos.
Os da boneca eram azuis.
A menina gostava loucamente da boneca.
A boneca ninguém sabe se gostava da menina.
Mas a menina morreu.
A boneca ficou.
Agora também já ninguém sabe se a menina gosta da boneca.

E a boneca não cabe em nenhuma gaveta.
A boneca abre as tampas de todas as malas.
A boneca arromba as portas de todos os armários.
A boneca é maior que a presença de todas as coisas.
A boneca está em toda a parte.
A boneca enche a casa toda.

É preciso esconder a boneca.
É preciso que a boneca desapareça para sempre.
É preciso matar, é preciso enterrar a boneca.

A boneca.

A boneca.

Carlos Queirós

Carlos Queirós, ou José Carlos Nunes Ribeiro, nasceu em Lisboa em 1907. Frequentou a Faculdade de Direito de Coimbra, foi funcionário da Emissora Nacional de Radiodifusão e dirigiu a revista Litoral. Colaborou em várias revistas, tais como Presença, Sudoeste, Atlântico e Contemporânea, com poesias e artigos de crítica literária. Recebeu em 1935 o Prémio Antero de Quental do Secretariado de Propaganda Nacional com a obra Desaparecido. A amizade de Carlos Queirós com Fernando Pessoa levou a que este último tivesse uma relação amorosa com sua irmã, Ofélia Queirós. Faleceu em Paris, no ano de 1949. »

Fragmento #46 – Cadeira vazia

Perguntei-te como é possível o mundo seguindo-te num romance já escrito; uma língua absurda. Os teus passos pararam no silêncio para sempre aqui; agora só invisibilidade. Entendi a ciência das muralhas nas paredes da biblioteca pintadas de negro; as estantes vazias. A natureza ergueu-se sem ar nos pés em pedra; nas paredes negras. Quando a morte se aproxima sabemos que são poucos os livros importantes; num silencioso medo. Nesta cidade corre o ar do teu gosto meu; corre a água. Percorro a calçada onde vimos os sonhos por dentro às escuras; tenho muito medo. Continuei revoltada no meu chão em forma de pedra; as calçadas molhadas. Mostraste-me o amarelo a cair na terra molhada das paredes na biblioteca; os livros ausentes. Digo espaço onde sinto o cheiro do teu mundo meu; um espaço aberto. A natureza entrou nas mãos dos corredores estreitos a escreverem romances absurdos; apenas em sonhos. Na noite a minha mão tem os pés aqui; na calçada escura. Lá estava o misterioso ar de Sintra a escrever no grande areal; num tempo húmido. A natureza abriu os nossos pulmões em palavras escritas; palavras de água. O coração é uma metáfora que corre na água da minha mão; vive na água. Na minha mão existem acontecimentos que olham o espaço-tempo; o tempo corre. As línguas escrevem na água que corre devagar num tempo que corre; um linguarejar suave. Ouvi os textos que existiam nas tuas paredes escuras; nas paredes vazias. Aqui tens as minhas mãos a escrever depois de partires para sempre; uma escrita nocturna. A minha mão escreve vendo a porta do silêncio; numa cadeira vazia.


Maria João

27.3.07

E EU DIGO-LHE


E eu digo-lhe, que não são
vãos os anos que vivi,
nem inúteis os caminhos percorridos,
ou sem objectivo tudo o que ouvi.
Não são imunes ao mundo,
nem são imaginariamente uma prenda de anos,
os amores em vão também não foram,
amores fraudulentos ou doentes,
a sua luz limpa e imortal
sempre em mim,
sempre de mim.
E nunca é tarde para de novo
começar toda a vida,
encetar o caminho,
para que do passado – nem uma palavra,
nem um gemido seja destruído.


Tradução de Manuel de Seabra.

Olga Berggolts

Olga Berggolts nasceu no dia 16 de Maio de 1910. Começou a publicar versos com apenas 14 anos, juntando-se, em 1925, a um pequeno grupo literário do qual fazia parte Boris Kornilov, seu futuro marido. Em 1930 formou-se em filologia, sendo enviada para o Kazaquistão como jornalista. Divorcia-se de Kornilov, de quem tem uma filha, e casa-se com Nikolay Molchanov. Publicou o seu primeiro livro de poemas em 1934, muito elogiado por Gorky. No final da década de 1930 o seu primeiro marido é preso e executado, as suas filhas morrem, e Olga passa sete meses no cárcere. Devido às torturas de que é alvo, dá à luz uma criança morta. Libertada em 1939, trabalha para a resistência numa rádio de Leninegrado. Granjeia por essa época grande sucesso junto das massas populares. Além de poesia, escreveu ensaios, romance e livros de memórias. Faleceu a 13 de Novembro de 1975.

O INVESTIGADOR É UMA AMEBA



- Os investigadores existem. No entanto vejo-me obrigado a dizer que a verdade é: os investigadores não são úteis à investigação.

- A investigação investiga-se sozinha – fim aos subsídios de investigação, aos gabinetes de investigação, aos relatórios, artigos, cooperações.

- A investigação só serve para inventar novos problemas (incluindo: ter que morar no mesmo prédio de um investigador; ouvi-lo a declarar a sua fidelidade aos ratinhos)

- Os investigadores são uns mirones de lente em punho a devassar a vida dos outros – É EVIDENTE QUE OS MICRÓBIOS E AS ESTRELAS NÃO SE COMPORTAM DA MESMA MANEIRA QUANDO SABEM QUE ESTÃO A SER OBSERVADOS.

- Os investigadores são depressivos que só se divertem com o que ainda não sabem. A psicanálise explica isto: o universo conhecido não gosta deles.

- É por causa dos investigadores que continuamos a adiar o fim do mundo: passam a vida a pedir mais prazo para concluírem as suas investigações.

- Se vires um investigador, dispara duas vezes. Com um pouco de sorte eliminas também o seu melhor colaborador.



Rui Costa

26.3.07

Uma linguagem da intimidade


Esta mania de hierarquizar, de meter por cima o que não queremos por baixo, de organizar o que nos faz confusão permanecer na sua própria ordem, porque as coisas têm o seu modo singular de ser, mas isso faz-nos impressão, incomoda-nos, por isso procuramos para as coisas um modo de ser que não seja o delas, mas nosso. Perguntam-me, por exemplo, qual a arte mais importante, se julgo a filosofia superior à ciência, se é possível falar de uma superioridade da ciência sobre as artes, perguntam-me essas coisas como quem convida um adversário para um assalto, munidos que estão já de uma resposta, de um preconceito, de uma verdade intocável, um axioma, formado lá onde se deformam as consciências, o espírito crítico, a vontade de problematizar. Não vale a pena complicar muito: se me dói a barriga, vou ao médico. Os cientistas têm funções que não cabe aos artistas cumprir, valendo o inverso na mesmíssima e exacta medida. Talvez o preconceito da superioridade das ciências sobre as artes, onde podemos incluir a própria filosofia, deva a sua formação à ideia da utilidade. Mais facilmente reconhecemos a utilidade de um médico do que a utilidade de um pintor, sendo que ao último os tempos modernos tendem a usurpar qualquer pretensão de utilidade. Trata-se de um preconceito perigoso, na medida em que coloca a ciência sob um prisma de resposta que não é de todo em todo o seu. Até haver resposta, a ciência carece da pergunta. Sem a pergunta não há resposta, assim como sem a capacidade de improvisação sobre a pergunta, a inventividade ao nível da experiência, sem essa inventividade, jamais haverá reposta. É nesse âmbito que qualquer separação em termos hierárquicos me parece sempre precipitada e injusta, pois ainda que possamos julgar a ciência mais útil que as artes ela nada consegue alienando-se do espírito que as artes lhe legam. Qualquer tipo de intercâmbio entre os diversos ramos do saber é sempre mais profícuo do que uma separação, uma delimitação, que trace fronteiras intransponíveis e crie constrangimentos ao nível do diálogo, da partilha, da experiência. Podemos mesmo partir de um paradigma relativista acerca da verdade e do real, assumindo que seja qual for a resposta ela será sempre resultante de uma circunstância, de uma situação. Por isso a ciência evolui e não é estática. Mas no domínio das artes a exaltação deste relativismo leva muitas vezes a que o mesmo se transforme num paradigma algo facilitador do logro e da fraude, sobretudo quando o artista resolve prescindir da ciência da sua arte. Há nisto qualquer coisa de perverso, pois por muito livre que a arte seja essa liberdade assenta sempre em pressupostos técnicos, históricos e mesmo simbólicos. Pode um poema ser escrito fora da língua, mas não pode esse poema ser lido por ninguém que não absorva as convenções dessa língua inexistente. E ao absorver essas convenções, por mais caóticas que elas sejam, ele está já a inserir-se no seio de uma comunidade, supostamente virtual, que legitima a leitura. A surdez não é partilhável, assim como a cegueira, mas o silêncio pode ser. O que se me afigura mais plausível é que perante uma obra cada qual construa a sua linguagem, uma linguagem da intimidade, não partilhável, mas que faça disso uma força de questionamento acerca do mundo que o rodeia, das convenções que põem em causa essa linguagem da intimidade, que, em última instância, procure compreender com a linguagem de todos o que há na sua que possa acrescentar algo de positivo àquela. Porque se é certo que todas as vozes juntas dão uma enorme cacofonia, não menos certo é que todos os silêncios juntos não dão mais do que silêncio. E do silêncio ninguém retira senão silêncio.

PALIMPSESTO

A Antonio Carlos Secchin

Eu vi um sábio numa esfera,
os olhos postos sobre os dédalos
de um hermético palimpsesto,
tatear as letras e as hipérboles
de um antiqüíssimo alfabeto.
Sob a grafia seca e austera
algo aflorava, mais secreto,
por entre grifos e quimeras,
como se um código babélico
em suas runas contivesse
tudo o que ali, durante séculos,
houvesse escrito a mão terrestre.
Sabia o sábio que o mistério
jamais emerge à flor da pele;
por isso, aos poucos, a epiderme
daquele códice amarelo
ia arrancando como pétalas
e, por debaixo, outros arquétipos
se articulavam, claras vértebras
de um esqueleto mais completo.
Sabia mais: que o que se escreve,
com a sinistra ou com a destra,
uma outra mão o faz na véspera,
e que o artista, em sua inépcia,
somente o crê quando o reescreve.
Depois tangeu, em tom profético:
«Nunca busqueis nessa odisséia
senão o anzol daquele nexo
que fisga o presente e o pretérito
entre os corais do palimpsesto.»
E para espanto de um intérprete
que lhe bebia o mel do verbo,
pôs-se a brincar, dentro da esfera,
com duendes, górgonas e insetos.

Ivan Junqueira

Ivan Junqueira nasceu no Rio de Janeiro a 3 de Novembro de 1934. Estudou Medicina e Filosofia, nunca chegando a concluir qualquer curso. Dedicou-se ao jornalismo, escrevendo para jornais diversos. Foi assessor de imprensa e depois director do Centro de Informações das Nações Unidas no Rio de Janeiro, tornando-se mais tarde supervisor editorial da Editora Expressão e Cultura e director do Núcleo Editorial da UERJ, além de colaborador em várias enciclopédias. Poeta, ensaísta, editor e crítico literário, publicou o seu primeiro livro de poesia, Os mortos, em 1964. Recebeu vários prémios literários e está traduzido para o espanhol, alemão, francês, inglês, italiano, dinamarquês, russo e chinês. »

Fragmento #45 – Espelho

Descreves-me em corredores amarelos às escuras, na tua mão minha avançando para a porta. Paraste. Perguntaste-me na língua natureza entreaberta, espaço estreito de água. Entrei firme em casa. O som mudou quando fugimos das muralhas ao longe; parámos à distância da terra molhada. Na calçada seguinte sincronizámos, havia passos antes de mergulhares na noite. O som da água entrava no corpo das calçadas; aproximámo-nos no tempo que corre nos passos das ruas estreitas. Entrei no mundo das tuas mãos em direcção à porta da tua sala onde a água caía no tempo dos meus pés. Envolveste-me nos textos do vento, língua na língua. Depois tive de partir, preocupava-me as ruas molhadas, podia ficar ali nas pedras. Não quis ficar. Agora apenas te encontro em sonhos, onde me dás a tua mão. Em casa. As palavras estreitas correm no chão onde oiço a água a correr; o barulho existe apenas nas minhas mãos; aqui estão as minhas mãos às escuras, respondem ao teu silêncio a escrever.

Maria João

Viva Salazar


Quitéria não tem televisão em casa, mas está feliz com a vitória de Salazar, nome com que, de resto, baptizou o rafeiro que a acompanha para onde quer que vá, no concurso Grandes Portugueses. Do que ela não gosta nada é da censura e chama pulhas aos PIDEs e não pode ver pão de milho com azeitonas à frente. Mas de Salazar, ó ó, de Salazar é que este país precisa. Pelo menos de um em cada uma das esquinas onde o rafeiro de Quitéria mija com afincada noção territorial.

25.3.07

Da rádio enquanto acupunctura

Há uns anos resolvi aceder a uma persistente sugestão da minha mãe para a prática da acupunctura. Lá ia, meio descrente, meio conformado, como quem entra em terra ignota e pensa: mal não há-de fazer. Despia-me, deitava-me na padiola, abria os poros às agulhas. Depois ficava por ali, na mais absoluta solidão, a inspirar incensos e a pensar na vida. Acontece que em vez de descontrair e de relaxar com a prática, punha-me a pensar em coisas inacreditáveis, como por exemplo: mas que raio estou eu para aqui a perder tempo com isto? Acabei por desistir da acupunctura e voltei a entregar a saúde à medicina do cigarro e da bela cervejola. Lembrei-me muito desta experiência ontem, enquanto participei num programa de rádio para o qual fui convidado. Entre a acupunctura e a rádio não descortinei grandes dissemelhanças, mas confesso que senti a falta das massagens da Cristina no final do programa.

Pisa la luna y la hace pedazos.

Porque só os masoquistas agradecem o que os fere e violenta, certas experiências são óptimas para percebermos que de masoquista e de louco todos temos um pouco. Obrigado.

23.3.07

Comentários

1. Esta “reacção alérgica” a uma frase que me impôs respeito merece-me um comentário. A frase, não sendo minha, merece-me respeito. Porquê? Desde logo porque não vejo nela nenhum tipo de discriminação entre os que vão e os que não vão à missa. A minha mãe vai e não tem nada que ver com o CDS/PP. Segundo a interpretação que faço da mesma, quis quem a proferiu dizer que, dizendo-se o CDS/PP um partido democrata cristão, seria de esperar dos seus dirigentes um comportamento mais consentâneo com essa opção ideológica e existencial. O que se viu em Óbidos foi um país que vai à missa, ou, se quiserem, parte do país que vai à missa, tocado pelas tentações do Demo. Não lhes foi a fé suficientemente poderosa para resistirem à desmesura da ambição e da avidez? São, quanto a mim, cristãos demasiado baratos para levar em conta enquanto tal. Por isso mesmo faz sentido, quanto a mim, dizer com espanto: é aquele o país que vai à missa aos domingos.

2. O André remata com uma pergunta cínica este post sobre um documentário acerca de Michael Moore. Disse-lhe que um documentário sobre Michael Moore, à partida, não me interessa por aí além, mas que os documentários do realizador de Bowling for Columbine são por mim tidos em boa conta. Um documentário que seja feito sobre o President da nação mais poderosa do mundo é sempre de ter em conta, boa ou má dependendo dos olhos de quem o vê. Mas um documentário sobre um realizador de documentários, ainda para mais famoso, polémico, provocador, cheira-me a… oportunismo. É óbvio que os senhores Rick Caine e Debbie Melnyk têm todo o direito de realizar os documentários que bem entenderem, sendo também óbvio que os visados possam não gostar do resultado final. Até me parece natural que não gostem se for esse o objectivo do dito cujo. De repente lembrei-me do livro de João Pedro George sobre Margarida Rebelo Pinto… Adiante. O que me parece algo abusivo é julgar que o sucesso na Europa de Michael Moore está apenas relacionado com um putativo antiamericanismo dos seus admiradores, daí ter julgado a pergunta final do André algo despropositada.
Pela parte que me toca, basta-me o western, o jazz, alguns poetas, pintores e realizadores de cinema, para não me deixar levar por qualquer tipo de antiamericanismo. Há também o lado negativo disso tudo: uma nação que nasceu do extermínio dos povos indígenas. Quanto a Michael Moore já disse, noutros tempos, por que o admiro: é a melhor escola do cinismo americano, viciado de ironia e muita pertinência. Só não suporto quando é sentimentalóide. Seja como for, os seus documentários são apenas mais uma razão para eu estimar os States.

Dois assuntos e meio


O e-mail: o e-mail do Insónia está no perfil disponibilizado no topo da coluna da direita. Basta clicar em Visualizar meu perfil completo e, depois, em Email. Peço que não usem o e-mail da Minguante para tratar assuntos pessoais ou concernentes ao Insónia. O e-mail da Minguante é colectivo, gerido por todos quantos fazem parte do corpo editorial da revista;

Os links: a coluna de links do Insónia nunca foi estática, está em permanente mudança. Há várias razões para isso que não vou e xplicar para não ser fastidioso. Recentemente alguns links foram retirados, nomeadamente alguns de weblogs que leio todos os dias. O facto de terem sido retirados não quer dizer que: primeiro, eu os tenha deixado de ler; segundo, não voltem a ser arrumados em subsequente organização da coluna de links. Assim haja tempo para que seja elaborada.

As explicações: a necessidade destas explicações está relacionada com um certo mal-estar causado por este post numa leitora. Como não é minha intenção causar mal-estar a ninguém, ainda para mais com posts de linha e meia, permito-me esclarecer que o dito cujo não pretendia melindrar quem quer que fosse. Afirmar que os weblogs velhos são quase sempre melhores que os weblogs novos não significa que seja sempre assim, pois o quase exclui a generalização. Muito menos que eu pense tal coisa. Aquilo era um mero jogo de palavras, ó senhores. Há muitos weblogs velhos que são péssimos. O que é um weblog novo, o que é um weblog velho? Pode um (des)link decidir da consideração e estima que um autor de um weblog merece por parte de quem o lê? Pelos vistos, pode. Esta conversa é uma grande chatice. Constatar a existência de quem se susceptibilize com tal assunto ainda mais.

SERENAMENTE

Serenamente, lembro o meu passado:
Das suas esperanças nada espero,
E sorrio ao seu mal desesperado
Como ao bem das promessas, que não quero.

Que hoje, da vida, só desejo a calma
Da indiferença, num sorriso aberto…
E, na certeza de que tudo é incerto,
Descansa as tuas dúvidas, pobre alma!

Do teu cansaço e tua dor, descansa!
É neste brando enlevo que eu te quero,
Sorrindo ao fundo duma nova esp’rança
Como à ilusão dum novo desespero.

Guilherme de Faria

Guilherme de Faria
nasceu em Guimarães, no dia 6 de Outubro de 1907. Em 1919 mudou-se com a famí­lia para Lisboa. Apesar de ter vivido apenas 22 anos, publicou vários livros de poesia, organizados postumamente no volume Saudade Minha. Foi poeta e editor. Suicidou-se na Boca do Inferno [Cascais], no dia 4 de Janeiro de 1929. »

22.3.07

A múmia de Pessoa no colchão de Tàpies


Folheio o catálogo da exposição antológica de Antoni Tàpies, em 1996, no Centro Cultural de Belém. Com a pintura tudo parece ser diferente, o mais cativante é o que não se compreende, há como que um diálogo que se estabelece com as imagens que nos obriga à suspensão temporária do pensamento. Tive um amigo que fechava os olhos para assim melhor contemplar as obras expostas, dizia que com os olhos fechados as imagens anteriormente observadas adquiriam dentro de si uma configuração que escapava aos olhos. O órgão físico é apenas um meio, uma porta aberta, por onde as imagens nos penetram. É já dentro de nós que elas ganham o corpo que as aguarda, o corpo que cada um lhes dá, o corpo inexplicável, o corpo sem corpo onde confluem nervos, sensações, ritmos, numa complexa mecânica de processos químicos que escaparão sempre à razão. Há aquele poema de Fernando Pessoa, A Múmia, que começa assim: «Andei léguas de sombra / Dentro em meu pensamento». Mais à frente, na penúltima estrofe, o poeta diz: «Na alma meu corpo pesa-me. / Sinto-me um reposteiro / Pendurado na sala / Onde jaz alguém morto». A gente não sabe como se sente um reposteiro pendurado na sala, mas desconfiamos, por vezes estamos mesmo certos, de que nos sentimos tal qual esse reposteiro pendurado na sala onde jaz alguém morto. E eu sinto-me muitas vezes como as texturas de Tàpies, como uma mancha equilibrada no interior de um manto branco, como aquela linha vermelha que atravessa o espaço vazio e o enche como se fosse uma pegada no cimento, algumas letras reunidas de forma indecifrável, um colchão de palha rasgado e manchado, os contornos de uma mão, de um seio, de um pé, de um tronco perfurado por pregos, um ovo marcado, uma cruz, uma frase enigmática, como aquelas frases que escrevemos na areia da praia e se perdem para sempre, uma porta fechada do avesso, um bocado de madeira rasgada, um pouco de tecido partido, um divã sobre um losângulo. Folheio o catálogo e lembro-me do efeito das obras de Tàpies ao vivo, de quão intrigantes são os enigmas que nos sugerem, enigmas que o meu pensamento recusa mas que o meu corpo aceita como se fosse uma criança espantada com o ruído do papel amachucado. Espanto-me com a associação ao poema de Pessoa porque foi de Tàpies que me lembrei quando visitei as múmias no Museu do Cairo, aquela frustre tentativa de conservação de um corpo ao qual a alma regressará, como se aquele corpo não fosse todo o peso da alma, como se fosse possível guardar para sempre o bolor que se dissemina pela parede. «Não há / Cá-dentro nem lá-fora», diz o poema de pessoa. É como nos quadros de Tàpies, porque é preciso fechar os olhos e saber que, nesse instante, são eles que nos contemplam e não o contrário. Porque há objectos que nos olham como se tivessem uma vida autónoma e independente da vida que lhes damos quando os observamos, quando os utilizamos, quando os manipulamos. Projecções do nosso corpo, os objectos são a sombra de nós mesmos sem a qual não fazemos sentido, são o que há de vivo na nossa morte, são a música das ossadas.

O escrínio

Um poeta municipal já me chamara a cidade de escrínio.
Que àquele tempo encabulava muito porque eu não sabia o seu significado direito.
Soava como escárnio.
Hoje eu sei que escrínio é coisa relacionada com jóia, cofre de bugigangas…
Por aí assim.
Porém a cidade era em cima de uma pedra branca enorme
E o rio passava lá embaixo com piranhas camalotes pescadores e lanchas carregadas de couros vacuns fedidos.
Primeiro vinha a Rua do Porto: sobrados remontados na ladeira, flamboyants, armazéns de secos e molhados
E mil turcos babaruches nas portas comendo sementes de abóbora…
Depois, subindo a ladeira, vinha a cidade propriamente dita, com a estátua de António Maria Coelho, herói da Guerra do Paraguai, cheia de besouros na orelha
E mais o Cinema Excelsior onde levavam um filme de Tom Mix 35 vezes por mês.
E tudo o mais.
Escrínio entretanto era a Negra Margarida
Boa que nem mulher de santo casto:
Nhanhá mijava na rede porque brincou com fogo de dia
- Mijo de veia não disaparta nosso amor, né benzinho?
-
Yes!
Um dia Nhanhá Gertrudes fazia bolo de arroz.
Negra Margarida socava pilão.
E eu nem sei o que fazia mesmo.
Veio um negro risonho e disse sem perder o riso:
- Vãobora comigo, negra?
E levou Margarida enganchada no dedo pra São Saruê.
Daí eu fiquei naquele casarão que tinha noites de medo. Nhanhá sonhava bobagens que eu fugi de casa pra ser chalaneiro no Porto de Corumbá!
O mijo de Nhanhá sentia, no pingar, um vazio inédito e fazia uma lagoinha boa no mosaico…
Desse tempo adquiri a mania de mirar-me no espelho das águas…

Manoel de Barros

Manoel de Barros nasceu em Cuiabá, a 19 de Dezembro de 1916. Com oito anos foi para o colégio interno em Campo Grande, e depois no Rio de Janeiro. Conheceu pessoas engajadas na política, leu Marx e entrou para a Juventude Comunista. Passou uns tempos na Bolívia e no Peru, partindo depois para Nova Iorque. Estudou cinema e pintura. O seu primeiro livro, publicado em 1937, foi Poemas Concebidos Sem Pecado. Foi feito artesanalmente por 20 amigos, numa tiragem de 20 exemplares e mais um, que ficou com ele. Hoje o poeta é reconhecido nacional e internacionalmente como um dos mais originais do século e mais importantes do Brasil. »

21.3.07

sessão de poesia



Eu sei lá o que é a poesia, dizia o poeta. Fazem-me com cada pergunta. Escrevam aí silêncio. Silêncio. Eu era eu e muitas pessoas ao mesmo tempo. Estava aqui onde estou e vocês aí onde estão. Agora estou a ver se o fígado responde à vossa pergunta. Claro que o silêncio escondeu a vossa pergunta. Mas sei que a fizeram. Não vos escondeu os olhos. Nem essas luzinhas que alguns têm à volta da cabeça. Que pergunta. Eu sei lá o que é a poesia. Ora apalpem o fígado. O fígado tem uma opinião particular da poesia, como devem calcular. Há gente que pensa que o fígado é amarelo. Eu pensava. Mas é castanho ou vermelho depende da lanterna. Apalpem o fígado mas ninguém apalpou. É sempre assim na poesia. As pessoas não a levam a sério. Se não a levam a sério para que raio querem saber o que é? Para pôr no telejornal? Não brinquem comigo. Se estivessem aqui crianças a conversa era outra. Uma criança joga logo a mão ao fígado. Experimenta. Sem experimentar não há poesia. Ora calcem lá umas luvas. Ora tirem lá as luvas. Qual é a diferença? O fígado é uma espécie de filtro, com guichets e barreiras que sobem e descem e olhos a espreitar lá de dentro. Um poema que entre no fígado faz maravilhas. Claro nos intestinos. No coração. Mas agora estamos no fígado e além disso os poemas não vão a todo o lado. Ora apalpem o fígado. Se os dedos forem estetoscópios, em vez dos esteticoscópios que abundam, sentem logo as vibrações do poema a rearranjar as ligações da linfa. Não são as letras que entram nos tecidos, é só um tremido, uma insusbstância linfática que mexe nas células parecem uma orquestra escangalhada pede sempre ajuda a um menino. Não chorem. Está ao vosso alcance. Ponham coisas de parte. Deixem-se de merdas. Furem o espelho com os olhos de manhã. Uma coisa vos garanto. Sem perguntar ao fígado nunca vão saber a opinião do fígado sobre a poesia. Fazem-me com cada pergunta. São do telejornal? Mas não se importavam de ser, pois não? Aah.

Texto de Paulo Condessa, in Bizz Dizz, Mariposa Azual, Novembro de 2000.
Interpretação por Ventilan.

Poesia

Aproveito o dia para fazer um balanço honesto, sincero mas sempre liminar. Este tipo de balanços é um risco que apenas corro por não lhes atribuir grande importância. De certa forma, ajudam-me a ir organizando as ideias num espaço que considero íntimo mas partilhável. Ora, como já um dia escrevi e publiquei, não sei ao certo o tempo dos primeiros versos, de onde e como surgiu a singular fala dos poemas. Sei, porém, que o primeiro livro de versos que li foi Este livro que vos deixo, de António Aleixo. Julgarão alguns ter sido um começo pouco auspicioso, crendo eu ter sido o melhor de todos, dentro do possível, até porque ao mesmo tempo ia-me entretendo com a tradução das canções dos The Doors. Este contrataste foi essencial e tem-me acompanhado para onde quer que vá. Não disse António Variações que a sua música era qualquer coisa que se situava entre Braga e Nova Iorque? Pois bem, eu cá situo-me entre António Aleixo e James Douglas Morrison. Não me exijam mais que isso. Mas há qualquer coisa, antes de tudo isto, que me marcou profundamente. Palavras Ditas, o programa de Mário Viegas na RTP, trouxe-me o som das palavras como nunca antes me tinha chegado, o ritmo, as melodias, aquela cadência que só os versos conseguem e nos aprisiona, contagia e cativa. Ter ouvido Mário Henrique Leiria, Ruy Belo, Mário Cesariny, Alexandre O’Neill, etc., etc., etc., através da voz do “grande escalabitano” foi a mais importante experiência da minha alegre infância. Mário Viegas foi, assim como assim, o meu pai poético, aquele que me fez chegar os e aos versos, quem me abriu a porta para esse mundo de palavras onde tudo é possível e nada é provável. O resto são meros pormenores que posso resumir assim: o que mais amo na poesia - o testemunho, a liberdade, o riso, a lascívia, a audácia, a magia…; o que mais odeio na poesia - o hermetismo, o sentimentalismo, o snobismo, o pedantismo, em suma, os ismos… Quero, portanto, agradecer aos poetas que testemunham com audácia o seu tempo, que riem e são lascivos, a possibilidade de um mundo mágico, infantil, tão cruel quanto ousam ser as crianças, um mundo onde se respira melhor, onde se pode respirar. São esses os meus poetas, os que releio. Os outros, por mero descargo de consciência, apenas leio. Mas esses, hoje, não serão para aqui chamados.


Uma mosca sem valor
poisa, c'o a mesma alegria,
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.
António Aleixo

20.3.07

VEM VENTO, VARRE!


Vem vento, varre
Sonhos e mortos.
Vem vento, varre
Medos e culpas.
Quer seja dia,
Quer faça treva,
Varre sem pena,
Leva adiante
Paz e sossego,
Leva contigo
Nocturnas preces,
Presságios fúnebres,
Pávidos rostos
Só cobardia.

Que fique apenas
Erecto e duro
O tronco estreme
De raiz funda.
Leva a doçura,
Se for preciso:
Ao canto fundo
Basta o que basta.

Vem vento, varre!
Adolfo Casais Monteiro

Adolfo Casais Monteiro nasceu no Porto, a 4 de Julho de 1908. Poeta, romancista e ensaísta, frequentou a Faculdade de Letras e licenciou-se em Ciências Históricas e Filosóficas. Em 1929 estreou-se com o livro Confusão. Exilou-se no Brasil em 1957, tendo ainda participado na direcção das revistas A Águia e Presença. Morreu em 1972, em São Paulo.

Frases que impõem respeito*

Este é o país que vai à missa aos domingos!

*com sauda(de)ções leoninas.

19.3.07

DIVIDING THE HOURS TO MEASURE THE TIME


David Sylvian
Pollen Path

Ouço a voz do vento sempre que me aproximo das horas. Este tempo invernoso, este corpo trespassado, é sempre um enunciado à procura dessa voz. Ocorre-me a figura sombria das mulheres enormes aqui do bairro, as suas pernas deformadas, inchadas, com as varizes a saltarem para fora da carne. Têm os dedos grossos, os dentes podres, nódoas no corpo. Parecem nunca ter-se penteado, talvez ao vento, enquanto acendem as fogueiras onde embalam os filhos com mezinhas de mau-olhado. Pousam o vento nos aventais e eu aproximo-me delas, este vento trespassado, este corpo à procura de uma voz. Logo os pinheiros reclamam e a lua se acerca dos caminhos, medindo a palmos a sombra que nos mira das varandas ausentes. São prédios de varandas ausentes, os prédios do meu bairro. Às vezes pára um carro, abastece-se, mijam contra a sombra dos corpos sem saber que estão a mijar contra os próprios corpos. Tratam mal as mulheres, chamam-lhes nomes. Elas ocorrem-me como a figura que equilibra o quadro, aquele traço desfigurado que, de alguma forma, dá consistência à paisagem. Não são apenas uma intromissão, são o peso sagrado do que prova, por si só, a ausência do divino. São aventais de vento.

SE EU CAIO DOENTE

Se eu caio doente,
não vou à procura do médico,
mas vou pedir aos meus amigos
(não julguem que estou a delirar):
dêem-me a estepe como cama,
ponham-me o nevoeiro como cortina à janela,
e à cabeceira coloquem
uma estrela da noite.

Nada me faz parar.
Nunca passei por ser um não-me-toques.
Se me ferem num combate justo,
liguem-me a cabeça
com um carreiro da montanha
e cubram-me
com uma manta
de flores de Ouitono.
Não preciso de gotas nem de pós.
Que os raios de sol brilhem no copo.
O vento quente do deserto,
a prata das cascatas –
eis a melhor cura.

Dos mares e das montanhas
vem-nos um odor dos tempos primevos,
com um olhar – a sensação
de que viveremos para sempre.
De pílulas branca não
me encham o caminho, mas de nuvens.
Não vos troco por um corredor de hospital,
mas pela Via Láctea.

Tradução de Manuel de Seabra.


Yaroslav Smelyakov nasceu no dia 26 de Dezembro de 1912 na Rússia. Trabalhou como mineiro e como compositor tipográfico, tendo o próprio composto o seu primeiro livro em 1931. O seu livro mais conhecido é Trabalho e amor, publicado em 1932. Morreu em 1972.

MANA CALÓRICA NO MYSPACE:

http://www.myspace.com/manacalorica



foto: Rui Costa


Para ouvir,
adicionar,
contactar para concertos dentro e fora da galáxia.


Rui Costa

17.3.07

el Poder es hipócrita,
vive por los tremedales

creó, dicen, las barcas de paja
de titicaca. hoy
por toda parte se las usa

Milton Torres

16.3.07

Associações livres

Motivado por posts no Auto-Retrato e no azeite&azia lembrei-me de uns epigramas de Goethe, traduzidos por João Barrento:

Não me posso admirar de Cristo Nosso Senhor ter gostado
De viver com putas e pecadores. Pois se o mesmo se passa comigo!

*

Não digo que não gosto de mancebos, mas prefiro as donzelas,
Porque se me farto dela como donzela, sempre dela me posso servir como mancebo.

*

Procurei muito tempo uma mulher; procurava, só encontrava pegas.
Finalmente encontrei-te, minha pegazinha, e que mulher eu encontrei!

Foi uma merda

Este post não é contra nenhum tipo de debate ou controvérsia, manifesta apenas, humilde e honestamente, o seu entorpecimento perante a necessidade de uma caracterização da ditadura portuguesa. Foi fascismo? Não foi fascismo? Gentes, foi uma ditadura. Havia censura política, censura de opinião, torturaram-se pessoas, perseguiram-se outras, fez-se a folha a umas tantas. Só isso devia chegar para dizer que, mais fascismo, menos fascismo, foi uma merda.

Los prados soñolientos de la cruda primavera.

Terbutalina, Salbutamol, Corticóides, Teofilina e anti-histamínicos. E os olhos tristes das flores que não desabrocham.

O CAMINHO DAS ÍNDIAS


A água dispara seu óxido
no signo das tetas.

(Palavras da palavra
placenta de palavras.)

O eco frustra a manhã
de inviável vocábulo.

Nossa noite dormimos
subterrâneos sóis.

(Placenta de planetas
o útero das palavras)

Nauro Machado

Nauro Machado nasceu em São Luís do Maranhão, no dia 2 de Agosto de 1935. Estreado em 1958, com Campo sem base, tem mais de 30 livros de poesia publicados. Estudou no Colégio de São Luís os cursos primário, ginasial e científico, tendo passagem de um semestre pelo Colégio Mallet Soares, no Rio de Janeiro. Trabalhou em vários cargos públicos, sendo um autodidacta das letras. É detentor de vários prémios, está representado em diversas antologias e possui alguns dos seus poemas traduzidos em várias línguas. »

15.3.07

Pipilotti Rist - I'm Not The Girl Who Misses Much

Para o Lutz.


A primeira vez que vi este vídeo foi na Fundação de Serralves, em 1999. Fiquei tão impressionado que nunca mais perdi Pipilotti Rist de vista. Ainda hoje, sempre que olho para um carro, sobretudo o meu, dá-me vontade de fazer o mesmo.

14.3.07

As auto-estradas da (in)formação

As auto-estradas da informação são, aparentemente, uma ferramenta ao serviço da informação, tornando-a mais abrangente e imediata. Ninguém pode duvidar das transformações profundas que vieram introduzir no quotidiano da sociedade civil global, podemos e devemos questionar-nos sobre a sua eficácia. A Internet é um espaço de circulação de informações sem fronteiras intransponíveis, facilmente a pensamos dessa forma e a julgamos cada vez mais essencial na busca de conhecimento e no estabelecimento de redes de comunicação. Motores de busca como o Google tornaram-se, nos últimos anos, autênticas enciclopédias ao serviço de grande parte da humanidade, pelo menos da humanidade dita desenvolvida ou mais abastada economicamente. O Google veio revolucionar aquilo a que podemos chamar uma possível paisagem do mundo, ao fornecer-nos dados sobre tudo e mais alguma coisa, acompanhados de imagens, fotografias, instantâneos diversos, que permitem reproduzir, de forma mais ou menos fiel, a realidade. Ao mesmo tempo cria-nos a ilusão de um conhecimento que nunca escapa à superficialidade e que, muitas vezes, surge poluído de perspectivas interesseiras sobre os mais diversos assuntos. No fundo, é uma máquina ao serviço de uma grande ilusão. Não resvalemos no lamaçal dos juízos de valor, não é isso que se pretende. Prefiro antes pensar nas consequências das auto-estradas da informação num contexto de pesquisa, ou seja, num contexto de diagnóstico do mundo, em última instância, num contexto da formulação de conceitos que nos permitam, mediante coordenadas diversas, enquadrar o tempo em que vivemos. Não creio que a esse nível estas novas tecnologias da informação venham acrescentar grande coisa ao que já tínhamos, isto é, a noção de que todas as representações não passam disso mesmo e, enquanto tal, nelas não devemos depositar grandes anseios de verdade. Se eu quiser fazer um trabalho sobre os índios Caiapó, fá-lo-ei com alguma facilidade. Se eu quiser conhecer os Pigmeus africanos, conhecê-los-ei com a mesma facilidade. Ou, pelo menos, será criada em mim uma ilusão desse conhecimento na base de informações que logro recolher em sites de todo o mundo elaborados por milhares de pessoas com os mais inimagináveis interesses. Por outro lado, se os Caiapó ou os Pigmeus quiserem saber como eu vivo, quais os meus hábitos, costumes e tradições, dificilmente terão essa oportunidade. O retrato do mundo que a actualidade nos proporciona permanece corrompido pelo exotismo das relações, sendo hoje esse exotismo, de certa forma, empolgado pela grande ilusão de um saber que não passa de um bem de consumo à disposição dos mais desenvolvidos. Lyotard alertava para isso quando afirmava que «a questão do saber na era da informática é, mais que nunca, a questão do governo», pois o que está em causa é saber distinguir o saber de um pseudo-saber, na medida em que o saber só se concretiza quando expurgado da ignorância que advém de nos julgarmos na posse de um saber que, na verdade, é um pseudo-saber, uma ilusão. Temo que as auto-estradas da informação tenham vindo agudizar essas discrepâncias, apesar de nos querem fazer crer do contrário. O grande desafio da educação na actualidade consiste, precisamente, em transmitir defesas que permitam ao sujeito que conhece proteger-se da poluição disseminada por quem governa o saber. É aí que o espírito crítico e o olhar desconfiado se tornam fundamentais. Mas caminhamos no sentido inverso quando a esse espírito quem governa o saber prefere o espírito técnico, ou seja, prefere um povo desarmado, iludido, sem defesas, facilmente manipulável, seduzível, submisso. Para isso, antes viver como os Caiapó ou os Pigmeus numa qualquer ilha que ainda reste neste canil de restos e de ossos.

No pasa nada.

Os telejornais transformados em telenovelas, os jornais encharcados de opinião preguiçosa. De quando em vez, lá aparece um pequeno escândalo patrocinado por uma agência de comunicação com interesses na matéria. Caminhámos para isto, para um país sem jornalismo de investigação, um país sem notícias. Isto é uma vergonha, isto é uma palhaçada, desabafa o participante na Antena Aberta. Falava-se de futebol. É curioso, pois tornou-se evidente, nos últimos meses, ser o jornalismo desportivo o mais subserviente de todos. Veja-se como fogem cobardemente aos apitos dourados, prateados e quejandos. Mas podia-se falar de outra coisa qualquer que ia dar ao mesmo acanhamento. Não sei o que se passa neste país mas desconfio que alguma coisa se passe, não acredito que não se passe mesmo nada.

O MENSAGEIRO

07-03-2000
1:27:46 Amora Rim


na sexta feira vi uma rapariga no comboio que nao foi nada coerente e achei bonito


07-03-2000
1:28:03 Amora Rim


ia sentada com uma mala enorme e pesada e por isso ocupava dois assentos


07-03-2000
1:28:31 Amora Rim


chegou um tolo hipermoderno cheio de i.pods, cabelo loiro, laptop e ramo de flores e quis sentar se ao lado dela


07-03-2000
1:28:49 Amora Rim


ela disse que se ele quisesse tinha que ser ele a por a mala na grade


07-03-2000
1:29:02 Amora Rim

e ele perguntou com modos de toureiro : proque nao tiras tu


07-03-2000
1:29:13 Amora Rim

e ela disse. porque é pesada e nao posso


07-03-2000
1:29:26 Amora Rim


entao o tipo sentou-se noutro lado


07-03-2000
1:29:26 Amora Rim


virou-lhe as costas num pis pás


07-03-2000
1:29:41 Amora Rim


e sentou.se ao meu lado ocupado com os ipods e os objectos todos


07-03-2000
1:29:46 Amora Rim


a meio da viagem


07-03-2000
1:29:54 Amora Rim

o comnboio começa a encher mesmo


07-03-2000
1:30:20 Amora Rim


e o tipo decide levantar-se e ir i-podar e telefonar de pé para a entrada


07-03-2000
1:30:33 Amora Rim

e deixou a cadeira com o computador e as flores a marcar lugar


07-03-2000
1:30:44 Amora Rim

chegou uma malta e pensou que as coisas eram minhas


07-03-2000
1:30:49 Amora Rim


e perguntaram se podiam sentar


07-03-2000
1:30:58 Amora Rim


eu dise: não sao minhas...sao de um tipo que saiu


07-03-2000
1:31:04 Amora Rim


e surpreendenteente


07-03-2000
1:31:07 Amora Rim


a rapariga


07-03-2000
1:31:16 Amora Rim


que coerentemente se estaria nas tintas pro gajo


07-03-2000
1:31:24 Amora Rim

meteu-se na conversa


07-03-2000
1:31:25 Amora Rim


e disse


07-03-2000
1:31:28 Amora Rim


saiu mas volta


07-03-2000
1:31:32 Amora Rim


ou seja


07-03-2000
1:31:34 Amora Rim

defendeu-o


07-03-2000
1:31:39 Amora Rim

defendeu os interesses dele


07-03-2000
1:31:41 Amora Rim


uma castiça


07-03-2000
1:31:52 Amora Rim

nao é bem uma questao de coerencia


07-03-2000
1:32:07 Amora Rim


mas é de como as pessoas podem ser surpreendentes


07-03-2000
1:32:25 Amora Rim

pronto...deixa lá...é uma história da treta


07-03-2000
1:32:52 Rim Amora

a miuda tb preferia continuar com as malas ao lado, n


07-03-2000
1:32:55 Rim Amora


não?


07-03-2000
1:33:15 Amora Rim


depois veio outro tipo e tirou-lhe a mala para cima da grade e sentou se ao lado dela com um puto


07-03-2000
1:33:20 Amora Rim


e foram a conversar


07-03-2000
1:33:28 Amora Rim


ela so nao podia era com o raio da mala


07-03-2000
1:34:03 Rim Amora


então defendeu o gajo pra emagrecer


07-03-2000
1:34:47 Amora Rim


nao sei. andar nos comboios é…



Rui Costa

13.3.07

A WHOLE LAKE OF SLEEPING CHILDREN


Calexico
Across The Wire

Não sejas pobre a pedir ao tédio, pede-lhe um novo reality show com gatas e cães a dormirem na mesma alcofa. Pede-lhe um dom sebastianista, prestamista, mestre no desfile dos slogans bronzeados. Pede-lhe uma gala e um galo e um aviário de pintainhos a piarem memórias de esquecimentos ocasionais. Pede-lhe um presidente, o maior de todos, o da sociedade civil global, a ser apedrejado nas auto-estradas da informação. Pede-lhe uma informação com limites de velocidade e testes de alcoolémia. Faz um teste de alcoolémia ao tédio e manda-o para o México pintar feridas com calos. Bebe chá. Se o tédio não te atender, então mergulha num lago cheio de crianças embaladas, fecha os olhos à tristeza que se abateu sobre os dias como uma chuva que cai e se infiltra pelos poros adentro. Há fotografias que respiram calafrios inofensivos, retratos do México, mortes coloridas. Não é muita a burocracia de sentir, apenas o estar atento e numa posição trabalhada à medida dos músculos. Se não entenderes as palavras aflitas das crianças, se o tédio não ter atender, segura a sombra do vento com as duas mãos e faz uma metáfora qualquer que te negoceie o desespero com a esperança. Tenta.

Programa


Corrigir, passar a vida a corrigir mesmo o que não tem correcção. Revisitar, rever e corrigir. Ser incorrigível, ser como um defeito de origem mas tentar corrigir. Levar a vida com o engenho de quem aperta um parafuso sem suar das mãos.

O mal menor

Vivemos num mundo ditado pelo mal menor. Todas as nossas opções estão contaminadas pelo mal menor. Tudo o que podemos fazer é evitar um mal maior.

Não ir à bola

Quantas pessoas já morreram, quantas famílias foram destruídas, à conta de um ponto de exclamação? Eles riem-se, dão entrevistas, pousam para a fotografia, ajeitam a gravata, retocam o cabelo. Será que não lhes pesa a consciência? Não se sentirão atormentados pelas consequências nefastas das mentiras que proclamaram? Como sabe quem por aqui é assíduo, não voto em eleições que sirvam para eleger gente em quem já não acredito minimamente. Não acredito nos políticos, há muito me fartei das suas mentiras. Podem mudar no estilo que, na essência, são todos iguais. Sim, é isso mesmo, sou da família dos pacóvios para quem eles são todos iguais. Passa pela cabeça de alguém que essa gente queira o bem dos eleitores, dos cidadãos, das pessoas comuns? Passa pela cabeça de alguém que o seu quotidiano seja minimamente atormentado pelas carências daqueles que os elegem? Não acredito. Eles são apenas o pretexto que justifica uma sociedade arquitectada em função dos interesses económicos de uma meia dúzia que engorda à custa dos restantes. Não acredito neles e julgo masoquista acreditar neles. Pareço o Dias Ferreira a falar dos árbitros de futebol. Que fazer? Não sei, mas não votar é o mínimo que me resta. Assim como não ir ao futebol.

12.3.07

TREES DON’T CARE ABOUT YOU OR ME…


Beachwood Sparks
You Take the Gold

Escreve as asas de um passarinho e manda-as voar sobre as árvores onde fazem ninho os pássaros em que te inspirares. Deita-te na sombra das árvores e espera que os pássaros te presenteiem com o dom da natureza. Será preciso chegar a casa com os dedos sujos para justificar a vida? Que vida é esta que apenas se justifica se chegarmos a casa com os dedos sujos? Não pode a gente dispensar o sarro que se incrusta nas unhas como a humidade nas paredes? Um passeio de fim-de-semana pela floresta fazia-te bem, um mergulho na lagoa, um corpo à vela. A luz que agora cai ainda não é a primavera das queimadas, os frutos secos da espera, é apenas o florescer de um lugar onde a terra cheira apenas a terra. Tem tanto céu o céu desde que partiste, tem tanta terra a terra desde que chegaste. Não olhes para mim com esses olhos de inveja, não me mates de quebranto com males de que não tenho a cura. Passa por cá, bebe um copo, tenho asas que nos levarão até ao sol mesmo que surripiadas. Quanto a plágios estamos falados, são apenas os ossos de quem não tem vida.

Vir ao sofrimento


Não sei ao certo o que me atrai nas esculturas do norte-americano George Segal (1924-2000), mas desconfio que seja esse registo quase fotográfico dos gestos quotidianos mais banais. Geralmente associado à Pop Art, Segal também foi pintor. Enquanto tal, reproduziu a preto e branco vários objectos de uso doméstico: jarras, chávenas, malas, saleiros, açucareiros, garrafas de ketchup, sapatilhas. Ao contrário da maioria dos seus congéneres de movimento, relegou a cor para um plano secundário. Porém, encontramos-lhe, muito de vez em quando, algumas esculturas mais coloridas, ainda que quase sempre monocromáticas. Dos seus trabalhos para espaços públicos, os mais conhecidos talvez sejam Gay Liberation (1980) e The Holocaust (1984). Esta última encontra-se no Lincoln Park, em São Francisco, e, apesar de nunca a ter contemplado senão através de registos fotográficos, toca-me particularmente. O tema, por si só, presta-se a isso, mas há algo mais que a torna profundamente marcante no contexto da obra deste escultor. As esculturas de George Segal representam, como já referi, gestos quotidianos, transeuntes a atravessar uma rua, uma mulher a abrir uma porta, um casal abraçado debaixo de um vão de escadas, cidadãos na paragem do autocarro, pessoas sentadas ao balcão, num restaurante, num banco de jardim, etc. No trabalho que se refere ao holocausto o quotidiano é caracterizado por um conjunto de cadáveres amontoados no chão e um homem de pé, cabisbaixo, agarrado ao arame farpado, de costas voltadas para os mortos. O autor capta assim, com brutal clareza e evidência, o quotidiano do holocausto, não sem nos interpelar sobre essa evidência. A figura que se encontra de pé está de costas voltadas para a morte, agarrando-se ao arame farpado num gesto que simula, ao mesmo tempo, uma impotência tremenda perante a vida mas uma força desconcertante na relação com o sofrimento. É, toda ela, uma lição de vida, um ensinamento que a História mais negra da humanidade nos outorgou. O sofrimento pode ser desnecessário, pode não haver nada na vida mais dispensável, mas é ele também quem melhor nos mantém de pé, quem, da forma mais radical, é certo, nos afirma e sublinha a vida. Vai-se a ver e isto anda tudo ligado e a forma como nascemos é já uma premonição do absurdo que é viver. Vir à vida é, desta forma, vir ao sofrimento, esse sofrimento que mais não é senão um adiamento da morte. No fundo, não é outro o quotidiano da humanidade.

Aquel silencio reducido del eclipse.


A poesia nada pode contra a miséria dos homens. Por isso mesmo, em certos momentos os (neo-)realistas parecem românticos e os românticos são, muito mais autenticamente, (neo-)realistas.

AUSÊNCIA

Nas horas do poente,
Os bronzes sonolentos,
- Pastores das ascéticas planuras –
Lançam este pregão ao soluçar dos ventos,
À nuvem erradia,
Às penhas duras:
- Que é dele, o eterno Ausente,
Cantor da nossa vã melancolia?

Nas tardes duma luz de íntimo fogo,
Rescendentes de tudo o que passou,
Eu próprio me interrogo:
- Onde estou? onde estou?
E procuro nas sombras enganosas
Os fumos do meu sonho derradeiro!

- Ventos, que novas me trazeis das rosas
Que acendiam clarões no meu jardim?

- Pastores, que é do vosso companheiro?

Saudades minhas, que sabeis de mim?


Mário Beirão nasceu na cidade de Beja, a 1 de Maio de 1890. Em Beja passou a sua mocidade, frequentando o Liceu. Foi depois para Lisboa, onde se formou em Direito. Colaborador da Águia, escreveu em muitas outras publicações literárias. Estreou-se como poeta com O Último Lusíada, publicado em 1913. Com Novas Estrelas obteve o prémio de Ricardo Malheiros, da Academia das Ciências de Lisboa. A sua obra literária, iniciando-se no Saudosismo e terminando numa corrente acentuadamente nacionalista e conservadora, apresenta, em geral, algumas importantes características da poesia portuguesa posterior: um propósito de concisa epopeia; uma obsessão telúrica; um sentido de reivindicação social. Morreu em 1965. »

"não se ladrilha o chão pera colher a lagrima que cáe"
Garcia de Orta

11.3.07

Um novo projecto literário de Luís Ene

vidasdevidas - ficções telegráficas

10.3.07

IT’S NOT FUNNY BUT IT’S A JOKE


American Music Club
Wish The World Away

Se te lembrares, faz-me chegar um milagre por e-mail. Ficarei à espera como quem espera um sinal numa ilha deserta, o som da pedra a bater no fundo do poço. Não me perguntes por que espero, nem eu sei. Só sei que esperarei por esse milagre até que ele chegue quando tu puderes. Se andares muito ocupado com afazeres quotidianos, talvez possas pagar a um estafeta para que me envie esse milagre por e-mail. O que importa é que chegue, que venha com saúde, inteiro, sem qualquer tipo de rasgão no envelope. Estou farto de e-mails com envelopes rasgados e selos fora de prazo. Perco horas, dias inteiros, só para reclamar ao carteiro mais cuidado no depósito das mensagens. Depois chegam-me todas deformadas e não tenho gramática para elas. Como pode um homem viver sem gramática para as mensagens que lhe chegam? Não pode, por isso mesmo não vivo. Limito-me a definhar. Ainda assim, julgo que não nos devíamos pôr a pensar na lua sem acabar com a fome na terra. Tanta gente a morrer de fome e nós a ver na televisão grandes passos com quase quarenta anos, passos que apenas mudaram o modo de deixar tudo na mesma.

La primavera os asustará como un mendigo.


Homens de gravata são como pássaros engaiolados, podem cantar bem mas falta-lhes espaço para voar.

Fragancia de yerba.


Farto de discussões estéreis e desgastantes sobre assuntos inúteis e recorrentes, quero agora dedicar mais tempo à fragrância das ervas e às canções do vento.

O SOCO PARTIDO DO MONUMENTO É DESTRUÍDO

O soco partido do monumento é destruído.
Uiva o aço da picareta.
A mistura de cimento particularmente dura
Foi calculada para durar milénios.
Veio tão depressa o tempo de reavaliar,
E é tão óbvia a presente lição:
Excessiva preocupação com a eternidade,
Sinceramente, não traz grande vantagem.
Mas como se agarram mortalmente estas pedras,
Com furiosa força – é preciso suar.
Excessiva preocupação com o olvido
Não exige também menos trabalhos.
Tudo o que no mundo saiu da mão do homem
Pela mão do homem pode ser reduzido a escombros.
Mas o caso é que
Na sua essência, a pedra
Não é boa nem má.
Tradução de Manuel de Seabra.

Alexandr Tvardovsky

Alexandr Tvardovsky nasceu em 1910 em Zagorye, na região de Smolensk. Começou a publicar poemas na imprensa tinha 14 anos e aos 18 anos reuniu todos os seus poemas e foi mostrá-los ao poeta Mikhail Isakovsky, a quem se deve a publicação do seu primeiro livro, O caminho do socialismo, saído em Moscovo, em 1931. Estudou no Instituto de História, Filosofia e Literatura de Moscovo. Foi director da revista Nóvy Mir e ganhou o prémio Lenin em 1961. Morreu de doença prolongada, no dia 18 de Dezembro de 1971.

6,300Kg

Depois do que te fiz sofrer, ter nascido para sofrer já não é nada mau.

Muito católico

Entre outras, há uma razão que me afasta do catolicismo como o diabo da cruz: a ideia da recompensa. É muito católico esperar de tudo o que é ético uma recompensa final, até da fidelidade. O catolicismo é só uma das muitas práticas do comércio moral.

9.3.07

Horses wanna dance but find their wings are damaged


Se pudesse escolher uma profissão, escolhia a de DJ. Queria ser um daqueles DJs parvos que passam música como se estivessem a dar um concerto, olhar, no alto de uma cabine, as pessoas a dançar, os corpos aos saltos, abanando-se ao ritmo dos decibéis, empurrados pelos poderosíssimos músculos das aparelhagens. Sonho com jovens adolescentes de salto alto e saias curtas, rasgados decotes até ao umbigo, sacudindo as ancas em cima de colunas de ferro, festas da espuma, balcões tingidos de álcool. Cabeleiras soltas, agitadas pelo bafo das colunas, a arfar de movimento. Gostava de possuir o dom dos instantes, de engatar sorrisos e improvisar posições com a velocidade da luz, abanar a cabeça como um coração trepidante e, numa emergência de festa, lançar sobre os corpos à minha volta a luz e a magia do deleite. Há num corpo que dança a sensualidade que escapa a todas as palavras, a todas as imagens, a todas as transfigurações. Se ao menos fosse possível escrever como quem dança, ou como quem oferece uma dança, ou como quem dispara a música por entre os corpos que dançam… Mas já nada disso é possível, chegámos tarde à pista. A única música das palavras é a do silêncio e só sabe dançar o silêncio quem não escuta a percussão da carne. Poucos, tão poucos, que cabem todos na pasta de um daqueles DJs parvos que passam música como se estivessem a dar um concerto.

O ANIVERSÁRIO

Neste dia de aniversário, quarenta e sete anos
que mais ninguém nos tira, morro-me Pessoa
como quem não compreende como pode ser
possível uma morte tão jovem na velhice pre-
matura de um corpo, ou mesmo na juventude
da inteligência. Que aconteceu? Que acontece
com esta percepção e esta assunção, ser morto
quando tanto é o desejo de viver na realidade
dos dias que passam como se houvesse tempo
para tudo, até para se renascer em cada morte.
Morro-te pois, Pessoa, literalmente, na pessoa
literária que nunca me deixaram ser, a cultura
pátria demasiadamente ensimesmada na razão
medíocre da cegueira, da veraz incapacidade
para aceitar viva a leitura de quem vive e fala
e no que diz afirma uma presença, de alguém:
um homem, um cidadão, enfim, uma pessoa.
De mortos é que se alimenta o país, daqueles
que não poderão levantar a voz, prisioneiros
do que escreveram noutros contextos da vida
ou da história, e daqueles que ainda escrevem,
refiro-me sobretudo aos que fingem uma arte
na premência totalizadora como configuram
politicamente o mundo ou a sociedade coeva
para que mais ninguém, um ser humano vivo,
possa surdir no meio do meio dito intelectual,
quando de cadáveres de ideias e de conceitos
é que sobrevivem os mortos-vivos fragilmente
estabelecidos. Morro, como tu aos quarenta
e sete anos, e para todos os efeitos da carreira
literária que não tive. Falarem do que escrevo
ou lerem-me definitivamente será agora sempre
postumamente. Estranho destino o dos homens
que não aceitam a profissão, seja ela qual for,
mesmo se de poeta ou de literato, neste pobre
país entregue ao poder e às influências escurris
dos que nunca ousarão viver depois de mortos,
como aconteceu contigo e espero que aconteça
comigo. Se acontecer, pela primeira vez (penso
agora eu, que nada sei!) na história do ocidente
alguém viverá duplamente, como morto que é,
como vivo que continuará a ser, numa duplici-
dade contemporânea da sua desdobrada idade.
Um fenómeno inaudito, amigo Pessoa, amigo
Silva Carvalho, apetece agora dizer, ignorando
quem sou do
que ou de quem sou, se não sou
apenas esta «voz» glotorando (ir ao dicionário,
ir ao dicionário, ó preguiçosos!), neste preciso
momento, este texto nemésico como inóspita
provocação para os mortos que não deixaram
eclodir a voz, o grito, tantas vezes os gemidos
de quem sofreu uma existência sem verdadeira-
mente existir, sem possibilidade de confirmação.
Confirmo pois, caro Pessoa, estupidamente, é
certo, pateticamente, sem dúvida, a existência
que foi tua na minha, agora e aqui: é um facto
que viveste e foste vivo, como eu vivi e vivo
e viverei, não para sempre – mas quem precisa
disso, senão os sempre mortos? -, mas dentro
de mim onde estou vivo na morte que foi tua!

08-02-1995



Silva Carvalho nasceu a 8 de Fevereiro de 1948 em Vila do Conde. Frequentou dois anos de Medicina na Universidade de Coimbra, antes de se exilar em Paris, França, em 1969. Regressa a Portugal em 1975, onde se licencia em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1980. Professor do ensino secundário, Leitor na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, E.U.A. (1985-89), na Universidade de Goa, Índia (1990-91) e na Universidade de Massachusetts, Dartmouth, E.U.A. (1997-2001). Lecciona actualmente em Sintra. É autor de várias obras, das quais a primeira a ser publicada foi Suor do Tédio, em 1969. »

Faz-me espécie

Faz-me espécie que haja quem julgue que um novo reality show pode quebrar a monotonia na televisão portuguesa.

Pau pra toda obra


Há uma série de comentadores em Portugal que são pau pra toda obra. Falam sobre tudo e mais alguma coisa como se soubessem muito de tudo e mais alguma coisa. Autênticos homens da renascença, eles debitam sobre política nacional e internacional como quem colhe alfaces, opinam sobre bola como quem dá uns toques, alvitram sobre economia como quem apregoa, falam sobre sexualidade como quem se masturba, propõem, sugerem, lembram, facturam nas salas de espectáculo como quem rega jardins domésticos. Mais do que comentadores, eles comem-te as dores da fome de opinião.

Ditos do pé para a mão


1. Os jornais estão cheios de intelectuais, de universitários, de sábios, gente tão alta que, quando olha para os pés, vê apenas dois pontinhos do tamanho deste ponto final.

2. Nunca gostei de bares com porteiro e detesto festas privadas. Só vou se o DJ for um Camus do vinil.

8.3.07

O sítio da OVNI


7.3.07

Momento da noite

Numa reportagem de rua, uma inquirida grita para o microfone: «Depois, quando passar isto, ponha tudo em directo!!! Eu quero que o povo saiba todas estas verdades, ponha tudo em directo!!!»

A mulher-bibelot

Via Arrastão.

Para Schopenhauer o amor é um instinto, assim como mamar. Só que enquanto o instinto de mamar tem em vista a satisfação de uma necessidade fisiológica do indivíduo, o amor cumpre necessidades da espécie, nomeadamente, a procriação, a geração de uma criança. A verificar-se uma coisa destas, somos apenas joguetes da natureza, uns palermas que para aqui andam, cheios de sonhos e ideais que mais não são do que truques para disfarçar um egoísmo específico, uma debilidade que faz de nós escravos e vítimas da espécie. Sendo assim, as pessoas que não encontram o parceiro ideal para a procriação só podem trazer consigo um defeito de nascença, uma falha qualquer que os impede de concretizar os ditames da espécie. Já as pessoas que não desejam ter filhos podem ser consideradas, aos olhos da espécie, seres amotinados, temíveis revolucionários a trazer na mira da censura. De entre estes pervertidos os do género feminino são os mais censuráveis. Isto porque, levando à letra o autor de A Metafísica do Amor, deviam ser, naturalmente, o género mais fiel. Estando-lhe no sangue a propensão para a fidelidade e um espírito mais ponderado, apesar de se revelar o género mais frívolo e de inteligência acanhada, a mulher é quem mais obedece à natureza da espécie. O problema é que, no seu breve Ensaio Sobre as Mulheres, o filósofo alemão afirma a dissimulação como uma característica inata das mulheres, consequência da qual nasce a falsidade, a infidelidade, a traição, a ingratidão, etc. Afinal são as mulheres mais fiéis ou infiéis que os homens? Schopenhauer lembra-me aquele padre do poema de Manoel de Barros que, olhando no recreio um menino que não brincava com os outros meninos, pensou que ele seria poeta. Na verdade, o menino estava apenas com uma terrível dor de barriga. A Metafísica do Amor é um dos exemplos mais extraordinários de que, trazida ao concreto, a metafísica perde grande parte da sua razoabilidade in abstracto. Pretendendo-se inimiga do mito, ela foi, por diversas vezes, promotora de mitologias tão razoáveis e prováveis quanto o elixir da eterna juventude. Promotora, portanto, de injustiças com catastróficas consequências. Mas há um desses mitos schopenhaurianos que a toda a hora parece querer comprovar-se: «as mulheres são, por índole, inimigas». Bem sei o quão injustas podem ser todas as generalizações deste tipo, difíceis de justificar à luz da milhentos exemplos trazidos à mão, mas macacos me mordam se não é verdade verdadinha haver nesta metafísica da mulher uma correspondência iniludível com o concreto. Há quem diga que isto resulta de milénios de endrominação masculina, como se a história da subjugação da mulher ao homem tivesse resultado numa desconfiança entre as mulheres que hoje se manifesta numa espécie de instinto de competitividade, misturado com uma fatuidade extrema frequentemente confundível com inveja, ressentimento e outras virtudes que tais. Como sou muito humilde nestas questões, prefiro sempre não elaborar grandes teorias de género e evitar distinções disparatas que oponham homem e mulher a partir de traços de carácter biologicamente indetermináveis. O que a experiência me vai dizendo é que há entre as mulheres um complexo de inferioridade que ainda está por resolver, e que os tempos em que vivemos, tempos de subsunção do feminino à promoção de um ideal de beleza físico, também em nada ajudam a que ele seja resolvido. O estereótipo da mulher-bibelot, seja no papel de mãe, dona de casa, modelo de beleza, amante de trazer no bolso, está longe de ter sido ultrapassado. Estaremos no bom caminho?

As pessoas que só pensam em sexo

As pessoas que só pensam em sexo são como as putas que só pensam no amor.

As pessoas que conhecem mal

Muitas pessoas a quem se pergunta se conhecem isto ou aquilo, dizem que conhecem… mas mal. Na verdade, muitas delas não conhecem de todo mas estão convencidas de que conhecer mal um pouco de tudo é preferível a desconhecer muita coisa. São a prova cabal de que há pessoas que não se reconhecem enquanto pessoas.

As pessoas que falam muito

As pessoas que falam muito são como os cães que não mordem. As pessoas que escrevem muito também.

As pessoas que falam das pessoas

As pessoas que falam das pessoas no geral como se elas próprias não fossem também pessoas são qualquer coisa que eu ainda não descortinei. Na volta, são apenas pessoas.

6.3.07

QUANTO MAIS MORTO MAIS COERENTE



Continuamos a viver dobrados ao peso de tanta coerência.

Um autor ou artista coerente é um artista morto.

Ter estilo – forma de coerência - é persistir na falta de imaginação. Porque ter estilo é circular - infinitas vezes - dentro de um conjunto de técnicas que se domina (ou julga dominar)

Voz poética. “Fulano já encontrou a sua voz poética”. Qual voz poética? Acaso uma pessoa – qualquer pessoa – tem a mesma voz do princípio ao fim da vida? Acaso existe uma voz-modelo no mundo platónico de que os senhores pardacentos tanto gostam? De entre todas as vozes que tens ou podes ter, porquê escolher UMA? Haverá uma voz que nos simbolize/represente/seja melhor do que todas as outras juntas?

Não estou a dizer que sejam desprezíveis ou menos valiosos os esforços de quem se concentra num tema ou conjunto de temas ou de técnicas. Um bom exemplo de coerência com interesse máximo é herberto hélder, que escreve sempre o mesmo poema (por isso chamou ao conjunto da sua obra “Ou o poema contínuo”). herberto hélder investiga sempre – experimenta - , intensifica-se na busca de uma linguagem onde as metáforas, de tanto o serem – deixam de ser metáforas e são nomeações de origem, primordiais como os primeiros gemidos crentes – numa linguagem nova, destruídos os sentidos convencionais pela recombinação a que a máquina lírica submete os restos de paisagem.

Quer dizer, embora a coerência não me interesse de forma estruturante enquanto pessoa e autor (o meu segundo livro de poesia será bastante diferente do primeiro, o terceiro ainda mais diferente, o quarto não tem quase nada a ver com nenhum dos anteriores, e se sei isto é porque já estão escritos), admiro esforços “coerentes” como o do poeta citado. O que me chateia, e acho pobre e castrador, é a elevação da coerência a parâmetro de avaliação artística, estética e mesmo ética (as pessoas incoerentes assustam) constante e obrigatório, como se a coerência fosse não apenas a coisa mais natural do mundo mas também uma característica insubstituível dos artistas (e pessoas) normais, válidos e exigentes.

É evidente que o preconceito da coerência não vem do nada. Tem origens fundas no pensamento judaico-cristão que molda a civilização ocidental (o deus único, a ideia de tempo linear), no platonismo (o mundo das ideias-modelo, a permanente imitação do paraíso perdido) - velhinho de milhares de anos mas que está para durar - e noutros factores que tendem a ser subprodutos daqueles dois.

No caso de Portugal o contexto é favorável aos paladinos da “coerência”. Os portugueses, como Salazar bem percebeu, são um povo com dificuldade a conduzir a vontade – é muito mais fácil quando se tem um modelo que suscite a nossa adequação, ainda que se trate daquilo que já fizemos antes -, que acreditam no último minuto salvador e na esperteza saloia, são desenrascados mas precisam de um líder forte em quem delegar a decisão sobre as suas vidas, que não se governam nem se deixam governar – a menos que o ditador faça acompanhar os seus abusos da vozinha de beata assustada a braços com o iodo e a humi(l)dade.

Rui Costa

5.3.07

Obese Giant


Quando há 10 anos visitei A Ilha do Tesouro, uma exposição de Arte Britânica apresentada no Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, ainda não conhecia o trabalho de Ken Currie. A pintura deste escocês cativou-me por nela encontrar um realismo que escapava à grande maioria dos artistas representados naquela mostra. Cito um excerto, da nota de catálogo, acerca da obra de Ken Currie: «O seu programa é claro: fazer arte sobre “trabalhadores, para trabalhadores…”, subscrevendo a ideia do poder da arte como motivação para alterar o modo de vida das pessoas (sem que no entanto, haja qualquer nota de optimismo no seu trabalho).» Em certa medida, julgo não ser displicente a afirmação de que o seu trabalho é de um realismo esclarecido que, por isso mesmo, não dispensa a ironia. A ironia, quando eivada de crueza, é amiúde confundida com ausência de optimismo. Não me parece que possa ser o caso de alguém que acredite num qualquer poder da arte em alterar o modo de vida das pessoas. A existência de um programa que consista em fazer arte sobre trabalhadores para trabalhadores não é nova, residindo a novidade apenas na reafirmação dessa atitude num tempo em que tal gesto não deixa de ser anacrónico. Digo isto porque dificilmente me convencem de que a arte não é, cada vez mais, um privilégio ao alcance de muito poucos, nomeadamente no que possui de potencial de mudança.



Podemos pensar na nossa relação com a arte como quem pensa num homem que viaja, num homem que, em contacto com o outro, com o diverso, se descobre a si próprio, se transforma, se constrói. A grande maioria das pessoas, por razões diversas, vive num estado de abdicação desse tipo de relações, preferindo investir noutra espécie de encontros muito mais sedentários. Talvez não seja tão romântica quanto pareça a ideia de que pela arte, porque em contacto com o diverso, mais facilmente o homem se descobre a si mesmo, isto se julgarmos haver um si mesmo por descobrir. Eu creio que sim, que esse si mesmo existe e que a vida é um percurso que fazemos na direcção da sua descoberta. O problema que podemos levantar é antes: quando podemos nós saber que somos isto e não aquilo? Nenhuma pessoa honesta pode afirmar que possui uma resposta para tal questão, mas isso não nos impede de supor a existência dessa mesma resposta algures, a pairar dentro de nós como um fantasma bulindo o nosso corpo enfermo. O que pretendo dizer é que mais facilmente se descobre a si próprio aquele que tacteia, aquele que ousa ensaiar-se nos palcos da vida, do que o homem subjugado a uma ordem definitiva de pensamento, a uma hierarquia de valores inflexíveis e absolutos. Vêm estas elucubrações a propósito do "pânico" que se instaurou em mim quando imaginei que para os «cubanos» que pretendam saber qualquer coisa sobre Portugal via Internet, os 10 primeiros resultados com que se deparam são «duas referências a movimentos de solidariedade portugueses pela libertação dos «cinco heróis cubanos» detidos nos EUA, três à actuação de Portugal no Mundial da Alemanha e cinco a discursos de Castro durante a sua última visita ao nosso país, ocorrida no já longínquo ano de 2001». Um Portugal, portanto, ainda mais fantasmagórico do que aquele que vive na cabeça de muitos portugueses. Imaginar tal coisa é mil vezes mais medonho do que eventualmente constatar que na cabeça da maioria das pessoas no mundo Portugal nem sequer existe. É como imaginar uma sala cheia de fantasmas a impedirem as pessoas de procurar o seu tal si mesmo. O mundo é muito esse impedimento, esse gigantesco fantasma obeso a mijar para cima de quem trabalha.