30.6.07

CECÍLIA MEIRELES, ESSA GRANDE JURISTA

Há dias pedi a alguns alunos que me indicassem um pintor da sua preferência. A primeira a responder referiu um tal Leonardo D’Avintes. Depois houve uma aluna que citou, algo hesitante, “o” Picasso. Houve ainda menções honrosas para Van Gogh e Miguel Ângelo. Não houve outras respostas, apesar da turma ser composta por cerca de 15 elementos, à excepção do único rapaz que, lá do fundo da rua, perguntou: «O Hamlet não era pintor?» Ao Francisco, moço humilde de cultura curta, a gente perdoa estes dislates. Mas o que dizer quando a poetisa Cecília Meireles acaba convertida a jurista em pleno Diário da República? Explico-me. Irmã minha, juíza de profissão, publicou numa revista de Direito do Trabalho, mais propriamente no Prontuário de Direito do Trabalho, um artigo que vinha precedido de uma epígrafe de Cecília Meireles. Qual não foi o seu espanto quando, ao folhear certa edição do Diário da República, constatou que o relator de um acórdão do Tribunal Constitucional citava o artigo de que havia sido autora, atribuindo-o a essa grande jurista que foi, sem o saber, Cecília Meireles. Posteriormente, feita a denúncia da gaffe, houve acórdão rectificativo atribuindo o seu a seu dono. Cecília Meireles voltou a ser poeta, a minha irmã autora de artigos sobre acidentes de trabalho. Já há poetas a mais na família.

29.6.07

MAIS PRUDENTE

Sugerem-me que seja «mais prudente», por causa dos ricochetes. Não sei se o meu «blog é muito lido». Se for, só espero que o leiam imprudentemente.

28.6.07

HEY JOE

O homem do momento é José Berardo. Toda a gente tem algo para dizer ou escrever sobre José Berardo. Tiago Barbosa Ribeiro é implacável no perfil traçado daquele a quem chama palhaço alegre: «A excentricidade daquele homem tem um nome: parolice. O título de comendador, por exemplo, é todo um programa utilizado no velho Portugal para um vislumbre de ascensão social que possa ser usado nos cheques à falta de qualquer outro título. Chamar-lhe «mecenas», pelos deuses, chega a ser chocante. Este homem tem uma sede de protagonismo inversamente proporcional à sua educação e não é, nem nunca será, um apoiante da arte. José Berardo ('Joe' a que propósito?) ganhou os seus preciosos euros deitando-se com o brutal círculo de poder que impunha a segregação racial na África do Sul -- país de onde foi depois expulso por pilhar recursos naturais para a sua casa na Madeira -- e não é expectável que os indígenas possam a aceder à profilaxia de alguém que começou a coleccionar arte como quem acumula caricas.»

NA CORRENTE

Quando jogava à bola tinha a alcunha de Oceano, o trinco do Sporting quando os trincos ainda não eram médios defensivos. A alcunha não provinha de similaridades na tez, nem, julgo eu, no físico, tendo antes que ver com um facto muito simples de explicar: tal como era apanágio de Oceano, quando me punham a bola nos pés eu ficava sem saber o que fazer com ela. Rijo e empenhando no jogo, certo é que, passando a bola, por mim não passaria o jogador. Mas jeito para o drible, visão de jogo, era coisa que, definitivamente, eu não possuía. Comigo o jogo era sempre directo. Vem isto a propósito de hoje me ter sido passada uma bola que me deixou em oceânica situação. Isto é, tenho-a nos pés mas não sei o que fazer com ela. O azia diz que é para escolher «as minhas últimas cinco leituras», supondo eu que se refira a livros e não a, por exemplo, weblogs. Sendo assim, são os últimos cinco livros passados a limpo, deixados a meio ou em actual estado de prova? Como não sei, simplificarei a jogada repartindo-me pelo de tudo um pouco. Os dois últimos livros lidos da primeira à última página foram As Moradas Inúteis, de José Carlos Barros, e Vigaristas, Ladrões e Assassinos, de Raymond Hesse. O último que deixei a meio, não por desinteresse mas por falta de tempo, foi Modernização Reflexiva – Política, Tradição e Estética no Mundo Moderno, com textos de Ulrich Beck, Anthony Giddens e Scott Lash. E por fim, neste momento, tenho em mãos, quase a terminar, O Que Foi Passado a Limpo, de Armando Silva Carvalho, e a tradução que Victor Oliveira Mateus realizou do Cândido, de Voltaire. Há ainda um conjunto de livros, quase todos adquiridos em feiras de velharias ou alfarrabistas, que vou lendo a espaços, consoante o tempo que sobra. Destes, quero destacar um livro de crónicas, O Revólver do Repórter, de Eduardo Guerra Carneiro.
P.S.: Esqueci-me de um. Ando a meio de Linguagens da arte: uma abordagem a uma teoria dos símbolos, de Nelson Goodman.

PIOR É IMPOSSÍVEL

Diz que as calinadas acabaram com a campanha de Negrão. Temo que, até ir a votos, seja Negrão a acabar com as calinadas.

OS MISTERES DO CU

Cheguei, pelo Arrastão, a um interessante bate-boca sobre sexo anal. Num weblog intitulado O Insurgente, a minha querida amiga Patrícia Lança, com a coragem que raramente lhe é reconhecida, coloca o dedo na... ferida ao chamar a nossa atenção para os perigos da sodomia e, sobretudo, para a hipocrisia dos nossos governantes que, armando-se em guardiões (sic) da saúde pública, não «falam absolutamente nada do facto que o jovem homossexual de 20 anos de idade tem só 50 por cento de possibilidades de chegar além dos quarenta anos. Não só por causa da HIV, mas por sujeitar-se a várias outras doenças causadas pelo abuso de um órgão não desenvolvido para uso sexual. Os apologistas da homossexualidade têm o hábito de citar as práticas da Roma, da Grécia e de algumas civilizações orientais. Nós progredimos um pouco desde a antiguidade. Sabemos muito mais sobre o corpo humano. Sabemos muito bem que o sistema digestivo, ingestão e excreção, não deve ser confundido com o sistema generativo». Devo dizer que, tal como à minha querida amiga Patrícia Lança, também a mim enoja a prática da sodomia, não conciliável com pessoas de sensibilidade moral como nós. Mas devo confessar que a primeira vez que me masturbei meti o dedo no cu. Depois cheirei, ficando-me para sempre associado o cheiro do orgasmo ao cheiro do cocó. Hoje em dia, sempre que copulo, uso ambientador Brise. A minha mulher não percebe, até já me perguntou se eu acho que ela cheira mal. Eu respondo-lhe sempre que não, mas confesso-vos que me custa quando ela me agarra pela cabeça, a enfia entre as pernas dela, puxa-me a língua para fora e obriga-me a lamber-lhe o pipi. Sinto-me visceralmente violado no meu asseio moral e físico. Afinal, a língua de um homem não foi feita para lamber pipis. Um homem deve usar a língua para degustar moelas ou, vá lá, para colar selos. Pior que tudo isto foi quando a minha mulher quis praticar o sexo anal. O sexo anal, como já disse, repugna-me. Acho-o nojento. Dá-me vómitos só de pensar na possibilidade de ao meu pénis virem agarrados fios de excremento misturados com sangue. Eu sei o que isso custa, pois sofro de prisão de ventre. Tem dias que quase desmaio de tanta força fazer para pôr cá para fora três berlindes de excremento. Uma vez até parti um maxilar. Como sei o que o meu cu sofre, não quero fazer sofrer o cu da minha mulher. Ensinava o filósofo Kant: a gente não deve querer para os outros o que não quer para a gente. Foi este o argumento que usei para tirar da cabeça da minha mulher aquela ideia do sexo anal. Nem sei como há pessoas que gostam de coisas destas, para não falar de outras, e caem na teia dos chamados prazeres do corpo. Ele há tantos e tão bons prazeres nos lugares da alma. Além de ser nojento, toda a gente sabe que é igualmente muito perigoso, toda a gente sabe que o sexo anal arrasta consigo um manancial de moléstias horríveis. A pior de todas é o relaxamento do esfíncter, tornando a pessoa incontinente no que aos gases diz respeito. É verdade que, como li recentemente numa revista sobre energias alternativas, isso tem o seu lado positivo. Poupa-se muita energia. No Japão inventaram um sistema de conversão dos gases em energia. Os puns, acumulados para dentro de uma saqueta directamente ligada ao cu, são reciclados num pequeno aparelho que os condensa, posteriormente, na forma de pilhas. Também é possível usar essas saquetas como arma de autodefesa, tipo gás mostarda. Dizem que é muito comum entre os homossexuais vítimas de discriminação. Resta-me apenas felicitar a coragem da minha querida amiga Patrícia Lança em trazer para a praça pública, sem quaisquer pruridos morais, o seu bom gosto, sempre tão aliado do bom senso, no que à prática sexual respeita. Se não me levar a mal a brincadeira, até estava capaz de lhe dar uma palmadinha, ou uma trincadinha sem malícia, na nádega. Ou, como dizem nos filmes, no seu big fat ass.

27.6.07

SOCIALISMO DE ESGOTO

Rui Bebiano escreve, e muito bem, sobre o socialismo de esgoto do culto engenheiro Sócrates. O post, bom de ser lido na íntegra, até porque não se perde em considerações desnecessárias, termina assim: «Toda esta conversa de defensores da destruição selvagem do welfare state é patrocinada por um governo que nas últimas eleições ainda se declarou «socialista». Tudo isto com o silêncio dos defensores dessa sacrossanta «modernização» (tendência «Joe», presumo) que vale por si mesma, esmagando as pessoas que deveria servir. Será que esta gente quer mesmo recuperar a luta de classes dos confins da nossa história recente?» O sublinhado a large é meu, por julgar que muita gente tem andado esquecida sobre o para que serve da política. País de serviçais bem comportados, cá vamos andando, com a cabeça entre as orelhas, as orelhas entre as palmas das mãos, de recibo verde a tiracolo e muita vontade de dar mais lucro ao banco que nos há-de emprestar as próximas férias.

ESPELHOS

Porque espelhos é o tema da próxima Minguante, pus-me a escutar o que a palavra me diz quando a pronuncio. Reflexo é a sensação mais instantânea que a palavra espelho me provoca, mas, logo a seguir, lembro-me de Narciso. A Narciso associamos a vaidade, o autodeslumbramento, o amor-próprio. Mas também podemos associar a Narciso a ingenuidade de quem, demasiado voltado sobre si próprio, perde o mundo de vista. Os espelhos podem ser o mundo a perder-se de vista. Como em Pieza para espejo I (1969), de Joan Jonas, o espelho prolonga determinada imagem, impedindo-nos o acesso ao que, na realidade, é o prolongamento daquilo que vemos. Não gosto de espelhos por isso mesmo. Os espelhos dão-nos o eco em retorno, são uma espécie de boomerang dos olhos, são uma parede que se intromete entre nós e o mundo. As pessoas não se encontram nos espelhos senão quando se espelham umas nas outras, conquanto este espelhar-me no outro seja a possibilidade de me ver reflectido na alteridade. Por vezes dizemos que gostamos de ler para sentirmos que não estamos sós, ou seja, para nos vermos espelhados, reflectidos, naquilo que lemos. Mas eu não me sinto menos só vendo-me multiplicado no mundo. Antes pelo contrário, sinto-me menos só sabendo que à minha volta existe uma imensidão de coisas e de seres bem diferentes de mim mesmo. O que nos torna a vida menos solitária não é o deserto nem o isolamento que os processos de identificação política, social, estética, cultural, religiosa, propiciam e promovem. É antes a adversidade do diferente, a multiculturalidade, o facto de haver quem pense de modo diferente de nós. Os espelhos como que ameaçam esta perspectiva mais ampla do mundo, do mesmo modo que serviram para ludibriar povos indígenas dando-lhes do mundo uma imagem que ainda não tinham, ou seja, a sua própria imagem. Vermo-nos constantemente a nós próprios pode cegar-nos dos outros, pretendermo-nos nos outros pode cegar-nos de nós próprios. Curioso como os temas se ligam quando não há espelhos a impedirem essa ligação. Por que é que toda a gente anda tão contente consigo (mas não com os outros)? «É que não existe um canalha que, procurando um pouco, não encontre canalhas piores do que ele, neste ou naquele sentido, e que, por isso, não arranje motivo de se orgulhar e de estar contente consigo próprio.» (Sonata de Kreutzer, Lev Tolstói) A não ser que passe a vida deslumbrado sobre si próprio, vendo-se ao espelho, penteando as suas mágoas, frustrações, rancores e ressentimentos, catando no couro os piolhos da inveja. Por isso mesmo, quando me acusam de ecumenismo, eu sorrio e penso: olha outro que só tem espelhos em casa. Por isso faço minhas, mais uma vez, as palavras de Giulio Carlo Argan: «a arte não é o reflexo ou a transposição em imagem de uma cultura superior e diversamente complexa, ou dos seus valores intelectuais ou morais, mas o processo mediante o qual se elabora uma cultura à parte, cujo fundamento é a percepção, cujos instrumentos são as técnicas, cuja função consiste substancialmente em saldar a experiência que tem do mundo com um fazer que visa mudar-lhes os vários aspectos, recriá-lo». Portanto, recriá-lo ou, diria eu, acrescentá-lo. A ilusão que o espelho nos fornece de um determinado espaço é do mesmo tipo da ilusão alimentada pelos ideais absolutos, pelo fundamentalismo das crenças, pelo que esta ilusão nos dá do mundo uma perspectiva única que está longe de ser a única perspectiva do mundo. Ideal seria que, como os vampiros, soubéssemos dos espelhos por neles nunca nos vermos reflectidos. Antes ausentes.

UM COMENTÁRIO

*
Bruno Santos, do weblog Baixa Autoridade, deixou um comentário no meu post intitulado O Porto Torto, afirmando que «o Porto está a sofrer um ataque cobarde aos fundamentos da sua identidade». Pedi-lhe que concretizasse esta opinião, daí resultando o seguinte comentário que agora chamo à página:

«A estratégia consiste na exploração de dois vectores: caos e desertificação. O caos revela-se na absoluta falta de planeamento urbano. Melhor dito: num planeamento que visa a desordem e a antítese do próprio planeamento. Há vários anos que o coração da cidade está permanentemente em obras, como o próprio presidente da câmara tem orgulho em declarar. Essas obras eternas criam um verdadeiro cenário de cidade bombardeada, caótica, suja. É o paradigma do desenvolvimento do Portugal pós CEE que consiste tão simplesmente em manter a disfuncionalidade travestida de crescimento. O espaço urbano deixa de ser um lugar de encontro, movimento, cultura e fruição, para passar a ser simplesmente um monte de entulho, uma ruína que transforma a experiência da cidade em algo negativo, desmotivador e fracturante. Um joguete nas mãos do poder político que despreza por completo o valor civilizacional, histórico e humano da cidade e a vê simplesmente como um “activo” a rentabilizar permanentemente (leiam-se por favor as declarações de Paulo Morais, antigo vereador da CM do Porto, que despoletou mais um dos processos que o Ministério Público enterrará nas catacumbas do conluio). Quem hoje passear pela Baixa ou por zonas mais antigas e nobres da cidade (Mouzinho da Silveira, Flores, Alegria, D. João IV e tantas outras) verá simplesmente a ruína exposta à memória de quem já se reconheceu nesses espaços, como se houvesse uma premeditação sádica em transformar essa mesma memória, a identidade do Porto, num arrependimento, numa má consciência, numa sensação de abandono e apocalipse. Isto deprime profundamente a cidade e, mais do que isso, prepara-a para a voragem do cimento que soterrará o seu carácter. Tudo isto contribui para que as pessoas desertem, transformando o espaço público num fantasma, sem vida nem dignidade. Pior ainda, abre portas aos urbanizadores do Zero, os Sizas e os Soutos Mouras, que podem então impunemente contaminar a cidade com a sua estética árida, criando verdadeiros buracos negros como a Avenida dos Aliados ou a Avenida Vimara Peres. Da ruína urbana à decadência cultural vai um passo de pardal. O La Féria que aproveite a rima e faça uma Revista panike.»

INÉRCIA DE ESTILO


Na vida, na arte, na luta, onde te derrotam,
O mais terrível é a inércia de estilo.
É um hábito que, parece, se torna consciente.
É terminar uma coisa e não ficar aliviado.
É ter mudado e pensar como antes.
É aspirar à verdade e mentir como um impostor.

É a alma sofrer e não lhe dar atenção.
É estar certo e trair-se.
É já não ter asas, mas só uma pluma,
É já não confiar – temer a falsidade.

O estilo é coragem. Fazer uma declaração de coragem!
Tudo perder, mas não desistir das ilusões –
Mesmo que o coração esteja pequeno já…

A justiça acabou – também possivelmente começou.
Quem imagina derrota – não evolui…

O mais terrível é a inércia de estilo.


Tradução de Manuel de Seabra.

Naum Korzhavin

Naum Korzhavin nasceu em Kiev a 14 de Outubro de 1925. Descendente de judeus, frequentou o Instituto Gorky de Literatura. Preso em 1947, retomou os estudos em 1956, na sequência de uma amnistia que se seguiu à morte de Estaline. Começou a publicar os primeiros poemas por essa altura, em revistas e jornais, aparecendo o seu primeiro livro, Gódy (Anos), apenas em 1963. Emigrou para Boston já na década de 1970, fugindo ao regime soviético. Escreveu poemas, ensaios e artigos, fazendo circular clandestinamente os seus textos na sua terra natal, onde regressou apenas em 1989.

ZÉ MANEL

Zé Manel não foi convidado para a festa. Ficou sentido. Diz-se que há dois tipos de homens, os que são convidados para as festas e os que não são. Eu acrescentaria os que se fazem convidados. Zé Manel não era destes. Não foi convidado. Ponto final. Mas como não compreendeu a falta do convite, logo se fez convidado, vicejando de rancor, apontando o dedo aos trajes afectuosos dos presentes. Zé Manel não tem culpa de ser um esquecido, mesmo quando as margaridas o lembram. Ama Sara, que não o quer. Lá vai aparecendo, escarninho, muito de quando em vez, para praticar na obscuridade o que o Cláudio Ramos pratica em tertúlia televisiva. Coitado de Zé Manel, tão só e abandonado, apenas na companhia do seu ressaibo, julgando-se excluído quando, afinal, ele é apenas a carne e o osso da insignificância. Só por isso ninguém se lembra dele, ainda que ele julgue o contrário.

26.6.07

NINHARIAS

Há realidades no mundo que o meu estômago não aguenta. Aqui está apenas uma delas, mas é uma que me repugna particularmente por mexer com alguns dos valores em que acredito. Não há nada, absolutamente nada, que justifique tamanhas barbaridade, impiedade e desumanidade. Desconheço com que frequência aquele tipo de situações se repete, e em que circunstâncias acontece. Apenas me repugna que aconteça, repugna-me tanto que aquilo aconteça como me repugna que em Portugal, só no ano de 2005, 33 mulheres tenham sido vítimas mortais de violência doméstica no seio familiar, 29 pelo companheiro, ex-namorado ou parceiro, e quatro por outros familiares. Impõe-se, de facto, que libertemos as mulheres das garras dos bárbaros. Comecemos, para já, pelo nosso bairro.

O MUSEU BERARDO

Ainda não visitei o Museu Berardo, nem conto visitá-lo nos próximos dias. Mas posso desde já garantir-vos que o dito Museu não acabará com os recibos verdes.

O PORTO TORTO

Residi praticamente oito anos em Lisboa, mas a minha cidade do coração foi sempre o Porto. Diz-se que o Porto, a cidade granítica, é uma cidade escura e triste. Talvez seja. Mas talvez essa característica contribua para que me sinta mais integrado nas suas ruelas estreitas, no bairro da Ribeira, nesses lugares onde o tom sombrio da pedra contrasta com o deboche das gentes. Eu gosto de gente sem papas na língua, mesmo quando da língua não se espera outra coisa senão uma lambidela cínica e pretensiosa. Em Lisboa também há disso. O lado castiço de Lisboa é o seu melhor lado. Mas o lado castiço de Lisboa tende a mostrar-se algo empertigado para com os forasteiros, sinal de um provincianismo que terá origem no facto de grande parte da população alfacinha ter as suas origens nos lugares da província. Ter vencido na capital é todo o estatuto que podem almejar. No Porto a coisa aparenta outra naturalidade. Aí, é-se do Porto e pronto. E, sendo-se do Porto, é-se, quer se queira quer se não queira, de uma província mais autêntica. Como desabafava o escultor José Rodrigues: «Eu quero lá saber que me chamem provinciano!» O problema é que, de há uns anos a esta parte, tenho encontrado nas pessoas que conheço do Porto alguns preconceitos relativamente a esse olhar arcaico sobre a cidade. Provavelmente, por serem de gerações mais novas, almejam um outro reconhecimento, ambicionam outro lugar no retrato da nação. Fazem mal. Acabam parecendo-se mais com os alfacinhas, ou seja, com os tais provincianos empertigados. Eu, se fosse do Porto, teria muito gosto em ser do Porto debochado e libertino, do Porto das tripas, das francesinhas, do granito, do Porto patusco e picaresco. Foi nesse Porto que emergiram escritores e artistas extraordinários, porque esse Porto nunca deixou de ser empreendedor, de um bairrismo que só deixa de ser saudável quando para ser a favor de si próprio sente necessidade de ser contra os outros. Estou-me nas tintas para os discursos maniqueístas, calculistas, arrogantes e interesseiros do Jorge Nuno e confraria Lda. Se o Porto tiver de ser a capital de alguma coisa, que não se transforme na capital das cidades portuguesas mais parecidas com Lisboa. Isso seria trágico. Temo, porém, que seja esse o paradigma actual. É certo que para quem está de fora, a percepção das distâncias acaba sempre algo obnubilada. Eu resido num distrito que faz fronteira com o de Lisboa. Se vos garanto que, hoje em dia, é-me tão difícil aportar em Lisboa como no Porto, é porque sinto as duas cidades cada vez mais parecidas uma com a outra, cada vez mais devolutas, tolamente envaidecidas, forçadamente afastadas das suas raízes, do que de melhor têm para oferecer a quem vem de fora. A última vez que fui ao Porto, senti no regresso aquela sensação de sufoco que me fez sair de Lisboa, a sensação de uma claustrofóbica ausência de autenticidade. É certo que as cidades não foram pensadas para ser autênticas, senão quando o são nos seus artificialismos intrínsecos, mas eu encontrava no Porto essa autenticidade que já não encontro tão facilmente. Talvez o problema seja meu, talvez seja do mundo, talvez a nossa identidade seja hoje a hipoteca que nos garante o sucesso rasteiro de quem passa pela vida à procura de aplausos e panegíricos na pedra tumular.

GERAÇÃO PAISSANDU

Vim, como todo mundo,
do quarto escuro da infância,
mundo de coisas e de ânsias indecifráveis,
de só desejo e repulsa.
Cresci com a pressa de sempre.

Fui jovem, com a sede de todos,
em tempo de seco fascismo.
Por isso não tive pátria, só discos.
Amei, como todos pensam.

Troquei carícias cegas nos cinemas,
li todos os livros, acreditei
em quase tudo por ao menos um minuto,
provei do que pintou, adolesci.

Vi tudo que vi, entendi como pude.
Depois, como de direito,
endureci. Agora a minha boca
não arde tanto de sede.
As minhas mãos é que coçam –
Vontade de destilar
depressa, antes que esfrie,
esse caldo morno da vida.

Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto nasceu no Rio de Janeiro no dia 12 de Dezembro de 1951. Viveu nos Estados Unidos, tornando-se mais tarde tradutor de autores de língua inglesa. Formado em Português e Inglês pela PUC-Rio, é tradutor profissional, poeta e ensaísta, tendo-se estreado, em poesia, no ano de 1982 com Liturgia da matéria. O seu livro Macau, recebeu o Prémio Portugal Telecom de Literatura Brasileira, em 2004. »

25.6.07

PORTO?

Estou a tentar assistir ao debate sobre o Porto. Ainda não percebi nada. Não consigo sequer entender sobre o que estão a falar. Nada de nada. Zero. Citam Camões, falam de salões, mencionam o George Steiner, desenham jogadas futebolísticas, blá, blá, blá, Lisboa para aqui, Galiza para acolá. Ou eu sou burro – o que é mais que provável -, ou estão todos impressionados com o traje da Fátima Campos Ferreira.

ASSUNTO SÉRIO

LB escreve, com experiência de causa, o que é raro, sobre casinos e mulheres: Sou licenciado em matemática e curtia probabilidades. Eu achava que controlava o risco do jogo mas é sempre o jogo que nos controla. Mesmo aqueles em que nós criamos as regras todas, mesmo esses nos surpreendem. A gente sabe lá o que temos dentro de nós. A cura para os viciados em jogo é reconhecer que existem forças que não controlamos e desistir. E se formos a ver, com o amor é a mesma coisa. Estamos apaixonados por uma miúda e nunca nos chega, podemos ter muito mas queremos que ela seja isto e aquilo e ela nunca mais muda para ser o euromilhões das miúdas, perdemos a miúda e de repente temos vontade de morrer porque ela nem sequer tinha preço e juramos para nunca mais, que da próxima vez não nos vamos atirar assim de cabeça e vamos ter calma e evitar fazer promessas. O ideal é reconhecer que não controlamos mesmo as mulheres ou o jogo.

ANSIEDADE E UM VERBO

Joaquim Rocha, 2007.

PROVERBIAL

Quem vê caras não vê corações. Mas devia. Porque quem feio ama, bonito lhe parece.

TU PRETENDES MILAGRES


Tu pretendes milagres?
Religiões? Mas quem é
Que te disse que não
É um milagre a floresta?
E um milagre esta costa
De rochas escabrosas,
E um milagre esta neve
De sombras oscilantes,
E um milagre o próprio homem,
Um milagre tu próprio?

Parece-te blasfémia
Que o teu sonho sagrado,
De mágico sentir, seja
Explicado pela ciência?

Donde te vem o teu tormento,
E a tua dor – donde vem?
Esta ciência do mundo
Não será maior milagre
Do que o teu sonho sagrado?
E nem se pode saber
Qual é o maior milagre:
Se a ciência ou o teu sonho…

O nosso poço sem fundo
Está agora quase seco:
A ilusão – mesmo explicada –
Não será sempre milagre?

Mesmo depois de explicado
Quem é e donde vem ele –
Não estará o génio sempre
De mistério cercado?
Tradução de Manuel de Seabra.

Novella Matveyeva


Novella Matveyeva nasceu em Pushkin, perto de Leninegrado, em 1934. Foi criada em orfanatos e viveu muito tempo em hospitais. Começou a escrever versos na infância, tendo a sua primeira colectânea, Líricas, sido publicada em 1961. Com colaboração espalhada por diversas revista russas, é também escritora de canções.

PERGUNTAS PERTINENTES

Por que não constroem a Ota em Alcochete?

24.6.07

O QUE FALTA A LISBOA?



O Museu da Cidade foi um dos muitos edifícios recuperados pela Câmara no mandato de J. Sampaio.


Com Jorge Sampaio surgiram novos espaços verdes e os jardins estão melhor arranjados.

A habitação tem sido a primeira prioridade da C. M. L. presidida por Jorge Sampaio.


Nota: Todos estes postais de campanha são uma autêntica pérola da propaganda política nacional. Chamo a vossa atenção para a palavra «edifícios» no primeiro dos três. Depois reparem nas velhas árvores dos "novos jardins". Todavia, não desfazendo, agrada-me especialmente o último postal, não só pelo patente contraste entre as barracas demolidas e o belo exemplar de habitação social ao fundo, mas pelo facto, reparem bem, do "condutor" da escavadora estar claramente a pousar para a fotografia, de óculos de sol, camisa branca e calças de ganga. Trabalho à portuguesa, meus senhores!

O GATO VENEZIANO


Para a Maria João
no dia do seu dia de anos.


Ordet que te trago à mesa:
o ronronar do gato veneziano,
apanhado a engolir um piano
de cauda demorada.
Parecia um morto naquele soalho
turístico de Agosto a 40.º.

Quando o vi pensei nos cegos,
sempre mortos do lado errado.
E se soubesse tocar piano
tinha espalhado aquele negro todo
pelas teclas brancas do teclado.

Como sou fraco de dedos para tudo
o que não meta mortalhas e rosas,
ataquei duas talhadas de melancia.
É como diz o poeta: há que aproveitar
«bem o tempo antes que
comece o passado
a parecer-te
mais longo que o possível futuro».

E como ela era boa, a melancia,
noite por dentro do dia,
fresca, líquida, esplendorosamente clara.
Quanto ao gato, passei-lhe o flash
pelo pêlo
e vim-me embora de gôndola
a pensar nos cegos de Lisboa
que não têm zelo
nos pianos servidos à mesa da palavra.


Notas:
Ordet, como é óbvio, remete para o milagre A Palavra (1955), do realizador dinamarquês Carl Theodor Dreyer. O segundo verso da primeira estrofe foi decalcado de Artaud: «Morto, morre-se do lado errado, não é a via que devemos tomar». Os quatro últimos versos da terceira estrofe aparecem no poema carta a uma iniciante, de Alberto Pimenta.

23.6.07

Fragmento #54 – Esculturas sonoras


São 8.45m da manhã, chego a horas como gosto quando marcam algum trabalho pago comigo. Digo pago comigo e até parece mentira, mas não é, uma amiga telefonou-me para eu dar respiração e voz a uma personagem num filme de animação; trata-se de um filme de autor (não posso dizer o nome, ainda não estreou), ao telefone ela contou-me que animou a personagem, mas não a criou, deu-lhe gestos a pensar nos meus, interpretou-a assim e por isso só eu poderei ser o seu som; a personagem é uma mulher obesa, neurótica, está sozinha a deambular na casa, fuma cigarros, tenta telefonar para um gajo, mas ele desliga-lhe o telefone na cara; o gajo também é obeso e tem um cão obeso, coisa politicamente correcta na realidade. Bom, aquilo é ficção, a personagem zanga-se com o telefone, toma comprimidos e atira-se pela janela, enquanto o gajo assiste a todo o drama num café em frente. Eu já fui obesa, mas não me mandei de nenhuma janela, nem me enfrasquei em comprimidos, mas isso de deambular pela casa sozinha sei bem o que é e desligarem-me o telefona na cara de propósito também. Já são 9.20m, é estranho, a minha amiga não é de atrasos, vou ter de lhe telefonar; afinal confundi tudo, foi marcado às 9.45m, percebi mal por causa da febre. Hoje acordei melhor, mas gripe de Verão vai e vem, com a febre sonhei com uma exposição de escultura num jardim, onde participava com uma intervenção num tanque enorme cheio de água, colocava no meio dele um gradeamento em ferro trabalhado com formas diversas que se seguravam num tecto peculiar, uma espécie de telheiro do tanque onde tinha colocado cadeiras de cinema enfileiradas e outras suspensas em estruturas semelhantes ao gradeamento. Aponto esta imagem estranha no meu bloco quando aparece a minha amiga e o realizador acelerado; ela apresenta-mo outra vez, ele diz que se lembra perfeitamente de mim há mais de um ano e que até a voz está diferente; e tem razão, respiro de outro modo, são menos 40kg, mas enquanto estava a gravar, lembrei-me do que já fui, lembrei-me bem do cansaço em me mover, o que é desistir de me vestir, ouvi o eco da minha antiga respiração na casa desarrumada da personagem; começamos a gravar timidamente, primeiro apenas a respiração que se tornava a pouco e pouco mais intensa, só os cigarros a acalmavam, depois foi surgindo um crescendo com a presença rítmica da respiração, criando uma espécie de texto que se sente e não se consegue ler. A voz só surgiu na parte da raiva com o telefone, não digo absolutamente nada em todo o filme, faço sim uns harmónicos com enormes ressonâncias de peito, é tudo voz interior. O realizador acelerado exclamou: boa, é a voz da gaja? É claro que estava nos meus graves de peito, lá por ter menos mamas não deixei de saber quanto pesam aquelas mamas; sei também que ter mamas é ser confundida com a Santa Casa da Misericórdia, é grave e dói, mas eu não sou aquela gorda que termina a mandar-se pela janela fora e à qual o gajo assiste ao desfecho com prazer sádico no café, como se estivesse a assistir a um programa na TV. Existem muitos humanos por aí que sofrem da doença da morte, já ouviram falar nisso? Apercebi-me da doença quando li os “Textos secretos” da Marguerite Duras, foi há vinte anos, na altura cruzei-me com um gajo que sofria desse mal, a indiferença, ele pegou-me aquilo durante algum tempo, mas depois ofereci-lhe o livro no seu aniversário, mostrei-lhe a minha consciência; eu sei o que és e sobrevivi porque escrevo, esse é o meu antídoto contra a doença da morte, tenho alguma coisa dentro deste cérebro e não apenas massa cinzenta, foi assim que arrumei a casa, que ela entrou em obras e o meu corpo também, agora só falta o jardim. Eu nunca me enfrasquei em comprimidos, nem parti telefones, já me tentaram matar de várias formas, mas levanto-me, tomo banho, visto-me de forma elegante, crio impacto em quem me cruzo, provoco emoções e também as tenho, pinto, faço escultura, canto e estou muito viva. Esse gajo, a última vez que o encontrei na rua, tinha barriga e um ar acabado, perguntou-me o que fazia, respondi-lhe escultura nas Belas e ele a olhar o chão, queixou-se que tinha um trabalho monótono, trabalhava num jornal e não tive pena nenhuma dele, tenho mamas, mas não sou estúpida. Voltando ao realizador acelerado, ele brincou comigo, dizia que a gaja podia ser eu, disse-lhe que não, sofro de vertigens por isso nunca poderei mandar-me de uma janela; ele pergunta-me o que faço, respondo que sou artista e vou vivendo de biscates como este, já vamos na direcção do Multibanco para me pagar, boa, é uma pessoa séria que paga a horas, coisa rara e merece respeito. Ele pergunta-me há quantos anos estou assim, respondo quatro ou cinco. Falo-lhe da minha exposição de escultura na Eterno Retorno, ele comenta que é fora de mão e ninguém lá deve ir ver; o técnico de som diz que ouviu falar no espaço por causa dos concertos e que é capaz de passar por lá, ele é músico, parece autista, mas suponho que sabe ouvir. Despeço-me com vontade de rir, nem lhes contei que as esculturas estão na parede junto ao palco dos concertos na livraria. As minhas esculturas não são para ver, são para ouvir, por isso não vai mesmo ninguém vê-las, mas acredito que alguns vão gostar de as ouvir. Quanto ao filme, quando estrear aviso, é a minha melhor escultura sonora até ao momento, mesmo que não seja possível colocarem o meu nome no genérico.

Maria João

22.6.07

ANARQUISMO DE DIREITA

Este post é apenas para memória futura. Facto 1: Pedro Mexia, em post intitulado A vida dos outros, disse não gostar «de gente que dispõe sobre a vida dos outros». Facto 2: José Miguel Silva, em tom espantado, aconselhou a Pedro Mexia «um curso acelerado de filosofia política», sugerindo ser o autor do Estado Civil «um anarquista que se desconhece, ou pura e simplesmente não sabe o que diz». Facto 3: Pedro Mexia, sem referir a “acusação” de José Miguel Silva, e servindo-se de referências a escritores franceses e a Kropotkine, respondeu-lhe assim: «eu odeio que as pessoas se metam com o meu estilo de vida, que controlem as minhas opiniões, que me exijam disciplina de voto». Facto 4: Pedro Mexia defendeu a invasão do Iraque, dando várias vezes a fronha pelas mentiras "bushianas", certamente por amor à humanidade. Ou então por julgar que os iraquianos também não gosta(va)m «de gente que dispõe sobre a vida dos outros».

21.6.07

AS FRONTEIRAS


Era no tempo improvável da etnografia.
Vestíamos jeans e corríamos no restolho,
viravam-se nos lameiros os fenos
três dias depois de ceifados
à lâmina, vivíamos depressa
a ler os poetas ingleses ou a debulhar
o milho nos sobrados, espalhava-se no chão
a caminho da igreja o alecrim.
Parece que foi no séc. XIX
entre retratos a sépia e os bilhetes
do expresso de Lisboa comprados
na Cunha a ver os concertos de jazz.

O que nos traiu não é fácil de dizer.
Agora é apenas como se um estranho caleidoscópio
misturasse a tristeza e o êxtase
do que fomos,
do que quase
chegámos a ser.

José Carlos Barros

José Carlos Barros nasceu em Boticas no ano de 1963. Licenciado em Arquitectura Paisagista, começou a publicar poesia em 1984: Pequenas Depressões. Publicou, em prosa, O dia em que o Mar Desapareceu (2003). Está representado em várias publicações colectivas. Já deste ano é o volume As Moradas Inúteis, em edição bilingue, publicado na colecção Palavra Ibérica.

20.6.07

EUTANÁSIA

A notícia está no DN Online: «39% dos médicos oncologistas portugueses defendem a legalização da eutanásia, mas apenas 24% dizem que, se esta fosse uma prática legal, estariam dispostos a fazê-la». Este desfasamento entre a defesa da eutanásia e a prática da mesma é compreensível, embora me custe aceitar que um médico que se manifesta a favor da legalização da eutanásia possa, posteriormente, recusar aplicá-la. Por que razão o fará? Por razões éticas e morais? Por razões deontológicas? Ao defender-se a legalização de algo não se está a defender a sua moralidade? Não tenho resposta para tais questões, que não pretendo aprofundar, nem sequer posso afirmar que tenha pensado muito sobre o tema. O que sempre me incomodou foi a imposição da vida a alguém que “apenas” deseja morrer. Um homem não pode ser impedido de se matar, mesmo quando para o fazer necessite da ajuda de alguém. Esse impedimento, mais que outro qualquer, é que me parece imoral. Duvido que haja algo mais imoral do que não ajudar a entrar na morte alguém que precise dessa ajuda, o que, bem vistas as coisas, é muito parecido com não ajudar alguém a entrar na vida. Imaginem uma mulher nas aflições de um parto e uma parteira, a seu lado, por um qualquer motivo de "ética privada", recusar auxiliá-la. Conseguem imaginar gesto mais egoísta? Eu não. Temo que a susceptibilidade da questão esteja mais relacionada com o modo como encaramos a perda de alguém do que com o valor da vida ela mesma, um valor sempre subjectivo e relativizável. É certo que o sentimento de perda é indissociável do valor que tem para nós a vida que se perdeu, por isso mesmo Deus aparece aos homens nesse momento limite de confrontação com a efemeridade da vida e a necessidade da mesma. Ou, melhor dizendo, criam uma certa dificuldade aos que buscam antecipadamente a concretização desse desejo. Por isso vituperam o suicídio e a morte assistida, a eutanásia. De um certo ponto de vista, essa censura também denota algum egoísmo, para não dizer uma certa inveja. Impedir alguém de aceder ao que eu mais ambiciono, neste caso a vida eterna, não pode denotar outra coisa. Talvez isso se explique pela fé no milagre, uma esperança cega no improvável. Obrigar alguém a viver pode ter a sua fundamentação nessa fé. A esperança numa vida depois da morte, esperança que não nutro, é não apenas a esperança numa vida paradisíaca, mas sobretudo a esperança numa vida que não seja efémera, isto é, numa vida eterna. Curiosamente, os que possuem essa esperança parecem conviver pior com o sentimento de perda do que os outros. Quando penso nestas coisas, lembro-me sempre de uma passagem de um dos livros da minha vida. Nas Confissões, Santo Agostinho relata, ao Livro Quarto, a perda dum amigo. Há quem interprete a passagem como uma confissão da homossexualidade do santo, assunto pelo qual não entrarei. A mim interessa-me mais esse momento como um momento de revelação. Perante a dor da perda, que levava Agostinho a ver morte em tudo, Deus apareceu como uma verdade reconfortante: «Feliz o que Vos ama, feliz o que ama o amigo em Vós, e o inimigo por amor de Vós». Ora, para quem não pode amar à luz do Senhor um amigo que se perdeu, a dor será outra. Não menor nem maior, mas de outro tipo. É fácil compreender isto se aceitarmos que a dor da perda não é sempre igual, ela difere consoante o motivo da perda. Perder um pai por causa de um cancro não é o mesmo que perder um pai que se suicidou, assim como perder um filho num assalto à mão armada não há-de ser o mesmo que perder um filho num acidente de viação. Os sentimentos que se misturam com o sentimento de perda tornam a forma como encaramos a perda diferente de caso para caso. Penso nos pais a quem raptam um filho. Para todos os efeitos, perderam(-se) (d)o filho, mas com essa perda mistura-se a esperança de voltarem a encontrá-lo. Uma esperança que pode revelar-se terrível. Vou dizer algo que pode parecer cruel, mas que reflecte bem o que penso sobre este assunto. Se alguém que eu amo tiver que morrer antes do suposto, não quero pensar que irei encontrá-lo numa outra vida. Quero apenas pensar que morreu, que tudo acabou. Mas prefiro, em todo o caso, que acabe bem, que essa pessoa acabe de bem comigo. Mesmo que isso implique pôr um termo ao seu sofrimento. No meu caso, é essa a luz que me guia. É esta a luz que me apazigua a dor da perda: saber que os que partem, partem de bem comigo.

POETAS AMADORES


Não sei distinguir os poetas amadores dos poetas profissionais. O que é um poeta profissional? Só pode ser um poeta amador.

19.6.07

LILIPUT

Catorze anos é muito tempo, o tempo de uma vida, uma vida jovem, é certo, pelo menos no corpo de um homem. Mas muito tempo nas patas de um cão. Catorze são duas vezes sete anos, número mágico vezes dois, de uma magia ancestral difícil de explicar. Catorze são os anos das cores do arco-íris sobre os sete mares, de sete acordes de guitarra distribuídos pelos dias da semana. Catorze são as maneiras de dizer sou-te fiel na voz de um cão. Quem sabe o que dizem quando se sentem ofendidos? Quem sabe o que pensam quando se entregam à respiração dos donos como sóis encostados ao calor das manhãs? No soalho vidrado da cozinha vejo-te dar os primeiros passos, os primeiros passos de catorze passos tão custosamente sofridos. Vejo-te no caminho das gretas a espreitar para fora de casa, o faro atento aos raios, à luz, aos ombros das plantas. Vejo-te brincando a meio do dia com trapos de brincar, e depois ladras para a fome na tua província secreta de pedir. Tiveste a raça das grandes mães, foste um uivo inestimável no caminho das dores domésticas. Por cima de ti, agora, a memória do teu sono encostado ao calor dos corpos humanos, manhãs suspensas, um telhado de terra onde brotarão raízes de plantas lindíssimas. Sobretudo, plantas que dancem ao sabor do vento a memória do teu uivo.

EPÍSTOLA SOBRE A MERDA


As retretes transformadas em santuários:
eis a minha obsessão

A merda é uma boa causa
Demasiado boa
para que alguém lute por ela

Só é poeta aquele que
é capaz de comer as próprias fezes

A merda é a única coisa
que não se pode conspurcar

Jorge Sousa Braga

Jorge de Sousa Braga
nasceu em Vila Verde, Braga, a 23 de Dezembro de 1957. Há vários anos que vive no Porto, onde exerce Medicina. Em 1980 publicou De Manhã Vamos Todos Acordar Com Uma Pérola No Cu, seguindo-se A Greve dos Contrroladores de Voo, em 1984. Mais recentemente tem publicado, com alguma regularidade, na Assírio & Alvim. Traduziu autores como Jorge Luis Borges, Matsuo Bashô, Apollinaire, entre outros.

E-MAIL

*
Com o fim de ajudar milhares de professores que se encontram deslocados longe de casa, um professor de Aveiro está a finalizar a criação de uma página de permutas de locais de trabalho de professores. Com tantos professores deslocados de suas casas, o mais provável é que se consiga arranjar permutas entre os que querem, no mínimo, ficar mais próximo de casa. Divulguem o site: http://www.permutas.pt.vu e os professores que estão longe de casa que se inscrevam. Não se esqueçam de consultar o despacho que regulamenta as ditas permutas entre professores - Portaria 622-A/92 de 30 de Junho.

18.6.07

TESTEMUNHAS DE JEOVÁ NUMA FEIRA DE MONOS


Carolee Schneemann
Chego a casa, abro a caixa do correio postal e tenho à aguardar-me, entre um folheto das testemunhas de Jeová, publicidade dos hipermercados Modelo, Feira Nova, Intermarché, E.Leclerc, Lidl, Plus, Mini-Preço. Descobrir no meio daquele monte de papel inútil um folheto das testemunhas de Jeová, foi, sem dúvida, uma experiência apaziguadora. Podemos olhar para aquele folheto de duas maneiras. A primeira dir-nos-á ser aquele folheto, tal como o Dica da Semana, apenas mais uma forma de promoção de um produto, no caso a fé, a religião transformada em comércio, Deus convertido a atractivo comercial, último reduto de uma fé cujos milagres podem também ser alvo dos discursos persuasivos e aliciantes da publicidade. Neste caso, trata-se de uma forma publicitária arcaica, em desuso, extremamente simples e até um pouco obsoleta tendo em conta estes tempos de magical design que são os nossos. A segunda forma de olhar o folheto das testemunhas de Jeová, talvez mais cândida e menos maquiavélica, tenderá a inclinar-se para aquela folha isolada, para aquele pedaço de papel, como um pequeno esforço ao serviço da palavra divina, uma espécie de poesia das almas perdidas, em vias de extinção como toda a poesia, neste mundo em que a toda a hora as almas se julgam achadas. Trata-se de um folheto publicitário muito distante do cumprimento das mais elementares regras publicitárias, um folheto que nos transporta no tempo, que nos envia para uma época anterior à própria publicidade, um folheto que mais do que pretender convencer-nos da necessidade de um produto tenta persuadir-nos através da imagem gasta desse mesmo produto. Eu, confesso, olhei para o folheto e pensei: ainda bem que aqui estás, ó figura de Jeová, entre as carnes do Modelo, as frutas do Feira Nova, os óleos do Intermarché, a doçaria do E.Leclerc, as promoções do Lidl, as cervejas do Plus, os preços imbatíveis do Mini-Preço. Ainda bem, ó folheto de Jeová, que aqui te apresentas como uma espécie de salvação, poesia quotidiana melhor não há neste mundo onde, tal como a fé, tal como a poesia, tal como a resistência, tudo é ditado pelo valor económico que tem no mercado das elites. Tu não és senão a anti-arte de artistas sem nome, como sem nome eram os artistas antes da arte se haver convertido às técnicas do consumo. Mas ao mesmo tempo, e não sem paradoxo, tu és também o que resta de uma chama estética ao serviço do próprio consumo, assim como aquela arte que se afirma pela prática de uma anti-arte, que se torna distinta por rejeitar qualquer tipo de distinção, que se impõe nas sociedades do nosso tempo como um esgotamento de todas as tradições, como uma falência de todos os “ismos”, como a morte definitiva das correntes que outrora permitiram aos homens pensar o mundo para lá do mundo. Vejam bem o preço a que a vida está: quem almeje a eternidade converta-se às testemunhas de Jeová, apareça nas galerias, compareça aos eventos, rasteje aos pés dos ícones institucionalizados, contracene nos corredores da glória, não entre as massas, mas entre as elites que consomem aquilo que, junto das massas, passa por ser arte. Giulio Carlo Argan bem viu no cartaz publicitário um estímulo para a adopção de um comportamento directamente associado ao consumo, não sei se ele previu foi esta transmutação do mundo artístico num grande cartaz publicitário. O que importará doravante discutir é se num mundo onde todos venham a ser testemunhas de Jeová, Jeová ainda fará algum sentido. Ou, de outro modo, se num mundo onde todos venham a ser testemunhas de Jeová, ainda fará sentido falar de testemunho. O que hoje se desenha já não é uma crise, é antes a ausência de soluções e de perspectivas numa fase posterior à crise. O que hoje se desenha é uma montra de saldos onde ficarão eternamente expostas todas as actividades não lucrativas, todas as actividades não rentáveis de um ponto de vista financeiro. O mundo dos criadores é uma feira de monos onde, entre uns tantos reconhecidos enquanto artistas – normalmente aqueles que melhor se adaptaram aos tentáculos do mercado -, passeiam-se muitos outros que dificilmente se distinguem enquanto produtores ou fruidores, artistas ou público.

A UM JOVEM CAMARADA

Meu Camarada moço,
- Lidos os teus poemas,
Apenas posso
Dizer-te que não temas
Dar-lhes o fogo, a morte, o esquecimento.

Se queres a Poesia, vai para ela
Puro, desnudo, de ímpeto violento,
Como para a mulher
Em que parou teu sonho, - se és o seu.
Vai, como ela te quer.

Mas se outra chama inflama o teu amor,
Se outro sonho tão belo te rendeu,
Tem coragem nobre de depor
Os versos que não são teu instrumento.
Toma outras armas mais condizentes.

Não, a Poesia não a violentes!
Deixa os versos ao vento…

Alberto de Serpa

Alberto de Serpa nasceu no Porto, em 1906. Frequentou a Faculdade de Direito de Coimbra e integrou-se no movimento da Presença. Fundou, com Vitorino Nemésio, a Revista de Portugal. Colaborou em várias revistas e jornais brasileiros e portugueses. Publicou Quadras e Evoé, em 1924, seguindo-se Varanda e Descrição, em 1934, entre outros. Publicou, com José Régio, as antologias Poesia de Amor e Na Mão de Deus. Faleceu em 1992.

15.6.07

TOLERÂNCIA 0

O Vaticano exortou os católicos a retirarem o seu apoio financeiro à Amnistia Internacional devido ao recente compromisso da organização de defesa dos direitos humanos em prol da despenalização do aborto. »

A ÉTICA RENTÁVEL


De uma entrevista a Ângelo Correia publicada no último número da Sábado, destaco o seguinte excerto:

Alguma vez utilizou as relações que estabeleceu enquanto político para fazer negócios privados?
Muitas vezes. A política dá uma base de conhecimento e experiência muito grande. Que ninguém diga que não beneficiou nada com o facto de ter passado pela política.

(…)

Já teve medo de ser posto em causa na sua honestidade na vida política?
Não. Nunca tive razões objectivas para sair da política por causa disso.

Acusam-no de ter vencido na vida em parte porque sempre soube identificar as pessoas certas e relacionar-se com elas.
É uma bela acusação.

Foi feita por um seu amigo de infância, Anselmo Aníbal.
Um meu querido amigo.

Ainda é?
Um dos meus melhores amigos. Ainda hoje almoçámos.

Apesar das acusações?
O Anselmo tem razão. É pena que não tenha mais razão ainda, porque eu escolho pessoas. Só escolho aqueles com quem entendo que me posso dar, que me dão garantias de honestidade, que partilham coisas comigo em relação aos negócios e à vida, de rentabilidade e de ética.

É ético meter uma cunha para alguém?
Não.

Já meteu muitas?
Dezenas, centenas! Fi-lo com todo o prazer.

DUDA VEIO

duda veio de Brasília
veio no tapa
sem grana nem mapa
o cabelo crespo cresceu
na viagem
ele dizia vem cara
vamos transar essa miragem

rogério nunca teve parada
um ponto aqui um pé ali
na barra pesada
e dizia vem cara

paulete teve uma crise
e virou homem
como já se chamava carlos
nem mudou de nome
e dizia vem cara

lou se amarrava num talco
à noite no medieval dançava dançava
era um grande palco
e dizia vem cara vem

chico falava o dia todo
em nova consciência
o planeta precisa mesmo é de muita penitência
e dizia vem cara vem
marcelo queria ser poeta
escrevia escrevia mas não era o mickey
era somente o pateta
e dizia vem cara vem

Régis Bonvicino

Régis Bonvicino nasceu em São Paulo, Brasil, no dia 25 de Fevereiro de 1955. Formado em Direito, trabalhou no jornal Folha de S. Paulo até ingressar na magistratura, em 1990. Os seus três primeiros livros, Bicho papel (1975), Régis Hotel (1978) e Sósia da cópia (1983) foram editados pelo próprio autor. Dirigiu as revistas de poesia Qorpo Estranho, Poesia em Greve e Muda. Participou em leituras de poesia ocorridas em várias cidades do mundo. A sua poesia encontra-se traduzida em várias línguas. Fundou, em 2001, e co-dirige, ao lado de Charles Bernstein e Alcir Pécora, a revista Sibila (http://www.sibila.com.br), publicada actualmente pela Martins Editora. »

Joe Berardo lança OPA sobre Benfica a 3,5 euros por acção

Não há para aí ninguém que queira lançar uma OPA sobre o Joe Berardo?

14.6.07

COMENTÁRIOS

Os leitores do Insónia sabem que o sistema de comentários neste weblog sempre foi aberto e altamente democrático, nunca nos esquivámos à crítica, nem mesmo à injúria, tendo apenas sido apagados comentários a pedido de pessoas impropriamente identificadas nos mesmos. Sucedeu, que me lembre, com comentários deixados em nome de pessoas que, por e-mail, negaram ter sido autoras dos mesmos .

Como as águas andam brandas neste momento, sinto ter chegado a altura certa para colocar à disposição dos colaboradores e dos leitores a pertinência das caixas de comentários. A minha questão é só esta: quando me deixam um comentário, alguns tão interessantes que foram chamados à página, sinto que, de alguma forma, devo responder; ora, tenho cada vez menos tempo para responder aos comentários que me vão chegando, muitos deles em posts antigos, solicitando-me informações que ou não possuo ou não me sinto autorizado a revelar.

São estas as razões que me têm feito ponderar o encerramento da caixa de comentários. Por outro lado, julgo que esse seria um forte revés na atitude que sempre pretendi manter no Insónia. Não estando os colaboradores nem os leitores de acordo com essa possibilidade, permito-me desde já desculpar-me a todos os comentadores que fiquem sem resposta da minha parte. Compreendam: não há tempo para tudo.

VIÚVO

Eu vi as mentes mais brilhantes da minha geração destruídas pela usura, arrastando-se aos pés do quotidiano resignado e conformista da reacção, vi-as sucumbirem diante da cruz plástica dos ditadores da ambiguidade, carentes de visibilidade, de sucesso televisivo, de revelações, vi todas essas mentes prostradas diante da sombra burocrática dos doutores, dos misteres, dos júris, agrilhoadas ao poder dos elogios, dos favores, dos aplausos enluvados do sistema, tão oscilantes sob as águas turvas do passado, ridiculamente civilizadas, submissas, repetindo os gestos ancestrais da família, fazendo eco de uma alienação consentida, conforme o solo seguro da sobrevivência, vi todas essas mentes fenecendo nos ecrãs da verborreia, uniformizadas, incandescentes, perdidas no labirinto da fome, maquinalmente reproduzidas no abrigo dos pais, actrizes de uma tradição disseminada pela impressão digital da moeda corrente, que indigência, que arrivismo, as consumiu como alimento maquinal da religião económica, tão indiferentes à luminária dos enredos, amamentadas pelo coice da imagem, maquilhadas, escravas dessa metáfora que é a base sobre as borbulhas, sobre os pontos negros, sobre as rugas do tempo, dietéticas, light, vi-as tossicando referências caladas, seios teóricos, heróis de uma utopia amordaçada, ciclicamente reproduzidas na parcialidade dos discursos, certas de tudo, sem antimundos, petrificadas, eu vi essas mentes brilhantes citando poemas de trazer na carteira, poemas-epígrafe de permutações comerciais, poemas-intróito de decretos, minutas, declarações oficiosas, tão estoiradas por dentro da agonia falante, contraídas no delírio alucinante do trabalho, da produção, do consumo, vi-as singrando em páginas bafientas de poeira consumível, sem sangue, exangues, nascidas já de peito à terra, de nariz caído pelo chão, reclamadas nos guichés dos ginásios onde alternam com o psiquiatra, devolvidas à fantasmagoria perversa das agregações, nostálgicas, tristes, melancólicas, desistidas, transferidas no calor de um amor sem chama, desapaixonadas, óbvias e repetidas, melancolicamente rendidas à artificialidade dos esquemas, eu vi os intelectos perfeitos da minha geração rendidos à artificialidade dos esquemas, percorrendo os caminhos já por seus antepassados percorridos, de ombros encolhidos e orelhas moucas, de sabedoria engavetada na gravata, engravatada no canudo, cérebros vibrando com jogos inúteis, supérfluos, de encapelamento homologado, soluços contidos, controlados, abjecta e respeitosamente evitados, prudentemente exercidos, eu vi esses cérebros tão prudentes, tão ponderados, tão taquigraficamente cautelosos, dispondo sobre o sono as armadilhas do caos.

13.6.07

53,5 MILHÕES DE EUROS



Segundo os situacionistas, o situacionismo não existe, é um vocábulo inventado pelos anti-situacionistas. Porém, existem situacionistas, ou seja, indivíduos que constroem situações. Importaria aqui clarificar esse conceito de situação, pois o próprio não se impõe com a clareza de uma ideia inquestionável. Na língua portuguesa o conceito é dúbio, mas na língua portuguesa situacionista é aquele que apoia a situação política existente. Seja como for, tomemos de princípio que um situacionista é um revolucionário, um indivíduo inconformado, rebelde, que procura de alguma forma agitar as águas paradas onde singram as ideias. Ou seja, exactamente o oposto do indivíduo conformado com a situação existente. Sendo assim, uma situação tanto pode ser, de um ponto de análise geográfico, o local onde algo se situa como, de um pronto de vista mais sociológico, um complexo de fenómenos que, entrecruzados, dão forma a um determinado estado de coisas. Uma situação pode ser, à maneira de Kuhn, um paradigma; e o situacionista será, então, aquele que constrói paradigmas. Mas os paradigmas que o situacionista gera só poderão ser antíteses dos paradigmas vigentes, pelo que, ainda à maneira de Kuhn, o situacionista é aquele que vive na e para a revolução, nesse momento extraordinário de experimentação, de confronto e de conflito, de rompimento, de fractura, de ruptura. O situacionista é pois, aquele que se localiza na erupção das situações. Os bons artistas são todos eles, de alguma forma, situacionistas. Isto porque os bons artistas, sejam eles poetas – todos os bons artistas são, de alguma forma, poetas -, músicos, cineastas, bailarinos, actores, etc., não convivem confortavelmente sem um permanente questionamento dos cânones. Os artistas cimeiros não se deixam sequer canonizar, as suas obras acabam sempre transcendendo a voragem aglutinadora dos poderes instituídos. O grande artista é o recluso que está em permanente estado de fuga, é aquele que grita, a plenos pulmões: «sumam-se, sumam-se, críticos de arte, imbecis parciais, incoerentes e divididos!» Neste sentido, paradoxalmente, pode parecer que o situacionista está em conformidade com os tempos modernos, na medida em que os tempos modernos são tempos de crítica ausente, são tempos de críticos sumidos ou subsumidos nos excessos de opinião, de criação, de mercado. Assim, a «crítica geral desta actualidade» em que vivemos não pode ser outra senão aquela que exige o retorno dos críticos, anseia pelo seu regresso, resiste a um futuro medonho em nome de um passado perdido. Os vanguardistas de hoje assemelham-se a nostálgicos de um tempo que passou, amedrontam-se perante a ausência de perspectivas presentes quanto a um futuro que temem venha a fazer tábua rasa de tudo o que não tresande a dinheiro, comércio e mercado, numa visão utilitarista da vida que usurpa a tudo o seu valor intrínseco . Porque o espectáculo que está montado parece já não poder vir a ser pior – onde tudo é espectáculo já nada é espectáculo -, sonha-se com um retorno aos tempos em que o espectáculo ainda emergia. Porque o que se tem hoje não é senão o que noutros tempos se desejou, uma anarquia imposta pela ditadura subjectiva do gosto. E essa anarquia só não se reflecte na esfera política na medida em que a esfera política ainda logra revestir-se de um discurso que ludibria o por demais evidente aos olhos de quem pretenda olhar para lá do seu umbigo: reinam os mais fortes, os mais fracos que se sujeitem. «A moeda é a obra de arte transformada em números», escrevia Asger Jorn em 1960. Tinha e tem toda a razão, conquanto a obra de arte seja também hoje em dia um número transformado em moeda. Sobre o porquê disso ser assim, o melhor é perguntarem aos críticos que sumiram.

TESOURINHO DEPRIMENTE

Uma das cenas mais ridículas na televisão portuguesa dos últimos anos, ocorre num programa de seu nome Sempre em Pé - programa supostamente humorístico, todo ele algo deprimente, exibido na RTP2 (TV2? 2:?). O apresentador, Luís Filipe Borges, senta-se, o que, por si só, deverá ser interpretado como um movimento de ironia num programa com o nome que é o deste. À sua frente está qualquer coisa que tanto pode ser um computador portátil aberto como, porque nós não sabemos, uma pianola de brincar. Atrás do computador, ou à frente, dependendo da perspectiva, o apresentador como que sugere estar a escrever o endereço electrónico para onde os telespectadores deverão enviar os seus vídeos caseiros, todos eles ligeiramente mais deprimentes que o programa em si. Nós não sabemos se ele está a teclar o endereço, se aquilo é um computador, só sabemos que os gestos do apresentador sugerem essa acção. A questão é: para quê? Não bastava dizer o endereço? De certa forma, aquele momento faz-me lembrar uma cena ocorrida durante uma reportagem realizada numa qualquer edição do Festival Vilar de Mouros. Uma indígena, na casa dos seus 50, ao ser abordada por um jornalista que pretendia saber se a senhora já tinha visto um fenómeno tão extraordinário como aquele que então presenciava, respondeu: «Não, assim não. Quer dizer, só vi na rádio.» Luís Filipe Borges tem cara de bom rapaz, por certo saberá fazer melhor.

COINCIDÊNCIAS

Fiquei ontem a saber pelos weblogs Pobre e mal agradecido e frenesi que faleceu o filósofo norte-americano Richard Rorty e que passaram 10 anos sobre o desaparecimento de Al Berto. Comecei a ler Al Berto aos 17 anos, antes de ir estudar para Lisboa. Tinha O Medo, já adquirido através do Círculo de Leitores, que depois o próprio autor me autografou, como de resto fez a outros livros dele que possuo cá em casa. Li a poesia de Al Berto com muito gosto durante esse período de transição da adolescência para a idade adulta, depois, confesso, desinteressei-me. Curioso, agora que penso nisso, devo ter começado a ler Rorty, já no último ano da Faculdade, para aí em 1997, quando deixei de ler Al Berto. Nada senão o acaso ligará os dois factos. Isto para quem acreditar no acaso, isto é, em coincidências sem explicação.

ANTIMUNDOS

O nosso vizinho Bukáchkin
Usa ceroulas cor de mata-borrão.
Mas brilhantes Antimundos
Flutuam sobre ele como um balão!

E nele vive, por magia,
Domando o mundo como um demónio,
Anti-Bukáchki, o académico,
Tendo nos braços Lollobrígidas.

Mas os sonhos de Anti-Bukáchki
Parecem cor de mata-borrão.

Vivam, pois, os Antimundos!
Fantasias no meio do lixo.
Sem estupidez não havia esperteza,
Nem havia oásis sem desertos.

Não há mulheres – só anti-homens.
Nas florestas rugem antimáquinas.
Há o sal da terra e também o lixo.
Que seria do falcão sem a serpente?

E como amo os críticos meus!
Na calva de um deles,
Perfumada e lisa,
Brilha uma anticabeça!...

Eu durmo com as janelas bem abertas,
E em qualquer parte acena-me uma estrela cadente,
E um arranha-céus como uma estalactite
Do outro lado do globo está pendente.

E sob mim de pernas para o ar,
Espetado como um garfo neste globo,
Despreocupado como um insecto,
Vives tu, meu antimundo!

Mas para quê no meio da noite
Se encontram os antimundos?

Para que é que se sentam juntos
A ver televisão?

Não trocam palavra e esse encontro
É o primeiro e não há outro, não.

Estão sentados, esquecendo o
bon ton,
Como se hão-de sentir depois envergonhados!
Hão-de ficar de orelhas encarnadas
Como duas grandes borboletas pousadas…

Um conferencista meu amigo ontem
Disse-me: ‘Antimundos, para quê?’

E eu fico com o sono agitado
Pela verdade científica das coisas…

O meu gato, como um aparelho de rádio,
Com os seus olhos verdes sintoniza o mundo.


Tradução de Manuel de Seabra.

Andrey Andreyevich Voznesensky

Andrey Voznesensky nasceu em Moscovo no dia 12 de Maio de 1933. Formado em arquitectura, publicou os seus primeiros poemas em 1958. Em 1960 apareceram as suas primeiras recolhas: Mosaico e Parábola. É um dos poetas soviéticos mais conhecidos no estrangeiro, elogiado por Robert Lowell, adorado pelas massas durante performances realizadas em salas de espectáculo e universidades, mas muito criticado por alguns conterrâneos que o criticaram de "formalista burguês". Membro de várias academias, recebeu em 1978 o maior prémio de poesia da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

12.6.07

PRAGA

Preparem-se, este ano será pior que nunca. Fui à Foz na tentativa de beber um café da avó, acompanhado de um filhós e da leitura de um conto zen ou de mais um poema dos que Armando Silva Carvalho publicou recentemente num calhamaço intitulado O Que Foi Passado a Limpo. Provavelmente o meu sossego incomodava muita gente, nomeadamente o casal que nas minhas costas pôs-se a falar ao telemóvel naquele modo em que se ouve tudo – não me perguntem qual, não percebo nada de telemóveis -, oferecendo-me assim a novidade de que haviam sido avós, estavam muito felizes, embora a irmã da senhora estivesse de cama com mais uma das suas merdas (sic). Como se não bastasse, a meu lado sentou-se um grupo de quatro joviais raparigas a experimentarem toques de telemóvel, entre os quais descortinei uma melodia dos AC/DC. Havia também um rapazito a tirar-me fotografias com o telemóvel, vá-se lá saber porquê, enquanto os pais degustavam descontraidamente um prato de caracóis. Não me restou outra alternativa senão levantar-me, abeirar-me do cais e ponderar deitar-me à água ou fumar um cigarro. Dado o frio que se fazia sentir, optei por fumar um cigarro não fosse apanhar uma bronquite. Os telemóveis são uma praga. A capital da República Checa não tem nada que ver com isto.

O NOVO AEROPORTO


Perguntas-me sobre a Ota. Não entendo nada de engenharias, meu amor, e não estou para inventar mais um trocadilho com o nome dessa terra acerca da qual todos falam e muito poucos são os que sabem onde fica. Só sei que o meu aeroporto será sempre no colo do teu útero.

A GALERIA DO PRÍNCIPE

Há mais Nada para além do nada. De uma entrevista a João Tabarra, duas respostas a duas perguntas que penso também serão do agrado da Maria João:

Como é que se calcula o desejo de ser artista dentro daquilo que foi o teu ambiente familiar e depois como fazes essa progressão para uma experiência com os média e de que modo isso refunda a tua intenção artística e a tua vida?

Dentro do meu ambiente familiar digo-te as coisas de uma forma muito directa: tratou-se de fuga para a frente. Ou seja, o que eu me lembro desde miúdo é de que não gostava de nada do que me rodeava. Todos os códigos sobre os quais fui educado resumiam-se à máxima: o importante é encher a barriga. Naquela compressão que era o meio familiar só me restou a fuga, mas uma fuga não pensada, não programada. Por outro lado, naquela altura não havia interesse nenhum pelos jovens artistas, nem todo o circo em redor dos novos artistas que há hoje. A ideia do jovem artista não existia sequer. Agora existe e tornou-se uma ideia de mercado. Agora temos esta aura que existe à volta do jovem artista que é alimentada pelo processo acumulativo e aglutinador capitalista, onde é o mercado que manda – uma necessidade de renovação permanente e de visibilidade imediata. Dou-te um exemplo. se a arte em si fosse importante, se a proposta artística e do artista circulasse, as exposições não se circunscreveriam ao acto inaugural na capital. Mas essa circulação está armadilhada porque toda a atenção mediática recai sobre a exposição inaugural e mais nada, a atenção esgota-se aí. Os média, os críticos celebram a exposição mas se esta for para a Guarda, para Évora, então deixa de lhes interessar. Quem manda é uma crítica ou uma notícia de jornal. E se a visibilidade já acabou, então já não interessa a circulação. O que interessa não é a arte, não é a tua proposta, nem sequer é o artista ou um projecto, mas simplesmente o acontecimento mediático que prevê também uma celebração da força da própria estrutura que expõe o artista. Se isto é perverso? É. Mas esta é a realidade.

(…)

Para ti a arte é também um gesto político? De que modo distingues a arte da política e de que modo as interpretas? E de que modo, sendo a arte apreciada por uma elite muito restrita pode almejar outra coisa senão produzir um jogo perverso para regozijo do sistema capitalista, em que a própria subversão é um valor de mercado e mesmo um valor luxuoso, uma espécie de bem dispendioso só acessível às classes altas e só entendível pelas elites do conhecimento, as elites culturais? A arte por mais subversiva parece sempre servir o poder/saber.

É claro que sim, e como sabes, sempre afirmei, a arte é um acto político – o que não tem nada que ver com a ideia menor do que comummente entendemos por política. Falo da organização, partido, parlamento, governo e por aí fora. É um gesto que pode ser de confronto, de crítica, de afirmação, um espaço para a proposta, para a dúvida, penso ser fulcral entender isto de forma a escolher como poder actuar numa sociedade do conhecimento. Agora se me dizes que a arte sempre foi de e para as elites, de fruição restrita, algo como um acessório para o sistema capitalista, bem, é verdade. É verdade que o que faço não entendo como popular e é verdade que, e para utilizar outros termos, a revolução que virá também já está contabilizada pela máquina devoradora que é o nosso sistema capitalista, pois é um sistema englobante, ele não exclui nada, simplesmente actua em apropriação e engloba. Mas João ou Joões [João Urbano e João Gusmão], a revista NADA não é certamente um anexo do Borda d’água e os seus leitores são certamente uma elite. Espero que não exista aí nenhum resíduo romântico… É claro que eu, nós precisamos do mercado. Eu preciso de atribuir um valor ao meu trabalho e ainda mais preciso muito que o comprem… com isto não se pode encurralar ninguém; parece que a arte tem que ter qualquer coisa de divino ou de despojamento paras atingir o quê?... O puro?... Não, nesse buraco eu não entro. É verdade que, e não me querendo repetir, toda a arte, mesmo a mais subversiva, acaba sempre por servir o poder mas também acredito, e falo de mim enquanto autor, enquanto homem, que há maneiras e maneiras de actuar na arte e ainda não me viram baixar os braços, muito menos a guarda. O problema é que com o total domínio do inconsciente, do vale tudo, do folclore, o espaço de poder que a «indústria cultural» dispõe para actuar ocupa praticamente tudo, e é extremamente difícil a um receptor menos atento distinguir entre o que é hoje arte ou que tipo de arte podemos e devemos propor e como o fazer. E toda a panfernália de materiais glamorosos que os milhões de artistas e comissários afirmam ser necessário, aí sim, parece que estamos cada vez mais dentro da «Nova Galeria do Príncipe».

Caso pretenda adquirir a NADA pode contactar os editores através do e-mail:
mail@nada.com.pt. Pode ainda visitar o sítio da revista em: www.nada.com.pt.

11.6.07

O LIVRO PORÉTICO

Continuando a ler o mais recente número da revista Nada, esta explicação do poeta Silva Carvalho, aqui fragmentada em critérios que são meus, sobre a essência do livro porético:

Como é pois um livro porético? É um livro constituído por um certo número de porismas escritos durante um curto espaço de tempo para que sejam impregnados por uma certa tonalidade afectiva. Quando digo, para que sejam, não estou a evidenciar uma intencionalidade, antes comunico uma comprovação, por mais díspares que pareçam ser os conteúdos temáticos desses porismas. (…) As agramaticalidades, os solecismos, as sintaxes duvidosas, etc., são sempre bem-vindas. E a justificação não é só dizendo que um livro porético não é propriamente artístico (já que a sua profunda motivação, infelizmente, visou mais a terapia e a manutenção da sanidade mental), sendo-lhe pois indiferente a beleza, mas afirmando que, sem que se trate de automatismos da escrita como foram concebidos pelo Surrealismo, a Linguagem Porética sempre concedeu à linguagem a sua quota-parte de liberdade e o seu estatuto de revelação da inexistência através da irrupção do disparate ou do inarticulado (Estética da Estupidez). (…) O livro porético, obviamente, também não poderá deixar de transmitir uma visão ideológica, só que esta visão será sempre, dadas as características da estrutura que o definem, uma visão aleatória, independente de quem escreve, isto é, do escrevedor, sujeita a constantes contradições, a acidentes de percurso, ao acaso e à contingência, a diversas circunstâncias, pois um porisma sobre um determinado assunto escrito numa certa data poderá contradizer ou não ser coincidente com um outro escrito numa outra ocasião, sem que, finalmente, o leitor possa saber ao certo qual é a visão ideológica do autor do livro porético.

DESTAQUES


Pois bem, a partir de agora o Insónia também terá uma coluna de destaques. Irão ficando por ali, entre as outras casas e os outros weblogs, em crescendo, de A a Z, um por semana. Não farei filosofia sobre este assunto, que pretendo encarar apenas como uma variante desta brincadeira que é (man)ter um diário on-line. Começo com o Art&Tal, um autêntico laboratório de artnet da autoria do poeta experimental César Figueiredo. É um weblog anticonvencional, à semelhança de outros do mesmo autor, que me agrada por isso mesmo.

P.S.: Dado absolutamente irrelevante mas que convém não deixar em branco - César Figueiredo é amigo da "nossa" Maria João, o que não influiu, como é óbvio, na minha escolha.

PROPAGAÇÃO

Os micróbios em estado de propagação: aqui.

METAMORFOSE


De um momento para o outro, passámos de um país exemplar na evasão fiscal para um país inflexível na invasão fiscal.

COMO EU COMI A CABEÇA DO ESCORPIÃO BUDISTA


Eu tenho a poesia toda metida no meio
do teu silêncio, digo, o
que só cega cabe a demorar
um pouco mais a vinda da ausência que
se vem
é porque o mundo foi feito de outra forma
e nós não estávamos lá para dar a nossa,
ou simplesmente sorrir.

Frio__pessoa de querer bem e
afligir cabeça de família, dinheiro
para o mês. Não consigo suportar
a palavra de o amor não ser um
acto de vontade. Não quero vencer
porque isso seria a forma mais
discreta de emigrar e eu não quero
ser discreto, se os documentos
subidos a custo para eu poder
ouvir música, sozinho no meu quarto,
às cinco da manhã.

Que te basta perceber de mim?
(Não foi fácil descobrir que eu sou
do tamanho do teu mundo.)
Diz assim o teu mestre de yoga:
árvore, era uma vez
depois de muitas vezes descobriu
que estava presa à terra
e ao ar
e ao sol
e à chuva
e não apenas ao seu corpo.
Por isso que a árvore tinha que escolher:
ou era vaidosa ou não era ignorante.
Tu achaste que isto era uma metáfora.
Eu pensei (mas não disse):
- Não é fácil ser amigo de uma árvore.
- Porquê?
- O sol, a chuva, o ar.
- E depois?
- Nada. Vou buscar água.

E fui deitar-me na minha apetência pela
tarde até acordar com a água verde a subir-me
pelas costas. Foi simples levantar-me. Havia uma
casa mas ninguém se aproximou. Deixaram-me
reparar sozinho as consequências da que podia
nem sequer ter existido.


Rui Costa

10.6.07

10 DE JUNHO

dez de junho

A RAIZ DO PROBLEMA

Ainda a ler a Nada, de uma entrevista a Roy Ascott:

Não é por acaso que a mais forte ideologia de apoio à administração Bush seja a tradição cristã. Temos de nos questionar: do que é que eles têm medo? A face do Islão com que somos confrontados é simplista e grosseira, ignorando a profunda riqueza cultural e intelectual por detrás do pensamento não-Ocidental. É uma questão sobretudo - e vou ter de falar de política - de petróleo e numa perspectiva mais ampla, de colonização do mundo, mas penso que seja também o medo de que este tipo de conhecimento, que desde há 300 anos as instituições têm mantido à distância, nos retraía de algum modo, pelo que encontramos então várias formas de o reprimir.

INTERFACE


Dantes não me aconteciam coisas destas. Acordava descansado do sono, olhos abertos para o dia, saía de casa com todos os rumos mapeados nas certezas dos esboços desenhados antes de adormecer. Agora, assim que me levanto, sinto nas pernas uma dificuldade de articulação dos movimentos. Custa-me andar, pôr um pé à frente do outro, custa-me coordenar um músculo que seja na direcção dos objectivos que foram ficando pelo caminho. Não respiro pior, verdade seja também que não respiro melhor. Mas olho os ponteiros do relógio e invejo-lhes aquela dinâmica absoluta, a lógica dos movimentos, a coordenação, aquela cadência inabalável dos segundos que passam pelos minutos que passam pelas horas que passam. Gostava que as minhas pernas fossem como os ponteiros do relógio, dessem uma volta ao seu percurso de sempre e reiniciassem, como se nada tivesse acontecido, mais uma volta ao de sempre percurso. O problema são os buracos pelo caminho, os obstáculos, as barreiras arquitectónicas. O problema são as próprias pernas, que tropeçam umas nas outras como veias entrelaçadas, impedindo o sangue de chegar aos seus portos. Agora que me sento aqui a olhar as pernas do tempo, penso quão belos poderiam ser os caminhos não houvessem sobre eles pés calejados de pressa, varizes, fungos. O que dá cabo das pernas são as unhas dos pés.

9.6.07

UNBELIEVABLE

Este vídeo é das coisas mais fantásticas que vi nos últimos anos. Não percam. Temos tudo a aprender com os búfalos.

OS DIREITOS DOS ANIMAIS #1

Via Desmancha-Prazeres:

O maior dos estados nigerianos, o de Kano, no Norte do país, com uma população predominantemente muçulmana, processou esta semana a multinacional farmacêutica norte-americana Pfizer, à qual pede 7000 milhões de dólares de indemnização (5200 milhões de euros) por ter utilizado 200 crianças como cobaias para um teste que levou a 11 mortes e a muitas deformações. As autoridades daquele estado de quase seis milhões de habitantes, essencialmente das etnias hausa e fula, acusam a Pfizer de em 1996 ter utilizado secretamente crianças africanas para experimentar o medicamento Trovan Floaxin, como se de um gesto humanitário se tratasse.

8.6.07

INSÓNIA



Joaquim Rocha, Insónia, 2007

OS MERDAS

Na cidade onde eu nasci havia vários tipos de merdas. Havia as merdas que todos sabiam, as que não eram segredo para ninguém, embora poucos ousassem afirmá-las à boca alta. Isto porque normalmente essas merdas eram sobre uns merdas que detestavam ser visados no nevoeiro da vozearia, tinham um estatuto a preservar, um lugar reservado na família. Estes merdas tinham a sua importância, a sua influência, logo convinha não espalhar pelas ruas a fragrância que emanavam quando abriam as portas da boca para um cumprimento cínico. Importa esclarecer que as merdas que ficavam segredadas eram merdas que, bem vistas, não atingiam apenas os merdas visados como também os que as traziam entaladas no gasganete. O que espanta é como sendo merdas de todos sabidas continuavam por todos bichanadas, precavidamente bichanadas, zurzidas apenas no ringue dos álcoois, no recato das famílias, à luz de vela. Isto só prova a existência de uma espécie de hierarquia de gravidade nas merdas que se sabem. É que uma coisa é saberem-se merdas pelos cantos da orelha, de ouvido, outra coisa é serem elas cuspidas pela ponta dos dedos, assim como quem aponta, acusa, prova e dá a provar as merdas que diz saber mesmo quando saber significa desconfiar. Pouco mudou desses tempos para cá, o que me obriga a constatar estar a merda na mesma. Ainda que agora seja muito mais fácil propagar fragrâncias, muitas e mais sofisticadas são também as ventoinhas que protegem os merdas das merdas por eles obradas. O problema é que, como sabemos, quem caga contra as ventoinhas arrisca-se a levar em cima com alguns nacos do excremento. Mas isto parece não constituir problema para muitos, tão habituados que estão a chafurdar na dita. Como sói dizer-se, num mundo onde só cheira a estrume ninguém pode descortinar o odor dos roseirais. Há, no entanto, uma grande diferença. Os merdas andam mascarados, já não cochicham mas andam mascarados, cheios de base na venta, maquilhados até ao tutano, besuntados de mofo. Julgam-se uns heróis lá no bairro dos seus escritórios, nem os gatos domésticos que trazem por casa os admiram, mas eles sonham, anseiam pelo ronronar felino do assombro. Se os gatos não miam, logo os pontapeiam, logo os chutam para outras bordas. Resta-lhes o canto de alguns periquitos enjaulados, meticulosamente servidos a horas com a alpista dos louvores. No fundo, deixaram tão-somente de serem merdas para passarem a ser merdosos. É isso que os distingue dos demais que ficaram na cidade onde eu nasci.

PROGRAMA

O número 9 da revista Nada abre com um excelente ensaio de Daniel Innerarity, intitulado Pensar a ordem e a desordem: uma poética da excepção. Para já deixo um excerto, ficando prometido para depois o post do costume:

As pessoas e as instituições dividem-se entre aquelas que não podem suportar a ordem e as que não podem suportar a desordem. Mas o comportamento inteligente move-se sempre nestes extremos, até mesmo para além de tal alternativa. Muitas experiências não se podem explicar através dessa dicotomia simplificadora. Não se trata nem de ignorar a distinção entre a ordem e a desordem nem de fundi-la, mas sim de tratá-la como uma distinção que é preciso aprender a orquestrar. O decisivo é pensar e agir para além de uma simples alternativa entre a ordem e a desordem, que nos obriga a escolher entre a rigidez e a anarquia, como se entre ambos os pólos não houvesse espaço para a anarquia regulada ou para a articulação de elementos autónomos.

Ora aqui está um belo programa poético, no sentido em que um programa poético resulta, ou deverá resultar, de um programa de vida.

UM TOQUE

Estive
algumas vezes só
como um rochedo
batido pelas bestas ondas verdes
do mar adjacente. Só
é como estar ausente
no centro exato. Limita por dentro.
O céu redondo, capa impermeável
ou sobretudo lírico, acrescenta
um toque de ironia
ou de clemência: ave,
algumas vezes chuva,
no mínimo uma estrela.

Rubens Rodrigues Torres Filho

Rubens Rodrigues Torres Filho nasceu em São Paulo no ano de 1942. Publicou o seu primeiro livro, Investigação do olhar, aos 20 anos. À época, era o poeta estudante de Filosofia na Universidade de S. Paulo. Voltou a publicar em 1981, O vôo circunflexo. Tradutor de filósofos clássicos, Rubens Rodrigues Torres Filho é também ensaísta.

7.6.07

OS CONTRAS DO ESQUECIMENTO


O Irangate foi há 20 anos. É uma data bonita de ser comemorada. O que foi o Irangate?

US political scandal in 1987 involving senior members of the Reagan administration (the name echoes the Nixon administration's Watergate). Congressional hearings 1986–87 revealed that the US government had secretly sold weapons to Iran in 1985 and traded them for hostages held in Lebanon by pro-Iranian militias, and used the profits to supply right-wing Contra guerrillas in Nicaragua with arms. The attempt to get around the law (Boland amendment) specifically prohibiting military assistance to the Contras also broke other laws in the process. Arms, including Hawk missiles, were sold to Iran via Israel (at a time when the USA was publicly calling for a worldwide ban on sending arms to Iran), violating the law prohibiting the sale of US weapons for resale to a third country listed as a ‘terrorist nation’, as well as the law requiring sales above $14 million to be reported to Congress. The negotiator in the field was Lt Col Oliver North, a military aide to the National Security Council, reporting in the White House to the national-security adviser (first Robert McFarlane, then John Poindexter). North and his associates were also channelling donations to the Contras from individuals and from other countries, including $2 million from Taiwan, $10 million from the sultan of Brunei, and $32 million from Saudi Arabia. The Congressional Joint Investigative Committee reported in November 1987 that the president bore ‘ultimate responsibility’ for allowing a ‘cabal of zealots’ to seize control of the administration's policy, but found no firm evidence that President Reagan had actually been aware of the Contra diversion. Reagan persistently claimed to have no recall of events, and some evidence was withheld on grounds of ‘national security’. The hearings were criticized for finding that the president was not responsible for the actions of his subordinates. North was tried and convicted in May 1989 on charges of obstructing Congress and unlawfully destroying government documents. Poindexter was found guilty on all counts in 1990. Former defence secretary Caspar Weinberger was pardoned in 1992 by President George Bush to prevent further disclosures. In December 1993 the independent prosecutor Lawrence Walsh published his final report. It asserted that Reagan and Bush were fully aware of attempts to free US hostages in Lebanon in 1985–86 by means of unsanctioned arms sales to Iran. The total cost of the Irangate enquiries came to $35 million. »