30.4.07

VISÃO




Hoje pinto largos contornos nas coisas que vejo, desenho-os como quem tem preguiça na elaboração de um pensamento mais delineado, de fronteiras quase invisíveis ou, pelo menos, indistintas. Regresso a casa com Rouault insurgindo-se várias vezes pelo caminho, nos braços dos homens das obras, nas roupas tingidas de cimento, óleo e tinta, nas mulheres carregadas com sacos de plástico, nos rostos carregados das vizinhas viúvas e nas crianças que inventam no lixo os brinquedos que não têm, nos carros freneticamente estacionados e nas lajes que inscrevemos ao balcão dos cafés mais próximos de casa. Sempre que a temperatura muda subitamente é isto, inclino-me para os contornos largos, vejo tudo como que separado por muros de sombras intransponíveis. Deve haver qualquer coisa de orgânico nesta espiritualidade, deve haver qualquer coisa de espiritual neste organismo. Gostava de possuir a subtileza dos acólitos da palavra para poder dizer, sem contornos grossos, o que penso e o que vejo. Não me sendo possível, limito-me a agarrar naquilo que vejo com as mãos confusas e desajeitadas que a natureza me deu. Ainda bem que há pessoas de contornos finos, quase invisíveis, ainda bem que elas existem com suas mãos limpas, unhas arranjadas e dedos esguios, ainda bem que há pessoas sem calos nas mãos, ainda bem. Eu conspurco tudo aquilo em que toco. Se eu soubesse ser assim, arranjar-me todo em arte de manicure, passar com as limas nas unhas nos dedos que vêem os olhos que tocam, se eu soubesse afastar dos pretextos os textos e ficar só com os prés assim como quem fica munido de dispositivos, se eu soubesse delimitar as sombras do discurso, não perderia tanto tempo com isto. Mas eu não sei, eu não sou assim, ainda bem. Penso, contudo, na Visão que mais me convém. Vale a pena trazer ao tapete as palavras de Yourcenar: «Sempre me preocupei em distinguir o mais exactamente possível a Visão do espírito (Visio intellectualis, mas o nosso termo «intelectual» é simultaneamente anguloso e pálido) daquela em que, até certo ponto, os olhos participam, e separar de ambas a visão total, uma espécie mais de arrebatamento, embora em vez de se sentir arrebatada uma pessoa se sinta integrada, em que os cinco sentidos e os espírito se unem. Mas porquê visão dos olhos e não vista? Porquê visão total e não êxtase ou delírio? É que justamente nenhuma visão delira (de contrário, abriríamos outro capítulo, do Alucinado). Nenhuma vista que não se apodera de todo o espírito é visão; nenhum pensamento, por válido que seja, é outra coisa que um fruto ou um subproduto passageiro, desprovido do sentido de eternidade no instante, de extensão ao interior de um ponto nem sequer fixo, que a intervalos muito longos a visão do espírito por vezes confere e se torna em alguns casos possível ressuscitar pela recordação». Com que Visão terá, então, Rouault pintado as coisas com que me cruzo no regresso a casa? Com que Visão associo eu essas coisas às coisas que Rouault pintou? Miserere. Jesus Cristo foi a Visão do espírito tornada visão dos olhos, é nesse encontro que a visão total se consubstancia, é nesse encontro de quem não acredita na Visão do espírito que a vista, fixada às coisas, encontra nas coisas o que só uma visão total logra encontrar. Miserere, em tudo o que por mim passa, em tudo pelo qual passo como um riso impedido pela História, como uma gargalhada calada nos grossos contornos do silêncio, da reclusão, porque rir sobre a Miserere fica mal, o bordão ameaça-nos a boca e calamos o riso, incrédulos. Em tudo Miserere, mas como quem ri disso também porque sabe nada mais lhe restar senão a possibilidade desse riso. Se calhar sou eu o capítulo por abrir, o capítulo do Alucinado.

Fragmento # 49 – Janela Indiscreta


Vivo há vinte anos na mesma rua em Lisboa e a estação do renascimento é-me sempre anunciada do mesmo modo: o meu vizinho do prédio em frente inicia a sua temporada musical e faz questão de a compartilhar com enorme alegria com todos os habitantes e transeuntes da rua; é verdade, mal começa o bom tempo, ele coloca música numa espécie de sagração da primavera; mas o seu reportório musical não inclui Stravinsky, muito menos Domingos Bomtempo, nada disso, o florescimento das flores e os seus pólenes – que me provoca sempre inflamações, dores de cabeça, otites, espirros e me obriga a tomar drogas para o sistema imunológico se defender do que é excessivamente belo – aqui é anunciado com Demis Russos em altos berros; provavelmente, antes de vir para esta casa já era assim, aquele vizinho já colocava o cantor grego na sua aparelhagem; nem imaginam a alegria que contém o fenómeno, até a patine vinílica dos discos, ou seja aquele som de mastigar batata frita vibra rua fora. Este vizinho é um homem difícil de descrever e classificar, não sei que idade tem, mas de alguns anos para cá, o seu cabelo tornou-se grisalho apesar de usar o mesmo penteado, um rabo-de-cavalo muito longo; antigamente era de tal forma negro que cheguei a pensar que se tratava de uma peruca, mas como o tempo lhe deu aquela patine capilar, deduzo que ou já o pintou e deixou de pintar, ou era assim mesmo naturalmente artificial; ele veste-se sempre de azul-escuro, calças de ganga largas, por vezes à boca-de-sino; no verão gosta de usar socas; é muito alto, forte e tem sempre um peculiar medalhão de ouro ao pescoço – desconfio que se trata de algo esotérico. Quando chega o bom tempo, ele abre todas as janelas da casa, levanta os braços e canta, percorrendo as várias divisões, acompanhando o som da aparelhagem de vinil com uma voz de baixo desalinhada, mas muito potente. Este estranho homem tem família: existe a mãe que parece uma assombração do filho, por vezes aparece enquadrada à janela, a sacudir panos do pó ou a espreitar com ar inquisidor de alma penada que está entre dois mundos, tenho imenso medo dela; existe a mulher, muito magra, morena com o cabelo negro comprido e escorrido, com uns óculos na cara iguais desde a década de 70 e que gosta de se vestir de branco; e ele procriou, tem um filho que é uma mistura dos seus genes com a mulher e só não puxou aos pais no corte de cabelo, agora já é um adolescente; e tem um Ford branco muito velho, com uma enorme colecção de selos de impostos pagos colados no vidro da frente. A sagração da primavera nesta família é também acompanhada por outro ritual ao fim da tarde: a mulher vai para o volante do carro e o homem fica à janela a dar instruções. Cá em baixo, a mulher acelera o motor da máquina e ele à janela ele vai gritando: mais mais mais MAIS MAIS, JÁ CHEGA! Então o motor do carro fica a resmungar, ele desce para a rua, entra no carro com a mulher ao volante e dão uma voltinha aos quarteirões do bairro; o rebento sem semelhanças capilares por vezes acompanha este casal maravilha que é moderno, porque a mulher é que conduz, faz as compras, sai para trabalhar, o homem fica em casa; a anciã ou assombração nunca sai ou pelo menos eu nunca a vi na rua e já vivo aqui há vinte anos, ainda bem porque tenho imenso medo dela. Nunca cumprimentei estes vizinhos, eles também não me cumprimentam, por que será? De qualquer modo, no Inverno sinto a falta do colorido absurdo que dão à rua.

Maria João

28.4.07

...a ética é uma ciência prática...
Aristóteles

REVOLUÇÃO


Antes da revolução eu era professor
Com ela veio a demissão da Universidade
Passeia a cobrar posições, de mim e dos outros
(meus pais eram marxistas)
melhorei nisso –
hoje já não me maltrato
nem a ninguém

Francisco Alvim

Francisco Alvim nasceu em Araxá, Minas Gerais, em 1938. Poeta e diplomata brasileiro, fez parte do grupo Frenesi na década de 70. Estreou-se em edição de autor, porém, em 1968, com o livro Sol dos Cegos. Poeta com influências que vão dos contos de Dalton Trevisan aos versos de Drummond, reuniu a sua obra em 1988. Depois disso publicou O Corpo Fora (1988) e Elefante (2000).

NOMEAÇÕES


Depois da Alice e do Kellerman, também o David Luz, do excelente Linha dos Nodos, nomeou o Insónia para o tal thinking bloggers award. Desisto e sigo-lhe a ferroada, pois também eu não quero parecer pedante. O problema é serem apenas cinco. Cá vai: A Natureza do Mal, dias felizes, frenesi, o nascer do Sol e todos os outros que nomearam e, eventualmente, venham a nomear o Insónia. :)

27.4.07

GAMA

Que espécie de palavra é esperança
É da cor da cinza
Sabe a feno antigo depois da chuva
Opaca ao tacto como o muro alto e branco
Cheira a traineiras
À corda húmida depois da pesca
O ritmo oscila na clave
O acento entre sílabas que conspiram átonas

Não vejo esperança na sintaxe
Uma apenas interjeição
e e a a
s, p, r, ç, corroem a esperança
Deixam-na sem fundamento ou raiz

O s mata a esperança
A acção chegou ao fim sem nunca ter começado
Silêncio regresso sussurro sossobrar
O p impede-a de subir e sonhar
Prende-a à porta e à pedra pauper et paucrum
Mas o r lembra-lhe os curros com seus r de reprimir
Manda-a descer pelo filtro
Que lhe desfibra os raios e retesa os arames

O n desliga o nó descobre-lhe a nudez
Corta-a pelo núcleo
Mostra-a caída na neve negada
Nada ninguém nunca noite
Mas é o ç que amarra a nau ao fundo
Nem vermelho nem negro nem c nem q
A palavra dobrando-se doce verga sorrindo
Açucarada com açucenas e açafates

Esperança deve escrever-se com f
Que dá origem ao fogo à fonte à força
Faz-lhe falta o t metálico e vibrado
Com a seiva e a consistência de
Talo timbre
Torno tuba e tronco
O d aumenta-lhe a razão
Demonstra deduz debate e duvida

Esperança só é eficaz com v
Onde reside a força e sopra o elemento
Onde a voz venta e vai veloz
Mas para que se erga no ar e voe
O z introduz-lhe o zip
Dá-lhe a fluidez do mercúrio
E a forma compacta da rosa
Duas vogais apenas para a esperança restaurada: a, i

Em Fatidiviz ainda ecoa um r
Mas este agora é lógico
É o r de estrutura grupo e parte
Que liga para construir
Que regressa para libertar
E assim Fatidiviz é o que vence o Fado qualquer
Grego ou latino opondo-se ao fatídico
É o que tem o Fiat

M. S. Lourenço

M. S. Lourenço
nasceu em Sintra no ano de 1936. Estudou em Oxford e em Lisboa, sendo docente na Faculdade de Letras da capital portuguesa. Estreou-se em 1960 com O desequilibrista, ao qual se segui, após longo interregno, Arte combinatória (1971). Publicou vários ensaios, traduziu obras de Wittgenstein, Gödel, entre outros, e colaborou com vários órgãos de imprensa.

1970: A GERAÇÃO DO IOGURTE


Em 1972, quando Fiama Hasse Pais Brandão e Egito Gonçalves deram à estampa Poesia 71, eu ainda não tinha nascido. No entanto, chamo a essa década de 1970 a década da minha geração. Isto porque fomos nascendo por aí, entre 1970 e 1979. Não é hábito ser-se claro quanto aos seus coetâneos, sobretudo se isso implicar manifestações de gosto que são sempre melindrosas e algo imprudentes. No entanto, com nunca fui de calculismos, talvez não seja má ideia deixar aqui bem claras duas ou três notas sobre aqueles a que chamo os poetas da minha geração. Se excluir Daniel Faria (1971-1999), todos eles estão vivinhos da silva, publicam com maior ou menor regularidade, estrearam-se em livro no final da década de 1990 ou já na soleira do séc. XXI. Muitos deles escrevem crítica literária, lançam-se às traduções, criam os seus próprios projectos editoriais. Vão fazendo os seus percursos com uma mão no currículo literário e outra nos afazeres da vidinha burguesa. A poucos sobra um dedo que seja para a vida, a vida que não a vidinha, a vida das turras e das experiências, aquela de que falava O'Neill, a vida sem páginas em branco, a vida sem moleskines na lapela, a vida sem literatura. Esse é um sinal confrangedor nos poetas da minha geração, isto é, poucos têm vida, o que se nota, sobremaneira, nas suas propostas poéticas. É verdade que a diversidade é muita, há gostos para tudo, há tendências e circunstâncias que, aqui e acolá, inspiram uma reverência castradora a estilos e géneros. Seja como for, de uma coisa não nos podemos queixar: das dificuldades de edição. Não sei se os livros se vendem, se escoam, se chegam aos leitores. Às vezes parece-me que os poetas de hoje se editam uns aos outros para se lerem uns aos outros para oferecerem livros uns aos outros. Não há-de ser exactamente assim, mas julgo não andar longe da verdade a ironia de um cenário traçado desta forma. Não obstante, o que quero dizer é outra coisa, relacionada com as já recorrentes e fastidiosas querelas entre grupos e tribos. Deve a poesia ser assada ou cozida? É um poeta um ferrolho ou uma aldraba? Esta ânsia dicotómica nunca me inspirou grandes simpatias. Apesar de não ser adepto de consensos, e por isso tantas vezes me ver embrenhado em matéria de porrada, confesso que não consigo não apreciar um livro só por ele ser mais óbvio ou mais hermético. Isto é como na gastronomia, um tipo que só coma carne depressa sente falta de peixe. Eu gosto de comer de tudo um pouco, mas sempre vou clareando o caminho: assim como prefiro frango assado a coelho guisado, também prefiro a decadence de um Manuel de Freitas (1972) à inclinação tétrica de um valter hugo mãe (1971), sou muito mais adepto da agramaticalidade irónica do Nuno Moura (1970) do que da inteligência lógico-concreta do Gonçalo M. Tavares (1970), entusiasma-me mais o discurso limpo de um Pedro Mexia (1972), mesmo quando parece anedótico e resvala no enjoo, do que o impulso metaf(ísic)órico de um Pedro Sena-Lino (1977), e sempre vou dizendo que me faz menos mal à digestão o fulgor imagético do Vasco Gato (1978) do que a sensaboria sentimentalista da poesia de Jorge Reis-Sá (1977) – esta última quase sempre me leva ao vómito. Mas do que eu não gosto mesmo é de padres armados em poetas e de poetas armados em padres. É uma questão de irritação, assim como quem come um iogurte fora de prazo.

OK OK OK KO


Vou deixá-los aqui para não me esquecer de os ler um dia destes, mas a verdade é que já dei de mais para essa conversa estafada:

Não resisto, porém, a um nobre Fragmento do idealista Novalis. Nestas coisas da querela poética, cai sempre bem uma pitadinha de idealismo à laia de romantismo:

Existe em nós
um sentido especial para a poesia,
uma disposição poética.
A poesia é absolutamente pessoal,
e por isso indefinível.
Quem não souber nem sentir
de forma imediata
o que é a poesia,
nunca poderá aprendê-lo.
Poesia é poesia.
Diferente, como a noite do dia,
da arte da fala e da palavra.

A tradução é de João Barrento. A edição é da Roma. Os negritos são meus.

25.4.07

É UMA CORRENTE


Recebi ontem um simpático e-mail da Alice, d’A Tradução da Memória, a informar-me de que o Insónia tinha sido por ela nomeado na corrente "thinking blogger award". Talvez por cansaço, devido a uma longa resposta a um outro e-mail, só reparei na última palavra – award – precipitando-me numa resposta de jorro que, posteriormente, me pôs a rir de mim próprio. Sabe quem frequenta este canto com assiduidade que não nutro qualquer tipo de simpatia por awards, ainda mais quando implicam um esforço direccionado na sua obtenção. Ora, eu fui tão precipitado que acabei a fazer figura de urso, pois julguei tratar-se de um award para o qual a minha aceitação seria condição sem a qual a nomeação não valeria. Notem bem o tosco que fui, tirem daí as vossas conclusões. Seja como for, é bom rirmos de nós próprios e partilharmos isso com o mundo. Eu adoro rir de mim próprio, pelo que me resta pedir desculpas públicas à Alice e agradecer ao Kellerman por também ter nomeado o Insónia na tal corrente.

Fragmento #48 – 25 de Abril


Não tenho nenhuma recordação do dia 25 de Abril de 1974, na altura tinha 4 anos; tenho apenas algumas imagens soltas anteriores a essa data e também posteriores. Sei que estava em Évora com os meus pais e irmãos e a partir do Verão de 1975 não foi fácil, as propriedades dos meus pais foram ocupadas, passámos por dificuldades várias e o que sempre ouvi em minha casa e aprendi com a clivagem que vivemos a partir desse período é que o oportunismo não tem cor, não se pode confiar nos políticos, são poucos os que são decentes e honestos neste país, não se pode ter ilusões – e não é só os políticos, mas os exemplos vêm de cima. Lembro-me de ter partido para Espanha com a minha mãe e cinco dos meus irmãos. O meu pai e irmão mais velho ficaram em Portugal. Lembro-me do inicial apartamento onde vivi em Badajoz, num primeiro andar, eu dormia com a minha irmã Ró num colchão no hall de entrada – uma aventura – os rapazes ficavam na sala numas cadeiras de praia, a minha irmã Ana num pequeno quarto junto à sala e a minha mãe no outro. A minha irmã Xum estava em Mérida e depois juntou-se a nós; via os desenhos animados da Heidi num café ao pé desta casa, onde jogava flippers com os meus irmãos. Depois mudámo-nos para um rés-do-chão maior, uma casa velha, dormia num quarto com a minha irmã Ró, ao lado do quarto da minha mãe. Lembro-me de ouvir a rádio portuguesa, o som da guitarra do Carlos Paredes remete-me sempre para os espaços desta casa; ia à escola, aprendi a escrever e a ler o castelhano, tinha uma cartilha com desenhos e de frases do tipo “ mi mama me mima” ou “mi padre fuma pipa”. Na escola estava sempre a fazer traquinices, tinha uma colega de carteira portuguesa, a Filipa e mais duas espanholas. Estava muitas vezes de castigo – por que seria? – Ia para o fundo da sala virada para a parede. Em casa, depois do jantar ia brincar com uma pandilha na rua, jogar ao elástico, aprendi a cantar e a dançar sevilhanas – a minha irmã Ró diz que fui eu que meti conversa com as miúdas na rua. No primeiro andar dessa casa viviam vários estudantes, era uma diversão. Quando se aproximou o Natal, fiquei cheia de medo de não ter prendas, a casa não tinha chaminé. Depois recebi uma cama de plástico cor-de-rosa para a minha boneca e a minha irmã Xum convenceu-me que ela entrou pelo buraco do vidro da janela da sala. Depois mudámo-nos para um apartamento num prédio moderno, onde também brincava na rua à noite, com outra pandilha. Uma vez cantei as sevilhanas que tenho na memória a uma catalana que se fartou de rir e dizia que só poderia ter aprendido isso na rua. Quando voltei para Évora não havia nada disto, não brincava na rua e compartilhávamos a casa com mais duas famílias de retornados. O meu pai dava aulas de matemática e a minha mãe trabalhava na escola onde eu ia com a Ró. A minha mãe diz que o único ministro da agricultura que houve como deve de ser neste pais foi o António Barreto e que se o encontrasse na rua, ia dar-lhe um aperto de mão e cumprimentá-lo. Apesar de tudo, o sentido de humor foi sempre mantido na minha casa em relação à política: lembro-me de num Carnaval os meus pais mascararem-se de pessoal da reforma agrária para pregarem uma partida a uns amigos; noutro, a minha mãe mascarou-se de Manuela Eanes, estava enlacada, pirosa e extraordinariamente pintada; estas talvez sejam exemplos de boas expressões para ultrapassar o sofrimento, a mágoa que eles sentiam em relação ao que foi destruído, as árvores cortadas que nunca mais se puderam recuperar. O que é para mim o 25 de Abril? O dia em que se comemora a liberdade no meu país e de imediato associo a data às noites em que brincava na rua em Espanha com as pandilhas, onde cantava e dançava sevilhanas. Esta memória para mim ficou como sinónimo de liberdade.

Maria João

Sem pieguice, digo-lhe que sempre «sofri» Portugal, tanto no sentido de não suportar (como todos nós, aliás), como no sentido de o amar-sem-esperança (como disse um parnasiano qualquer: amar sem esperança é o verdadeiro amor...). Eu tive a alegria de ver poemas meus completamente desactualizados depois do 25 de Abril. Mas, afinal, não estavam nada desactualizados, não. Como se pode ver. Quer dizer - o que é um péssimo sinal relativamente à minha capacidade para vaticinar - que a realidade fez de mim, novamente, um poeta actual. Até o fantasma do tempo. Espero que isto um dia acabe e eu fique desactualizado e para todo o sempre.

Alexandre O'Neill
(entrevistado por Fernando Assis Pacheco)
JL
1982

O 25 DE ABRIL

Isto aconteceu uns anos depois do 25 de Abril, quando a comunicação social portuguesa procurava dar àquela data a ênfase e fervor. Foi então que apareceu um locutor que, entusiasmado com o acontecimento, perguntava a um camponês:
- Então, e para si, o que significa o 25 de Abril?
Ele, com a mais santa inocência, perguntou por sua vez:
- De que ano?

António Alçada Baptista
A Pesca à Linha - Algumas Memórias
1998

APRILIS

Vinha do tempo da minha infância a fábula em que os homens falavam. Agora as suas vozes estavam sepultadas num silêncio que tinha o nome ciciado de fascismo.
Minha mãe dizia: «Quando fores grande haverá um país...» E o país era onde estava a minha idade. E a minha idade era eu achar-me com toda a força dos ossos no centro da minha liberdade.
Dizendo-me isto, minha mãe pôs-me na voz luminosos objectos para espantar morcegos. Cantei quanto podiam meus pulmões carregar vendavais para sacudir as dormideiras dos tiranos. E onde as horas mordidas pelas algemas foram acre crescimento para a liberdade iluminaram-se as terras do sepulcro e era Abril e a fábula fez-se dia. Numa rubra fraternidade de cravos os homens saudaram a Revolução. Em golfadas de ouro cantei a Liberdade.

Apanhadas pelo tempo dos espantos, belíssimas eram as pessoas porque só viam a beleza. É nesse rapto dos olhos alumbrados que as hienas exercem o seu ofício de preparar cadáveres. Em seu implacável andamento, os animais necrófilos da Revolução foram devastando a fábula. Docemente diziam: o Povo. E nos espelhos desta sua mágica as massas enlouqueciam. E bebendo o vinagre dos novos opressores repetiam a viperina palavra do seu magistério liberticida: eis o mel da libertação. E correndo para os apriscos que a treva lhes tecia arrasavam os sítios onde da liberdade cresciam as tenras ervas.
«Acaso - perguntei-me - outra vez o morcego abre as suas asas terríveis para anoitecer meu canto?»
E pus-me atenta como uma dor no estômago que é sentida em poemas.

Quem sois vós ó sinistros arquitectos deste lugar sombrio onde os enganadores despejam seu saco de silício? Saístes dos livros onde está escrito o fim dos tempos? Nem mesmo para essa glória aterradora tendes ferocidade e estatura. Sois baixos. Enormes em baixeza. E tudo rebaixais ao vosso tamanho ridículo de profetas anões. Que fizestes da minha cidade?, aquela que numa manhã de Abril foi percorrida pelo archote da Boa Nova. Outra vez putrefacta se soergue a censura de língua carcomida pelos vossos vocábulos hipocritamente revolucionários. Induzistes o filho a denunciar o pai, o amigo a atraiçoar o amigo. Destes a beber uma mistela de ódio ao camponês e dissestes: «rouba os três palmos de terra ao mísero proprietário que não é do nosso partido». Porque aos que não eram do vosso bando infligíeis pavorosas intimidações e os que nele assustadamente ingressavam para defender seus bens de vós colhiam o rédito de escandalosos benefícios. E de novo se moveram perseguições. E o sadismo engendrou torturas que vexavam a imaginação perversa dos antigos verdugos. E pusestes o vosso veneno em multitudinários ruídos que perfuravam o esófago e em palavras que chamavam bom ao que nos homens é mau. E urinastes nas paredes enganos que prometiam a fartura e traziam a fome. E confundistes. E emaranhastes. E do medo e da ruína vosso trabalho ficou pronto. E, dando por terminado o ofício da besta, dissestes: esta sim, é a Revolução.
Ó minha alma avisada, fonte manante do canto vertical! Empluma-te, ó minha juba de poemas! A voz do espírito livre dilacera os matins hipócritas. Tal é o mister do leão.

Quem disse que eras fraco, ó Povo? Os que te chamam oprimido para mais te sugarem. Abriram-te as portas do Inferno mas teu instinto genésico segredou-te: aqui começa a morte. E num clarão da tua antiga clarividência viste que os que a ti se submetiam em peçonhenta piedade populista te queriam subjugar. E encrespas-te. E empunhando a tocha de um Abril que te haviam roubado queimaste as máscaras dos diligentes vampiros da Pátria.
Em ti eu louvo o guardião da Nave que perpetuamente carrega os tesouros da descoberta. Outrora em transparências dissolveste o breu do Mar Ignotus. Hoje teu aldebo é a flor azul que desponta nos confins da ansiedade com que te perscrutas. E é sempre o mesmo e único segredo. Os monstros entornaram o teu vinho? queimaram as tuas searas? salgaram as fontes onde cantavam os teus deuses? Estás triste, ó operário dessas coisas por ti criadas? Engolfa-te na dor já que és ourives do ouro atormentado. A tua tristeza está destinada a iluminar o mundo. Com ela nivelo o meu canto. E dissipo as nuvens. Por detrás delas embusca-se a besta.

Natália Correia
Epístola aos Iamitas
1976

REVOLUÇÃO

Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta

Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como página em branco
Onde o poema emerge

Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação

27 de Abril de 1974

Sophia de Mello Breyner Andressen
O Nome das Coisas
1977

30/5/74

Reatando, após quase três meses: a carcaça ainda aguenta. Mal, com insónias como agora (preferia estar a sonhar, nos meus sonhos tão divertidos), mas tem suportado coisas do diabo. Vi o que já desesperava de ver: o Regime de pantanas, senão no sabugo, palavras, sic!, do Vasco Gonçalves. E vou registar o que foi o meu

25 DE ABRIL

Estou na cama de manhã e aproveito para apontar na Agenda o tempo que passa. Tinha ficado na véspera em casa a rever provas. O puto fora para o liceu. Resolvo ir à rua beber uma cervejola e continuar a revisão. Ao pé do chafariz, o barbeiro atira com esta: «Então, o Marcello e o Thomaz lá foram ao ar…» Não percebo logo. Nem acredito como. Mas ele confirma: a Emissora Nacional não funciona, só o Rádio Clube Português é que dá música e de vez em quando comunicados breves. Já mais convencido, convido-o logo a festejar na tasca da Laurentina que era para onde eu ia. E depois, ainda duvidoso, vou com ele à barbearia a ver se oiço algum comunicado. Música ligeira, sem nada de marcial. Canções populares portuguesas, pouco mais. (Até a Amália, parece-me!) Mas passados minutos um comunicado do Comando das Forças Armadas. Aí, adquiro a certeza que é, deverá ser a repetição do golpe das Caldas, mas com outra amplitude. Refere que o público tem acorrido às lojas, em tentativas de açambarcamento, e manda fechar o comércio. Aconselha a população a manter-se nas suas casas e as forças militares e militarizadas a recolherem aos quartéis e não oferecerem resistência à tropa. A coisa é grave. Parece que não há comboios e para lá de Sete Rios não se passa. Tenho algum dinheiro e resolvo logo ir ver (foi o melhor que fiz: ver para crer). Desço acelerado e vou a casa do Fernando Passos, perguntar se ele sabe alguma coisa. Se sabe não diz. Mas confirma. Acompanho-o à farmácia de Queluz Ocidental e depois (ele aconselha-me que não vá a Lisboa, pois não conseguirei passar – mas eu conheço outro sítio para entrar, ou sair, da minha terra e caminho acelerado. Muitos carros, em fuga discreta?) para cá. Em Queluz, já vejo lojas fechadas, outras a fechar à pressa e uma data de tontos a abastecerem-se para o ano todo… oiço que um tal comprou mais de cem pães. Rica açorda (ou negócio) deve ter feito com eles. Cafés fechados. Há comboios. Meto-me num para a Amadora, depois sigo a pé. No Bairro do Bosque (sempre o intenso movimento de carros a saírem), ainda consigo meter um copo. Não há jornais. Rostos, com as janelas fechadas, assomem entre cortinas. Tudo me dá a ideia de receio (mas em Queluz vi alguns magalas a planar, o que me deixou intrigado). Venho a pé até às portas de Benfica e o ambiente é o mesmo: fila de carros a safarem-se, comércio encerrado, mulheres com sacos de plástico cheios, tensão. Meto-me num autocarro da Carris, de Benfica para o Chile e fico-me um tanto a rir do Passos, que em Lisboa e a andar para o centro já eu vou. No Chile, só uma taberna aberta: bebo mais um copo, estou nas lonas. Animação. Um tipo ao meu lado compra oito maços de Português Suave, também está a açambarcar ou a fumar aquilo diariamente habilita-se a um cancro nos pulmões em beleza e rápido. Aparece gente com jornais (A Capital) e sei que estão a vender para os lados do Império. Vou logo lá, sento-me num degrau e sei as primeiras notícias. Tá bem! Resolvo ir a casa do Henrique, ver se ele estará. Na Carlos Mardel, uma senhora num 1.º andar pergunta-me onde vendem jornais. Digo e ofereço-lhe o meu. O marido, que vinha à rua, fica com ele e eu fico reduzido a 30$00. começo com sede e angústias. Estou em jejum e já andei um bom bocado. Penso ainda ir ao Manaças (António) mas desde a última vez, desde a nossa última conversa, ele não me está a apetecer. E depois, o importante deve estar a acontecer na Baixa. Enfio ao Montecarlo (fechadíssimo) mas consigo topar um tipo a bater à porta da Mourisca (também fechada) e entrar. É que há gente. Vou, bato, o Costa Loiro está a forrar vidros por dentro com papel, talvez com receio dalgum obus. Peço-lhe vintes e ele despacha-me. Meto à Rua Viriato e vou até ao quartel de Santa Marta (todas as tascas fechadas até ali). Dá-me vontade de rir ver os cabeças de nabo reunidos lá dentro, a falarem uns com os outros (é que obedeceram às ordens?). Mas logo ao lado há uma tasca restaurante, porta meio aberta, com gente e muito movimento (guardas a beber, outro a telefonar para casa e a sossegar a mulher (?), diz que não há azar). Bebo uma Sagres e como uma sandes. E avanço para a linha de fogo, que não sei onde é. Metros andados, ouvem-se ao longe tiros e rajadas de metralhadora. Tipos que fogem. Mas onde será o tiroteio? Como a coisa parou, continuo a andar. Até que encontro, já não sei onde, o Almeida Santos e um tipo que é revisor do Diário de Lisboa ou Popular, já não sei. Metemo-nos num táxi que sobe pela Calçada do Carmo. Mas logo populares avisam (ah, entretanto, perto do Tivoli, já tinha comprado um Diário de Notícias, com mais informes) que a rua está bloqueada. O carro faz marcha-atrás e mete (por onde?) para o Bairro Alto. Bebemos não sei o quê numa tasca, o revisor vai à vida, o Almeida Santos pira-se e eu avanço para os lados do Carmo. Na Rua da Misericórdia, muita gente, tropa e um tanque de respeito. Na janela da Redacção do República, o Vítor Direito e o Afonso Praça (aquele grita-me: «estás muito bonito hoje!», eu levava o sujíssimo albornoz que me deu o Artur), noutra varanda o Álvaro Belo Marques, a quem pergunto: «como é que se entra para aí?», porque a porta da escada do República está fechada. «Vai pelas traseiras!» Vou mas também está fechada e logo à esquina aparece um vendedor com a última do República. É um verdadeiro assalto. Aí fico a saber dos chefes (Costa Gomes e Spínola) e o alvoroço é enorme. Já não sei bem: se vim ao Rossio, se de repente notei uma grande correria para o Terreiro do Paço. Sem perceber nada do que se passa, sigo a onda. No Terreiro do Paço, começa a chover. Há correrias e encontro uma rapariga que me conhece muito bem mas não topo logo. É a Maria João, a engenheira química, amiga do Henrique, com outro rapaz. Ficámos abrigados da chuva debaixo das arcadas, depois convenço-os a irem beber um copo ao Terreiro do Trigo (Campo das Cebolas?), não sei já se estava aberto se não. Ela tem o carro no Camões e para aí vamos. Mas o Chiado está cheio de gente, que quer assaltar a Pide. Já não sei se ouvi tiros. Vi ainda as (uma?) ambulâncias, depois quase à porta da Brasileira um rapaz ou homem com a mão cheia de sangue (seco?), que tinha agarrado num rapaz ou rapariga. Começam a chegar fuzileiros, há mais correrias, a Maria João e o rapaz perderam-se de mim. Cheira-me que já chega. Agarro um táxi e arranco para casa da Ção. Pela TV vi depois o resto. Foi bonito e foi rápido. Já posso morrer mais descansadinho.

Luiz Pacheco
Diário Remendado, 1971-1975
2005

Coimbra, 25 de Abril de 1974 – Golpe militar. Assim eu acreditasse nos militares. Foram eles que, durante os últimos macerados anos pátrios, nos prenderam, nos censuraram, nos apreenderam e asseguraram com as baionetas o poder à tirania. Quem poderá esquecê-lo? Mas pronto: de qualquer maneira, é um passo. Oxalá não seja duradoiramente de parada…

Coimbra, 27 de Abril de 1974 – Ocupação das instalações da Pide. Enquanto, njuntamente com outros veteranos da oposição ao fascismo, presenciava a fúria de alguns exaltados que reclamavam a chacina dos agentes, acossados lá dentro, e lhes destruíam as viaturas, ia pensando no facto curioso de as vinganças raras vezes serem exercidas pelas efectivas vítimas da repressão. Há nelas um pudor que as não deixa macular o sofrimento. São os outros, os que não sofreram, que se excedem, como se estivessem de má consciência e quisessem alardear um desespero que jamais sentiram.

Coimbra, 1 de Maio de 1974 – Colossal cortejo pelas ruas da cidade. Uma explosão gregária de alegria indutiva a desfilar diante das forças de repressão remetidas aos quartéis.
− Mais bonito do que a Rainha Santa… − dizia uma popular.
Segui o caudal humano, calado, a ouvir vivas e morras, travado por não sei que incerteza, sem poder vibrar com o entusiasmo que me rodeava, na recôndita e vã esperança de ser contagiado. Há horas que são de todos. Porque não havia aquela de ser também minha? Mas não. Dentro de mim ressoava apenas uma pergunta: Em que oceano de bom senso iria desaguar aquele delírio? Que oculta e avisada abnegação estaria pronta para guiar no caminho da história a cegueira daquela confiança?
A velhice é isto: ou se chora sem motivo, ou os olhos ficam secos de lucidez.

Miguel Torga
Diário XII
1977

(25 de Abril de 1974.)


Manhãzinha cedo, senti acordar-me o sopro da voz ciciada de minha mulher:
- O Fafe telefonou de Cascais... Lisboa está cercada por tropas…
Refilo, rabugento:
- Hã?
E enrolo-me mais nos lençóis:
- É algum golpe militar reaccionário dos «ultras»... Deixa-me dormir.
Mas qualquer coisa começou a magoar-me a pele com dentes frios, para me dissuadir de adormecer.
E daí a instantes a minha mulher insistiu, baixinho, muito baixinho, com medo de não haver realidade:
- Só funciona o Rádio Clube que pede às pessoas que se conservem em casa.
Golpe militar? Reaccionário, evidentemente. Como se poderia conceber outra coisa?
Levanto-me preparado para o pesadelo de ouvir tombar pedras sobre cadáveres. Espreito através da janela. Pouca gente na rua. Apressada. Tento sintonizar a estação da Emissora Nacional. Nem um som. Em compensação o telefone vinga-se desesperadamente. Um polvo de pânico desdobra-se pelos fios. A campainha toca cada vez mais forte.
Agora é o Carlos de Oliveira.
- Está lá? Está lá? É você, Carlos? Que se passa?
Responde-me com uma pergunta qualquer do avesso.
Às oito da manhã o Rádio Clube emite um comunicado ainda pouco claro:
- Aqui, Posto de Comando das Forças Armadas. Não queremos derramar a mínima gota de sangue.
De novo o silêncio. Opressivo. De bocejo. Inútil. A olhar para o aparelho.
Custa-me a compreender que se trate de revolução. Falta-lhe o ruído, (onde acontecerá o espectáculo?), o drama, o grito. Que chatice!
A Rosália chama-me, nervosa:
- Outro comunicado na rádio. Vem, depressa.
Corro e ouço:
- Aqui o Movimento das Forças Armadas que resolveu libertar a Nação das forças que há muito a dominavam. Viva Portugal!
Também pede à Polícia que não resista. Mas Senhor dos Abismos!, trata-se de um golpe contra o fascismo (isto é: salazarismo-caetanismo).
São dez e meia e não acredito que os «ultras» não se mexam, não contra-ataquem!
Ou tudo ruirá de podre, sem o brandir de uma bandeira qualquer de heroísmo, um berro, um suicídio, um brado? Nas ruas (avisto da janela da sala de jantar) as mulheres correm com sacos de alimentos. A poetisa Maria Amélia Neto telefona-me: «Não resisti e vim para o escritório.»
Os revoltosos estão a conferenciar com o ministro do Exército. Na rádio a canção do Zeca Afonso: Grândola, vila morena... Terra da fraternidade... O povo é quem mais ordena...
Sinto os olhos a desfazerem-se em lágrimas. Ainda assisti, ainda assisti à morte deste maldito meio século de opressão imbecil. Ao mesmo tempo nunca vivi horas mais aborrecidas de espera, de frigorífico, ao som de baladas medíocres, sem lances dramáticos. E não serão assim sempre as verdadeiras revoluções?... interrogo-me. Em silêncio. Sem teatro por fora. Em segredo. Com pantufas.
De súbito, aliás, a rádio abre-se em notícias. O Marcelo está preso no Quartel do Carmo. A Polícia e a Guarda Republicana renderam-se. O Tomás está cercado noutro quartel qualquer. E, pela primeira vez, aparece o nome do general Spínola. Novo comunicado das Forças Armadas. O Marcelo ter-se-ia rendido ao ex-governador da Guiné. (Lembro-me do Salazar: «O poder não pode cair na rua.»)
Abro a janela e apetece-me berrar: «Acabou-se! acabou-se finalmente este tenebroso e ridículo regime de sinistros Conselheiros Acácios de fumo que nos sufocou durante anos e anos de mordaças. Acabou-se. Vai recomeçar tudo.»
A Maria Keil telefonou. O Chico está doente e sozinho em casa. Chora. (Nesta revolução as lágrimas são as nossas balas. Mas eu vi, eu vi, eu vi!...)
Antes de morrer, a televisão mostrou-me um dos mais belos momentos humanos da História deste povo, onde os militares fazem revoluções para lhes restituir a liberdade: a saída dos prisioneiros políticos de Caxias.
Espectáculo de viril doçura cívica em que os presos... alguns torturados durante dias e noites sem fim.... não pronunciaram uma palavra de ódio ou de paixões de vingança.
E o telefone toca, toca, toca... Juntámos as vozes na mesma alegria. (Só é pena que os mortos não nos possam também telefonar da Morte: o Bento de Jesus Caraça, o Manuel Mendes, o Casais Monteiro, o Redol, o Edmundo de Bettencourt, o Zé Bacelar, a Ofélia e o Bernardo Marques, o Pavia, o Soeiro Pereira Gomes e outros, muitos, tantos... Tenho de me contentar com os vivos. Porque felizmente dos vivos poucos traíram ou desanimaram. Resistimos quase todos de unhas cravadas nas palmas das mãos...)
De repente, estremeço, aterrado.
Mas isto de transformar o mundo só com vivos não será difícil?
Saio de casa. E uma rapariga que não conheço, que nunca vi na vida, agarra-se a mim aos beijos.
Revolução.

José Gomes Ferreira
Maio-Abril (1968-1975)
1978

25 DE ABRIL

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andressen
O Nome das Coisas
1977

24.4.07

COM CINCO LETRAS DE SANGUE

De súbito três tiros na memória.
Apagaram-se as luzes. Noite. Noite.
De súbito três tiros nas palavras
um poeta calou-se apagou-se a canção.

De súbito um poema foi bombardeado
um poeta fechou-se nas vogais
cercado por consoantes que talvez
caminhassem cantando para um verso.

Eram granadas? Eram sílabas de fogo?
E de súbito a guerra. Noite. Noite. E um poeta
com cinco letras escreveu no chão:
porquê?
Com cinco letras do seu próprio sangue.

Manuel Alegre

Manuel Alegre nasceu em Águeda no dia 12 de Maio de 1936. Escritor, jornalista e político português, esteve exilado nos tempos da ditadura. Estudou Direito em Coimbra, cumpriu o serviço militar na guerra colonial, foi preso pela polícia política, fundou o Partido Socialista, partido pelo qual foi eleito deputado da Assembleia da República em todas as eleições legislativas. Enquanto escritor, destacou-se sobretudo como poeta. O seu primeiro livro de poemas, Praça da Canção, foi editado em 1965. Tem poemas seus musicados, cantados ou gravados por José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Alain Oulman, Amália Rodrigues, Janita Salomé, Mário Viegas, entre muitos outros. Além de poesia, escreveu obras de ficção e ensaios políticos. A sua obra foi várias vezes premiada.

SÓCRATES




Considero os dois pontos abaixo o mínimo indispensável à formação de uma opinião razoável sobre o assunto. Os jornalistas, opinadores, espertos de toda a ordem que não os apresentam claramente ou não os têm como pressuposto básico daquilo que dizem ou escrevem são incompetentes, ou são pouco sérios, ou são ambas as coisas.


1. Distinguir a importância de uma licenciatura da legalidade da sua obtenção.

Um primeiro-ministro pode ter a quarta classe? Claro que pode. Pode obter ilegalmente, à custa de favores, ou por qualquer forma que não a que um aluno “comum” adopta, a sua licenciatura? Não, e se o fizer deve ser punido por isso (politicamente e no âmbito do direito civil e penal).

A quem interessa a confusão destas duas coisas (a importância de uma licenciatura e a legalidade da sua obtenção)? Interessa, obviamente, a quem quer desvalorizar eventuais ilegalidades na conduta do primeiro-ministro. Interessará também, não tão obviamente, a quem adoptou ou adopta modos de actuação ilegais – e não pretende, por isso mesmo, que este tipo de situação seja escrutinado e punido.


2. Distinguir entre a competência profissional de uma pessoa e o comportamento dessa pessoa enquanto sujeito de direitos e obrigações.

Um criminoso pode ser dispensado de cumprir a lei com fundamento na sua “excelência” técnica e convidado para ministro? Não. É que aqui a distinção serve para dizer que nenhum dos aspectos (competência profissional e comportamento enquanto sujeito de direitos e obrigações) pode ser sacrificado ao outro, ou seja, só deve ser ministro (ou primeiro-ministro, ou…) uma pessoa que seja simultaneamente um profissional competente e uma pessoa séria no que extravasa o exercício da profissão.



Rui Costa

23.4.07

Fragmento #47 – Falar


O corredor ao fundo, sigo a fundo no corredor em direcção à porta da sala; troco palavras triviais com os colegas, entre passas de cigarros e passos apressados; a porta da sala aguardando, guardo a porta da sala. Hoje é a minha vez em vinte minutos, vou falar sobre o que as palavras não conseguem dizer, discorrer sobre música, também trago um CD e uma garrafa de água. Sei que não vale a pena falar sobre música pois ela faz-se, as palavras são sempre arrogantes perante o que é da ordem do inefável. Vejo como as palavras supõem distância e decisão separadora; em meu redor, todos estão a mexer os lábios em compartimentos autónomos e esse movimento aviva-lhes a consciência de si próprios: as palavras alinham-se de um modo ondulante em torno destes compartimentos que me são estranhos; são acções no tempo, o seu ondular vai decorrendo em várias e simultâneas direcções. A música, pelo contrário, lança-nos no instante e dilui-nos, entrando num todo da memória. Sthendal considerou que o império da música começa onde termina a fala; Matisse aconselhava a cortar a língua para se poder pintar e eu até comecei pela pintura, a arte do silêncio que fala. Sinto as palavras a boiarem no interior do cérebro e vejo a porta escura da sala a abrir. A música é a noite da filosofia e eu nem sei o que ando aqui a fazer; será pior uma sala às escuras ou uma sala cheia? Não entro. Entra a funcionária empurrando o carrinho das máquinas, o professor não pára de um lado para o outro, a pasta, os livros, as indicações; três pessoas já são uma multidão, agora estes todos. Chega o Mário com um ar de gozo de quem sabe que não gosto destas coisas:

- Maria João, é hoje que nos vais pôr às escuras?

Olho a porta aberta da sala e já clareou. Penso: que bela ideia! É isso mesmo, falar de música é como andar numa sala escura às apalpadelas, onde por vezes se esbarra com objectos que não reconhecemos de imediato; por isso a música faz-se melhor de noite. O professor sempre encalorado vai abrindo as janelas da sala. A empregada sai mais depressa do que entrou, lançando-nos um olhar estranho. Comento a rir com o Mário que ela também gosta de Kierkegaard. Sinto o silêncio de um conjunto de olhos na minha direcção, tenho a garrafa de água, dou um gole refrescante. Na minha primeira exposição de pintura estava um calor horrível, todos bebiam taças de vinho branco, ao primeiro gole fiquei com dor de dentes. Agora estou a pensar em alta velocidade: a música é a noite da filosofia ou a filosofia da noite? No escuro a música traz a sua força primordial, afastando as palavras e outras percepções sensoriais. Nietzsche considerou-a a arte da noite e da penumbra, porque o ouvido não é tão necessário na luz do dia, é o órgão do medo. Vou às apalpadelas de modo a que as palavras sejam clarificantes. A música é a voz do inconsciente, fala-nos do que temos de mais íntimo, é sempre da ordem da diferença, ao contrário da linguagem discursiva, que é da ordem do geral; as palavras são facas de dois gumes, enquanto que a música nos dá a tranquilidade da sabedoria, por ser um pensamento exacto que não mente, nem engana; é também a mais carnal de todas as artes, invade o nosso sistema nervoso podendo levar-nos à loucura. Bom, é melhor não enlouquecer agora, tenho de falar de um modo claro, pausado, não posso disparar, se não isto fica incomunicável. Tenho o texto em cima da mesa, leio, sinto aqueles olhinhos sobre mim em silêncio, como se estivesse numa aula de francês outra vez; era assim, ao lado do quadro, a mesa do professor olhava-me desconfiada, com a sua serviette semi-aberta. Espreitava e via um saco de leite no seu interior e ficava a pensar: serviette também é guardanapo. Serviette, serviette, serviette......o cérebro mastigava a palavra, não ouvia nada e os meus olhos continuavam pregados na serviette, não abria a boca de maneira nenhuma. Agora já não é assim, mas bolas, porque é que passados tantos anos a fazer estas coisas continuo a lembrar-me com horror das chamadas orais nas aulas e a detestar falar em público?

Maria João

ESPERA POR MIM

a V.C.

Espera por mim, que eu voltarei,
Mas tens de esperar muito
Espera quando a chuva amarela
Tristeza trouxer,
Espera quando a neve vier,
Espera quando fizer calor,
Espera quando os outros não esperarem,
Esquecidos do passado.
Espera, quando dos países distantes
Cartas não chegarem,
Espera, quando até se cansarem
Aqueles que juntos esperam.

Espera por mim, que eu voltarei,
Não perdoes àqueles
Que encontram palavras para dizer
Que é tempo de esquecer.
E se crêem, filho e mãe,
Que já não vivo,
Se os meus amigos, cansados de esperar,
Se sentam à lareira
E bebem vinho amargo
Para me recordarem…
Espera. E com eles
Não te apresses a beber.

Espera por mim, que eu voltarei
A despeito da morte.
Quem não me esperou,
Que diga: ‘Teve sorte!’
Não compreendem os que não esperavam
Como no meio do fogo
A tua espera
Me salvou.
Como sobrevivi, saberemos
Só tu e eu, -
É porque me soubeste esperar
Como ninguém mais.

Tradução de Manuel de Seabra.

Konstantin Simonov

Konstantin Simonov nasceu em Novembro de 1915 na cidade de Leninegrado. Em 1931 a sua família mudou-se para Moscovo, tendo Simonov começado a trabalhar como mecânico numa fábrica. Os primeiros poemas surgem por esta altura, sendo publicados em alguns jornais moscovitas. Entra para o Instituto Gorki de Literatura, interrompendo os estudos para cumprir serviço militar como correspondente de guerra. Escreve peças de teatro, romances, reportagens e livros de poemas inspirados na temática da guerra. Depois da guerra, ocupou alguns cargos importantes que abandonou para se dedicar por inteiro à sua obra. Morreu em Moscovo no dia 28 de Agosto de 1979.

22.4.07

O preço estipulado

Fiquei hoje a saber que o meu pai foi preso pela PIDE antes do 25 de Abril de 1974. Esta extraordinária revelação não só me encheu de orgulho como me fez sentir ainda mais filho da revolução. O problema é que, perante a insistência, fiquei a saber dos motivos da detenção: vender uma sandes a 25 tostões quando o preço estipulado não era esse. Teve azar, apanhou um PIDE ao balcão que o levou para o posto da guarda onde pernoitou duas noites. O meu pai, hoje em dia aquilo a que se pode chamar um comerciante de sucesso, foi preso por vender uma sandes a 25 tostões. O preço estipulado não era esse.
P.S.: Falta um pormenor. Durante a discussão com o PIDE, ele disse à frente de toda a gente que ali estava: «Quero lá saber do Salazar!»

(NÃO) ENTENDO

Um povo trafulha e analfabeto deu uma maioria absoluta a um Sócrates brilhante que se exprime com grande clareza, "panache" e profundo conhecimento das matérias, num Português correcto (assim diz a Inês Lourenço). Um povo trafulha e analfabeto, que utiliza a cunha, o nome de família e a ronhice mais abjecta até para passar por cima da própria mãe, continua a confiar no Governo do tal Sócrates (assim dizem as sondagens). Mas afinal, o que anda o povo trafulha e analfabeto a exigir? É o povo que tem exigido ou várias corporações, atingidas na doce inércia do "sempre tem sido assim"? O que tem o povo que ver com os conluios das elites, com os regimes de excepção para as elites, com as cunhas disfarçadas de mérito? Quem é povo? O povo cacareja? O povo põe ovo? O povo é o povo?

Sobre o povo, não mais me repetirei: aqui, aqui e aqui, que me lembre.

20.4.07

VER

Através d’A Terceira Noite, fico a saber que Portugal, Um Retrato Social, série da autoria de António Barreto e realizada por Joana Pontes, está disponível para visionamento aqui. Verdadeiro serviço público. Não percam.

ELE HÁ COISAS

Acabei de escutar e ver a Rita Ferro dizer na televisão que gosta «de ser amada mesmo barrada de excremento». Depois do que escrevi aqui, a imagem pareceu-me pungente.

É PÚBLICO

Aqui há dias, inquirido sobre a remodelação do Público, expliquei que deixara de ler jornais e que, por tal facto, não poderia omitir qualquer opinião sobre o assunto. Perante a insistência do meu interlocutor, lá fui dizendo que tinha reparado que o jornal estava mais colorido. Sabendo da transferência de Pedro Mexia do Diário de Notícias para o Público, adquiri hoje este último também com a intenção de poder formular uma opinião sobre a já tão debatida remodelação do jornal. O primeiro caderno deu-me ares de puta reles, tanta e tão despropositada é a maquilhagem. Lá dentro, nota-se uma marcação serrada ao (des)governo de Sócrates e companhia. Uma notícia de 1999 merece tratamento em 2007, arriscando o jornal a ser comparado à lentidão da justiça portuguesa. Irregularidades e ilegalidades, dizem eles, denunciando mais um potencial caso de cunha institucional ou, se preferirem, regime de excepção a favorecer a malta do costume. Insiste-se nas habilitações do PM e dedicam-se duas páginas, ou quase, às transferências de Pina Moura e José Lemos, homens do chamado aparelho socialista, para o grupo de comunicação social Media Capital. Dá-se a entender, como dizem os sacrossantos sociais-democratas, haver ali projecto de controlo da TVI. Mais à frente, põe-se o homem do ACP a acusar o Governo de nada fazer em relação à segurança rodoviária. Se isto não é jornalismo de causas, o que é? Tudo bem, não fosse a demagogia do Editorial onde se vomitam umas parvoeiras sobre posicionamentos políticos claros em matéria de comunicação social. Só os mais distraídos não percebem que há muito a comunicação social é serva de interesses económicos que bailam ao sabor das conivências políticas. Se este Público não é isso, então que o não pareça. Resta Vasco Pulido Valente, papa dos deprimidos, com as suas opiniões de última página: «A liberdade, a igualdade e a fraternidade não prosperam em França como prosperam em Inglaterra, na América ou na Escandinávia». Pois claro, há lá local no mundo onde a liberdade, a igualdade e, sobretudo, a fraternidade prosperem mais do que na América?! Só se for na Gronelândia. Mudo-me para o P2. Eduardo Prado Coelho de volta, mais magro, talvez fruto da doença, insiste na crítica como tema, remetendo-nos para um «críptico texto» que ficamos sem saber qual seja apesar de desconfiarmos. Atentem-se, no entanto, à conclusão: «(…) não podemos é fechar os olhos a certas realidades que revelam consideráveis assimetrias. E, se assim é, temos que aceitar que assim seja». Temos? Ó pátria dos derrotados e dos desistentes, vê no que deram 33 anos de liberdadezinha privada! Deram numa página de opinião para as inanidades da dona Laurinda Alves. É tudo feio naquela página. No P2, salvam-se textos sobre o perfil do aluno que levou a cabo mais um massacre numa universidade onde prospera a liberdade, a igualdade e a fraternidade; um outro, de Alexandra Prado Coelho, sobre a história do piano; e «Vaticano, o alvo mais espiado pelos nazis», de António Marujo. Economia, não leio. Salto para o ípsilon. Muito destaque à cultura de massas (televisão, música, cinema), livros relegados para terceiro plano, muita confusão, algumas gralhas, fotografias enormes, uma coluna inenarrável de Alexandra Lucas Coelho. Lá descobri, a muito custo, o Pedro Mexia, com um texto sobre uma nova edição dos Contos do Gin-Tonic. Não gostei de praticamente nada neste ípsilon, logo a começar no nome. Desagradou-me, particularmente, a confusão, não haver uma divisão temática tipo a que existia no 6.ª. Tendo este terminado, resta-nos, então, o ípsilon e o Actual, no Expresso. O Sol nunca comprei, não sei o que por lá se vende. Enfim, Pedro Mexia e Eduardo Pitta que me perdoem mas não será por eles que voltarei a gastar 1,25€ em jornais à sexta-feira. Ah! Falta O Inimigo Público… Falta? Bolas, esqueci-me dele no café.

19.4.07

AVISO AOS NÁUFRAGOS

Esta página, por exemplo
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ler pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pró galho,
muito depois de caída.

Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida,
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.

Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta página, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não é assim que é a vida?

Paulo Leminski
Paulo Leminski nasceu em Curitiba, Paraná, no dia 24 de Agosto de 1944. Publicou os primeiros poemas em 1964, na revista Invenção – porta-voz da poesia concreta paulista. Publicista, músico e letrista, Leminski foi ainda um multifacetado tradutor de Alfred Jarry, James Joyce, Lawrence Ferlinghetti, John Lennon, Petrônio, Samuel Becktett e Yukio Mishima. Estudou a língua e cultura japonesas, tendo publicado uma biografia de Bashô. Faleceu no dia 7 de Junho de 1989.

18.4.07

A FELICIDADE TEM UM NOME


Um dos nossos colaboradores faz hoje 4 anos. Devemos ser o weblog com o colaborador mais precoce de toda a blogolândia. Parabéns, amor.
Algumas colaborações da Matilde podem ser revisitadas: aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

17.4.07

POIS ENTÃO


Ainda se recordam do debate acerca da puta da demagogia? Pois então tomem lá esta: eu estava equivocado. Ao mais alto nível, a cunha não é cunha. Trata-se antes de cunha institucional ou regime de excepção. Da próxima vez que ouvir a Quitéria dizer que isto é tudo a mesma merda, irei pensar duas vezes.

16.4.07

A Rapariga com Muitos Olhos

Um dia no jardim
fiquei muito espantado:
encontrei uma miúda
com olhos por todo o lado.

Era de facto encantadora
(e também assustadora!);
e, porque tinha boca para falar,
pusemo-nos a conversar.

Falámos sobre flores
e das suas aulas de poesia,
e dos problemas que teria
se tivesse miopia.

É óptimo namorar
alguém que tanto nos olha,
mas se desata a chorar
apanhamos uma molha.

Tradução de Margarida Vale de Gato.

Tim Burton

Tim Burton
nasceu em Burbank, Califórnia, no dia 25 de Agosto de 1958. Após estudos de animação, foi contratado pelos estúdios da Walt Disney como aprendiz de animador. Insatisfeito com o seu trabalho nos estúdios da Disney, escreve e desenha The Nightmare Before Christmas. A sua carreira como realizador de cinema começa em 1982, com uma curta-metragem. Conhecido sobretudo como realizador de cinema, entre os quais se destacam filmes como Edward Scissorhands (1990), Mars Attacks! (1996) e Charlie and the Chocolate Factory (2005), Tim Burton publicou, em 1997, um pequeno livro de estórias em verso e ilustrações intitulado The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories.

15.4.07

UM FARRAPO DE IDENTIDADE

Quando é que esta lua se descasca dos meus poemas?!
Esta zona de penumbra que vai da escola inglesa
À minha voz de barata?
A formiga empoleirada no grão de areia
Pouco se apercebe do meu titânico dilema de artista
E só tem olhos para o pé que levanto.
A abelha na sua errância doce peganhenta, se me avista
Dispara uma tangente zumbindo o seu escárnio.
A madrugadora andorinha, no seu voo seco,
Mal dispensa um olhar instantâneo às minhas penas.
O varredor dá de ombros, atira o fardo concreto
Para o camião dos salários e dos preços em subida;
O aprendiz da fábrica fecha o macacão
E aguarda a Chamada – sirene da fábrica;
O carteiro pedala a sua ronda; o soldado
Beija a namorada e corre a cumprir ordens.
Todos parecem conhecer seus eus
Mas eu como um louco insisto em decifrar
As marcas num farrapo de papel em branco
As marcas que vão ser o poema por detrás deste poema.
Tradução de José Pinto de Sá.

Dambudzo Marechera

Dambudzo Marechera nasceu a 4 de Junho de 1952 em Vengere, o maior subúrbio negro de Rusape, uma cidade da Rodésia do Sul (actual Zimbabué). A mãe era criada numa família de colonos e o pai, prematuramente desaparecido, teve uma vida acidentada, marcada pelo alcoolismo e pela prisão. Dambudzo ficou gago depois de ter sido forçado a olhar o cadáver desfigurado do pai, gaguez que apenas desaparecia quando declamava os seus poemas em público. Com a morte do pai, a mãe e as irmãs tiveram que se prostituir para sustentar a família. Enquanto tal, o poeta entregava-se às leituras, estudava. Ao mesmo tempo, começou a escrever – influenciado por autores como D. H. Lawrence, Joyce, Kurt Vonnegut ou Bukowsky… Cada vez mais embrenhado nas questões políticas do seu tempo, conseguiu uma bolsa para estudar Literatura Inglesa em Oxford. Aí viveu em permanente conflito com os professores e com os colegas, assumindo uma atitude anarquista, entregando-se aos vícios do álcool, da erva e do LSD. Acabou por ser expulso de Oxford, na sequência de uma tentativa de incendiar a universidade. Seguiram-se anos da mais paupérrima vagabundagem, apenas interrompidos em 1978 com a publicação de um volume de contos intitulado The House of Hunger. Segue-se uma vida repleta em escândalos diversos, o regresso à pátria libertada em 1982, a boémia, Mindblast, seu único livro de poemas publicado em vida. Morreu de sida em 1987, aos 35 anos. (A partir da revista LER, n.º 47)

12.4.07

Carlota


A Carlota era uma grand danois. Um filho da puta qualquer envenenou-a. Resistiu uma semana, em sofrimento inexplicável. Vou agora fazer de coveiro, abrir um buraco e enterrar a Carlota. A ver se o trabalho me limpa esta vontade imensa de foder o sebo a um filho da puta qualquer.

CANÇÃO DA RUA PARADA

Naquela rua parada,
Com uma nesguinha de céu,
No alto, também parada,
E vasos numa sacada,
Onde há roupa pendurada,
Parece que alguém morreu.

De manhã, aquela rua,
Ainda nua,
Olha o céu, entre as fachadas;
E tem, nas pedras sombrias,
Lágrimas finas e frias,
De lembranças de cantigas
Antigas
E desgraçadas…

Coitada daquela rua!
Nunca prende quem lá passa!...
Há uma enorme desgraça
Que ali, silente, flutua:
- Porque ela a todos quer bem;
Quem precisa passar, passa
E nunca pára ninguém.

Francisco Bugalho

Francisco Bugalho nasceu no Porto em 1905. Cursou Direito em Coimbra e Lisboa, indo viver posteriormente para o Alentejo. Colaborador da Presença e dos Cadernos de Poesia, publicou o seu primeiro livro de poemas em 1931: Margens. Faleceu novo, em 1949, tendo sido a sua poesia reunida num só volume no ano de 1961.

REPARE

Sócrates a chegar à UI nos seus tempos de estudante.

Há muita e boa matéria para os Gato Fedorento na entrevista de ontem ao Primeiro-Ministro. O momento mais ridículo da noite foi quando a jornalista de serviço, Maria Flôr Pedroso (suponho que com chapéuzinho no o de flor), perguntou ao Primeiro-Ministro se ele frequentava as aulas quando era aluno. Eu, confesso, desatei a ri. Este interesse todo na assiduidade do Primeiro-Ministro lembrou-me os nada saudosos tempos de estudante, aluno que fui de muitas faltas e frequência a custo. Depois daquela pergunta só isto me interessava: levantava o Primiero-Ministro o dedinho ao ar antes de colocar questões aos senhores professores doctores que lhe ministraram as cadeiras? Era pontual ou chegava atrasado às aulas? Batia à porta antes de entrar? Fez parte da tuna? Alguma vez se esqueceu do manual em casa? E às quintas-feiras, ia para os copos com os colegas de curso ou armava-se em intelectual betinho e ficava em casa? Saltou, como qualquer outro aluno universitário, ao som de Quim Barreiros na queima das fitas? Cabulou?

Kurt Vonnegut, 1922-2007

Escrevi sobre Um Homem Sem Pátria aqui. Botei um poema do mesmo livro, curiosamente um Requiem, aqui.

11.4.07

Rui Costa vence Prémio Albufeira de Literatura 2007 (act.)

O escritor Rui Costa foi o vencedor do Prémio Albufeira de Literatura 2007 com o romance «A resistência dos materiais», que o próprio descreveu hoje como «uma alegoria de sombras, uma alegoria sobre o poder». Segundo o júri do prémio, no valor de 10.000 euros, o livro apresenta «estados interiores de personagens de modo inovador, revela grande profundidade na análise do carácter humano expressando a complexidade metafísica daqueles que se dedicam às artes». «Permite uma leitura fluida, mas nem por isso menos enriquecedora e marcante, tendo-se distinguido de todas as obras a concurso», refere ainda o júri. Usual no domínio técnico, o termo «a resistência dos materiais» é também válido tratando-se «de pessoas, de animais, de metabolismos», assinalou Rui Costa à Lusa a propósito do seu livro, que mistura ficção, poesia e ensaio. O autor não crê que a presença, na obra, de três géneros literários embarace a leitura, porquanto a escrita «é fluida», é dado ao leitor «espaço para entrar» e a mensagem que se veicula «é positiva, de força». As personagens centrais são Maria, «uma mulher branca e sem sombra», Rafaela, «uma mulher negra e com a sombra mais densa que existe», a Bruxa, o Homem Azul, a Velha. «Alegoria de sombras» e «alegoria sobre o poder e a forma como ao poder se resiste», nas palavras do autor, «A resistência dos materiais» reuniu o consenso do júri constituído por elementos da Associação Portuguesa de Escritores, Universidade do Algarve e a Câmara Municipal de Albufeira, que instituiu o prémio.
notícia surripiada aqui

METAFÍSICAS

Porque deixar-me a sós com uma espingarda
se ela se fez para vos matar?!
Não quero por ora tal destino
nem a voz se abriu para me calar.
O que desejo? Dêem-me licença
de não estar de acordo nem comigo
quando quero carne e me dão peixe
ou – passe a moda – à mesa troco
a arte mais nova pela antiga.
O importante – sentir-me constante
e favorável a todo o capricho
que for d’encontro à minha vontade,
ou, pelo contrário, a contradiga.
De resto, amigos, não me atrasem
com respostas e perguntas vossas,
nem com pedidos insignificativos
que me deixam perdido a horas mortas.
Se quiserem matar-me, não me importo,
se entanto tiverem tento e corteisa,
mas não esqueçam as vossas espingardas,
que a minha só dispara em poesia.
Quando quero peixe e me dão carne
vou comprá-lo a outra freguesia.
E quanto à arte tenho a que me agrada
sem que por isso renegue a fantasia.

29/11/74

Ruy Cinatti

Ruy Cinatti nasceu em Londres em 1915. Os seus primeiros versos são publicados no Colégio Nun’Ál-vares, em 1932. Licenciou-se pelo Instituto Superior de Agronomia de Lisboa em 1941 e diplomou-se, por Oxford, em Etnologia e Antropologia Social. Desempenhou funções de meteorologista aeronáutico e foi chefe de gabinete do governador de Timor, onde viveu alguns anos. A partir de 1966 encontrou-se proibido de voltar a Timor, instalando-se definitivamente em Lisboa no ano seguinte. Autor de uma obra poética relativamente extensa, foi, com Tomaz Kim e José Blanc de Portugal, um dos fundadores dos Cadernos de Poesia (1940-1953), que co-dirigiu nas suas três séries, sendo também o fundador da revista Aventura (1942-1944). O seu primeiro livro de poesia, Nós Não Somos Deste Mundo, saiu em 1941. Viajante incansável, adoece gravemente em 1986, acabando por falecer na noite de 11 para 12 de Outubro.

MULTAR A VERDADE

Ouvi ontem na SIC uma notícia que dava conta de uma indemnização de 75 mil euros que o Supremo Tribunal de Justiça condenou o jornal Público a pagar ao Sporting. Em causa está uma notícia publicada pelo diário português, datada de 2001, ao que parece verdadeira. Ainda assim, o Supremo condenou o jornal por não haver concreto interesse público na divulgação da mesma: «É irrelevante que o facto divulgado seja ou não verídico para que se verifique a ilicitude a que se reporta este normativo, desde que, dada a sua estrutura e circunstancialismo envolvente, seja susceptível de afectar o seu crédito ou a reputação do visado». A ser isto verdade, temo agora também eu estar a incorrer no risco de uma multa por divulgá-lo aqui. Trata-se de mais um inexplicável atentado contra a liberdade de imprensa, estranhamente olvidado pela malta que anda para aí entusiasmada com a licenciatura do PM. Eu, pelo menos, não vi por aí nenhuma histeria vexatória das que é costume observar em casos similares. Sou do Sporting e não gosto do Público, mas sinto-me incomodado com uma situação que me parece grave por abrir um estranho precedente: sempre que a verdade afecte o crédito, o bom-nome ou a reputação de alguém, deverá ficar silenciada nas gavetas das redacções. Isto faz sentido? Um país que manda calar a verdade não pode ser um país saudável.

ESTÁDIO DA DANAÇÃO

Quem sabe não fala, quem não sabe fala de mais. Disto resulta que qualquer dia há um terramoto e ninguém dará por nada.

10.4.07

INSÓNIA

Joaquim Rocha, Insónia, 2007.

Mi barba nazarena.

Ultimamente tenho-me impressionado imenso com a quantidade de pessoas à minha volta que ainda acredita em Deus, tem fé no Jesus milagroso e é devota da Igreja de Roma. Já aqui tentei expor algumas razões que não fazem de mim mais um cristão entre muitos, pelo que não regressarei ao tema. Também não quero aprofundar a minha perspectiva acerca da Igreja de Roma, embora, de quando em vez, não resista a citar aqueles fiéis que adoram missas mas detestam práticas verdadeiramente cristãs. Como sabemos, parece-me isso inquestionável, a própria Igreja não é lá grande exemplo para aqueles que preferem o linguarejar do dogma à prática, pela acção, da palavra do Senhor, o que faz com que a maior Igreja do mundo, na realidade, seja a dos não praticantes. Hoje quero mesmo é centrar-me em Deus, pois há dias, perdido no desespero das insónias, pus-me a falar com ele na esperança que o sono viesse. E veio. Isto só prova que Deus existe e que, diga-se o que se disser, é um lenitivo do melhor que há. Quanto ao resto, continuo na minha: o transcendente não existe, o que existe é elevadores defeituosos.

TÁ TUDO LEGAL!

1. As empresas portuguesas estão a trocar informações para apanhar em falta os inspectores do fisco. Ó meu bom povo, organiza-te!
2. A PT pagou indemnizações de 10,7 milhões de euros aos administradores que não renovaram o mandato em 2006. Na EDP, a administração substituída recebeu 6,3 milhões de euros, com prémios de gestão. Ó meu bom povo, joga no Euromilhões!
3.
O Tribunal de Contas recomenda ao Governo que aprove legislação que defina o estatuto remuneratório do gestor público das empresas municipais. Foram detectadas mordomias diversas sem justificação. Ó meu bom povo, vai à bola!
4.
A eventual colocação de militantes da concelhia do PSD de Oeiras na Câmara de Lisboa, em particular em algumas empresas municipais, poderá vir a ser investigada pela Polícia Judiciária. Ó meu bom povo, fia-te na Floribela!
5.
A primeira auditoria realizada pelo Tribunal de Contas (TC) aos gabinetes ministeriais e dos primeiros-ministros dos últimos três governos revela falta de transparência nos processos de admissão, total discricionaridade na tabela salarial e mesmo situações ilegais. Como é que tudo isto é possível, existindo leis que regulam estas matérias? Com truques, responde o TC. Ó meu bom povo, dedica-te à magia! Ou então dedica-te à pesca, de preferência da cavala.

RASGAS A FRIA NOITE COMO UM DARDO

Rasgas a fria noite como um dardo
em fogo
e logo
a flâmula como um pêndulo
desce sobre o peito
donde nasce um sol obscuro e virgem.
Através dos ramos levo-me – levas-me –
puro e simples para os ventos
mesmo que triste, inconsútil e leve.
Mas, como se de pedra fosse o ilimitado
de coral ou ilha
o gesto falha inútil
e impetuosamente caímos sobre o limo
deflorados e neutros para o dia.

Max Martins

Max Martins nasceu em Belém do Pará em 1926. A partir de 1934, fez estudos nas áreas de Literatura, Poesia, Artes e Filosofia, nunca abandonando o estatuto de autodidacta. Colaborou na revista literária Encontro, em 1948, e publicou os primeiros poemas no Suplemento Literário da Folha do Norte em 1946 e 1951. Lançou o seu primeiro livro, O Estranho, em 1952 (edição do autor). Publicou sempre em edições pouco divulgadas, de curta distribuição. É director de um núcleo de cursos na área de linguagem verbal, aberto a estudantes de nível médio, universitários e interessados na literatura de um modo geral, conhecido como Casa da Linguagem. Recebeu em 1993 o prémio de poesia Olavo Bilac, concedido pela Academia Brasileira de Letras, pelo livro Não para Consolar. »

9.4.07

Joaquim Rocha, Insónia, 2007.

PRIMEIROS SOCORROS

A ferida por baixo da cicatriz
- quem cura?

Por vezes são estrelas que sobem
quando a água ocupa o espaço
e um brilho esquivo tropeça
no cansaço
do dia

No chão ainda morno
ardem pétalas sossegadamente
e há a melancolia de um pássaro

Na varanda esquecida
por trás de toda a magia da noite
(há tanta solidão em quem repara)
dura um homem que diz baixinho
assim quase para fora

A ferida por baixo da cicatriz
- quem cura?

Vasco Gato

Vasco Gato nasceu em Lisboa no dia 30 de Março de 1978. Estudou Economia, tendo-se dedicado posteriormente à Filosofia. Estreou-se em 2000, na Assírio & Alvim, com o livro Um mover de mão, ao qual se seguiram Imo (Quasi, 2003) e A Prisão e Paixão de Egon Schiele (&etc., 2005). São ainda da sua autoria os opúsculos Lúcifer (Alexandria, 2003) e 47 (Edição do Autor, 2005).

“PRIMEIRO-MINISTRO” (MANA CALÓRICA)

o novo super-hit para ouvir aqui:
http://www.myspace.com/manacalorica

Rui Costa

8.4.07

Conjuntivite

É uma das grandes inimigas do blogger empenhado. Muita coisa em lista de espera continuará a aguardar a sua vez de entrar na arena, pelo menos até que a pomada me desentupa os olhos cheios de lixo.

A DIALÉCTICA NAS MARGENS DO RENO

A dialéctica. Já ouvi falar da dialéctica:
era assim uma espécie de regra de três
simples no papel pardo das mercearias,
a penitência dos bígamos,
um motor a três tempos engatado
na quarta velocidade do pensamento.
O jovem Carlos leu GWF nas longas,
teutónicas noites de Inverno e escreveu
na Rheinische Zeitung um artigo
sobre o roubo da lenha aos camponeses ou
pelos camponeses: não sei bem.
Alguns discutiam se O Capital é
uma obra de maturidade ou um efeito
secundário da furunculose.
Por mim confesso: tenho saudades de tais tempos
em que despontavam as mamas em raparigas
acossadas pelo acne e pela delicadeza.

José Alberto Oliveira

José Alberto Oliveira nasceu em Souto da Casa, Fundão, em 1952. Médico cardiologista, publicou a sua primeira colectânea de poemas, Por Alguns Dias, em 1992. Seguiram-se-lhe os livros O Que Vai Acontecer (1997), Peças Desirmanadas e Outra Mobília (2000), Mais Tarde (2003) e Bestiário (2004), todos na Assírio & Alvim. Traduziu Auden, Russell Edson, Frank O’Hara, entre outros. É coordenador editorial da publicação A Phala.

7.4.07

LEITURA

Havia luz em uns instantes surgidos
Na minha vida,
Que a mesma vida apagava.
E a pobre realidade
Era uma cinza…
…Já nada me recordava
Se, de entre ela, uma faúlha
Não me queimasse os sentidos.

O fogo das queimaduras
É dor que nunca me passa!
E é esta que me ressurge
Um pouco dessa luz-alma
De tantos momentos idos…

A inquieta luz, sempre de agora,
Que ao mundo nada desvenda,
A mim diz certa verdade,
A chã naturalidade
Nas coisas vãs da legenda.

Talvez ninguém me acredite,
E se ria,
Quando grave eu me recite.
Mas recitar-me, cantar,
Mesmo cansada a memória,
Teria de acontecer:
É comigo,
Bem viva enquanto eu viver
A minha inútil história.

Edmundo de Bettencourt

Edmundo Bettencourt nasceu no Funchal em 1889. Partiu para Coimbra, onde estudou Direito, exercendo posteriormente funções públicas em Lisboa. Foi um dos fundadores da Presença - Folha de arte e crítica, em 1927. Em 1930 publicou O Momento e a Legenda, a sua primeira e solitária obra em mais de trinta anos, ao mesmo tempo que abandonava, juntamente com Branquinho da Fonseca e Miguel Torga, o movimento da Presença. Só em 1964 viria a publicar Os Poemas de Edmundo de Bettencourt, com um estudo de Herberto Helder. Também conhecido como compositor e intérprete de fados e canções de Coimbra - José Afonso considerou-o o maior cantor de sempre do fado de Coimbra -, Edmundo de Bettencourt morreu em Lisboa em 1973.

Da questão da Independente ao fundo da questão

in Sobre o tempo que passa (via Da Literatura).

Quando ilustres membros do governo Guterres, para completarem as respectivas licenciaturas, entraram em contacto directo com uma universidade dita privada, eles deveriam saber que estavam a entrar num domínio onde poderiam ser instrumentalizados por aquilo que em português corrente se chama cunha institucional. Estavam a entrar num reino sem rei nem roque [que] qualquer universidade privada praticava, chamando para docentes deputados e partidocratas, ansiosos por um cartão de visitas que lhes desse o título de professores do ensino superior, porque, lançando esta semente, um qualquer reitor poderia, amanhã, contar com um deles como decisor, colega ou dependente do decisor. Qualquer investigação jornalística pode correr todas as universidades em causa e encontrar inúmeros exemplos deste hábito lusitano, tanto nas privadas que se pretendiam publicizar, como nas públicas que, entretanto, se foram privatizando, para que todas correspondessem a esta feira de vaidades, para que todas se transformassem neste baixo nível das chamadas escolas de regime, sujeitas ao patrimonialismo da encomendação feudal. Basta passarmos os olhos pela biografia oficial de inúmeros deputados, actuais e passados, e pedirmos que nos indiquem o momento e causa dos convites que os levaram a "professores universitários". E deste processo não se livram os próprios avaliadores e avaliadores primazes. Basta recordarmos como Paulo Portas e Santana Lopes acabaram por ser nomeados directores de um centro de sondagens e passarmos os olhos pela descida ao mundo universitário e politécnico de alguns jornalistas de nomeada, pois o conúbio passou da partidocracia a jornaladocracia, avançando recentemente para grandes companhias, susceptíveis de patrocínio. Nenhum partido político consegue escapar à trama e, por isso, até se compreende o silêncio de Marques Mendes sobre a matéria, dado que poderiam surgir investigações sobre a respectiva actuação na Universidade Atlântica, até com recordações de primeiras páginas do "Expresso", onde ele aparecia aliado ao próprio primeiro-ministro actual, em actuações coloquiais universitárias. Não são precisas grandes procuradoras especialistas em "Apitos Dourados" para fazermos uma lista exaustiva de docentes de privadas ligados ao poder político partidocrático, nem será precisa muita imaginação para detectarmos quais as que estavam mais ligadas a este ou àquele partido. Julgo que, da trama, não escapam os próprios ensinos concordatário e público, onde docentes sem "curriculum" universitário ou de investigação se transformaram em distintos professores.

6.4.07

Aviões do Forró: Ta legal, ta legal eô eô


CML manda retirar cartaz do Gato Fedorento do Marquês Pombal
A Câmara de Lisboa vai mandar retirar um cartaz do grupo humorístico Gato Fedorento colocado «ilegalmente» esta noite no Marquês de Pombal, que satiriza outro cartaz contra a imigração colocado pelo Partido Nacional Renovador (PNR).

Segundo uma nota do gabinete do vereador dos Espaços Públicos, António Proa, o cartaz dos Gato Fedorento, colocado ao lado do do PNR, «não possui licença camarária».
Caso a notificação para a retirada do cartaz não seja cumprida, a autarquia vai «proceder à sua remoção coerciva», que terá que ser paga pelo infractor.
(In Diário Digital)
Paulo da Costa Domingos diz o resto: É a lei, amigos. E a lei é soberana. Ler tudo aqui.

AS MUSAS

(Improviso feito no Suíço)

Salta papel e pena e inspiração p’ra três!
Para dois. Vai-se embora o Gonçalves. Burguês
Pacato e pontual – ó que infâmia! ó que logro! –
Tem a sua mulher em casa de seu sogro
À espera. O rolo vai à procura da rola.
Gonçalves exumou do bolso uma cebola
Cronométrica, e disse: Este ponteiro marca
As onze e meia. Adeus, Abílio; adeus, Petrarca.
Boas noites, Queirós Veloso, eu vou p’rá cama.
Fique no Porto, Abílio. Eu também tenho a chama,
A chama genial, a chama que calcina
Do antigo menestrel a abóbora-menina.
Vou-me embora. Mas se, Junqueiro, tu não partes,
Hás-de ver amanhã à noite as minhas artes.
Tu vais ver, tu vais ver, cantor de coisas ternas,
Como é que eu arrebento um Pégaso entre as pernas,
Como é que eu domestico e como é que eu esfolo
A besta sobre a qual Tomás Ribeiro e Apolo
Têm feito a travessia imensa que conduz
À pasta, à posta, ao pasto… enfim, céus, à grã-cruz!
Tu hás-de ver, Junqueiro, oh! hás-de ver, caramba!
O Pégaso dançar valsas na corda bamba
Do hemistíquio, atirando – ó Junqueiro, hás-de vê-las!
Parelhas de partir a cara das estrelas
A couces. Hás-de ver mil ciclones danados
De versos, a correr, mancos, em pés quebrados,
Qual gotoso tropel bêbado de Silenos
A claudicar atrás dos três vinténs de Vénus.

O Ideal é um virgo; eu sou o garanhão sublime
Que o padreia. Emprenhar as musas será crime?
Ó jamais! Fecundar esses ventres divinos
É criar Assunções, é produzir Latinos
Coelhos, é dizer à pasta da Marinha:
- Toma lá, aqui tens o autor da
Morgadinha
Crica de Musa tem sempre a bombardeá-la
Meu caralho expluindo esporras de Bengala,
Uma langonha espessa, um grude arquibrutal,
Que entra vela de sebo e sai depois – Vidal.

Quando eu emprenhei, na primeira noitada,
Calíope, saiu uma rica charada
No almanaque de Rodrigues Cordeiro.
Terpsicore fodi-a, ó meu caro Junqueiro,
Numa noite de Inverno e com o rabo alçado!
Que soberba mulher! Porra! dei-lhe um cruzado
E dez fodas. Das dez fornicações alvares,
Sabes tu quem nasceu, sabes? – Justino Soares.

Em seguida atirei-me a Tália. Tália
Encontrei-a em Lisboa, em casa de uma tia,
Rua das Gáveas. Aí, nessa noite funesta,
Com a triste piroca exígua que me resta
Dos gálicos do Pindo, eu fui ao cu da Musa;
E, nessa escuridão gomórrica e confusa,
Minha porra encontrou, atascados em merda,
Chagas, Mendes Leal e o César de Lacerda.
Volvidos dias três, três sóis volvidos, eu,
Com a alma mais triste e negra do que breu,
Procurei um doutor, um dos grandes portentos
Que fazem dos bubões e dos esquentamentos
Modos de vida, e disse ao meu doutor: Doutor
Eis aqui este gancho, eis aqui esta dor
E esta porra. Acordei hoje com tudo isto.
Que desgraça, doutor! Veja você – um Cristo!...
Observe-me esta porra, ó conspícuo alveitar:
Vê esta purgação? – são os
Homens do Mar:
Cinismo, cepticismo e crença, em Alviela,
Correm daqui. Maldita, ó! maldita a panela
De Tália, onde encontrei esta gálico novo,
Feito da
Probidade e do Drama do Povo!
E o profundo doutor retorquiu desta sorte:
- Tália tem nu cu Chagas, isto é, a morte;
Tem Lacerda – o flagelo! – e tem Mendes Leal!
Uma combinação da
Escola social
E Judia produz este gálico raro
Que se arranja no Pindo e que se cura em Faro.

Gonçalves exprimiu assim seu pensamento
E eu disse-lhe: - Você, Gonçalves, tenha tento
Na bola e não me foda as Musas de tal guisa.
As Musas imortais fodem-se com camisa
De Vénus. Pois você, ó Gonçalves dos diabos,
De rabo alçado enraba assim os nove rabos
Dessas Musas, e quer você, inda por cima,
Ter talento e saúde. Um homem, quando arrima
Uma trombicadela, é preciso levar
Um antídoto bom contra os
Homens do Mar

Guerra Junqueiro

Guerra Junqueiro nasceu em Freixo de Espada à Cinta, a 17 de Setembro de 1850. Foi bacharel formado em direito pela Universidade de Coimbra, alto funcionário administrativo, político, deputado, jornalista, escritor e poeta. Iniciou a sua carreira literária no jornal literário A folha, criando relações de amizade com alguns dos escritores do grupo geralmente conhecido por Geração de 70. Estreou-se em 1864, com Duas Páginas dos Catorze Anos, uma série de poemas ainda influenciados pelo ultra-romantismo. Em 1875 dirigiu, com Guilherme de Azevedo, a revista Lanterna Mágica (onde surgiu a célebre caricatura de Rafael Bordalo Pinheiro, o «Zé Povinho»). Em 1888 constitui-se o grupo dos Vencidos da Vida, de que Junqueiro fez parte tornando-se o mais popular poeta panfletário da sua época, assinando textos de sátira violenta, quer ao clero, quer à monarquia. Faleceu em Lisboa, a 7 de Julho de 1923.