30.9.07

PARAFFIN


Sempre que regressas com o teu coração de pedra, deixo-me cair na terra como um cavalo cansado, adormeço sobre as ervas ao relento da melancolia, aguardo que uma nuvem caia sobre mim como um meteorito, alimento o corpo, dieta extrema de sonhos impossíveis. E tu chegas como uma pedra atirada contra o vidro dos sonhos, para que uma droga possa salvar-me mais uma vez do cheiro opulento dos teus desejos adiados.

DA INSÓNIA


Perdem-se todos os caminhos dessa casa
que não pára ao longe de fechar-se à tua espera
e de novo o cavalo do sono cai exausto
nas areias onde o tempo foi vencido
e as aves de passagem se esquecem de voltar

Miguel Serras Pereira

Miguel Serras Pereira nasceu em 1949 no Porto. Poeta, ensaísta e tradutor empenhado de autores como Alberto Morávia, Simone de Beauvoir, Adolfo Bioy Casares, Marcel Proust, Cervantes, entre muitos outros, teve ainda uma breve passagem pelo jornalismo. Com vasta obra publicada, estreou-se em 1979, em colaboração com Maria Regina Louro (outras sucederiam), num volume intitulado Novas Bárbaras. Em 1980 publicou Inumerações. Em 1989 recebeu o Prémio de tradução do Pen Clube/APT.

29.9.07

ONLY YOU


Não são as coisas nem os outros, somos nós e as nossas indecisões, os impasses, apenas ninguém de quem nos rodeia dar por isso, reparar, entender, nós e os outros separados por linguagens diversas, incomunicáveis, impartilháveis, eu aqui e tu longe, algures sentada comigo no pensamento, eu aqui sentado contigo no pensamento, dando à luz sombras que jamais entenderás, nubladas hesitações, inseguro nesta cadeira, recostado nos pensamentos, a imaginar os dias que virão.

O CANALHA

Manter um erro por simples orgulho é pura tolice, fazer questão de nem sequer se dar conta do erro é estupidez, insistir nas duas é canalhice.

HONNÊTE HOMME #2

Os heróis do papel branco, empunhando suas espadas de feltro, cedem ao mínimo sinal, ao mais ínfimo indício de lombada. Tão ansiosos de capa e contracapa, assinatura em relevo, raramente logram dizer não aos indícios de lombada. Depois pousam, coçam as barbichas, metem a mão sob o queixo, desculpam-se como podem de terem sido fracos. Como os heróis do papel branco não têm carne, como apenas têm vida de papel, o dito de que a carne é fraca não resulta como eles. Com eles fraca é a consciência, a sacola da honestidade.

CARREIRAS DE FUTURO #2


Via Frenesi.

CAVALHEIROS

Este filme pornográfico, de conas e marsápios condescendentes, começa a raiar a sequela derradeira, aquela em que assim sentados na plateia nos vem logo à narina o cheiro pútrido dos casebres à beira estrada. É um cheiro espesso, enfia-se-nos pelas narinas e bate-nos no pulmão como uma pedra atirada contra a tijoleira no fundo de um poço. Gera-se um eco estranho, sobe à garganta, embucha-nos, pede para ser arrotado. E nós arrotamos o eco como quem raspa gritos na pedra, como quem ateia uivos, parte os dentes, morde a língua. Este filme pornográfico já leva muitas horas, muitos anos, muitas décadas. As putas ora reclinadas junto à sombra dos proxenetas, só mudaram a maquilhagem, passaram algum detergente pela pele, não fossem ficar declaradamente manchadas aos olhos de quem manda. Como pudemos nós, imenso rumor, continuar sentados na plateia a assistir a um filme destes sem nada fazer? Como podemos nós permanecer ofuscados pela sombra do sobreiro, enamorados pelo paleio das guitarras, dos passarinhos, das cigarras? Como podemos nós continuar no campo como se o campo fosse ainda um traço na paisagem?

A casa no tempo # 17


Fragmento #14 – Textos anónimos


Maria João

CARREIRAS DE FUTURO

A propósito destas palavras de José Pacheco Pereiro, constato agora o facto de que todos os meus amigos que andaram metidos nas jotas e nos partidos estão bem empregados.

DEIXAR FALAR QUEM SABE

Uma das razões porque Menezes ganhou foi porque assumiu o papel de sindicalista do aparelho do partido, como já tinha sido com Valentim Loureiro contra as propostas de Rio. Não foi a única razão, mas foi importante. Prometeu-lhes todos os despojos de guerra, os lugares de deputados, do Parlamento Europeu, das autarquias, empregos, tudo. Isto foi uma força em campanha, mas vai ser uma fraqueza no deliver. É que agora vai-se defrontar com a escassez, não há lugares para todos.
(...)
A outra razão pela qual Menezes ganhou, a mais importante para os votos que obteve, tem a ver com a incapacidade do PSD suportar mais tempo de oposição e ter "pressa" de chegar ao poder. Por isso acredita no Houdini, no milagre salvador que lhe dê esperança de, sem trabalho, nem reflexão, nem mudança, aparecer na manhã seguinte instalado em S. Bento.
(...)
Na lista dos pecados mortais inclui-se a "preguiça" e muita gente pensa que o pecado é mesmo a preguiça. Não é: o pecado mortal é a acedia que é outra coisa bem diferente. Um dos textos mais interessantes da Summa Theologica de Tomás de Aquino é sobre a acedia e por ele se percebe por que razão é um dos pecados "espirituais" mais complexos da lista cristã. A acedia é a indiferença face ao mal, uma "tristeza" face ao bem (Tristitia de bono spirituali) que mata a acção, um torpor perante uma obrigação presumida.
Um dos grandes e eficazes eleitores de Menezes foi a acedia.

Ficaremos à espera para saber em quem votará JPP nas próximas legislativas. O sublinhado é meu.

28.9.07

QUERIDO DIÁRIO

Hoje atendi um tal de Senhor Olé e uma Senhora Dona de 83 anos que chamou o marido por ‘mor.

PALAVRAS QUE METEM RESPEITO*

O silogismo é canónico demais para ser verdade. Práticas bibliópalas, lombadas de folhosos, a rogo da, o non-finito levado ao extremo, o langor espoletado pelas coisas demasiado cómodas e a inquietude causada pela coisa incerta que tanto nos diviniza, como essa coisa bofetada distante, divinamente violenta, que é a matéria Livro, num plano de suspensão volátil, claustrofobia da coisificação, solamente arriscar, os livros têm um sexo de sacras obscenidades que não é de pénis nem de vagina, a concentricidade própria do amor secreto, um esquentado prisma de cama, não mudemos de parlenga, o amplo vesúvio da amizade, arrebatantes cenários camilianos, espécie de paraprática, o mais paratáctico possível, o véu da questão canónica, não posso puxar de mais acordo, sou tísica de leitura, abri as pernas do livro, quando dei fé de mim, horas de sorvedouro das carnes, prazer frutífero de águas correntes, folhetotes vendidos aos rores. Um livro não é um pénis, não é uma vagina. Quando muito, uma lâmina, um pedaço de merda incomodativa, um bisturi, uma anestesia.

*Colhidas n’O regabofe. Colagem minha.

27.9.07

VIVER À SUPERFÍCIE DE NADA

No Call Center onde ando a biscatear, de segunda a sábado, das 18 às 22 (ao sábado o horário é diferente, mas ainda não cheguei lá), vê-se e ouve-se de tudo um pouco. Aquilo é assim a modos que uma sala de Hospital, cheia de gente doente a lutar pela sobrevivência. Hoje houve um cão que me atendeu uma chamada e um tipo simpático, chamado Frangocu (ou coisa que o valha), ia quase comprando-me o produto. Mas o mais extraordinário é que confirmei os meus dotes para a vidência. Do outro lado da linha, fui digna e simpaticamente recebido por 7 mortos.

Fragmento #56 – Limpar o pó


Contrataram-me para um evento especial num museu – isto de viver de biscates tem que se lhe diga, pelo menos vai variando; e lá fui trajada a rigor – brincos antigos de esmalte e ouro (prenda da família), saia de bom tecido, sapatos clássicos, echarpe de seda . Deparei-me então com um director que nada tinha a ver com o meu contrato e vi logo que ele era do tipo que não gosta de mulheres – já os topo pelo cheiro à distância. O dito cujo não gostou do meu saco de tecido indiano – onde transportava o cofre do dinheiro para os pagamentos, entre outras responsabilidades do evento; e não sei porquê, ele decidiu mandar-me limpar o pó das cadeiras onde as pessoas se iam sentar, entregando-me um pano com ar de nojo; calmamente, eu limpei o pó com uma classe que ele desconhece e logo a seguir levou comigo: chegaram as funcionárias do museu que me tiraram o pano das mãos, dizendo que eu não tinha que fazer aquilo. E ele que estava de braços cruzados a arrotar postas de pescada sobre a melhor disposição do material teve de me aturar a colocar ordem nos assuntos em termos práticos e sempre ao contrário das suas ordens, perante a satisfação das funcionárias. Durante o evento fui apresentada oficialmente à criatura, afirmando logo que já nos conhecíamos e ainda aproveitei para o fazer estremecer, publicamente, mais um pouco e com subtileza, porque eu limpo o pó como bebo chá ou descasco cenouras, é tudo igual.

Maria João

ANDA PACHECO!


O segundo a contar da esquerda chama-se João Pacheco. É rapaz de vários talentos, tem/teve um weblog (sempre mais morto que vivo), e foi a minha luz de esperança de hoje com estas palavras proferidas em discurso aquando da cerimónia de entrega dos Prémios Gazeta 2006: «Como trabalhador precário que sou, deu-me um gozo especial receber o prémio Gazeta Revelação 2006, do Clube dos Jornalistas. A minha parte do dinheiro servirá para pagar dívidas à Segurança Social. Parece-me que é um fim nobre. Não sei se é costume dedicar-se este tipo de prémios a alguém, mas vou dedicá-lo. A todos os jornalistas precários. Passado um ano da publicação destas reportagens, após quase três anos de trabalho como jornalista, continuo a não ter qualquer contrato. Não tenho rendimento fixo, nem direito a férias, nem protecção na doença nem quaisquer direitos caso venha a ter filhos. Se a minha situação fosse uma excepção, não seria grave. Mas como é generalizada - no jornalismo e em quase todas as áreas profissionais - o que está em causa é a democracia. E no caso específico do jornalismo, está em risco a liberdade de imprensa.» Ganda Pacheco!

IRAN GAYT

No Irão não há homossexuais, diz Ahmadine... não sei das quantas neste vídeo. Que fixe. Depois de saber que só há mulheres vestidas de preto dos pés à cabeça, quase que me convenço a ir viver para o Irão. Só que vejo isto e fico com algum receio. Hmmmm! Que acham?

TEMPOS MODERNOS

O gesto de Santana Lopes, supostamente a favor da salubridade nacional, um gesto digno contra a chamada sociedade de espectáculo, transformou-se rapidamente num produto dessa mesma sociedade de espectáculo. Se alguém tinha dúvidas sobre a natureza dos tempos modernos, tem neste facto um excelente exemplo.

HOJE NÃO HÁ POEMA

Hoje não há poema, meu senhor.
Michael Hamburger
Hoje não há poema, hoje há apenas uma, duas, três, quatro frases de Pasolini, em conversa, com Jean Duflot, a ecoarem na frustração: «Não vejo o que possa haver de mal em amar o povo, em verificar concretamente as suas ideias. Para mim, repito, as revoluções são feitas pelos povos actualmente mais próximos da terra: a revolução de Outubro é uma revolução de camponeses, as de Cuba e da Argélia também. Não estou a inventar nada. Não tenho culpa, mas é um facto que o enquadramento das cidades pelas aldeias determina os grandes problemas políticos do mundo». E por que me lembro eu destas palavras? Porque logo pela matina, em conversa com a minha sogra, escutei-lhe este desabafo: «a vida está difícil, as pessoas têm que submeter-se…» A vida está difícil. Ouço isto como se estivesse a ouvir uma tese filosófica proferida por uma eminência parda das letras, da cultura, das artes, da ciência política, do pensamento. Mas aquela conclusão a que tão rapidamente chegou a minha sogra, após a constatação das dificuldades da vida, aquela conclusão de que «as pessoas têm que submeter-se», ah!, essa conclusão é que me faz pensar, essa conclusão deixa-me de rastos. Penso e nada me ocorre. Não consigo pensar aquela conclusão, só consigo pensar que hoje não haverá poema. Hoje é o dia das pessoas se submeterem, não há poema. Hoje é dia de concordar, de aceitar, de engolir, de curvar, não é dia de poema. Está tudo explicado. A poesia morreu, está explicado porquê. Não há poema porque a vida está difícil. Quem quer poemas quando a vida está difícil? O que há é um povo a sair de casa na direcção do trabalho, há um povo a sair de casa na direcção do emprego, na direcção da procura, o que há é um povo a desenrascar-se da vida difícil, do desespero, da angústia, há um povo a queixar-se da vida, a dizer à vida que não é vida, a matar-se, a subjugar-se, a rastejar, um povo de gargantas subjugadas, presas à necessidade de respirar. Mas julgam vocês que se a vida estivesse realmente difícil o povo se submetia? Não me lixem. Está difícil para quem? A vida nunca esteve tão boa, essa é que é essa. Boa como um pântano espesso onde, muito lentamente, os corpos se vão enterrando. Mas boa. Só quando a lama estiver pelo queixo é que a vida estará difícil. Até lá, como no filme do Kassovitz, seremos um corpo em queda dizendo «até aqui tudo bem, até aqui tudo bem». Vocês sabem a conclusão. Se não souberem, lembrem-se dos corpos que se atiraram dos andares cimeiros das Torres Gémeas. Não estou a inventar nada. As revoluções não são feitas pelos povos, pelo menos em Portugal nunca forma feitas pelos povos. As revoluções são feitas pela miséria, pela desgraça, pelo estatelamento iminente. As revoluções são feitas pela fome. Haja febra para o bandulho, e não haverá poema. O povo, essa massa acrítica entre a qual nos encontramos, uns mais que outros como peixes fora de água, não pensa senão em função do que o bandulho exige. E enquanto der para desenrascar, quer lá o povo saber de direitos, de leis, de ser ludibriado. Dêem-lhe espectáculo, dêem-lhe a selecção dos pobres mas honestos homens do râguebi. Esses derrotados, espelho de uma nação há séculos fechada sobre os seus orgulhos mesquinhos, são o espelho que o povo anseia. E basta. Dêem-lhe os derrotados. Dêem-lhe orgulhos, orgulhos mesquinhos, inúteis, mas potencialmente enganosos, falaciosos, anestesiantes. Não lhe dêem poemas, os poemas não anestesiam. E a vida está difícil.

NO SEGUIMENTO DA PROVA

João Camilo prossegue a sua saga kafkiana nesta nossa querida ditadura burocrática. Leiam, leiam.

OK, TUDO BEM, MAS…

Por que motivo é mais importante escutar o que Pedro Santana Lopes tem para dizer sobre o PPD-PSD do que ver José Mourinho chegar a Portugal?
Adenda: Nada de anormal nesta situação. Santana esteve bem em não continuar (seria fastidioso ouvi-lo), a jornalista esteve bem em interrompê-lo (é sempre de bom senso interromper Santana). Como é óbvio, repetindo o que vou lendo por aí, que outros lhe sigam o exemplo. Não quero ser muito ambicioso, mas era mesmo fixe que muitos, quase todos, lhe seguissem o exemplo.

O COPO (poesia de entretenimento científico) - ADIADO

26.9.07

SANTANA AMIGO...


Não vi nem faço questão de (já vi), mas li aqui e aqui que certa classe de répteis continua a detestar ser vítima do seu próprio veneno.
Ler o Masson (por uma razão) e o Valupi (por outra razão).

TELEMARKETING

Entre o ruído das vozes que persuadem clientes e os dedos ansiosos digitando dados, o som da vassoura a varrer o chão soa a passarinhos a voar.

AO CUIDADO DE...

Já aconteceu escreverem-me por causa de posts, frases, poemas, pedirem-me justificações sobre isto e sobre aquilo, até já aconteceu exigirem-se satisfações sobre ausências, lacunas, etc. Mas nunca tinha acontecido telefonarem-me, ainda por cima uma amiga, para tecerem, entre outras coisas, considerações elogiosas sobre um texto sugerido no Insónia. Aconteceu relativamente a este texto, o que apenas prova, caro Lourenço, que os textos mais sofridos são sempre os mais bem sucedidos. A blogolândia está com o teu cu! As melhoras.

BANDEIRAS

Olho a televisão e vejo bandeiras, bandeiras de várias cores, erguidas e movimentadas bandeiras. Olho-as com estupefacção, não entendo a razão das bandeiras. Nunca entendi. Mas começo a compreender que não existe grande diferença entre essas bandeiras e as bandeiras que anunciam o sucesso de um operador de telemarketing ou de um funcionário da McDonald's. Corrijo, não existe mesmo diferença alguma. A agitação das bandeiras, sejam elas agitadas em que condomínios forem, nada mais é que um sinal de presença e de entrega. Os bons funcionários agitam bandeiras, ansiosos que estão, como cães de Pavlov, de verem tocada a sineta do cargo. O que a maior parte dos funcionários ainda não descobriu é que o cargo já não está a cargo dos regentes, os próprios regentes são já funcionários de outras bandeiras, não as das causas nobres, como o bem comum, mas as das causas panasorbes, como sejam a "analgização" da carneirada. É ao serviço dessa analgia que estão os regentes de hoje. E a quem interessa ela? Interessa às corporações, ou seja, às bandeiras. São as bandeiras quem mais ganha com a analgia dos bandeirantes. De certa forma, a relação é a mesma que o adepto mantém com o seu clube. Se é sócio, paga quotas. Quer ver os jogos, paga bilhete. Torce, esmaga, grita, berra, invectiva, anda à porrada, para quê? Para ver a sua bandeira no lugar cimeiro do podium. E que ganha o adepto com isso? Que ganha ele com esse esforço? O direito a dizer: ganhei. Na verdade, não ganhou nada. Não ganhou nem perdeu. No entanto, convence-se de que a energia despendida na movimentação da sua bandeira é-lhe recompensada, como o valor de um investimento que se recupera, no gozo que lhe dá poder dizer, a pulmões cheios e peito inchado, que ganhou. E surge novamente, à superfície dos nossos males eternos, a voz de São Tomás Morus: «Por toda a parte onde a propriedade constitui direito individual, e onde todas as coisas se avaliam por dinheiro, nunca poderá organizar-se a justiça e a prosperidade social, a menos que chameis justa a sociedade na qual o que há de melhor é pertença dos piores, a menos que considereis feliz aquele estado em que a fortuna pública é presa de um punhado de indivíduos insaciáveis enquanto a massa é devorada pela miséria.» Que levante o braço quem discordar. Perante isto, os meus dois ficam em sentinela, destas palavras não me importo eu de ser soldado, mesmo que não faça delas bandeira. A ter que fazer bandeira de alguma bandeira, farei bandeira do fogo às bandeiras. Não me move qualquer compaixão pelos ditos inocentes, sempre tão avaros na responsabilização e tão dispendiosos no que toca à culpabilização. A esses, desejo apenas a peçonha das bandeiras que trazem ao peito, ao colo, enfiadas no cu, entaladas na garganta. Mas de um ponto de vista mais pessoal, inquietam-me a subvenção da letargia, da analgia, da indiferença, do conformismo, da promoção de autênticos velhacos mascarados de salvadores da pátria, pasto e repasto das tais corporações. E vêm-me à memória, como factos batidos, versos de Gregório de Matos, ou de Tomás Pinto Brandão, diga quem souber, que me fazem pensar: já era assim naquele tempo, haverá razão para supor que no meu possa ser diferente? Ora leiam: «Os Ministros de Justiça / que nunca a fizeram direita, / porque a valia respeita / pela puta, ou por cobiça, / o Demónio assim lhe atiça / este fogo em seus ardores, / juiz e corregedores, / letrados e escrivães, / alcaides e tabeliães, / todos vestem de um saial. / Este é o bom governo de Portugal.» Mas há mais: «Toda a mais canalha vil, / mercadores, vendilhões, / que estão ganhando milhões / com empregar um ceitil, / têm toda a graça gentil / para poderem roubar, / podendo-se isto emendar / com uns açoutes ou galés, / porque assim em que lhe pés / tenham menos cabedal. / Este é o bom governo de Portugal.» Em suma: a merda é a mesma, muda a consistência. Ponho-me no lugar dos descrentes, de mim para comigo indago: mas é isto a democracia? Haverá melhor? Tanto caminho andado para chegarmos a isto? Estamos mal, estamos bem? Por que está mal quem está mal? Por que está bem quem está bem? Lá dos fundos já ouço ecos do Chico: Vai trabalhar, malandro! E vou. Mas, como bom português, hei-de ir contrariado.

INVOCAÇÃO


Poetas que me rodeais, à noite, quando cismo
Na infinda solidão das minhas horas mortas;
Figuras de almas, absortas
Na treva, em que me abismo,
E perdidas a olhar num misterioso encanto;
Eu compreendo bem o vosso canto,
Que em meus ouvidos íntimos ressoa
E que povoa
De estrelas o infinito do meu ser!

Poetas que me rodeais quando medito
Na saudade que faz os mortos reviver,
Entendo, sim, o vosso estranho grito,
O além da vossa mágoa;
E, logo em mim, soluçam, vagamente,
Elegias que eu rezo enternecidamente,
Como as fontes murmuram versos de água…

Camões! Teu alto sonho em mim delira
E a tua voz extinta é novo canto alado,
Que fere a minha lira;
Na minha dor,
Sinto bramir o vento e o mar, salgado
Das lágrimas que chora o Adamastor!

Serra minha da Arrábida, saudosa,
De que Frei Agostinho se encantou,
E, nessa doce paz religiosa,
Servo de Deus, um dia se exilou;
Alta serra nocturna e fragarosa,
Que ao Tejo e ao Sado as águas apartou;
Oiço o teu canto humilde e pobrezinho,
Ó meu irmão em Deus, Frei Agostinho!

Ajoelho perante a tua imagem,
Santo Antero da minha devoção;
Os «Sonetos» são cruzes na paisagem,
- Calvário desta humana condição!

António Nobre, ó meu irmão, doente
Daquela dor que os ímpios não conhecem,
Pousas as mãos esguias, que arrefecem
Na minha fronte ardente!

Verlaine, Baudelaire: - a dor amarga;
Shelley: - o vento etéreo;
Keats: - a eterna dor;
E Dante e o seu Inferno: - visão larga
Do Mundo além da Morte e além do Amor;
E tu, doce Vergílio,
A primeira figura no Mistério
Da minha soledade!

Vindes todos quebrar o meu exílio,
Trazer à minha vida a vossa eternidade!

E eu falo só, na noite iluminada
Pelo vosso clarão;
E sinto em mim, de novo, a luz sagrada,
O milagre da minha inspiração!

Henrique Belford Corrêa da Silva
Imagem respigada aqui.

Anrique Paço D’Arcos, nome literário de Henrique Belford Corrêa da Silva, conde de Paço d'Arcos, nasceu em Lisboa em 1906. Estudou em Macau e, já em Lisboa, frequentou o curso de Ciências Económicas e Financeiras. Estreou-se em 1923, com Versos sem Nome. Faleceu em Lisboa, no ano de 1993.

donamorte.6

Eu não acreditava na Morte. Eu próprio fiz questão de lho dizer. Não e não, e ela foi embora, com a cauda murcha entre as pernas a sorver as últimas borbulhas da agoniada coca-cola. Ao fundo da rua voltou-se para trás e a sua face elevou-se num último esgar desalentado, como quem atravessa a imagem indisponível de um amor sempre depois do próximo horizonte. Uma lágrima caiu-me. Sou um homem sensível. O pingo salgado rolou-me pelo peito, cruzando o matagal de pelos, volteou a baía do umbigo, trepou, deu-lhe a volta por cima e por fim desceu, acalentado de novo vigor, acabando por estacionar às portas do tesundo. Isto fez-me lembrar aquela cena do filme mais romântico que há, quando a mocinha espera por ele e ele não vem, porque está a jogar às cartas a dinheiro, e depois não consegue partir o espelho e ainda por cima leva um tiro do estalajadeiro.
Como não sou de ficar a curtir mágoas muito tempo, e vendo a cauda murcha d’Ela prestes a contornar a esquina, bradei:

- Ó Morte, anda cá!

Nada. O som pardo da última brisa da tarde, um leve odor a atum. Insisti:

- Ó Morte, se realmente és uma empresa credível, respeitadora de todas as normas de excelência e qualidade, conforme nos asseguras nos spots da TV, mostra-te a este teu potencial cliente!

Uma pausa. O tempo suspenso sobre o atum, sobre a via. Plúmbeo fim de tarde. Varadero. San Xenxo.

E a Morte quis.

Ó retinada sorte, capitel e plumas!
sónicos vergeis, trompeta marchetada
a vícios de marfim, de gadelha dourada
e crica assim no etéreo mono vi nenhumas.
E pois se de punheta hiante entouças glória,
Infiel, desfaleça-te o traseiro em minha história.



Alcides

25.9.07

COISAS QUE NUNCA MUDAM

O nosso Primeiro, salvo seja, não quer comprometer a sua oratória sobre Direitos Humanos com questões laterais tais como o Zimbábue. De há tanto tempo andarmos a discutir questões essenciais descurando as laterais, o mundo só muito lentamente vai vendo na terra a paz que vai no espírito dos happy few do costume. Em abstracto tudo se resolve, e o que para aí não falta são heróis do abstraccionismo. O concreto é que trama a coisa. Depois chega a ser cómico ver aqueles fatos engomados, aquelas gravatas de seda, babando-me de espírito enquanto corpos de gente inútil vomitam sangue, trespassados por catanadas, torturados, mais negros ainda das nódoas que o bastão deixa quando cai sobre a carne e parte os ossos. O debate sobre o "multilateralismo efectivo" deve ser muito interessante. Que dirão sobre ele os angolanos extirpados às mãos de um regime persecutório e ladrão, ou os cubanos em exílio na América onde a Pena de Morte ainda luz, ou, et voilà!, os milhões de zimbabuenses que tiveram de abandonar o seu país sob pena de lá ficarem enterrados até ao pescoço às mãos do ditador Mugabe? "Multilateralismo efectivo" e "soluções políticas abrangentes" devem ser temas de tesão incomensurável. Eu, só de ouvir estas expressões, dá-me logo vontade de fazer como o Henry do Sexus. Por falar nisso, quem leu a obra há-de recordar-se daquela passagem sobre mecanismos de defesa humanos. Miller dizia que os mecanismos de defesa do ego (conversa psicanalítica) mais difíceis de penetrar são os «fingidos písceos». «Crescem sem espinha dorsal, dissolvem-se quando lhes apetece» - advertia Henry Miller. Entre eles, a compaixão. A compaixão é, sem dúvida, o disfarce predilecto da agiotagem política. Vejam como eles fecham os olhos à miséria, ecoando discursos maquinalmente redigidos sobre "multilateralismo efectivo" e "soluções políticas abrangentes". Para quê? Para que tudo fique na mesma, para que o povo continue a ser trazido pela trela dos impostos, das grandes ilusões, de uma sensação de segurança que outra coisa não é senão medo da vida. Prometem-nos mundos e fundos, oferecem-nos discursos. E lá andamos todos, muito entretidos, como o cão do vizinho, de rabo bailante sempre que mija no sítio certo e o dono lhe acaricia as orelhas. É urgente começar a mijar fora do penico, começar por cuspir nestes discursos de circunstância, mandar as urnas às favas até que o sistema seja forçado a mudar, exigir mais acções e menos discursos, tirar todo o pilim dos bancos, deixar de pagar contas… A água que corre nos rios é nossa, caralho! Por que raio temos que a pagar? E o Sol, não é de todos? É preciso sacrificar o corpo, ser miserável, mas em grande escala, até que esses governos da filhadaputice se vejam obrigados a respeitar todos por igual. Não me digam que não estão fartos de serem chulados? Cof, cof, cof... Mas prontos, como diz o outro, façam lá um esforço. Já toparam bem a conta da luz, da água, do gás, do telefone? Topem lá bem a factura da PT e tentem discriminar aquela salgalhada toda. Ou acham que é com "multilateralismo efectivo" e "soluções políticas abrangentes" que vamos lá? Ah! Já sei. Vão acusar-me de ser utópico, de andar a ler o Tomás Morus em doses maciças. Pois deixem-me dizer-vos que é precisamente isso que vos falta, Morus em doses maciças. Experimentem. Serão logo atacados pelo sistema, cair-vos-ão logo em cima com facturas disto e daquilo, processos disto e daqueloutro, ameaçar-vos-ão com multas, chamar-vos-ão nomes estranhos, não vos deixarão respirar até que o sono se vos vá em tortura lícita, justificada à luz da lei, necessária, imperiosa. Pois que sigam o caminho dos cumpridores, deixem-se roubar à vontade, a cada esticão dêem graças e agradeçam, façam vénias, mas não descolem os olhos da novela e da futebolada, ó pusilânimes da treta. Ai Morus, Morus, como tu, também eu estou a aprender a lição: «A causa principal da miséria pública é o número excessivo de nobres, ociosos zângãos que vivem à custa do suor e do trabalho de outrem, e que no cultivo das terras exploram os rendeiros até ao osso, para aumentarem os seus rendimentos.» Já era assim no teu tempo, haverá razão para supor que no meu possa ser diferente?

UMA COISA ALEATÓRIA


Primeira parte de uma entrevista ao Poeta Ferreira Gullar.

RECADO


Os dias, os canteiros,
deram agora para morrer como nos museus
em crepúsculos de convalescença e verniz
a ferrugem substituída ao pólen vivo.
São frutas de parafina
pintadas de amarelo e afinadas
na perspectiva de febre que mente a morte.
Ao responsável por isso,
quem quer que seja,
mando dizer que tenho um sexo
e um nome que é mais que um púcaro de fogo:
meu corpo multiplicado em fachos.
Às mortes que me preparam e me servem
na bandeja
sobrevivo,
que a minha eu mesmo a faço, sobre a carne da perna,
certo,
como abro as páginas de um livro
- e obrigo o tempo a ser verdade

(abril, 1955)

Ferreira Gullar

Ferreira Gullar, pseudónimo de José Ribamar Ferreira, nasceu no dia 10 de Setembro de 1930, na cidade de São Luiz, capital do Maranhão. Ingressa na Escola Técnia de São Luís, em 1943. Aos vinte anos, já premiado num concurso de poesia promovido pelo Jornal de Letras (Brasil), e tendo publicado o seu primeiro livro – Um Pouco acima do chão (1949) – muda-se para o Rio de Janeiro. Trabalha como revisor em várias revistas e jornais. Em 1959 escreve o o ensaio Teoria do não-objecto, demarcando-se do Movimento Concretista. Inflectindo para uma nova atitude literária de engajamento político e social, Gullar publica várias obras sobre temas políticos prementes no seu tempo. 1970 marca a sua entrada na clandestinidade. Exila-se na Rússia, no Chile, Peru, Argentina. Regressa ao Brasil em 1977, retomando aos poucos as actividades de crítico, poeta e jornalista. »

CAGE DE SURPRESAS

John Cage interpreta Water Walk. Será que os sorrisos que vêm da plateia são parte integrante da peça? A não perder, n’A Invenção de Morel.

24.9.07

HONNÊTE HOMME

Não estou bem recordado destas matérias, mas julgo que a distinção que Pascal fazia sobre o espírito de geometria e o espírito de «finesse» consistia em atribuir ao primeiro um carácter lógico e ao segundo uma natureza intuitiva. Nos diálogos interblogs pratica-se em demasia o segundo, eivado de uma ironia que sobeja no exibicionismo da palavra, do estilo, da graça. No fundo, a bloga lembra os salões da aristocracia francesa, pelo menos como vêm descritos nos livros e são representados nos filmes, com suas picardias retóricas e trocas de galhardetes humorísticos. Acontece que vivemos num país tão pequeno e tão sem jeito que também nestes picantes se nota a nossa falta de tempero. Bem vistas as coisas, somos todos um pouco do Julien que Stendhal descreveu em O Vermelho e o Negro: naturalmente sábios, “condenadamente” provincianos. Por isso as invejas, o ciúme, a calúnia, o culto da troça, o tal «tom de maledicência geral» e o «inferno de hipocrisia e de intrigas» em que estamos condenados a viver. Desses espirituosos de salão, retenho apenas a eloquência com que retratam o mundo e troçam dos outros enquanto, voltando a Pascal, «se vangloriam de saber a única coisa que não aprendem»: serem honnêtes hommes.

PERFIS

Nasci numa terra onde quem nada fazia tinha o costume de apontar o dedo aos que faziam. Aqueles dedos apontados, ainda hoje têm bocas muito pequeninas que passam o tempo todo a dizer mal do que faz quem ousa fazer alguma coisa. São dedos parados, moles, inúteis, que não servem sequer para anéis. Mas falam muito, e muito baixinho, e não têm unhas. Porque há bocas maiores, muito nervosas, que lhes comem as unhas.

OS ESPELHOS

As afinidades electivas têm, normalmente, a duração dos perfis efectivos. Quando os perfis efectivos se revelam, quando se reflectem nos espelhos, como uma máscara a sobressair debaixo de outra máscara, as afinidades quebram-se. Parecem espelhos estilhaçados.

EXTINÇÃO

Os espelhos. Os espelhos são objectos cada vez mais extintos. Ou então estão todos avariados. Há gente que se olha ao espelho e está sempre a ver os outros. Quando se apercebe do erro, não admite a cegueira. O problema é dos espelhos.

FERIDAS

Cuidar das feridas é o mesmo que extinguir as feridas. Há coisas que só se cuidam com a sua extinção.

O ERRO DE KANT

Pretender que as acções de um indivíduo sejam universalmente aceitáveis. Tanta desgraça à custa de pensarmos que há acções universalizáveis. Só uma regra é possível: agir de forma que as minhas acções firam o menos possível os outros.

NA NOITE

Terás envelhecido, como eu, tua existência
será igual à minha, mais ou menos: monótonos
dias que vão passando bem lentamente, dias
em que nada acontece e é tudo igual pra nós.

Às vezes, porventura ainda lembres aquela
luz distante de Agosto que partilhamos. Talvez
sobre meu nome tenha crescido o esquecimento
e se apagasse em ti minha imagem para sempre.

Pergunto-me por vezes se em verdade fui jovem
e estive ali contigo, se existiu aquele Verão.
O sonho e a memória não são coisas diferentes:
não sei se te recordo ou se te estou sonhando.

O tempo debotou as certezas que tive.
A evidência de ontem com a idade esfuma-se.
Estou só. É de noite. Penso que minha vida,
minha própria vida, acaso, não aconteceu nunca.

Tradução de José Bento.

Eloy Sánchez Rosillo

Eloy Sánchez Rosillo nasceu em Múrcia, Espanha, no ano de 1948. Professor de literatura, deu-se a conhecer, como poeta, ao ganhar o Prémio Adonais, em 1977, com o livro Maneras de estar solo (1978). Além de poesia, publicou ensaios e traduziu Giacomo Leopardi. Colaborou com várias revistas literárias. O tradução que aqui publicamos saiu nos Cadernos Semestrais de Poesia – HÍFEN, n.º5, em Março de 1990.

O LOURENÇO FOI OPERADO AO CU

E veio do Hospital com uma prosa cheia de saúde. »»»

23.9.07

CASAMENTO

Nunca quis casar. Razões muito fortes sustentam esta obstinada recusa. Primeiro, detesto festas familiares (casamentos, baptizados e, em certos casos, funerais). Segundo, o casamento ameaça-me a liberdade. Sinto repulsa por tudo o que me ameaça a liberdade, ainda que tenha da minha liberdade uma consciência pouco ortodoxa. Por exemplo, conheço pessoas que falam dos filhos como se estes fossem grilhões. Para mim são algo semelhante ao que as ex-colónias eram para Portugal na concepção do ditador Salazar, ou seja, uma extensão natural de mim próprio. Sendo assim, nunca senti que as minhas filhas tenham alguma vez obstaculizado o exercício da minha liberdade. Mas não compliquemos. No dia em que os meus pais fazem 45 anos de casados, fico a saber de uma história deliciosa. Um casal que está a divorciar-se depois de ambos os cônjuges terem concluído que andavam a ser traídos em relações cibernéticas. O inusitado nesta história é que, falhados no casamento real, eram amantes em registo virtual. Isso mesmo. As entidades (nestas coisas da Internet o melhor é falarmos sempre de entidades) com quem mantinham relações virtuais eram a pessoa a quem haviam confiado a aliança matrimonial. A queixa do marido, depois de ter dado pelo caso, é absolutamente extraordinária. Em não sei quantos anos de casamento a mulher nunca lhe tinha dito coisas tão bonitas como as que lhe dizia no chat onde travavam, presumo, escaldantes e apaixonados diálogos. No tempo de Platão nada disto seria possível, o que apenas nos leva a admirar ainda mais o seu ideal de República no que respeita à temática do casamento. Ele não o diz assim, mas ao parágrafo 460ª fala de «tiragens à sorte engenhosas». A expressão é de uma eloquência tal que não pede qualquer explicação. Julgo que o casamento seja isso mesmo: uma tiragem à sorte engenhosa. No caso de meus pais, que há 45 anos trabalham com engenho a sorte que lhes coube, isso só pode ter uma explicação: a minha mãe, de tão ingénua que é, nunca reparou na falta de sentido de humor de meu pai. Ou então, essa ausência de humor resulta, por ironia, na sempre inexplicável graça do amor. O mais estranho disto tudo é pensar que, para eles, 45 anos parecem não ser mais do que três filhos e quatro netos. O tempo de manter (re)unida, à sua volta, a espiral da família, o tempo de chegar ao fim constatando, como já Platão dizia, que os casamentos sagrados são os mais úteis. Neste aspecto, julgo, muita água correu na sociedade em que vivemos. E muita ainda correrá. Principalmente porque a noção que hoje temos de utilidade já não está tão arreigada à ideia de sacrifício, muito cristã e burguesa, mas sim à de conforto, muito burguesa e agnóstica. Só isso explica a falta de engenho que hoje se verifica nas tiragens à sorte, cada vez mais apenas sorte e menos engenho. Como sorte não tenho e o engenho coxeia-me, o melhor será mesmo continuar como estou. Unido pelo facto de não me ter querido casar, evitando festas fúteis, agrilhoamentos dispensáveis, tiros no pé.

22.9.07

E ESTA?

David Shapiro interpela-nos acerca de um poema seu que aqui publicámos.

MAIS UMA PROVA

Da burocrática ditadura em que vivemos. Uma ditadura que exturque, como quer e sabe, o cidadão que nada pode. A ler: «Que escrevesse a protestar e se me fosse dada razão seria reembolsado. É o que tenho intenção de fazer. Mas não posso deixar de revoltar-me contra o que aconteceu. E das duas uma: ou trata-se de corrupção descarada e que deve ser investigada - e o dinheiro da minha multa ajuda a viver alguma empresa, com vantagens directas ou indirectas para algum autarca responsável por esta política absurda; ou estamos a assistir em Portugal ao triunfo de mais uma das modernas ditaduras burocratas que sob a designação folclórica de democracia vão aperfeiçoando e aplicando sem ter de prestar contas a ninguém métodos repressivos que desrespeitam os nossos direitos de cidadãos. As duas possibilidades não são incompatíveis. Caso a investigar.»

A DIVINA COMÉDIA



É provável que esta seja uma condenação não exclusivamente nossa, mas em Portugal ela vai assumindo contornos macabros. As pessoas estão cada vez mais impedidas de sobreviver à custa das actividades para as quais se sentem vocacionadas. Impedir um homem de viver da sua actividade é condená-lo à morte. Esta dolorosa realidade não pesa senão na consciência dos inconformados. Esses, entregues a contingências várias, responderão ao inconformismo de múltiplas formas. Não sabemos o que se terá passado dentro do actor Pedro Alpiarça. Apenas sabemos que fez rir muitos portugueses em séries de comédia passadas na televisão, sabemos que estava desempregado e, talvez por isso, agravadamente deprimido, sabemos que saltou de um quinto andar e morreu. Sabemos que se suicidou. Os telejornais estão mais preocupados com o desemprego do multimilionário treinador de futebol José Mourinho. Este só tem uma certeza: continuará a ver futebol, a jogar, a treinar, a exercer a actividade para a qual nasceu, a dar corda à sua vocação e a ser muito bem pago por isso. José Mourinho, desempregado, sabe que para ele o desemprego não será um problema. As televisões é que parece que não, tão preocupadas que estão com o desemprego de José Mourinho.

O SORRISO AOS PÉS DA ESCADA

O actor português Pedro Alpiarça, de 49 anos, morreu ontem, cerca das 13.30, depois de ter saltado do quinto andar do Hospital de Santa Marta, em Lisboa. Segundo algumas testemunhas, o actor terá partido uma janela, daquele piso, atirando-se em seguida. As informações sobre as causas que terão motivado este acto ainda estão por apurar. Pedro Alpiarça iniciou-se no teatro universitário da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, grupo de teatro onde viria a trabalhar entre 1984 e 1990. No entanto, entre 1989 e 1994, fez parte da companhia de teatro A Barraca, sob a direcção de Hélder Costa, integrando o elenco das peças Liberdade em Bremen , de Rainer Werner Fassbinder, O Avarento, de Molière, Floresta de Enganos, de Gil Vicente ou ainda A Cantora Careca, de Ionesco. Participou ainda com Maria de Céu Guerra na peça O Último Baile do Império, de Josué Montello, entre outros trabalhos. Passou também pelas companhias Teatro Veredas, onde trabalhou com Adriano Luz, O Nariz - Teatro de Grupo e a Teatroesfera, onde encenou o espectáculo O Erro Humano, em 1999. Em 2002, co-fundou o Teatro Mínimo. Estreou-se no cinema no filme Glória, de Manuela Viegas, em 1999. E participou em filmes de Carlos Braga e Vítor Candeias. Foi actor regular na televisão, integrando o elenco de variadas séries e sitcoms. Em 1993 participou em Ideias com História, dois anos depois entrou em Nico D'Obra, série com Nicolau Breyner. A partir de 1998, começou a entrar em formatos mais cómicos. Participou em Os Malucos do Riso, nesse ano; em 1999 entrou em Não És Homem Não És Nada, seguindo-se em 2001 a Fábrica das Anedotas. Mais recentemente, fez algumas participações na série Os Batanetes, da TVI, na Maré Alta (SIC) e n' Prédio do Vasco. O seu último trabalho na TV foi em Vingança, onde teve um pequeno papel.
Recuperado da crise que o levava com frequência ao Hospital de Santa Marta, em Lisboa, o actor melhorou e começou a procurar trabalho junto das produtoras. Sem projectos profissionais e sem dinheiro, Pedro Alpiarça começou a entrar em depressão. Depois do bem sucedido desempenho no filme ‘Dot. Com’, seu último grande trabalho, o actor via-se no desemprego. Apesar de afastado dos estúdios de TV e dos palcos onde fez carreira, das palmas e do carinho do público, Pedro Alpiarça apresentava sempre um sorriso que disfarçava a mágoa. “Era uma pessoa dócil, sensível, mas se calhar impreparado para enfrentar estes embates da vida”, confessou um amigo ao CM.Anteontem à tarde, após uma ida ao Hospital de Santa Marta, onde o seu problema de saúde estava a ser seguido, Pedro Alpiarça partiu o vidro de uma janela e atirou-se do quinto andar. Foram infrutíferas as tentativas de reanimar o actor que, já cadáver, foi conduzido à morgue do Hospital de São José.Pedro Aliparça é autopsiado esta manhã e ao fim da tarde será velado na Sociedade Guilherme Cossoul, cuja direcção integrava. A data do funeral ainda não está definida. Pedro, segundo o irmão António, “queria ser cremado”.O actor, que integrou ‘A Barraca’, destacou-se nas séries televisivas ‘Batanetes’, ‘Maré Alta’, ‘Malucos do Riso’ e ‘O Prédio do Vasco’’.
O actor Pedro Alpiarça, que recentemente participou na série televisiva "Os Batanetes", morreu ao início da tarde de anteontem. Tinha 49 anos e terá perdido a vida por ter saltado do quinto andar do Hospital de Santa Marta, em Lisboa. Testemunhas citadas pelos jornais dizem tê-lo visto partir uma janela do edifício e a saltar logo de seguida.Apesar de mais conhecido na televisão - integrou ainda "Nico d'obra", "Malucos do riso", "Não és homem nem és nada", "Maré alta" e "Prédio do Vasco" -, Pedro Alpiarça fez o essencial do seu percurso artístico no teatro, integrando companhias como A Barraca, Teatro Veredas, O Nariz - Teatro de Grupo e a Teatrosfera. Em 2002, foi co-fundador do Teatro Mínimo. No cinema estreou-se em 1999, no filme de Manuel Viegas "Glória". Este ano integrou a comédia "Dot.com", de Luís Galvão Teles.

21.9.07

NENHUMA PALAVRA NOS SALVA

Rute Mota, «Nenhuma Palavra Nos Salva», Livro do Dia, 2007

A pena de Rute Mota (n. 1980) pousa leve sobre a página, é cuidadosa ao rasgar o branco da folha, não procura tanto a ferida como parece procurar um certo silêncio que, paradoxo inexorável, acaba sempre traído pelo ruído da palavra. Daí o título Nenhuma Palavra Nos Salva me pareça tão congruente com a escrita praticada neste pequeno volume como instigador de algumas dúvidas sobre as quais sabe bem especular. Afinal, nenhuma palavra nos salva de quê? De que precisamos ser salvos? Qual o sentido que a salvação assume num contexto poético? O que é a salvação? Estaremos irremediavelmente condenados, como dizia o Camus de A Queda, a uma inocência apenas justificável pela infelicidade? Teremos nós perdido «a luz, as manhãs, a santa inocência daquele que se perdoa a si mesmo»? Talvez o plano em que a questão aqui deva ser coloca não seja o plano existencial, talvez a palavra que não nos salva remeta antes para um equilíbrio mais peculiar, afecto ao sujeito poético, às angústias do sujeito poético, às suas necessidades e fragilidades singulares. Neste sentido, há palavras que se impõem mais que as outras nos quatro conjuntos que compõem o livro de Rute Mota. No primeiro, com o título Um lugar na incerteza, é a palavra amor que nos surge mais evidenciada. «Vou erguer o meu amor do nada / e cantá-lo ainda assim / - não há coisa mais cantável / que o que do nada vem» (p. 8) – diz a autora. Mas este amor não é um amor concretizado, é um amor que se esconde por detrás de jogos de palavras onde ecoa a solidão, é um amor adiado, buscado, algo ainda por cumprir. É um amor interceptado pelo silêncio, tanto quanto o silêncio possa ser aquilo que mais se ama. Gera-se, deste modo, uma interessante ambiguidade na poesia de Rute Mota. A sua natureza epigramática, muito próxima do discurso abreviado da poesia dita oriental, como que confere ao poema uma espécie de carácter salvífico gorado à partida. Ou seja, estando ciente de que nenhuma palavra nos salva, a autora não ousa prescindir da palavra «para não cair do mundo» (p. 27), na medida em que é a palavra o que mais contradiz o tal silêncio que intercepta o amor, tanto quanto esse silêncio possa ser aquilo que mais se ama. Em Um Pássaro no Lugar do Coração, o segundo conjunto, a natureza vem ocupar o lugar dos afectos, que é também o lugar do belo e do amor. Esta natureza surge na forma do vento, de um pássaro, de flores, na forma dos pinheiros. Mas é ainda o amor quem apela: «Do que resta, aos poucos, / o pássaro bicando - // pudesse ele firmar o propósito / de amar nunca mais // e voar depois» (p. 54). Cabe relevar a extrema beleza e simplicidade de alguns destes pequeníssimos poemas, os quais denotam uma mão tão frágil quanto dominadora na sua concepção. Atentemo-nos, a título de exemplo, a este poema do conjunto intitulado Época de Caça: «Um corpo fazendo deserto de outro corpo / com suas pedras, seus oásis, suas vastas areias / um corpo à beira de outro corpo / deserto frente a deserto / um nómada fazendo chão de outro nómada / areias que sempre em movimento permanecem / como inexpugnáveis / inexpugnável corpo a conhecer. // Um corpo medindo outro corpo / como a temperatura de um deserto, suas riquezas / seu início, textura de areia em movimento: / quantas pedras, quantos cactos / quantas violências e mansidões que eu possa beber?» (p. 64) A linguagem que se adensa nestes versos é a linguagem de um amor tornado eros, carne, sangue, corpo. Curiosa a metáfora do deserto, se nos lembrarmos de um dos versos do poema que abre este livro: «reaprendo o silêncio deserto a deserto» (p. 7). O que vem à tona é um erotismo subtil, como que rasurado numa poesia cuja transparência arrisca tornar invisível o que nela existe de mais notável. Nada podemos concluir da leitura deste quarto capítulo da Colecção de Autores Torreenses que a Livraria Livro do Dia em boa hora, pela mão de Luís Filipe Cristóvão, resolveu concretizar. Resta-me apenas tornar bem claro que, em termos de poesia contemporânea portuguesa, é uma das mais belas surpresas deste ano. Que importa que poucos dêem por isso num país onde ninguém dá por nada?

Nada sei das verdades dos homens:

toco a pedra, a beira do poço
e sou água, memória,
dança antiga das mãos sobre as pedras –

encosto o ouvido ao corpo das árvores
e renovo a certeza de ser o fundo mais fundo da terra,
raiz, seiva e sangue onde o amor acaba
onde o amor começa –

um pé depois do outro
acerto o passo com o ritmo do peito –

colho flores com as minhas mãos de deixá-las
onde estão, a minha maneira de amá-las inteiras.


Ruta Mota

Rute Mota nasceu em 1980. Licenciada em Sociologia, publicou prosa e poesia em várias revistas. Traduziu, do francês, poemas de Maram Al-Masri. Publicou, em 2007, o livro de poesia Nenhuma Palavra nos Salva.

IMITAÇÃO DE ALCIDES


escritores do laurindol à beira-mar emplastrado, rotos. a maior parte escreve como se tivesse saltado directamente do século dezanove para o terceiro milénio, ressuscitados da gosma em formol que resistiu à traça e ao percevejo, afinal há bichos com mínimos de crítica na tola. nem tudo é mau na literatura, porém. Sempre que sai um livro aumenta a venda de jornais, o escritor a confirmar que a mensagem que vai mudar o mundo foi recebida pelos encartados de serviço; e aumenta a venda de whisky, quando depois de comprar as notícias o escritor verifica que o seu livro não modificou a superfície dos jornais. É aqui que o escritor percebe que não basta o génio, é preciso estratégia; não basta mudar o mundo, é preciso informá-lo de que isso vai suceder. E o escritor começa a recolher os contactos e contacta. E abre um blog. Ou dois ou três. E contacta, e bloga, e chora baixinho para a mãezocas não ouvir. E escreve, claro, febril e consciente, o escritor escreve o que Camilo escreveu, e Eça escreveu, e o coiso escreveu. E berra, com a consciência atormentada pela urgência da sua mensagem universal. E esperneia, com a mãezocas a assoar-lhe o peito e as pernocas do ranho gosmático que lhe atosga as folhas carimbadas de salomónicos gritos.

O escritor vai ser semi-conhecido. Vai tocar a orla emplumada do manto da glória. Vai ter rotos da sua laia a convidá-lo para algumas conversas, uns quantos programas de rádio e porventura, se na bocanha romba lhe couber gosma bastante, a feira de putedo da TV. Vai escrever mais iguais livros, vai guardar a taça no cu.


Rui Costa

REVISTA SULSCRITO Nº1






MUSIC BOX

I am the albino-branco, the guerra,
voraz, peixe, transmontana, da
war. Os sinais de música (musical
sounds) reproduzem o batimento
do coração e o movimento do coração
reproduz o gotejar do peixe, trans-
montante, veloz. Eu sei que há um
fascínio pelos pretos mas eles são
imberbes e têm lanças aguçadas que
usam impunemente a inserir dados
fónicos na minha consciência – são,
porque não dizê-lo – deveras uma fá-
brica de alegria. A quem disse tudo
resta-lhe ser musical. The
musical sounds reproduce the heart beating
and the beating of the heart (ou heart beating)
reproduz o gotejar do peixe-kopke,
já ligeiramente alcoolizado sustenido
e por isso incapaz de pronunciamento
a nível outranto que (unguane e –
pré-simbólico.
A morte é uma arritmia bela, dela, canção
sonante porque o peixe, córtice goraz,
reproduz the musical sounds da música revirando
os olhos, aceso, estrábico,
) – tangerina, enquanto a silentangente gota
i-matura.


poema publicado na Revista Sulscrito Nº 1, editada pela ARCA (Associação Recreativa e Cultural do Algarve)

MAIS SOBRE A REVISTA
AQUI E AQUI
Rui Costa

CoPo - ADIADO


20.9.07

Bloco de Apontamentos #57

MJLF, Maio, Acrílico s/papel, 21x15 cm, 2007.


Estava a trancar a porta de casa e caiu a chave do trabalho nos meus pés – notei então que o porta-chaves se tinha desapertado e que o volume do corpo metálico no molho estava mais magro, assim como o volume sonoro das chaves que batem sempre umas nas outras quando giram no gesto de fechar a porta antes de sair; espreitei para dentro da mala e lá tinha caído a chave de casa dos meus pais. Fechar a porta é um gesto diário onde ligo um piloto automático quando o faço e esta situação fez-me ver que carrego no dia-a-dia chaves a mais.

Maria João

1 ANO

A descobrir o mundo com as mãos, a gatinhar pela sombra de uma vergonha pura, a levar ao sono as nódoas dos joelhos, a levar à boca os gostos e os desgostos de quem descobre o mundo com as mãos.

Um ano.

O RESPEITINHO É MUITO BONITO

E não é só cá: Democracia em acção na Universidade da Florida.

Nem de propósito, um Artefacto de Nicanor Parra:

jackpot.4



Era dia de jogo e o grunhol atrás de mim nas vias, estranjei-me para dentro do casino. Uma serafina, de juba branco-charme e ar digníssimo, puxava da maçaneta enquanto o verdejano engolia as moedas e girava a fruta. Eu a começar a ter uma vida digna quando o milagre aconteceu e a reboreda incendiou ao pressentimento do zabrolho. Ribalta. Extrema-unção. Levantei-lhe a banqueta e a dona estremunhou de postiça na vidraça, quando o verdejano vomitava mais de mil moedas. Como tinha as duas mãos livres e a enxárcia vai de controlo remoto como coelho em arrebol, estranjei-lhe as redondas prós bolsos profilácticos da providência, que se
deus existe o problema é dele e eu até aprecio bastante que os meus vizinhos se interessem por botânica e a calcificação dos ossos do estorninho.

Depois lembrei-me de um truque que aprendi no bairro e que consiste em desatarraxar a lâmpada mais próxima e tocar no ferro, que é para electrificar o osso do tesundo. Hesitei por momentos, indeciso quanto à necessidade de recitar um poema, e foi quando a juba da leona se pôs de pé como se fosse natal e a amizade reinasse no mundo e nas festas de espuma lá do bairro. E ela e eu estremecemos com tal sinceridade que o verdejano vomitou mais uma moeda, a última, que prontamente enfiei no rendeiro da minha doce amiga, e lhe fez saltar a postiça.

Alcides

Insónia é uma grilheta
Insónia é uma prisão
Insónia é um círculo vicioso

Precisamente neste momento
Dentro da minha cabeça
Dentro dos ossos

O meu pescoço roda
Cartilagens movem-se
Gosto do som dos meus próprios ossos

No meio desta emergência
Penso em ti
E só em ti

No meio de todo este sangue insone
Os teus lábios rosa
Os teus braços espreguiçando-se

Não consigo respirar sem ti
Mas este monte de costelas
Lá vai funcionando
Mecanicamente


17/5/82
Lancaster, Ca.


Tradução de José Vieira de Lima.

Sam Shepard

Sam Shepard nasceu no dia 5 de Novembro de 1943 em Fort Sheridan, no estado de Illinois. Tendo escapado à guerra do Vietname alegando dependência da heroína, exerceu vários ofícios antes de se tornar actor e dramaturgo. Trabalhou também como argumentista em filmes como Zabriskie Pointe, de Antonioni, e Paris, Texas, de Wim Wenders, e colaborou com artistas como Bob Dylan e Patti Smith, entre muitos outros. Autor de mais de quarenta peças de teatro, publicou, em 1983, as Motel Chronicles (Crónicas Americanas), pequeno livro de fragmentos autobiográficos do qual retirámos o poema acima transcrito.

19.9.07

UMA NOTÍCIA QUE ME ENCHE DE NOSTALGIA

O fecho do Artis. Bebi lá muita cerveja, comi lá boas tostas de frango. Ouvi lá boa música, palrei lá a conversa possível, escrevi lá uma estória.

AQUILINO

Jorge de Sena escreveu a Carta ao jovem poeta em 1966, tinha 47 anos. Nela se afirma muita coisa interessante e outras tantas com as quais poderíamos discordar, não fossem a ironia e um certo cinismo com que são proferidas. Mas há algo que Jorge de Sena omite, embora convenha sempre lembrar. Nada há mais desprezível num escritor do que o pedantismo, o querer passar por algo que não é, o pretender parecer-se com o que, almejando-se, ainda não se conquistou. Nomeadamente esse estatuto de escritor que apenas a alguns se ajusta, não obstante o facto de tantos serem aqueles que o reivindicam sem que nada de relevante tenham feito para tal. Há gente que se angustia de não publicar, outra há que publica mais do que os leitores que tem. Há gente que se presta a tudo para ter um livro seu nas mãos, sonhando com o dia em que entrará numa livraria e verá o seu nome nos escaparates. E há quem se aproveite como sabe e pode e quer dos sonhos dessa gente. Quere-me parecer que nada disso define a condição de um escritor. Mas numa coisa Jorge de Sena tinha toda a razão: «Tudo, na vida, funciona por camarilhas que oferecem a seus membros a tranquilidade de se imaginarem importantes ou, mais ainda, a ilusão de que estão vivos». O resto é solidão e esquecimento.

14.9.07

INTÉ

Estarei fora durante os próximos dias. Não estou certo de que regresse, mas se regressar prometo vir ainda mais falido.

INTERESSES

De vez em quando gosto de dar uma olhada no que atrai visitantes a esta casa. Eis alguns resultados recentes: António candido Franco, FILIPINO BOX SPRING HOG mp3, o que é romance, diferença do o i para O, gregório boca dos infernos, VIDEOS DE ANACONDAS QUE COME PESSOAS, antónio josé forte, só sexo, juan antonio Vasco, simpatia para insónia, "shidua", chaim soutine, tiago gomes, internamentos em clínicas, musica catolica com eugenio jorge a paz sonhada, so putas, juan ramon jimenez, PESSOAS COM INSONIA, poesia de moda, canto do mar Nazaré, Sobre os triangulos escalenos, distensão musculo costela, frango assado na forma fulgor, ORAÇÃO CONTRA INVEJA, "a colera", poemas de gregorio de matos "boca do inferno", oração contra a inveja, praxes+jogos, cu, defender as touradas, Sergei Esenin, poeta russian, esse é o significado de vícios e virtude, arenque, peixe frade, 9 songs, POESIAS POLITICA, acto do homam, escadaria do titanic, bandeira da rosa vermelha, hélia correia…

MORALISTAS

O mundo que vos parece feito de cadeias
está todo tecido de harmonias profundas.

*

A construção não é o alegre dom
da natureza. Uma flor chama a outra.

*

As estrelas olhavam-me se a espaços
entreabriam os olhos como fazem os gatos.

*

As agulhas dos pinheiros longamente absortos
na preguiçosa alegria da estação
acima dos amores humanos nascidos e mortos.


Tradução de Albano Martins.

Sandro Penna

Sandro Penna nasceu em Perugia a 12 de Junho de 1906. Apesar de ter cursado contabilidade, exerceu diversas actividades como forma de sobrevivência. Foi viver para Roma em 1929. Dez anos depois, por intervenção de Umberto Saba, publica o seu primeiro livro, Poesie. Vivendo na mais absoluta pobreza, doente, morre em 1977.

13.9.07

OS ROMÂNTICOS E OS DECADENTES


O céu tinha sido varrido
e as Madonnas sentadas pelos prados
mostravam os seios brancos de neve e amamentavam os meninos.
Entraram na cena os poetas e procuraram as suas amadas,
cada um a sua Madonna. E as raparigas assustadas
viram-se postas em nuvens onde não conseguiam estar sentadas
até as mais angélicas, etéreas, caíam
pelos revérberos da névoa. Melancólicos,
os poetas mudaram, puseram-se a cantar virgens mortas,
fizeram do frio túmulo, da branca mortalha
o seu céu e celebraram aí as suas festas
com grandiloquentes hinos à noite –
até que um, estremecendo, levantou na cripta
a tampa do caixão: e viu horrorizado os vermes
disputarem os melhores petiscos
do corpo da amada. – Agora, todos os poetas
ficaram esclarecidos, apressaram-se a sentar
as moças sobre os joelhos e a aceitar as drogas do patrão.
Mas, com o absinto no sangue, saíam perturbados
para o ar da manhã e convertiam-se a chorar
à Madonna lá em cima, a cuja cabeceira infinita
há muito se tinham instalado os físicos com frios instrumentos.


Tradução de João Barrento.

Georg Maurer

Georg Maurer nasceu em 1907 na Roménia. Foi viver para a Alemanha em 1926, onde estudou História da Arte, Literatura e Filosofia em Leipzig e Berlim. Tradutor e crítico de arte, exerceu forte influência nos poetas da RDA depois da guerra. Publicou o primeiro livro em 1936, intitulado Vozes Eternas. Morreu em 1971.

EU VI, TU VISTE, ELES...

Após o apito final, Luiz Felipe Scolari tentou agredir um jogador sérvio que o terá provocado verbalmente.
O espaço de manobra de Portugal terminou e isso está a mexer com a equipa técnica nacional, como ficou provado no final do encontro, quando o seleccionador nacional, Luís Felipe Scolari, tentou agredir um jogador sérvio após uma escaramuça que envolveu Quaresma.
Scolari perdeu a cabeça e tentou agredir um jogador sérvio (Dragutinovic), situação de todo insustentável, independentemente das razões que lhe assistam.
Dragutinovic terá provocado Scolari que tentou agredir o jogador... a soco.
No final, empurrões, ditos e outras coisas más junto ao banco de Portugal e no meio do “caldinho” que se montou Luiz Felipe Scolari perdeu a cabeça e tentou agredir a soco um jogador sérvio…

12.9.07

UM ARGUMENTO A FAVOR DA MARGARIDA

Aqui.

NADA


«No se puede vivir sin amar.»
«Si, se puede», respondi
vestindo-me de negro
para o último baile de máscaras.

A minha boca estava cheia de poeira
como se o choro me secasse a garganta
- no entanto não choro desde há um século.

Não desejo o vosso céu, compañeros,
as luzes infames, os falsos amigos,
as ruas dos beijos,
as mentiras dos espelhos voadores.

Quero quebrar o último selo,
uma lua que não ilumina,
uma noite onde nada reluz.
Tradução de Egito Gonçalves.

Eeva-Liisa Manner

Eeva-Liisa Manner nasceu em Helsínquia, capital da Finlândia, em 1921. Estreou-se em 1944, mas apenas se impôs como uma das vozes mais importantes da poesia finlandesa em 1956, com o livro Esta Viagem. Tradutora reconhecida, viveu alguns anos em Espanha. Faleceu em 1995.

(DALAI) LAMA EM PORTUGAL


RECEBA JESUS



Os McCann são pessoas de muita fé, crêem em Jesus. A Maria Helena que, lá para as bandas de Viseu, degolou os filhos com uma faca eléctrica e depois suicidou-se, também. São estes os caminhos ínvios da fé, embora nada disto tenha que ver com fé. A culpa não é de Jesus nem da fé, é dos homens. Deus também não tem culpa, anda há anos a fazer como Salazar durante a II Grande Guerra: não sabe, não vê, não é nada com ele. Excepto quando alguém deixa de ter fé na fé. Aí vai logo para o Inferno.

MARTELOS E FARQUILHAS



Impressionante, a quantidade de escribas indignados com a presença, na Festa do Avante, de organizações ligadas às FARC. Impressionante, mesmo. O tema deu prosa para todos os gostos, assim como para a falta dele. Mas ninguém explicou como justificar a Festa do Avante se a pretendemos sem a presença de organizações ligadas às FARC. Sendo as FARC apoiadas pelos comunistas, e sendo estes quem apoia as FARC, uma Festa do Avante sem comunistas seria algo um pouco estranho. Para que não estivessem representadas, na Festa do Avante, organizações ligadas, mais ou menos directamente, às FARC, o resultado seria um recinto desértico, uma Festa sem festa. Enfim… Entretanto, o Estado português não recebe o Dalai Lama, segundo o Ministro dos Negócios Estrangeiros, por razões óbvias. São elas, como todos sabemos, as excelentes relações comerciais que o país (Portugal, não o Tibete) mantém com a China. Este país não é uma festa, mas ninguém lhe pode negar a vocação para o teatro… de fantoches.

PERSPECTIVAS

11 de Setembro e Beslan, para dar só dois exemplos, são acontecimentos que nos reviram os olhos. O povo costuma dizer que «só Deus sabe» e «não lembra ao Diabo». Em casos como estes, as posições devem ser invertidas. Só o Diabo sabe e não lembra a Deus.

11.9.07

QUANDO AS TORRES CAÍRAM

Da nossa janela víamos as torres
com as suas faixas e blocos de luz
brilhando contra o pôr do sol esbatido,
víamo-las reluzindo a qualquer hora e vivas
como se os espíritos dentro delas ficassem toda a noite
calculando lucros e perdas, víamo-las alcançar
o topo ao primeiro amarelo
do sol nascente, habituámo-nos tanto a elas
que muitas vezes não as víamos, e agora,
não os vendo, nós vemo-las.


O banqueiro está a falar para Londres.
Humberto entrega sanduíches de pequeno-almoço.
O comerciante já trabalha ao telefone.
O carteiro começou a separar o correio.
...povres et riches
Sages et folz, prestres et laiz
Nobles, villains, larges et chiches
Petiz et grans et beaulx et laiz…

O avião rugiu com vileza na Quinta Avenida,
elevado ao Arco, alguém disse, agitando os “dog walkers”
no Washington Square Park, voltou-se para a Torre Norte,
embateu surdamente, libertou um enorme jorro brilhante
de fogo sombrio, e desapareceu, deixando um buraco
do tamanho e da forma que um avião de brincar faria
se tivesse passado inofensivamente e voasse agora,
do lado oposto, de regresso ao reino da imaginação.


Alguns de roupa rasgada, alguns exangues,
alguns coxeando como crianças numa “three-legged race”,
alguns quase arrastando-se,
alguns incólumes em asseados vestidos e fatos,
caminhando silenciosamente pelas avenidas,
todos empoeirados de uma brancura fantasmagórica,
excepto os olhos, vermelhos de coçados como os de uma vidente,
que consegue ver os mortos debaixo da terra.

Alguns morreram a telefonar para casa dizendo que estavam bem.
Alguns morreram após uma hora a aprender que iam morrer.
Alguns morreram tão abruptamente que só deram pela morte já dentro dela.
Alguns partiram janelas e inclinaram-se para fora e esperaram por socorro.
Alguns asfixiaram.
Alguns arderam, com as faces capturadas pelo fogo.
Alguns caíram, deixando a gravidade apressá-los na agonia.
Alguns saltaram de mãos dadas, a elasticidade nos seus derradeiros gestos de amor fez com que o tempo deixasse – quem me dera poder dizê-lo – as suas quedas verticais debaixo do céu acontecerem mais levemente.


Na janela alta, onde amiúde parava
para escapar a um pesadelo, encontro
o único, olho vigilante
que ilumina toda a noite os levantamentos
e a joeira de corpos, de restos de corpos,
qualquer coisa que não seja nada,
numa busca sempre em andamento
algures, agora em Nova Iorque e em Cabul.


Numa esquina ela segura um retrato -
de um homem sorrindo. Poucos caminham
no ar cinzento de hoje. Desculpa desculpa desculpa.
Estremece. Imaginemos aquele ressalto imprudente pela rua abaixo…
Ou que acolá aquele cabelo negro é purpúreo…
And yet, suppose some evening I forgot
The fare and transfer, yet got by that way
Without recall, - lost yet poised in traffic.
Then I might find your eyes…
Podia acontecer. Desculpa desculpa boa sorte obrigado.
Deste lado é “amnésia” – esqueceu-se do caminho para casa -;
do outro, “invisibilidade” – nunca completamente regressado.
Custa ver tão claramente na bruma metálica,
ou através da suposta lâmina da realidade
atirada sobre o nosso mundo, que no limite nenhuma criatura nascida
pode extinguir o seu regresso, e nenhum amor pode ser despedaçado.


As torres ardem e caem, ardem e caem –
num alvo remoto, como chaminés vomitando oleosos restos de terra.
Schwarze Milch der Früe wir trinken sie abends
wir trinken sie mittags und morgens wir trinken sie nachts
wir trinken und trinken
Não é tanto uma comparação como um corolário,
não uma semelhança mas uma linhagem comum
na história de mortes violentas durante o século XX -
pretos no Sul castrados e enforcados nas árvores,
soldados avançando sobre a lama a 90,000 mortos por milha,
comboio após comboio em direcção a leste com os vagões abarrotados de Judeus e de Ciganos para serem escravizados e gaseados,
testemunhando o assassínio de vinte, trinta, quarenta milhões dos seus,
explosões atómicas limpando cidades à face da terra, o mesmo com bombas incendiárias,
a morte marcha, mortos de fome, assassinatos, desaparecimentos,
países inteiros transformados em cascalho, campos de minas, sepulturas em massa.
Vendo as torres vomitar estes presságios, que o último século foi aqui despejado, para que nós o destruamos, sabemos
que são os nossos futuros, que é o nosso próprio leite negro atravessando o céu: wir
schaufeln ein Grab in den Lüften da liegt man nicht eng

Explosões de combustível, alumínio incinerado, aço a fumegar, mármore volatilizado, granito rebentado, paredes falsas pulverizadas, plástico fundido, betão esmagado, mercúrio gasificado, cinzas, vapor
vaporizado – adornam as ruas da nossa ilha arregimentadas em números e letras,
aspirados das grandes pontes de Brooklyn ao mar que está à espera:
austero, doloroso, pestilento, empireumático,
ar demasiado sujo para ser respirado, mas nós respiramo-lo,
demasiado terrível de respirar para quem procura
os seus entes queridos, mas eles respiraram-no e nós respiramo-lo.

Traz a fotografia da mulher pendurada
ao pescoço. Não levanta o olhar.
Pára no passeio que tem as lajes
colocadas no século de Whitman, valetas há muito
limadas pelo ferro das rodas numa dissipada harmonia:
memórias conscientes invejando as pedras.
Nie staja sie, sa,
Nic nad to, myslalem,
zbrzydziwszy sobie
wszystko co staje sie.

E eu sentei-me junto às águas do Hudson,
ao pé do North Cove Yacht Harbor, e pensei
no que terão sofrido os que estavam nos andares mais altos: sabendo
que arderiam vivos, e então, ardendo vivos.
Poderá haver na morte um mecanismo
tão mutilador da existência, que ninguém,
nem mesmo os mortos, alguma vez dominará?
E depois observei atrás de mim, em letras de ferro soldadas
nos marcos do correio, palavras de Walt Whitman
escritas quando a América mergulhou em guerra consigo mesma:
City of the world!...
Proud and passiontade city – mettlesome, mad, extravagant city!
Palavras de um tempo de ilusões. E depois lembrei-me
de mais palavras suas após a guerra e a morte de Lincoln:
I saw the debris and debris of all the slain soldiers of the war,
But I saw they were not as was thought,
They themselves were fully at rest – they suffer’d not,
The living remain’d and suffer’d, the mother suffer’d,
And the wife and the child and the musing comrade suffer’d

Nas nossas mentes os blocos de vidro
cedem repetidamente sobre si próprios,
pousam ruidosamente, andar a andar, sobre si próprios.
Florescem do avesso, explodem
para baixo e para fora, ondeando
pelas ruas, engolindo a fuga.

Enquanto cai cada torre concentra
em si própria, como que transformando-se
muito lentamente num buraco negro

infinitesimamente pequeno: massa
sem espaço, onde cada luz,
cada vida, apagada, descansa dentro de nós.

Versão possível de HMBF.

Galway Kinnell

Galway Kinnell nasceu em 1927 em Providence, Rhode island. Estudou na Universidade de Rochester, vindo a exercer a docência em várias universidades e colégios. Estreou-se na poesia em 1960, com What a Kingdom It Was. Activista contra a Guerra do Vietname, foi também membro do Congresso pela Igualdade Racial. Publicou várias traduções. Viveu em França, no Irão, em Espanha e na Austrália. É professor na Universidade de Nova Iorque. Esta tradução, inglória mas bem intencionada, teve por base a versão do poema incluída, por Lorrie Goldensohn, numa antologia intitulada American War Poetry (Columbia University, 2006). É provável que uma confrontação com o original denuncie a inaptidão do tradutor, cujo objectivo foi apenas o de captar o tom geral do poema.

10.9.07

AS MINHAS BRUXAS

Não percebo o estado a que chegou o meu país. Os juízes queixam-se das leis, os polícias queixam-se dos juízes, as populações queixam-se dos polícias, o Governo queixa-se das populações, a oposição queixa-se do Governo, os jornalistas queixam-se da oposição, os psicólogos queixam-se dos jornalistas, os artistas queixam-se dos psicólogos. Como é óbvio, ninguém se queixa dos artistas – essa praga de parasitas dispensáveis. Mas há os professores que se queixam dos alunos, os alunos que se queixam dos pais, os pais que se queixam do país. Toda a gente se queixa neste país, mas este país não se queixa de nada nem de ninguém. E quando pedem que se queixe de si próprio, ele prefere queixar-se dos outros. No fundo, ainda não saímos da Idade Média. Precisamos de bruxas para queimar na fogueira. Vamos buscá-las a qualquer lado e ateamos a fogueira com uma facilidade dos diabos. Depois venham os bombeiros apagar o fogo, enquanto se queixam da nossa incorrigível irresponsabilidade. Veja-se o chamado Caso Madeleine, sobre o qual não deveríamos ter nada a dizer e tudo a suspeitar. O que a prudência manda é consecutivamente substituído pela ânsia da especulação. Queremos bruxas para queimar na fogueira, chamem-se elas McCann, Murat, Polícia Judiciária ou imprensa. O que queremos é bruxas, voem lá elas nas vassouras que voarem. Seria bom que, por segundos, nos detivéssemos nos olhos daquela criança e perguntássemos, não onde pára o ursinho, mas onde pára o nosso bom senso. Como detesto expurgações públicas, prefiro acreditar que ele pára naqueles olhos como uma espécie de esperança perdida. Temo que esse bom senso esteja já morto e enterrado. E, com ele, os olhos de muitas crianças vivas, ainda agora nascidas, a brincarem aos mortos sem se darem conta, ingénuas que são, de que o futuro que as aguarda outra coisa não será senão esse mesmo jogo, mas com as regras dos adultos: o espectáculo das bruxas e das fogueiras. Por isso me incomoda que, enquanto andamos para aqui todos entretidos com o paradeiro do ursinho, ninguém, muito poucos, se lembrem que há à nossa volta todo um país de câmaras falidas, políticos corruptos, empresários sovinas, bancos rapinadores, gente adormecida, hipnotizada, falida.

AXIOMA


A arte contemporânea é retórica e argumentação. A política também. A arte contemporânea é política disfarçada de arte. Ou seja, é um grande negócio.

Adenda ao axioma: Há arte contemporânea que não é contemporânea.

MUDAR A VIDA

Sobre os tais livros que não mudaram a minha vida, já escrevi aqui, aqui e aqui. Não escreverei mais, mas não posso deixar de sublinhar este inteligente reparo da Charlotte: «Eu não ia querer que um professor meu anunciasse que Proust não mudou a vida dele; nunca o respeitaria. Mas isso é comigo. E só mais uma coisa: enxovalhar os mortos é muito fácil. Pena que não tenham mencionado nenhuma obra de nenhum escritor português vivo.» Ah pois é! É, é… E, em certos casos, nem um escritor português. Por que será que será? Ou os portugueses só escrevem obras fundamentais ou, em alternativa, nada escrevem que mereça ser citado. Até numa lista do género da que ainda mexe.

DOCE COMO AVES DE RAPINA É O AR…


Doce como aves de rapina é o ar
Nunca assim pairei sobre homens e árvores
Nunca mais assim descerei a pique através do sol
Arrastando a presa para a luz
E voando para longe através do verão!


Tradução de João Barrento.

Sarah Kirsch

Sarah Kirsch
, pseudónimo de Ingrid Bernstein, nasceu na Alemanha em 1935. Mudou de nome como forma de protesto contra o anti-semitismo de seu pai. Estudou Biologia e literatura em Leipzig, tendo também trabalhado numa refinaria de açúcar. Em 1965, casou com o escritor Rainer Kirsch. Fixou-se em Berlim-Leste em 1969, mudando-se para Berlim Ocidental na sequência de um protesto contra a expulsão, ocorrida em 1976, de Wolf Biermann. Estreou-se na poesia em 1967, com o livro Landaufenthalt (No campo). Além de poesia, escreveu obras em prosa e traduziu vários livros infantis.

9.9.07

CAMAROEIRO REAL

Uma senhora muito bem posta vasculha um monte de revistas dispostas sobre o balcão. Detém-se numa Focus, com Marcelo Rebelo de Sousa na capa e o título: As férias dos ricos. Olha para mim e comenta, num tom que me pareceu desdenhoso: Coitados dos ricos, prefiro as férias dos pobres.

Bloco de Apontamentos # 56


MJLF, O cavaquinho, técnica mista s/papel, 30x21cm, 1995


O gato plácido reapareceu nas redondezas com o seu ar sacana do costume, mas agora tem de disputar o território com o outro pretendente da Lua – o gato branco de olhos verdes, que tem um ego enorme e por isso apelidei-o de Galã. A Lua já não se zanga com a presença do Plácido, excepto se abro a porta, agora o Galã deixa-a fora de si quando aparece no vidro da janela e tem toda a razão, porque ele não é para brincadeiras, dá imensa pancada no Plácido, que anda todo arranhado. Isto de gatos e territórios é terrível.

Maria João

A TRAVESSIA

Na sexta-feira passada fui ao norte entrevistar o escritor A. Dasilva O., o primeiro escritor que citei num texto por mim publicado. Contei a história aqui. Boa conversa, cerveja fresca, memórias, literatura, o país e o futuro. Sempre a merda do futuro, como dizia o José Mário Branco. À noite, encontrei-me com uns amigos da velha guarda. Um tipo qualquer que fazia anos convidou-nos para umas guitarradas num bar onde, tinha eu para aí 16 anos, comecei a converter variadas experiências “alucinogénas” em versos extraviados cuja única intenção era, como no poema Insónia, de Álvaro de Campos, dizer que «passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada, e até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo». Lembrei-me agora disso tudo porque, faz este mês dez anos, foram esses versos de Álvarto de Campos a epígrafe que escolhi para o meu primeiro opúsculo. Há dez anos. Passou o tempo num instante, e, com o tempo, não tendo passado as insónias, passaram muitas das ilusões de antanho. Tudo por causa da merda do futuro. Só sei que nestes dez anos que passaram muito sangue tem corrido para a página, muito corpo tenho eu vazado na página. Para quê? Para nada. Para o esquecimento. Para a terra. Para ser enterrado a olhar o umbigo. E escrevia eu, então: matar o pensamento / é essa a missão dos dias / a vida é o sabor dos que esquecem / até a memória mais não ser / que um mero curvar de testa. É tudo mentira. A vida é antes o sabor do esquecimento. E a memória, a luz que nos alumia na travessia do deserto.