31.10.06

A casa no tempo #14

Corredores
Fragmento #26 - Corredores
Maria João

IVG # 10

«Não pretendo retomar toda a história dos debates sobre o aborto, nem a questão candente que constitui a determinação do momento em que a vida se inicia. Não tenho convicções religiosas sobre esta matéria e percebo que seja confuso definir o que está certo ou errado. A questão que aqui se coloca é a de saber, dentro de uma linha de direitos naturais que conferem a dignidade humana, qual será o estatuto moral dos indivíduos por nascer, dos inválidos, etc. Não tenho a certeza de que seja possível encontrar uma resposta definitiva, mas talvez seja possível esboçar o enquadramento adequado para o problema.
À primeira vista, qualquer doutrina dos direitos naturais que assente a dignidade humana no facto de a espécie humana possuir características exclusivas, pode permitir uma graduação dos direitos, dependendo do grau em que cada indivíduo partilha essas características. Um indivíduo idoso e com doença de Alzheimer, perdeu a capacidade de raciocínio própria de um adulto normal e, consequentemente, uma parte da dignidade que permite participar em actos políticos, seja como eleitor, seja como candidato. A razão, a escolha moral e a posse de toda a gama de emoções típica da espécie, são partilhadas pela quase totalidade dos seres humanos, constituindo uma base para a igualdade universal, mas essas características nãos e apresentam uniformemente em todos os indivíduos, pois alguns são mais razoáveis, outros são mais conscientes e outros são mais sensíveis. Em circunstâncias extremas, é possível distinguir pormenores ínfimos entre os indivíduos, considerando o grau em que possuem estas qualidades humanas elementares, e atribuindo-lhes direitos hierarquizados de acordo com esse grau. A aristocracia natural não é mais do que um precedente histórico do que acabo de dizer e o sistema hierárquico a que deu origem é o motivo pelo qual existe tanta desconfiança quanto ao próprio conceito de direitos naturais.
Existe, portanto, uma forte razão prudencial para evitar a hierarquização excessiva dos direitos políticos. Em primeiro lugar, não há consenso sobre quais são exactamente as características humanas que qualificam um indivíduo para usufruir direitos e, ainda mais importante do que isto, é muito difícil avaliar o grau individual de cada uma destas qualidades, tendo em conta que quem faz essa avaliação dificilmente nãos era parte interessada. A maior parte das aristocracias do passado tinha uma base convencional, não natural, com os aristocratas a atribuírem-se direitos que proclamavam como sendo naturais, mas que, na realidade, ou não passavam de convenções, ou assentavam no uso da força. Dito isto, percebe-se a necessidade de abordar com espírito liberal a questão de saber quem tem ou não tem direitos.
Todas as democracias liberais contemporâneas alicerçam as diferenças de direitos nas características típicas da espécie que são possuídas pelos indivíduos, isoladamente ou em grupo. As crianças, por exemplo, não têm os mesmos direitos dos adultos porque ainda não são detentoras da mesma razoabilidade e da mesma capacidade de fazer opções morais; não podem votar e não gozam da mesma liberdade que os pais de escolherem onde viver, se hão-de ir à escola ou não, etc. As sociedades retiram aos criminosos alguns direitos básicos por terem infringido a lei, e fazem-nos de uma forma particularmente severa quando se trata de indivíduos em que não reconhecem princípios morais humanos considerados elementares. Nos Estados Unidos, podem mesmo ser privados do direito à vida quando cometem certos tipos de crimes. Oficialmente, os doentes com Alzheimer não são destituídos dos seus direitos políticos, mas retira-se-lhes o direito de guiar um automóvel ou de tomar decisões de carácter financeiro e, na prática, também deixam de exercer os seus direitos políticos.
Assim sendo, e na perspectiva dos direitos naturais, pode-se dizer que se justifica a atribuição aos indivíduos que ainda não nasceram, de direitos diferentes dos que têm os bebés ou as crianças. Um bebé com um dia de vida não possui razão nem capacidade para fazer escolhas morais, mas já possui alguns elementos importantes do leque de emoções humanas, pode sentir-se perturbado, tem um laço afectivo com a mãe, tem a expectativa de ser alvo de cuidados, etc., etc., tudo coisas que um embrião não tem. Para além do mais, existe uma relação muito forte entre os pais e a criança, relação essa que, quando é violada, institui o infanticídio como um dos crimes mais odiosos para a maioria das sociedades. Até que ponto esta diferença é natural é algo que podemos confirmar pelo hábito de se organizar o funeral de um recém-nascido, coisa que não sucede com um feto abortado. Tudo isto aponta para que não consideremos os embriões comos seres humanos detentores dos mesmos direitos que reconhecemos a um bebé.»

Francis Fukuyama, in «O Nosso Futuro Pós-Humano», pp 264-267, trad. Vítor Antunes, Quetzal, Lisboa, Portugal, 2002.
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30.10.06

Grandes Portuguesas

Ti Helena
Ti' Helena, por Luciano Rodrigues.

YO

No início da década de 1990 houve em Caldas da Rainha aquilo que pode ser designado de nova vaga musical, com uma série de bandas das quais me apetece destacar os Tina And The Top Ten, do artista plástico João Paulo Feliciano, e os Yolk. Essa vaga, como todas as vagas, durou praticamente uma década. Feitas as contas, o saldo não é negativo se recordarmos alguns bons concertos e meia dúzia de álbuns interessantes. A maior parte desses projectos, que se formara sob a inspiração dos Sonic Youth, desapareceu. Outros adaptaram-se às circunstâncias transformando-se em objectos pop de gosto duvidoso. Veja-se, a título de exemplo, o projecto de Paulo Gouveia, ex-Orange, que dá pelo nome de Gomo. Lembro-me desses tempos a propósito dos Yo La Tengo, banda que conheci à época e nunca mais quis perder de vista. O primeiro álbum dos Yo La Tengo, Ride the Tiger, data de 1986. Já lá vão, portanto, 20 anos bem passados. A banda, formada em 1984, pode ser entendida como uma espécie de empresa familiar – assim também, de resto, os Sonic Youth - liderada por Ira Kaplan (guitarra e voz) e Georgia Hubley (bateria e voz). Muitas vezes associados aos The Velvet Underground, os Yo La Tengo souberam personalizar o seu noise rock desafiando toda uma série de clichés à volta deste tipo de bandas. Desde logo, permanecendo fiéis ao ruído, nunca negligenciaram a melodia, aventurando-se mesmo em canções mais inteligíveis como é o caso de Tom Courtenay, do álbum Electr-O-Pura (1995). O noise rock dos Yo La Tengo, tal como o dos Sonic Youth, nunca pôs em causa a toada groove das suas canções, permitindo-lhes assim sobreviver sem dar mão da sua independência. Penso nisto tudo por uma razão muito simples: tal como as bandas das Caldas da Rainha nesses idos de 1990 e troca o passo, muito do que se faz neste país vive de inspirações momentâneas, decalques circunstanciais, modas efémeras. A grande parte dos artistas portugueses falta aquela personalidade que permite a bandas como os Sonic Youth e os Yo La Tengo manterem-se fiéis a um estilo, garantindo assim a sua identidade. É óbvio que temos excelentes excepções, mas verdade seja dita que na música, nas artes plásticas, etc., e porque não estendê-lo aos domínios do pensamento, das ciências humanas, da política, do jornalismo, há no nosso país uma falta de personalidade, um défice de coluna vertebral, por vezes gritante, tornando o que se faz por cá, muitas vezes, numa cópia desajeitada do que vem lá de fora. É por isso que em tantas matérias dificilmente passaremos da segunda divisão. Recordo-me de ainda nos tempos da Faculdade ter sido confrontado com uma cadeira de Filosofia em Portugal onde metade do semestre foi para discutir se havia uma filosofia portuguesa. Os autores abordados deixavam bem claro aquela ideia de que o putativo pensamento português não passava, na maior parte dos casos e para mal dos nossos pecados, de uma citação permanente do pensamento francófono, germânico e, mais recentemente, anglo-saxónico. O que me leva a crer que também aos nossos ilustres pensadores, assim como a alguns génios da política cata-vento, não faria mal algum olharem para os exemplos dos Sonic Youth e dos Yo La Tengo.

VILANCETE

Como quereis que me ria,
Corpo de ouro, se vos digo
Que trago a morte comigo?

Vir um dia a apodrecer,
Se é destino de quem vive,
Outro destino não tive
Desde a hora de nascer:
Como não hei-de sofrer,
Corpo de ouro, se vos digo
Que trago a morte comigo?

Na dor de todo o momento
Meus tristes dias se vão,
E só tenho a podridão
Em paga do sofrimento:
Sombra de contentamento,
Como a terei, se vos digo
Que trago a morte comigo?

Júlio Dantas

Júlio Dantas nasceu em Lagos no ano de 1876. Formado em Medicina, desempenhou diversas funções públicas, como senador, deputado e ministro de Estado. A sua obra literária abrange géneros variados — teatro, poesia, conto, romance, tradução, ensaio —, tendo alguns dos seus textos, que na época alcançaram grande êxito, sido adaptados a óperas, a operetas e ao cinema. Estreou-se como poeta em 1896, com a obra Nada. Vinte anos mais tarde daria à estampa um volume de Sonetos. A figura de Júlio Dantas veio a ser associada ao academismo literário, o que o tornou alvo de ataques por parte dos jovens escritores modernos, como Almada Negreiros, com o Manifesto Anti-Dantas, que viam na sua obra tudo o que havia de estagnação na cultura portuguesa. Faleceu em 1962.

29.10.06

IVG # 9

«Eu não vou discutir neste blog a questão do aborto, tal como nunca discutirei a questão, muito em voga na América, da legitimidade da tortura: ambos os temas pertencem a um mundo ao qual não pertenço, e em que não me reconheço.

Proibir uma mulher de abortar até às dez semanas de gestação, um período que eu prolongaria, parece-me um gesto tão atávico como apedrejá-la por conduzir sem burqa - não é que isso não se faça, não é que não haja até quem o defenda seriamente, aqui ou no Afeganistão. Simplesmente, eu não estou no Afeganistão.»
Luis M. Jorge, in o franco atirador.
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A ESPANTOSA AVENTURA DE VLADIMIR MAYAKOVSKY

na dacha Rumyántseva, em Púshkino, colina Akúlov, a 27 verstas de Moscovo pelo caminho de ferro de Yarosláv

Como cento e quarenta sóis o sol-pôr resplandece,
Julho bem entrado,
um calor
pesado
na dacha.
Curvava-se o cabeço de Púshkino
para o morro de Akúlov,
e no sopé da colina –
uma aldeia
torcendo-se em telhados de casca.
E atrás da aldeia –
um buraco,
e a esse buraco, certamente,
descia o sol todas as tardes,
lentamente.
E no dia seguinte
de novo
a inundar o mundo
erguia-se vermelho.
E dia após dia
terrivelmente a irritar-
-me
lá estava
ele.
E assim enfurecendo-me um dia,
de raiva fiquei pálido
e gritei:
‘Vai-te!
Chega de preguiçar no Inferno!’
E prossegui:
‘Parasita!
Entre as nuvens sem fazer nada
e eu aqui – há tanto tempo
sentado a desenhar cartazes!’
E ainda:
‘Espera!
Escuta, ó cabeça doirada,
porque não deixas essa vida,
e não vens até minha casa
tomar chá?’
O que eu fiz!
Estou tramado!
Para minha casa,
como um boi manso,
estendendo os raios-passos
andou o sol nos campos.
Não quero mostrar receio –
e retirar-me de costas.
Mas já estão no quintal os seus olhos.
Já anda no meu quintal.
Pela janela,
pela porta,
pelas gretas
escorre a massa do sol,
tudo invade;
e tomando alento,
começou a falar:
‘Afasto-me do fogo
pela primeira vez desde a criação.
Chamaste-me?
Então vamos ao chá,
ao chá, poeta, com geleia!’
Eu estava com lágrimas nos olhos –
meio louco de calor
mas apontei-lhe o samovar:
‘Então,
senta-te, astro!’
O diabo tirou da manga a minha audácia
de lhe gritar –
desconcertado,
sentei-me no meu canto,
temendo o pior!
Mas os estranhos raios do sol
Correram, -
e a minha tensão
esquecendo,
sentei-me, a conversar
com o astro calmamente.
Falei disto,
daquilo,
da horrível ROSTA,
mas o sol:
‘Muito bem,
não te zangues,
encara as coisas com simplicidade!
E eu, julgas
que brilhar
é fácil?
Experimenta!
A mim
disseram-me que fosse brilhar,
e eu brilho com toda a gana!’
Demos assim à língua até ao escurecer –
isto é, até à noite passada.
Que escuridão esta!
Em ‘ti’
há eu e tu, coragem.
E não tardámos
a ficar amigos.
Bato-lhe no ombro.
E o sol também:
‘Tu e eu
somos camaradas!
Vamos, poeta,
olhemos,
cantemos
neste mundo tão chato.
Eu ponho a minha luz solar,
e tu – a tua
em versos.’
As paredes de trevas,
as prisões da noite,
sobre a terra serão esmagadas pelos nossos dois ataques.
A desordem de versos e de luz –
brilha naquilo que atinge!
Cansa-se então,
e quer
dormir,
esquecer no sono.
De repente – eu
com toda a força brilho –
e de novo o dia nasce.
Brilhar sempre,
brilhar em toda a parte,
até ao dia em que a fonte da vida se esgote,
brilhar –
e é tudo!
É o nosso lema – meu
e do sol!

Tradução de Manuel de Seabra.


Vladimir Mayakovsky

Vladimir Mayakovsky nasceu na Geórgia em 1893. Aos 14 anos entrou para a facção bolchevique do Partido Social-Democrático Operário Russo, tendo sido preso várias vezes. Entrou na Escola de Belas Artes, onde se encontrou com David Burlyuk, que foi o grande incentivador de sua iniciação poética. Em 1912, com David Burlyuk, Khlebnikov e Kruchonykh, publica o manifesto cubo-futurista intitulado Uma bofetada no gosto do público. Após a Revolução, trabalhou na Agência Telegráfica Russa, foi redactor da revista LEF (de Liévi Front, Frente de Esquerda), escreveu teatro, fez inúmeras viagens pelo país, aparecendo diante de vastos auditórios para os quais lia os seus versos. Nuvem de calças, publicado em 1915, foi talvez o seu primeiro grande poema a ser editado. Suicidou-se com um tiro, aos 37 anos de idade, em 14 de Abril de 1930. »

As pessoas inteligentes

As pessoas inteligentes gostam de fazer notar os seus méritos acusando os deméritos das pessoas estúpidas. O que para mim permanecerá um daqueles hermetismos inextrincáveis é a razão que justifica o facto das pessoas estúpidas serem tantas vezes citadas pelas pessoas inteligentes. Basta passear pelas páginas virtuais das pessoas inteligentes para chegarmos a esta conclusão: país pobre, embora transbordante de inteligências pardas, Portugal não passa desta parvalheira que é dar voz a quem só professa parvoíces.

28.10.06

IVG # 8

«Tanto se tem discreteado sobre um suposto masoquismo feminino que se chegou a este ponto em que se diz que a despenalização do aborto levaria ao fim da contracepção. A realidade prova o contrário: nos muitos países em que a interrupção da gravidez nas primeiras dez ou doze semanas foi legalizada, as taxas de aborto diminuíram. (…) Moramos numa cultura que culpabiliza o corpo da mulher – que sangra porque é impuro, e é impuro porque tem esse afrontoso poder de gerar vida. Mas os espermatozóides que hoje se distribuem em bancos bacteriologicamente puros, para fazer crianças que nascem sem o direito de saber quem são – não são também vida? Tudo neste mundo é vida – vida elaborada a partir de pó de estrelas. Mas quando se trata desse assunto menor que é a saúde reprodutiva das mulheres, a demagogia solta-se e voa até às mais turvas nuvens comparativas. Fetos de cinco e seis meses aparecem em folhetos, baptizados como embriões. Pode haver quem defenda o direito do embrião – mas então, coerentemente, essas pessoas deveriam rejeitar a interrupção da gravidez por malformação do feto ou violação da mãe, e criminalizar claramente as prevaricadoras, em qualquer situação. (…) Outros ainda afirmam que concederiam votar a favor do direito à interrupção até Às 10 semanas – desde que não fosse praticada nos hospitais públicos, para não prejudicar os doentes «a sério». Por esta ordem de ideias, haveria que arredar dos hospitais públicos: a) os suicidas falhados b) os fumadores com cancro do pulmão c) os diabéticos gulosos d) os obesos e) os alcoólicos com cirroses f) os doentes de sida que não tivessem sido contaminados por transfusão de sangue. E por aí fora. Como é que se faz? Instalam-se confessionários à porta dos hospitais e mandam-se os pecadores, em penitência, para as clínicas privadas? Um pouco de bom senso, por favor. E de respeitinho, já agora.»

Inês Pedrosa, Única, 28 de Outubro de 2006.
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27.10.06

Grandes Portuguesas

IVG # 7

Luís Rainha responde, e bem, aos chiliques de Eduardo Pitta sobre «uma conversa da treta, a propósito do aborto»:

«O artigo 140.º do nosso Código Penal descreve os casos em que a IVG não é ilícita, começando por:
"a) Constituir o único meio de remover perigo de morte ou de grave e irreversível lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida;
b) Se mostrar indicada para evitar perigo de morte ou de grave e duradoura lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida, e for realizada nas primeiras 12 semanas de gravidez;"
Por acaso, o artigo 417 bis do Código Penal dos nossos vizinhos até faz exigência parecida: "Que sea necesario para evitar un grave peligro para la vida o la salud física o psíquica de la embarazada". Só que se nota uma crucial divergência, mesmo aos olhos de quem, como eu, não é jurista: a falta dos adjectivos "irreversível" ou "duradoura" a classificar os perigos que a saúde física ou psíquica da mulher grávida terá de correr. O que faz toda a diferença: imaginam algum psiquiatra a certificar que alguém — que não um convalescente de AVC ou de lobotomia — vai por certo ter problemas psíquicos indeléveis ou delongados? Claro que não.
Mas há mais. A Lei 90/97 veio deixar claro que "o Governo adoptará as providências organizativas e regulamentares necessárias à boa execução da legislação atinente à interrupção voluntária da gravidez". Isto aconteceu com a Portaria n.º 189/98, que obriga à constituição de "comissões técnicas de certificação", compostas por "três ou cinco médicos como membros efectivos e dois suplentes", incluindo "a presença obrigatória de um obstetra/ecografista, de um neonatologista e, sempre que possível, de um geneticista, sendo os restantes elementos necessariamente possuidores de conhecimentos categorizados para a avaliação das circunstâncias que tornam não punível a interrupção da gravidez". Coisa simples e pouco burocrática, claramente vocacionada para simplificar a vida às grávidas em risco. Eis como a lei se viu regulamentada com generosa abrangência.
Já se começa a tornar claro o abismo que separa esta situação da espanhola, não? É que lá, nas clínicas que hoje atraem inúmeras portuguesas, basta um “dictamen emitido con anterioridad a la intervención por un médico de la especialidad correspondiente, distinto de aquel bajo cuya dirección se practique el aborto” para que a intervenção possa ocorrer.»

in Aspirina B.
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SONES DETERGETICUM

Exmo. Sr. E. M. de Melo e Castro
Covilhã

Poligónica forma pró-dislate
ornitùrricaturra pró-falsete
sulfactídica amostra disparate
encefàlicoestèticorretrete

protossónico vate calafate
tripanado linfático filete
xadrezista charada chequemate
torniquete cacete cacetete

tartufácil engodo redundante
taralhoco barroco bipedante
apócrifo proscénio pró-toleima

leucócito bacilo obliterante
lexicólogo rícino purgante
pirotècnicotécnica almorreima.

José Carlos Ary dos Santos

José Carlos Ary dos Santos nasceu em Lisboa a 7 de Dezembro de 1937. Aos catorze anos, a sua família publica-lhe alguns poemas. No entanto, Ary dos Santos revelaria verdadeiramente as suas qualidades poéticas em 1954, ao ver os seus poemas serem seleccionados para a Antologia do Prémio Almeida Garrett. Abandona a casa da família, exercendo as mais variadas actividades para seu sustento económico. Em 1963 dar-se -ia a sua estreia efectiva com a publicação do livro de poemas A Liturgia do Sangue. Em 1969 inicia-se na actividade política ao filiar-se no PCP. Concorre, sob pseudónimo, ao Festival da Canção da RTP com os poemas Desfolhada e Tourada, obtendo os primeiros prémios. É através deste campo que o poeta melhor se tornaria conhecido entre o grande público. Faleceu a 18 de Janeiro de 1984. »

A casa no tempo # 13

Para sempre
Fragmento # 12 - Para sempre
Maria João

26.10.06

Grandes Portuguesas

Firmiana
Tia Firmiana, por Luciano Rodrigues.

Síndroma

A ideia que temos de alguém nunca é definitiva. Sabemos disso quando esse alguém nos diz quem é, do que gosta, o que faz, para que lado dorme. Por isso mesmo a admiração que temos por um outro pode ser circunscrita à admiração que temos por nós próprios, na medida em que esta condiciona a percepção do mundo e, subsequentemente, essa tal admiração que um outro nos merece. É comum adorarmos certas pessoas até elas se nos revelarem, revelação essa apenas possível quando as pessoas se autentificam nos gestos mais espontâneos e, por isso mesmo, confessionais. Em Portugal diz-se que facilmente alguém passa de besta a bestial e vice-versa. Isto é muito verdade, sobretudo se quem classifica for uma besta e não entender que o que há de bestial nas pessoas se resume à sua bestialidade. Há quem não entenda isso e olhe para uma pessoa como se ela fosse apenas e tão só uma das suas virtudes, uma virtude tão empolgada que obnubila todos os vícios. Mas todos nós somos um charco de vícios e virtudes. Basta olharmos com atenção para disso nos apercebermos. Quem julgar o contrário é desatento ou vê novelas a mais.
Adenda: ela e os outros.

Ligação Directa

O mais recente álbum de Sérgio Godinho, intitulado Ligação Directa, está recheado de excelentes canções. Começa assim: «Ide ao dicionário / «d» de deusa / «a» de amor / por amor dos deuses! / Para quê tanta palavra? / Depois é tudo ao contrário / nada a nada corresponde / é bem pior, bem melhor / mas porquê, como, e quando, e onde?» O tom interrogativo mantém-se no tema subsequente, o primeiro a rodar nas rádios, com um arranjo de cordas a pontuar estrofes que nos deixam assim num misterioso embevecimento. A escrita de Sérgio Godinho é de uma sensibilidade sem par no panorama português, combinando eficazmente o lúdico com uma melancolia que nunca resvala no sentimentalismo bacoco que por aí prolifera. Mas importa perceber que, nestas canções, não existem clivagens entre domínios diversos como a perspectiva social e política e a temática amorosa. Os dois fundem-se no que pode ser entendido, muito simplesmente, como canções sobre a vida. Não a vida delimitada numa das suas dimensões, mas a vida total e absoluta, onde tudo conflui e se entrelaça. Isso nota-se tanto quando o tom é de marcha alfacinha, indo beber aos ritmos tradicionais portugueses, como quando opta por um registo mais personalizado. Uma das minhas canções preferidas, pelo que tem de irónico e socialmente concludente, é O Rei do Zum-Zum (Há ainda O Às da Negação e O Big-One da Verdade). Eis as três últimas estrofes desse rei dos tempos modernos:

Eu quero entrar em grande
e não pela metade
talvez que não haja
outra oportunidade
p’ra apalpar de perto
o corpo à eternidade
na verdade quero ser, sei lá,
o número um
eleito o rei do zum-zum
zum-zum
eleito o rei do zum-zum

E vou correndo de ecrã em ecrã
da sitcom ao site ponto com
a ver se nalgum deles
se ilumina o meu nome
eu quero a fama e o proveito
(ninguém é perfeito…)
eu quero a fama e o proveito
ninguém é perfeito

Mas se um dia já não for famoso
arco-íris desmaiado
não me rabisquem nas revistas
das salas de espera dos dentistas
vão ao mapa cor-de-rosa
redesenhem poema e prosa
com conteúdo sólido e gasoso
p’ro melhor argumento adaptado:
Foi famoso por ser famoso

Os grandes sachadores

Ontem vi com atenção o debate sobre os Grandes Portugueses, pelo menos até ter começado o CSI Nova Iorque na SIC. Além do traje horrível de Maria Elisa, de uma repórter em Braga que parecia estar a apresentar o Big Brother, há a destacar o seguinte facto: o verbo achar foi o mais escutado durante o programa. Bem representado na sala do palacete, este é, sem dúvida, o país de quem muito acha e pouco pensa.

A PROSTITUTA

Quando a noite pare em sangue a madrugada
As constelações se desorganizam
As nuvens se encapelam
Quando os guindastes do porto se espreguiçam
Os muros do fortim alvejam
O caçador submarino já pode olhar nos olhos
O mero adormecido
Quando a fome come a criança da colina suja
Os bichos humanos chegam à lavoura farejando a névoa
Os passageiros do ar visitam a lua nova
O seringueiro não sorri
O porco não sorri
Não sorri não sabe rir nunca soube rir
Como não sabe rir a formiga
O pedregulho
O mendigo
O bode rupestre da falésia aguilhoada
Quando a noite se encerra e há uma pausa
O membro do marido emurchece no lençol
Quando o Nilo estende as suas barbas velhas ao sol
Quando o Rio Amarelo silenciosamente dá as cartas
O Don abre seus braços aos trigais
O Amazonas apodrece
Quando o riacho acorda o homem descalço
Quando o rio todos os rios vão recuperando a memória
E contam sussurrando
A história do mastim do lorde
O chicote do dono
A botina do polícia
O gancho do corsário
O milionário tumefato com uma luz no ventre
A metamorfose do chacal
Quando os rios se recordam
E vão contando
Sussurrando
Conspirando
Enlaçando as cidades frias e cálidas
Enlaçando os campos
Como no tempo de faraós possessos que uivavam
Dos profetas de longas barbas sujas
Como no tempo dos cantochões do convento
Do archote ao pé do cadafalso
Milhões de homens milhões de batalhas milhões de febres
Milhões
Milhões de ratazanas históricas
De escravos
De crucificados
É quando
O rio se lembra com dificuldade
(Ela que foi pura)
E vai cuspindo restos de lágrimas e lama
E se envergonha e quer morrer
É quando a prostituta se entreabre sobre a cama
E se fecha
E fica surda ao apelo do rio
E se entreabre devagar
E se fecha
Túmida flor que provocasse a náusea
Sentreabrindo
Se fechando
Opaca surda grossa
Na menstruação dolorosa de um grito que se fecha
No retraimento obsceno de um membro que emurchece
Então é quando a prostituta deveria sentar-se à margem do Hudson
E chorar
Chorar as lágrimas todas de seus olhos
De seus ouvidos
De suas narinas
De sua vagina
De suas mãos, de seus pés
Chorar as vezes que não chorou
Chorar o sangue o mênstruo o leite
Chorar como os rios choram sem tempo e surdos
Como o conde Ugolino
As santas estigmatizadas
Chorar como choram os mendigos
Um pranto sujo
Um mênstruo rude
Um leite envenenado.

Paulo Mendes Campos
Paulo Mendes Campos nasceu em Belo Horizonte a 28 de Fevereiro de 1922. Estudou Odontologia, Veterinária e Direito, não chegando a completar nenhum dos cursos. Ingressou na vida literária muito cedo, dirigindo o suplemento literário da Folha de Minas. Em 1951 lançou o seu primeiro livro de poemas, A palavra escrita. Traduziu Júlio Verne, Oscar Wilde, John Ruskin, Shakespeare, Neruda, entre outros. Faleceu em 1991.

Mau-olhado

Sabes o que te desejo? Desejo-te um dialup.exe, que um x.exe cai-a sobre ti, vai para o waol.exe, o que tu merecias era um wininet32.exe, seu filho dum runwin32.exe… E só não digo que apanhes um vxh8jkdq6.exe porque nem um kernels64.exe vales, seu grandessíssimo vxgamet1.exe...

SANGUE, SILÊNCIO


Há pessoas que usam calendários, enforcam-se aos dias, têm adolescências grandes com heróis que amam muitas vezes quando a família cala. São filhos de senhores que quiseram voar. As mães têm virtudes terapêuticas, por vezes são lindas, outras são alheias por excesso de charme. As avós cozem peixe com sabor a mar, ninguém percebe como, há tantas coisas que as avós fizeram para agora terem vergonha de as recordar como amigos bonitos que lhes falavam ao ouvido, encostado o sopro ao peito imaginado delas. São varizes na memória, pratos que partiram junto ao osso de uma teimosia cheia.

Ninguém se acredita no que uma senhora respeitável pode conceber, eu ausculto-lhes as sombras porque no fundo não posso levantá-las pelos braços e fazê-las girar como estações orbitais ou promontórios vastos. Respeito-lhes os sinais e adormeço na sala dos marginais por vocação.

Tossem muito os marginais.

Vou andar a pé, achar o tanque vazio__ a pessoa muda que nasce do vício com seus olhos de fumo e a barriga de cinza.

Rui Costa

25.10.06

Um país devastado por uma intempérie imprevista?

A SIC foi quem mais nos brindou com a intempérie, 44 minutos seguidos do que poderia ter sido mostrado em 5 não fosse o facto de o facciosismo não ter limites. O que ouvimos? Coisas como «nunca vi nada assim», «isto é o normal», «aqui vive-se assim», «a culpa é do IP», «em 2000 foi muito pior», «isto era o fim do mundo», etc. Ouviu-se ainda um bombeiro que era a cara chapada do Manuel João Vieira e um cidadão que, impedido de passar numa ponte interdita, lá ia gritando, muito à portuguesa, «se eu morrer, o problema é meu». A bem dizer, uma seca.

Ó meu bom mundo civilizado!

Há tanta hipocrisia neste mundo, neste país, na merda da blogoesfrega, tanta, tanta, tanta, que às vezes mete nojo respirar. Quando aqui falei de censura, afirmando que hoje em dia a censura não tem um rosto definido, único e englobante, tem vários rostos obscurecidos e dissimulados, ou dizendo que as cúpulas que se instalam nos lugares de influência, dentro das áreas a que pertencem, censuram, hoje em dia, ignorando, o que eu queria dizer era que num mundo onde Deus é o Dinheiro e a Economia a Religião as novas formas de censura incomodam muito pouca gente. O dinheiro cala quase tudo, quase. A história diz-nos que quando o poder é alvo de críticas ele tende sempre a responder negativamente: segregando, abafando, silenciando, ignorando. Finge-se que não se sabe, que não se ouviu, para não se ter o trabalho de responder. Assobia-se para o lado que der mais jeito. Mas a história agora é outra, o dinheirinho cala quase tudo. Cartoons matam pessoas? Não. E documentários não incomodam tanta gente. Ide aqui. Tudo não passará de um grande equívoco, na verdade o documentário era péssimo, quem cala está no seu direito, etc, etc, etc. Quem não se cala também: «Quero ver o documentário da Leonor Noivo. O tema, desde logo, é pertinente. A censura é inaceitável. Apelo que escrevam também à apordoc, exigindo a correcção desta decisão lamentável.» Ai Mozart, ai Mozart!!!

O ESPÍRITO SANTO NA REVERÊNCIA SOBRE O CORPO DO ÊXTASE

É este o Deus dos Deuses, aquele de que ouvi
em linguagem memorizada universidades murmurar?
Notas de dólar podem comprá-lo! a grande substância
troca-se livremente através de todo o dinheiro poético
do mundo, divisas passadas & futuras
emitidas e resgatadas pelo banco idêntico,
monopólio eléctrico após monopólio com olhos de mocho
em cada uma das 90 milhões de notas de dólar vibrando
para o topo da pirâmide nos Estados Unidos do Céu –
Ai ai Sr. Mocho oh diga pode ver no escuro
observe Minerva inerte em Nirvana porque
Zeus cavalga uma rena pelo céu azul de Belém.
E Buda senta-se no corpo de Maria acenando a
mão branca de Kuan Yin no Yang-Tze que Mão vê,
língua de Kali lambendo os lábios azuis e suaves de Krishna.
Chango agarra a pichota de Shiva, Ouroboros devora a bomba de cobalto,
Parvati nos joelhos perfumados de YOD grita Aum
& Santa Bárbara regozija-se nas alamedas de Brindaban
La Illaha El (lill) Allah Quem Allah Akbar!
Golias abatido por pedra de rim, Gólgotas envelhecem,
todas estas maravilhas estão apinhadas no Olho da Mente,
Superman & Batman lançam-se em frente, Zaratrusta no cu de Coiote,
Laotzu desparecendo ao portão, Deus escarnece Deus,
Job senta-se confuso porque Ramakrishna é Satan
e Bodhidharma esqueceu-se de trazer Nada.

Tradução de Manuel de Seabra.

Allen Ginsberg
Allen Ginsberg nasceu no dia 3 de Junho de 1926 e faleceu a 5 de Abril de 1997. Poeta americano, filho de judeus, fez parte da chamada Beat Generation. Sua mãe, a quem dedicou Kaddish and Other Poems (1961), fez parte do Partido Comunista, influenciando fortemente a formação política de Allen. Ainda no final da década de 1940 conheceu Jack Kerouac, William S. Burroughs, entre outros com quem foi dando consistência ao movimento Beat. Granjeou enorme reconhecimento após a publicação de Howl, em 1956. Figura controversa das letras americanas, homossexual declarado, consumidor de drogas, defensor da legalização da marijuana, convertido ao budismo tibetano, pacifista, Allen Ginsberg inspirou grandemente os hippies da década de 1960. Ganhou o National Book Award pelo livro The Fall of America (1973).

Uma imitação de Henrique Fialho

Da última vez que me fizeram um ainda a poesia tropeçava na sua metáfora mais grosseira, como se não tivesse pernas para andar e precisasse de muitas bengalas para se amparar. Ainda existia, imagine-se, a forma e o conteúdo, espartilhos que nos apertam as nalgas mas dão uma certa segurança. Foi há muito tempo? Não, agora mesmo. O poeta não deve ser necessariamente um homem social, daí o felatio, que é às escuras e sem a presença do papa que, aliás, não é bicho a quem goste de beijar o anel. Sem forma nem conteúdo, sem bengala, sem óculos, sem pernas, com penas - é assim que vejo a poesia livre de Gerónimo Riovaldo...
(entra foto de poeta)
Gerónimo Riovaldo nasceu em Moimenta da Beira (Moçambique) e colaborou muito nos Cadernos da Solidão, foi perseguido impiedosamente pelas editoras mais ricas mas resistiu, sendo publicado já no fim da vida graças aos bons ofícios de uma ministra da cultura que lhe achou graça às plumas. «Tem penas mas não é passarinho», disse ela. G. R. fez parte do movimento dadaísta beirão mas depressa rompeu. Faleceu em 1927, não sem antes ter passado pela China. Dizem que fumava e tinha o fetiche das beatas com bâton que depositava religiosamente em cinzeiros azuis.
Filipe Guerra »»»

24.10.06

A casa no tempo #12

Metáforas
Fragmento # 11 - Metáforas
Maria João

Bípede voluptor de lira
Castrado esposo de Polimnia
Sifilítico de lua em banho-Maria
Grão-duque refogado em livrarias
Marau enforcado em redondilhas
Bandido pelos gregos declinado
Albatroz de polainas de patilhas
Cigarra que passa fome de rabo

Poeta, identifique-se!

Bebi Waterman do Littré roí ossos
E já desprezo o gargalo da sintaxe
De tanto deslumbrar os preciosos
Do meu ventre com’ um eixo a frase nasce

Fiz contrato trimestral co’ os adjectivos
Que roçam o pêlo pla minha lanterna
E joguei no Casino os conjuntivos
A camisa a Claudel e os tais «modernos»

Enquanto Tzara s’ escarrancha no bidé
Na estalagem dádá a bosta é literária
O verso livre enfim a rima ‘stá de férias
Já se pode poetizar o proletário

Literatura obscena criada em escuridão
Onanismo que se limpa a papéis finos
Há bacanal no hemistíquio amigos
Que m’ importa Jean Genet o teu tesão

A poética liberta é uma treta
Poeta agarra nela dá-lh’ porrada
Põe-lhe ferros nos pés e a rima à vela
Terás a Musa vamp e bem arreada

Ventre esfaimado ouvido alerta
Larápio a mão que se desfralda
Pólen pr’ abelha em venda aberta
Caveira ainda de fresco calva
Verme às estrelas de fachina
Porcalhão que na quadra s’ alivia
Masturbado que o tutano s’ esvazia
Na fachada da esquina

Poeta… vá, circule!

Léo Ferré

Léo Ferré nasceu no dia 24 de Agosto de 1916, no Principado de Mónaco. Com nove anos, vai frequentar o Colégio Saint-Charles, escola francesa em território italiano. Com treze anos terá composto a sua primeira canção (Soleil Couchant) sobre poema de Verlaine. Após os estudos na Itália, partiu em 1935 para Paris, a fim de estudar Direito. De volta ao Mónaco, começou a compor poemas, cantou nos cabarés, descobriu Charles Trenet e encontrou-se com Edith Piaf, que o aconselhou a se apresentar em Paris. Depois de se manter durante um bom tempo afastado dos acontecimentos políticos, Léo Ferré passou a frequentar cada vez mais os meios libertários, antes de ingressar no Partido Comunista Francês. Gravou poetas como Baudelaire, Verlaine, Rimbaud, entre outros. Realizou inúmeros recitais, ficando conhecido como uma das figuras cimeiras do anarquismo francês. Em 1956, contra a vontade do ex-amigo Breton, publicou o livro de poemas Poète, vos Papiers. Morreu no dia 14 de Julho de 1993.

23.10.06

IVG # 6

Em excelente post, que também é um crudelíssimo poema em prosa sobre o estado a que o mundo actual e a velha Europa chegaram, a Carla Carvalho diz isto:

Portugal adormecido, provinciano e triste vai outra vez pronunciar-se sobre um problema que há muito teria deixado de o ser, se houvesse alguma civilidade ou se, por exemplo, os senhores deputados eleitos assumissem responsabilidades…

Por mim, não é preciso dizer mais.
#1 / #2 / #3 / #4 / #5

XUTOS

Xutos
O primeiro álbum dos Xutos & Pontapés, 78-82, data de 1982, tinha eu 8 anos. À época estava mais interessado em fazer explodir sapos com bombinhas caseiras, caçar passarinhos com uma fisga artesanal, matar cobras à pedrada num dos açudes do Rio Maior. Não foram precisos muitos anos para que os Xutos & Pontapés se tornassem numa das bandas mais ouvidas na Rua das Flores. Canções como Sémen, Mãe, Quando eu Morrer, entre outras, foram uma tremenda dor de cabeça para as pacatas famílias da cidade que um dia viu rugir o fantasma de um leão. As actividades recreativas foram sendo substituídas, as preocupações ecológicas consolidaram-se num sentimento de profunda admiração por tudo o que provinha da natureza, a vontade de fazer coisas consideradas pela maioria uma absoluta nulidade foi mais forte que os grilhões dessa vida social que qualquer adolescente saudável considera inútil. Em suma, cá estamos – mais agrilhoados que Prometeu, mas estamos. Toca & Foge é uma das minhas canções preferidas, desde logo porque termina com os três versos mais substanciais alguma vez escritos por uma banda de inspiração punk: «Puta de vida / Tu és um / toca e foge». É preciso dizer mais? É. Talvez o que é dito noutra das canções de 78-82, Falhas: «Não te deixes cair em tentações / melancólicas / Porque rebolar no lodo só serve / para te sujares». E depois disto, o que fica? Os Xutos aburguesaram-se. Ninguém lhes retira, porém, o mérito de terem contribuído para a formação mental de milhares de adolescentes entretanto, como eles, também aburguesados. À excepção de um ou outro, quase sempre previamente desaparecidos – ou do mapa ou da vida -, cá vamos indo atrás do balcão, multinacionalizados, em miseráveis palanques onde procuramos meter nos bolsos, ao fim do mês, o que nos garanta água, gás, electricidade e mais uma trindade de pequenos luxos que nos desenganem o por demais evidente: «Puta de vida / Tu és um / toca e foge». Sejamos sinceros: dormir-trabalho-casa não é mecanismo lá muito entusiasmante. Talvez se pudéssemos sair daqui para fora, talvez se pudéssemos aquietar a inquietação, talvez se pudéssemos sossegar o desassossego, talvez se pudéssemos reaprender o ofício de viver sem o ónus deste tédio gelado, tão gelado que nos congela as mãos, que nos senta a um canto, a olhar para o tecto, a contar mosquitos. O que nos resta? Olhem, lembrei-me agora, assim de súbito, de um poema do José Miguel Silva. É o décimo quinto de Vista Para um Pátio (Relógio D’ Água, 2003). O que nos resta?! Resta-nos, pelo menos, isto:

QUINZE

Nos campos de futebol da infância
não há jogadas estudadas.
Cada um garante aquilo que vai ser.

O Fisga jogava ao ataque, entrava
a matar, fuzilava o guarda-redes
sem má consciência, e depois festejava
sozinho. Tornou-se empresário de
import-export
com tráficos de fundo social europeu.

O Tino perdia-se em fintas
de belo efeito e nenhum seguimento.
Muitas vezes o erguemos do chão.
Dedica-se às artes ornamentais.
Três exposições só no ano passado.

A falta de jeito do Trocas
fazia-nos rir. Estava sempre a perder
a bola, conseguia acertar
nas janelas mais altas.
Meteu-se nas drogas, morreu afogado
num dia de Junho.

Já o Lipe, o solerte Lipe, ninguém tinha tanto
futuro: hábil em todos os campos, lia o jogo
como um general, conduzia a bola
como quem sabe para onde vai. Hoje em dia,
gestor de futuros na Bolsa de Londres.

O Croas era o mais instável.
Teve dias de ser levado em ombros
contra dias de morrer sozinho.
Uma só coisa nele era constante,
a incapacidade de fazer batota,
de simular a falta, de discutir a clareza
de uma derrota. Acidente de trabalho,
vive, ao que dizem, de meia pensão.

E havia o Tono Bom, que gostava
de bater. Corria atrás de nós
e sabia magoar. Recusava o arbítrio
dos regulamentos. Destinado a ficar
na bancada da vida, quem sabe onde pára.

Cá atrás, entre duas pedras,
a marcar os postes, eu fazia o possível
por suster a vaga, por manter inviolada
a confiança no sentido do jogo.
E agora, invento memórias, relato desaires.

22.10.06

IVG # 5

Luís Rainha, no Aspirina B, responde a João Pereira Coutinho, no Expresso:
«O tema é o aborto. Para variar, o menino declara-se incomodado com o ruído que os inferiores andam a fazer em seu redor, começando pelo primeiro-ministro. É que ele, JPC, até já decidiu que não estamos a falar de “mulheres presas (quantas foram?)” nem de “tragédias de vão de escada (quantas existem ao certo?)”. E eis como a ignorância confessa se vê promovida a opinião: ele não sabe quantas pessoas afecta o drama do aborto, logo parece-lhe lógico, como bom solipsista, menorizar a questão.
As perguntas que realmente interessam ao jovem iluminado são: “será que um embrião constitui vida? E, em caso afirmativo, será que o Estado tem uma palavra a dizer quando a cessação de vida pode ocorrer?”
O português empregue nestas “primevas” questões é deplorável e o seu significado nebuloso (que é isso do “constituir vida”? E quem é que alguma vez duvidou que um feto estivesse vivo?). Mas, mesmo assim, ele não tem dúvidas em responder “sim” a ambas. Lá saberá porquê.
O que eu nunca entendi muito bem nestas discussões é a razão de quase todos aceitarem a inexistência de actividade cerebral como definição aceitável de fim da vida humana mas parecerem incapazes de usar padrão simétrico para marcar o seu início. Se um embrião ainda não possui sistema nervoso central activo, estando o seu córtex desligado do tálamo, não é ainda um ser humano. Poderá sê-lo “em potência” ou “aos olhos de Deus”; mas é tão senciente quanto um feto anencefálico. E que médico levaria até ao fim uma gravidez dessas?
Acho óptimo que cada um preze a sua própria bússola moral e acalente a superstição de sua preferência; mas não tentem obrigar os outros a segui-las, por favor.»
#1 / #2 / #3 / #4

A SIBILA E OS MARICAS

*
Excelente post, este de Eduardo Pitta. Não perderei tempo com considerações dispensáveis. Pitta parte de uma afirmação da Sô Dona Agustina e segue por aí fora esclarecendo o fundamental. Deixo síntese:

«Ao longo da vida conheci homossexuais brilhantes a nível intelectual que não eram capazes de encarar o casamento. Uma coisa são os homossexuais, outra são os maricas [...] Os maricas querem todas essas prerrogativas, como o casamento. Os homossexuais não... Todos devem ter os mesmos direitos, mas para isso não é preciso falar de casamento.» É preciso corrigir a Sibila. A única prerrogativa importante dos maricas, e não abrem mão dela, é casar com uma mulher que lhes trate da casa e dê um filho como quem passa atestado de virilidade. Ficam livres (os maricas) para engatar travestis na Rodrigues Sampaio. Com os homossexuais a coisa fia mais fino, embora, por princípio, também os prefiram grossos. (…) Portugal tem, há cinco anos, uma Lei que regula as uniões de facto. Todas as uniões de facto. É a Lei n.º 7/2001, de 11 de Maio. Não é, como muita gente julga, uma Lei para as uniões de facto homossexuais. É a Lei geral, para heteros e homos. O que falta regular nessa Lei prejudica por igual a Maria que vive com o José, o António que vive com o Luís, e a Julieta que vive com a Fernanda. Não me quero repetir, nem vou fazer link para os posts em que repisei o tema, mas continua a fazer-me muita confusão a apatia generalizada dos heteros, estatisticamente em maioria, e “teoricamente” mais prejudicados pela probabilidade da existência de filhos. Do nosso lado, i.e., do lado dos homossexuais, a gente sabe o que são as agendas das associações de classe: a ILGA, a Opus Gay e as outras. Embicaram todas para o casamento, e não vale a pena explicar que seria mais sensato começar por regulamentar aquilo que é omisso na Lei n.º 7/2001, de 11 de Maio. Penso sobretudo na questão sucessória e no direito a pensão por morte de um dos cônjuges. (…) A democracia regulou as uniões de facto, sem acautelar o essencial, e o guterrismo meteu os homossexuais no mesmo saco, mantendo as lacunas. Portanto, até ver, a Lei n.º 7/2001, de 11 de Maio, tem utilidade para efeitos fiscais, assistência na doença, precedência na marcação de férias em pé de igualdade com os casados, contratos de arrendamento, empréstimos bancários e pouco mais. É claro que o instituto do casamento resolvia o que falta resolver. Mas para quê, se é possível obter o mesmo regulamentando a Lei que existe? O Partido Socialista já fez saber que nesta legislatura não dará um passo nesse sentido. É uma vergonha. E é uma vergonha ainda maior que se confunda um assunto destes com folclore gay.»
Adenda: Porque me escreveram para o e-mail pensando ser eu o autor do texto aqui reproduzido, resolvi reeditar o post para que fique bem claro serem de Eduardo Pitta as palavras aqui citadas.

21.10.06

A casa no tempo # 11

Mar
Fragmento #9 - Mar
Maria João

20.10.06

Foz do Arelho

Casa
As ruínas de uma casa são a elipse de um lugar. Um lugar outrora habitado pelas mãos que amanham a terra. Por elas, entretanto, foi passando o tempo, ficando apenas no seu espaço os fantasmas de quem passa e olha e pensa: outrora, aqui, houve um lugar.
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A terra desapareceu dos caminhos circunscritos, ladeia os percursos poluentes, as marchas lentas. Por vezes, os percursos param na berma e tiram fotografias. Outras vezes fecham os dias com os olhos sobre as lentes. Há frutos nunca provados no caminho, frutos à espera de serem comidos.
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Quando cais ao mar e não te afogas pensas nos barcos atracados, nas ondas permanentemente renovadas pelo vento. Depois levantas os olhos para cima do céu, não tens na esperança os lamentos de quem reza. Mas pensas: e se tudo fosse, como uma casa, a elipse de um lugar?
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Tocar por fim o chão lá do alto, o sol estendido sobre a água, ameaçado pela falésia e pelos muros das aves. Elas têm ninhos no meio da água, fazem filhos no interior das sombras. Houvesse coragem, meter-te-ias longe adentro. Mas ficas, não vá o mau tempo dar à Foz.

HINO

Ministro
*
soldado, soldado, vem me violar estou tão erma desvalida uma avó a rezar. por atenção furtar. sol forte tão maduro a gente a queimar. a perna o pé o outro emprego. da força mais do centro imaginar. não canto mais não fico assim perdida não vou contigo ao Guga Park ver girafas. nem quero jogar ténis aprofundar a existência ser princesa ou ter o ar de moça séria. Pensou muito, eu. E por isso fartou de começar. Por favor soldado, poderia me matar. Sou cínica para que você saiba se defender de mim. Mata com força, meu soldado. Mas não deixa o amor atrapalhar.

Rui Costa

ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA

a poesia está morta

mas juro que não fui eu

eu até que tentei fazer o melhor que podia para salvá-la

imitei diligentemente augusto dos anjos paulo torres carlos drummond de andrade manuel bandeira murilo mendes vladimir maiakóvski joão cabral de melo neto paul éluard oswald de andrade guillaume apolinaire sosígenes costa bertolt brecht augusto de campos

não adiantou nada

em desespero de causa cheguei a imitar um certo (ou incerto) josé paulo paes poeta de ribeirãozinho estrada de ferro araraquarense

porém ribeirãozinho mudou de nome a estrada de ferro araraquarense foi extinta e josé paulo paes parece nunca ter existido

nem eu

José Paulo Paes
José Paulo Paes nasceu em Taquaritinga, estado de São Paulo, em 1926. É poeta, tradutor, crítico e ensaísta. Com formação na área de Química, trabalhou durante anos num laboratório farmacêutico. Teve também uma longa experiência de editor, sobretudo na Cultrix. Aposentado, passou a dedicar-se aos projectos de tradução. Iniciou a sua actividade literária colaborando na revista Joaquim, dirigida por Dalton Trevisan. A estreia na poesia deu-se em 1947, com o livro O Aluno. A sua obra poética foi reunida, em 1986, sob o título Um por todos. Faleceu no dia 09.10.1998.

19.10.06

O ALVO

Não quero achar o que os outros perderam:
as moedas no chão, os guarda-chuvas
esquecidos nos ônibus, e a vida
deixada por engano sobre o asfalto.
Ao que ninguém viu, aspiro; ao que existiria
em forma de mar e árvore, se a natureza habitual não irrompesse
com suas sombras e cigarras e cascatas.
Quero, sonho e admiro o inédito
como a noite no caracol de uma escada
contudo perto das constelações se eu pudesse vê-las de outro planeta.

Não me comove o irretornável nem o tempo caído.
Em jogo descoberto, crio minha emoção
e à janela contemplo a noite formal
e eu mesmo sou ogiva aberta aos grandes astros.
O que se perdeu, vai-se embora, como os anéis
separados das mãos, como a ventania
se afasta das bandeiras no momento das bonanças.
Sono perdido; zonas de transição que serão eternamente minhas; luz oculta em covil
não me volto para achar-vos. E sempre adiante busco
minha paisagem impor-se nas paliçadas alheias.

Lêdo Ivo

Lêdo Ivo nasceu em Maceió, Alagoas, em 18 de Fevereiro de 1924. Em Recife, para onde se transferiu em 1940, continuou seus estudos e passou a colaborar na imprensa local. Em 1943 transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde se matriculou na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil e passou a colaborar em suplementos literários e a trabalhar na imprensa carioca, como jornalista profissional. Jornalista, poeta, romancista, contista, cronista e ensaísta, estreou-se na literatura em 1944, com o livro de poesias As imaginações. No início de 1953 foi morar em Paris. Visitou vários países da Europa e, em Agosto de 1954, retornou ao Brasil. Foi distinguido com o Prémio Mário de Andrade, conferido pela Academia Brasiliense de Letras ao conjunto de suas obras.

Bom dia.

18.10.06

O radical

Dizem-me que em algumas coisas sou demasiado radical. Bem, ou se é radical ou se não é. O demasiado radical não existe. Mas importa entender esta questão do radical. O que é ser radical? É não tolerar a diferença? Então não sou radical. É confrontarmo-nos com a divergência? Então sou radical. Tolerar não significa baixarmos as calças ao outro, mas antes procurarmos entender o que há nele que o torna diferente de nós. Normalmente, quando nos acusam de sermos radicais o que as pessoas querem dizer é que discordam de nós. Mas essa discordância é óptima, sobretudo se for radical, ou seja, se procurar ir à raiz, à essência da discordância. O que resta pode resumir-se a consensos mais ou menos convenientes, astuciosos e cínicos. É bom que sejamos radicais. É péssimo quando nos tornamos fanáticos.

O stôr pessimista

Um dos ensinamentos mais úteis da profissão docente é o de que as pessoas não gostam de ouvir a verdade. Por exemplo: se formos directores de uma turma e não quisermos chatices, em conversa com os encarregados de educação devemos sempre dizer que o aluno se comporta razoavelmente bem, não inspira cuidados de maior, tem excelentes capacidades, ainda que as desaproveite. Dito deste modo, nenhum encarregado de educação levantará qualquer problema. Mas se dissermos que o aluno não tem comportamentos correctos, ele logo perguntará o que fazemos contra isso; se, por acaso, revelarmos que é um aluno com lacunas pedagógicas, logo teremos que ter em conta os péssimos professores do passado; se acusarmos parcas capacidades no aluno, seremos rapidamente confrontados com a necessidade de valorizar o esforço e o empenho, mesmo que este seja pouco mais que nenhum. É natural que as pessoas só se preocupem quando as confrontamos com o que está mal, mas não é natural que se alheiem quando lhes dizem que tudo está bem. Porque quando tudo está bem é óbvio que alguma coisa está mal.

Os três efes

O povo português, como qualquer outro povo, é uma sentença misteriosa. No nosso caso específico essa sentença parece resultar da pedagogia dos três efes do Estado Novo: Fado, Futebol, Fátima. De facto, os portugueses vivem de cantar lamentos, insultar quem arbitra e esperar por milagres.

Nomes estranhos

Acontece-me por vezes ler algo que julgo já ter escrito. O curioso é que quase sempre os nomes que assinam essas reminiscências são-me completa e radicalmente estranhos. Não se trata tanto de um problema de plágio como, em certa medida, parece tratar-se de espiritualismo de pacotilha.

O Rivoli

Já fui muito feliz no Rivoli. Até já ia morrendo no Rivoli, onde o coração me bateu à velocidade da luz e os músculos do pescoço me ficaram hirtos e firmes que nem uma barra de ferro. Sugerem-me agora que vá para a porta do Rivoli. Não vou, tenho muito que fazer. Mas daqui das lindas Caldas, caros revolucionários da cultura, vos envio um abraço. Daqui, deste Rivoli generalizado que é a terra onde cabeceio o sono, a terra de onde vejo um mar que me acomoda ao conforto dos dias absurdos, daqui vos envio um abraço. Entristece-me a pasmaceira dos abraços quando é tudo o que podemos dar, mas daqui, daqui onde o tédio é um sorriso nas mãos de uma criança, um abraço é mesmo tudo o que vos posso enviar. O poema é feio, é certo, mas não deixa de ser um poema, um poema bem melhor que o poema, esse vosso gesto. Não vos esqueceis, porém, que já só 300 lêem poesia. Ou coisa assim.

A NOITE

Mulheres como feridas.
Picadas nos olhos pela luz.
Olhadas negras a noite em pleno poder.
Com pálpebras pequenas de dar dor. E as lanternas
escuras a chorar a morte dos pais, o seu país.
Daniel, quantas mães tiveste?
Quantas vezes a pila transformada em escada
para o alto?
E a morte, que diz, e o padre Lino que traduziu
“A Nuvem do Não Saber”?
E a virgem_ diz-me que lhe fodes a cabeça com essa angústia
toda metida nos versos/nos trapos/ nas oferendas?
(Tenho pena de ti, sabes, porque te achei grande
de mais para seres tão pequeno.)

Eu gosto delas mas o seu peso
pesa-me.
Elas dão tudo, adormecem com todos os
segredos no interior da minha boca.
Algumas são antigas e sofrem e é
destas que falo. Não gosto de sofrer, de
Beckett, gosto de vinho, de música,
de violência até! Mas falava de trevo,
ao redor delas tu andavas. Tu batias.
Eras uma puta fina, uma violação doce.
Custa-me este ácido de ser uma cicatriz
que lambo a todo o tempo.

Eu nunca lhes pago um sumo.
O meu amor é um bicho de passear ao
perto, a fúria a puxar-me da janela.
Sou duro, sou uma redoma de luz.
Quem quiser passa, entra, senta-se comigo.
Mas tem que passar,
e nunca ajudo ninguém. E eles
chegam, alguns desistem, desses não me queixo.
Vejo o limite mais branco da alegria. Quando
as visões são insuportáveis e tu começas a ter
pensamentos que redimem.
As ostras fazem o mesmo,
qual a novidade?

Tenho fome, tenho sempre fome.
Vou sair de casa como quem busca comida.
Há lâmpadas nos foguetes nas varandas
Vou olhá-las com olhos de aumentar os cães
recomeçar.

Rui Costa

O popular

Para o popular as manifestações do povo nunca são defeito, são feitio. Daí que o popular, apesar de gostar muito do povo e de todas as suas manifestações, julgue fundamental uma certa repressão. Para o popular o povo é como o cavalo selvagem, só é verdadeiramente cavalo depois de ser domesticado.

Comparações

Sempre que me fazes um broche não sei se deva olhar ou se deva fechar os olhos. É como ser recebido pelo papa e não saber se lhe beije a mão.

17.10.06

Deliciosas coincidências

Leia-se este post de António Figueira, no Cinco Dias, e depois regresse-se a este meu post sobre touradas e aos seus 31 comentários actuais. Percebem onde quero chegar ou preciso mostrar o caminho?

Ferido de morte

Há quem diga «ferido de morte» como se fosse coisa má. Não faz sentido. Feridos de morte estamos todos. Dizer que algo está «ferido de morte» é dizer que está vivo. Estar vivo é bom. Estar ferido de morte é coisa boa.

Ócio

O ócio por vezes provoca bócio. Outras vezes é uma ode ao cio. Pode ainda ser uma forma de dizer odeio. O meu ócio preferido é o que vive ferido de cansaço.

16.10.06

OLHAR AS ESTRELAS

Há dois modos de olhar as estrelas: ou vemos nelas um fantasma do tempo desaparecido ou, em sentido inverso, olhamo-las como se fossem um sol em gestação. As pessoas podem distinguir-se entre estes dois tipos de ver: as que olham para as coisas arrancando-lhes sempre o fim, mesmo que por antecipação, e as que não vislumbram em qualquer coisa senão o princípio de algo que ainda está por vir. De um modo simplista dir-se-á serem as primeiras pessimistas e as segundas optimistas. Não creio que possamos ser assim tão literais. Sinto-me bem nos lugares de confusão, nos crepúsculos, nas auroras, no lusco-fusco, na declinação dos absolutos. Talvez por defeito de formação, cedo me habituei a ver nas coisas o lado do possível. Não gosto de certezas absolutas, obras acabadas, verdades inquestionáveis. Sinto-me desconfortável no meio das verdades absolutas. Alguns dos livros que amo, da Bíblia ao Livro do Desassossego, alguns dos pintores que admiro profundamente, de Da Vinci a Turner, algumas das coisas que me mantêm vivo, encarnam muito bem os lugares da ambiguidade e do inacabado. O limão possui essa ambiguidade, é sempre um fruto inacabado.

EXPLICAÇÃO DO POEMA ANTERIOR

Os touros, dizias, também se
aprendem. É como o jazz, dizias,
de que tu tanto gostas. Os recém-nascidos
choram mais__ põe antes pimba verás
o alegramento dos catraios. Ouve cá:
e é o sangue que te ensina. E quanto
pode levar, quanto lavar, - o sangue (a)o
coração? Ora, outra história antiga. Pois.
Amor, ódio, ah coisas assim.

Agora a sério: a frequência não
interessa. Metáfora comigo já sabes:
só as feitas carne, com dor, tesão e
tudo. Vai um gajo pela rua e vê:
um touro, um homem, um poste da
electricidade. Depois pensa: porra,
deixam os touros andar por aqui a
esta hora. Mas não. Era o homem que
pensava isto, calhou-me esbarrar no
seu pensamento.

Se sou mais possante que…
Claro que sim, maçada, por quem me tomas?
Não basta o ar sério brincador esta discreta
fidalguia eléctrica toda margem da cabeça
aos pés ? Está visto, não.
Agora confessa:
Achas mesmo que sou mais belo que um
touro? Não me perguntas, presumo que
sim. Eu cá tenho as minhas dúvidas (Ainda
se fosse o poste). Ser ou não possante, meu
amigo, depende do tamanho do desafio por que
se é capaz de morrer (não temos tempo,
certo?) __ Deixar o touro ruminar os seus
poemas; eu tenho a vela do dragão e as
asas de uma joaninha (digo joaninha porque
me fazem lembrar os bikinis das raparigas,
e já me faltam por cá, embora a minha luta
não seja para ser vista por ninguém).

Descer mais só se fosse broca.
Ou morto, coisa que não sou.
A morte, já se sabe, é para os fracos.


Rui Costa

15.10.06

A FATALIDADE

A fatalidade,
Várias vezes
No meu caminho aparece;
Mas,
Não consegue perturbar
A minha serenidade.

Sòmente,
No meu olhar,
Poisa e fica mais tristeza.

Não me revolto,
Nem desespero.

- Quero morrer em beleza.

António Botto
António Botto nasceu em Concavada, Abrantes, em 1897. Cedo se estabeleceu no bairro de Alfama, em Lisboa. Estreou-se, no mundo da literatura, com as colectâneas poéticas Trovas (1917), Cantigas de Saudade (1918) e Cantares (1919), celebrizando-se com a publicação de Canções (1921). A segunda edição desta obra, publicada em 1922 pela fugaz editora de Fernando Pessoa, Olisipo, foi apreendida, tornando-o num poeta maldito. A sua obra poética, talvez o mais brilhante conjunto de poesia homoerótica da língua portuguesa, é muito vasta. Para além da poesia, Botto dedicou-se também à ficção, género que dominava com bastante à vontade e do qual se destacam as obras António (1933), Isto Sucedeu Assim (1940), Os Contos de António Botto (histórias para crianças, de 1942) e Ele Que Diga se Eu Minto (1945). Em 1947 partiu para o Brasil, morrendo atropelado no Rio de Janeiro em 1959. »

14.10.06


OS FRACOS


Sempre que encontro
uma pessoa a espicaçar
um touro, digo-lhe assim:
“Que reles criatura
és. Porque não te metes
antes comigo, que sou muito
mais alto, muito mais belo,
muito mais possante?”



Rui Costa

Elogio das touradas

Algumas pessoas que leio com agrado têm escrito sobre touradas, quase sempre em tom depreciativo. A maioria dos meus leitores também não me parece que sejam aficionados, à excepção de um ou outro que gosta, claramente, de pegar os touros pelos cornos. Por uma questão de honestidade, vejo-me assim obrigado a declarar a minha simpatia pela festa brava. Nascido ribatejano, cedo me familiarizei com as garraiadas, as touradas, as picarias. Nunca senti necessidade de me afirmar macho no confronto com os touros, pelo que o meu apreço é mais de cariz estético que idiossincrático. Gosto de ver uma boa pega e encontro beleza, uma beleza de tipo teatral, nas acções dos forcados e dos bandarilheiros. Os cavaleiros são, talvez, os agentes que menos admiro no espectáculo tauromáquico, embora me deslumbre sempre aquela sintonia com os cavalos que os coloca a bailar frente a uma parelha de cornos. Geralmente as pessoas que são contra as touradas, são-no por considerarem o espectáculo repugnante. Basta irmos ao sítio da Liga Portuguesa dos Direitos do Animal para nos apercebermos, com clarividência, do que está em causa na argumentação antitauromáquica: «Cultura é tudo aquilo que contribui para tornar a humanidade mais sensível, mais inteligente e civilizada. - conceito, quanto a mim, demasiado restrito de cultura. Mas adiante. - A violência, o sangue, a crueldade, tudo o que humilha e desrespeita a vida jamais poderá ser considerado "arte" ou "cultura". A violência é a negação da inteligência.» Temo que a levarmos à letra estas palavras teríamos de proibir metade dos desportos praticados por humanos: do boxe ao full-contact, do judo ao karate, passando, por que não, pelo próprio futebol. A questão passa, então, para o plano dos direitos dos animais. Diz-se, em absurdo, que ninguém pergunta aos touros se querem fazer parte do espectáculo? É verdade que sim, tal como ninguém questiona os animais do circo, das telenovelas, dos filmes, dos matadouros, se desejam fazer parte do espectáculo. Não sei se já pensaram nisto: quando comem um frango assado, perguntaram ao frango se ele desejava ser decapitado, depenado, assado, comido? Quem fala de um frango fala de um porco, de uma vaca, de um coelho, de um peixe… Diz-se ainda, no supracitado sítio, que «uma minoria quer manter as touradas e as praças de touros, bárbara e sangrenta reminiscência das arenas da decadência do Império Romano». Trata-se de um argumento muito semelhante ao da "já célebre Lei de Godwin", por vezes evocada na discussão sobre o aborto: «numa qualquer discussão (originalmente na internet, mas pode aplicar-se a outros suportes), a probabilidade de os nazis ou Hitler serem citados em comparação com o adversário aproxima-se de um. Mais tarde ou mais cedo, corre o risco de ocorrer. Corolário: o autor da comparação a Hitler perde a discussão. Leo Strauss ridicularizava este tipo de retórica chamando-lhe a reductio ad hitlerum Nas arenas do Império Romano matavam-se pessoas. O cinema celebrizou algumas cenas em que eram os touros, investindo contra cristãos atados a barrotes, quem cumpria o papel do carrasco. Várias pessoas de cultura, de Hemingway a Picasso, admiraram, elogiaram, exaltaram a Fiesta! Não percebo a insistência na ideia de que a tourada não é cultura. Sendo assim, resta-me desejar-lhe, caro leitor, que da próxima vez que comer um bife de vaca, não se esqueça que o bife já fez muuuuu…

XÁCARA DAS MULHERES AMADAS

Quem muitas mulheres tiver,
em vez duma amada esposa,
mais se afirma e se repousa
pera amar sua mulher;
quem isto não entender…
em cousas d’amor não ousa,
em cousas d’amor não quer!

Quantas mais, mais se descansa,
mais a gente serve a todas;
quantas mais forem as bodas,
quantos mais os pares da dança,
menos a dança nos cansa
o gosto d’andar nas rodas.

Que quantas mais, mais detido
a cada uma per si;
nem cansa tanto o que vi,
nem fica o gosto partido;
ao contrário, é acrescido
a cada uma per si!

No paladar de mudar
mais se sente o gosto agudo:
que amar nada ou amar tudo
é estar pronto a muito amar;
o enjoo vem de não estar
a par do nada e do tudo.

Mais fàcilmente se chega
pera muitas que pera uma;
e a razão é porque, em suma,
se esta razão me não cega,
quem quer que muitas adrega
é como tendo… nenhuma!

Com muitas, descanso vem,
faz o desejo acrescido:
que é o mais apetecido
aquilo que se não tem;
e o apetite é o bem;
e em saciá-lo é perdido.

Também a mulher que tem
seu marido repartido
é mais gostosa do bem
que advém de seu marido!

Tão gostosa e recolhida,
tão pronta e tão conformada,
quanto o gosto é não ter nada;
porque o gosto é ser servida
e não o estar contentada.
O gosto é cousa corrente,
e quem o tem já não sente
o gosto dessa
corrida,
que tê-lo, é cousa… jazente…
que tê-lo, é cousa… perdida!

Ora, pois, nesta jornada
não vi nada mais de amar
que ter muito por chegar
e cousa alguma chegada;
não vi nada mais de ter…
que ter muito que perder…
e cousa alguma ganhada!

Mário Saa

Mário Saa
nasceu nas Caldas da Rainha em 18 de Junho de 1894. Colega de Almada Negreiros no Colégio de Campolide, frequentou vários cursos, em Lisboa e em Coimbra, não tendo completado qualquer um. Dedicou-se à filosofia, à genealogia, à geografia antiga, à poesia, à problemática camoniana, às investigações arqueológicas, e mesmo à astrologia e à grafologia. A ele se deve a fixação da data de nascimento de Camões: 23 de Janeiro de 1524. Com uma vasta obra em prosa, foi publicando a sua poesia em revistas e outras publicações. Publicou com assiduidade na revista Presença e privou com os grandes poetas e intelectuais da época no âmbito da boémia literária da Brasileira do Chiado. Faleceu no Ervedal (Avis) em 23-1-1971. »

Grupo fundador da revista «Seara Nova» (1921)

Seara Nova
Da esquerda para a direita, de pé: pároco do Coimbrão (não pertencente ao grupo), Teixeira de Vasconcelos, Raul Proença e Câmara Reis; sentados: Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro e Raul Brandão. »

13.10.06

IVG # 4


se o aborto fosse mais flexível joão césar das neves e joão braga poderiam não ter nascido.
#1 / #2 / #3

Sangue, suor e risos

Para que fique bem claro, adoro quando os portugueses saem à rua. Só duas vezes participei em manifestações, mas acho-as quase todas magníficas. A de ontem, grandiosa, reuniu trabalhadores dos sectores privado e público. Motivos: redução das pensões, congelamento das progressões, aumentos abaixo da inflação, redução de vencimentos e dispensa de funcionários, etc. Ou seja, o Governo foi ao bolso dos portugueses e os portugueses, muito legitimamente, saíram para a rua enfurecidos. Excelente! Gosto de gente enfurecida. Só tenho pena que a fúria nunca venha para a rua contra os sucessivos “elefantes brancos” do Estado. Não falemos do passado. Basta ir aqui e confirmar a quantidade de deputados completamente inúteis que todos nós sustentamos. É para isto que poupamos? Basta ir aqui e confirmar a quantidade de ministros, secretários e sub-secretários de Estado completamente inúteis que todos nós sustentamos. É para isto que apertamos o cinto? Basta ir aqui e confirmar a quantidade de embaixadas completamente inúteis que todos nós sustentamos. É para isto a contenção? Basta ir aqui e confirmar a quantidade de operações, exercícios, contingentes e o catano completamente inúteis que todos nós sustentamos. É para isto o nosso esforço?

O meu primeiro Livro Vermelho


Manifestação
Passantes e avarandados entreolham-se.

O olhar trocou-se.
Não se trocou o cheiro.

Alexandre O’ Neill, in A saca de orelhas, Livraria Sá da Costa Editora, 1979, Lisboa, Portugal.
P.S.: Ao cuidado da sô dona Carla de Elsinore.

A comunicação social (portuguesa)

Anteontem um avião colidiu com um arranha-céus. No dia seguinte, ontem, uma avioneta colidiu com um prédio. É preciso dizer mais?

Sentidos ocultos

«O "respeitinho" democrático, num certo sentido, é bem pior do que o "a bem da nação" de Salazar.» – diz João Gonçalves. Num certo sentido, poder afirmá-lo é incomensuravelmente melhor do que não poder. O meu paizinho, que andou pelas Áfricas enganado, ensinou-me muito cedo que o maior vício da democracia é a nostalgia do poder. Essa nostalgia do poder, num certo sentido, manifesta-se de múltiplas maneiras. Por exemplo, na saudade de um certo heroísmo excêntrico. O problema de quem hoje faz opinião, seja pelos circuitos vulgares, seja por outros menos insuspeitos, é o malogro. Realmente, não deixa de meter uma certa pena que no meio de tanto escarcéu opinativo o mundo siga de costas voltado para o herói de boca. Já ninguém quer saber de nada que não seja o pilim ao fim do mês para pagar contas e curtir feriados. Em Setembro anseia-se por Agosto, em Agosto retarda-se o Setembro. A Primavera é já só uma das quatro estações, mesmo que os nostálgicos do poder da palavra teimem em não percebê-lo. E tudo seria tão fácil se seguíssemos o hino: às armas, às armas, contra o respeitinho marchar, marchar. Mas não, dedicamo-nos a posts e pouco mais. Nós somos a confirmação do “respeitinho” democrático, para aqui a opinar sobre tudo e sobre nada como se isso valesse… “a bem da nação”.

VESPERAL

Desoladora, vã certeza minha
efémera presença que termina
o rosto e a vida em imperfeita linha
fronteira absurda que me não confina.
Pela luta de corpo em que me iludo
um perene sentido eu anuncio.
Mas na manta carnal onde me escudo
tacteio as dobras dum só frustre cio.
Aos mil olhos febris do céu velado
ergo o meu gesto de razão e regra.
Cresce a fria canção, espanto fechado
na mágoa em riste que o meu sangue empedra.
Um súbito destino se organiza
da voz que sou e, do finito vulto,
secreta, anula, transfigura e fria
o nada ser do meu anseio oculto.
Aglutinado sou. Lá fora a noite.
Mas nada vai nascer ou vai morrer
em rumos para além, onde me afoite,
da pausa tensa a que me obriga ser.
E só na raiva lisa de existir
eu me prolongue, necessário modo,
despedido de mim, a descobrir
o caminho de mim para o meu todo.
O meu destino pleno que me exuma
atento forjarei como um desforço
da vida aprisionada, pra que assuma,
conscrito ao humano todo, dele escorço,
a minha impessoal identidade.
Serei a minha ausência e o seu indulto,
reinventando a minha liberdade
como um sarcasmo, um passatempo e um culto.


Helder Macedo

Helder Macedo nasceu em Krugersdorp (África do Sul), em 1935, tendo passado a infância em Moçambique. Veio viver para Portugal em 1948, frequentando a Faculdade de Direito de Lisboa. Radicou-se em Londres no início da década de 1960, já depois de ter publicado a sua primeira colectânea de poemas: Vesperal (1957). Em Londres obteve as licenciaturas em Estudos Portugueses e Brasileiros e em História (1971), doutorando-se em Letras (1974) pelo King's College. Estreou-se na ficção com Partes de África (1991), mas foi Pedro e Paula (1998) que lhe garantiu a consagração como ficcionista, estatuto de que usufruía já como ensaísta e poeta. Colaborou com vários órgãos da imprensa escrita e co-organizou, com António Salvado, as Folhas de Poesia. »

Urgência

Recebido por e-mail: «Imaginem um lugar onde se pode ler gratuitamente, as obras de Machado de Assis, ou A Divina Comédia, ou ter acesso a contos infantis de todos os tempos. Um lugar que lhe mostrasse as grandes pinturas de Leonardo Da Vinci, onde se pode escutar músicas em MP3 de alta qualidade. Esse lugar existe!!!! O ministério da educação disponibiliza tudo isso, basta aceder ao site: www.dominiopublico.gov.br . Só de literatura portuguesa são 732 obras! Estamos em via de perder tudo isso, pois vão desactivar o projecto por faltade uso, já que o volume de acesso é muito reduzido. Vamos tentar impedir esta desgraça, divulgando e incentivando amigos, parentes e conhecidos, a utilizarem esta fantástica ferramenta de disseminação da cultura e do gosto pela leitura.»