30.4.08

Ensaio

A revista Big Ode vai a Punta Umbría ao Edita 08. Traduzi para o espanhol, com a grande ajuda do Vítor Vicente, alguns poemas e textos publicados nas revistas. A equipa Big vai ler os textos com música do Rodrigo Miragaia. Deixo-vos aqui um cheirinho do ensaio do passado fim-de-semana.


Rui Carlos Souto


Maria João Lopes Fernandes


Mário Calado Pedro

Maria João

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #39

QUEM ME DERA UM FÃ ASSIM



De corpo grande, pintava em telas a luz
dos pesadelos. Saturando-se depressa
dos cinzentos de Sintra, apanhava um avião
como quem vai à esquina comprar um Gregório
e ia tomar um chá de raios de sol
com as amigas em Copacabana.

A espátula espalhando anil, verdes
esmeralda entre caminhos atormentados
na permanente aura do vazio sem antes
cuidar do rímel e do batom vermelho
nos lábios de apetecer. A mosca falsa na face
era tão imprescindível como o brilho dos brancos
para cegar nos gritos dos quadros. O whisky
e os barbitúricos ajudavam a chegar
às paisagens abstractas, de manhã a manhã.

Viveu como uma estrela – que era – até
o marido se embrulhar na noite do requiem
e deixar de acrescentar dinheiro
para as extravagâncias.

Inventou um misterioso fã da sua pintura.
Criando sempre suspense, contava brilhante
que em todos os locais por onde expunha,
fosse em Tóquio, Paris ou no Rio, o misterioso,
manda-lhe dezenas de bouquets de rosas
amarelas e um cartão anónimo desejando-lhe
o maior sucesso e um beijo do seu
admirador número um
.

Dormiu com a criação volátil do fã anos a fio,
até ser cremada numa tela de solidão.
Desterrada num décimo segundo andar
com vista para a Foz, a sua fiel gata
de companhia ficou envelhecendo triste
e só como a dona, até ao último miau
cheiroso a acrílicos de saudade.

Jorge Aguiar Oliveira

29.4.08

MISTÉRIO #2

O Kanobeleg agora chama-se simplesmente K. e os textos passaram a ser atribuídos ao autor hmbf. Toda a gente sabe que hmbf é a sigla da Home Made Brand Foods Co. Inc. Ora, sem querer confundir revolta com frustração e indignação com complexos de inferioridade, devo dizer que me sinto indignado e revoltado perante este inusitado fenómeno. Não por constatar que alguém guardou aqueles textos e agora, sem a mínima autorização, os reproduz. Sei que houve gente que os guardou, até porque algumas pessoas me informaram disso. A minha revolta e a minha indignação advém de um facto simples, uma completa impotência perante aqueles textos. Fui eu que os escrevi, fui eu que os divulguei, foram fruto do meu trabalho, roubaram-me horas, exigiram-me o pouco talento que tenho para estas coisas, tudo para que pudesse receber em troca o pouco que é possível pagar a quem assim resolve partilhar um pouco de si: algum respeito. Julgo que o K. está a faltar-me ao respeito por uma simples razão. Foi meu desejo que aqueles textos fossem rasurados, foi meu desejo que aqueles textos, por mim escritos, reaparecessem em circunstâncias diversas reescritos, retocados, até misturados. Não é meu desejo que eles ressuscitem das cinzas, ainda para mais atribuídos à Home Made Brand Foods Co. Inc. Senhor K., o seu gesto até pode parecer simpático mas entristece-me. E deixa-me a pensar na razão de tudo isto.

#1

DORES DE ESTÔMAGO

Ontem passei muito mal. Comi umas natas estragadas ao almoço. Passei o dia a vomitar e a dejectar. Quando estava a recompor-me, deparei-me com o mais fabuloso espelho da hipocrisia nacional na televisão do Estado: um Ministro do Trabalho e da Segurança Social (SS), os secretários-gerais das centrais sindicais e ainda, como dizia o outro, uma série de gente em representação destes e daqueles e daqueloutros. O meu estômago, que já estava maltratado, pior ficou. Não houve ninguém ali que negasse o evidente: a lei não se cumpre neste país. Mas o desplante é tal que, perante o inegável incumprimento da lei, a resposta, ao melhor estilo Gato Fedorento, foi invariavelmente: é verdade que não cumprimos, mas tudo estamos a fazer para passarmos a cumprir, porque a verdade é que ninguém cumpre, mas nós, apesar de tudo, não cumprimos muito menos do que os outros, por isso cumprimos um pouco mais, isto é, ainda que não cumpramos, quando cumprimos, cumprimos mais que os outros, pelo que tudo faremos para começarmos a cumprir mais ainda. Os recibos verdes são uma das maiores pragas, injustiças e atropelo aos direitos mais básicos dos trabalhadores na actualidade. Sei do que falo, pois há oito anos que trabalho a recibos verdes para a mesma entidade. Oito anos a cumprir horários, a marcar presença em reuniões que não são pagas, a obedecer a hierarquias, planos de trabalho, a elaborar relatórios impostos pela entidade à qual presto os meus serviços, etc. Tudo isto numa instituição da Igreja Católica Apostólica Romana, a mesma que anda sempre deveras preocupada com a situação das famílias portuguesas e dos trabalhadores portugueses. O Estado não cumpre, mente e rouba indiscriminadamente, sem que nada lhe aconteça. Por que razão terão os outros de cumprir? Mas não é só o Estado. Gostaria, por exemplo, que o Dr. Carvalho da Silva me dissesse como é que a CGTP-IN paga aos seus formadores. Estará o Dr. Carvalho da Silva em condições de me garantir que esses formadores se limitam a prestar serviços à CGTP ou serão, também eles, “falsos recibos verdes”? Perante isto, chamar-lhes falsos é, claramente, um eufemismo. Eles são bem verdadeiros. Sinto a verdade dos recibos verdes todos os dias. Sentia menos quando descontava menos para a tal SS, a mesma que nada me garante se, por acaso, eu ficar sem trabalho. A Segurança Social, neste país, é tudo o que não devia ser: uma grande dor de cabeça. Em 2002 descontava todos os meses 88,39 para a SS, em 2002 passei a descontar 90,58, em Março de 2004 aumentou para 92,86, em Fevereiro de 2005 para 95,17, até que, em Outubro de 2005, passei a descontar, todos os meses, 142,76, para, em Fevereiro de 2006, passar a descontar 147,03 e, em Março de 2007, 151,58. Não pago mais por receber mais. Antes pelo contrário, tenho vindo sempre a receber menos. No entanto, segundo os senhores que regem estas coisas, o que recebo ao final do ano não me isenta de pagar a totalidade da contribuição obrigatória. Mas há mais. Desde Setembro passado que, face às despesas, trabalho para uma Empresa de Trabalho Temporário (ETT) em regime de tempo parcial. Acumulo com o chamado trabalho independente. Como a ETT só me paga 2.33 à hora, o que gasta comigo, no final do mês, não a obriga a fazer a totalidade dos descontos para a SS. Se ao fim de um mês eu ganhar 293,56, a ETT desconta 32,29 e eu desconto o resto, ou seja, 119,29. Bom negócio para a ETT, não acham? Feitas as contas, dos 293,56 que eu auferi, apenas 174,27 são, realmente, para mim. Uma fortuna! Talvez dê para as fraldas da Beatriz. É por estas e por outras como estas que o meu estômago se desarranja tanto quando ouve aqueles senhores, quando me obriga a engolir a hipocrisia daquela gente, os tais amigos do seu amigo que, bem podem ficar descansados, terão uma velhice risonha. Penso nisto e só vejo 3 soluções: um forte e consistente movimento pró-economia paralela (ninguém passar recibos a ninguém, nem facturas, nem o caralho até que o Estado resolvesse mudar esta pouca vergonha) tem sempre vantagens e desvantagens; aumentar exponencialmente os scores eleitorais da CDU e do BE (o PP não conta por ser pendura do Bloco Central), a ponto dos partidos de poder se "acagaçarem", parece-me pouco provável; as formas de luta mais radicais, tipo greves, atentados, insurreições, afiguram-se-me interessantes mas, perante o desplante e o conformismo geral, ineficazes. Sendo assim, proponho uma via de abstinência, trabalhar o menos possível, abdicar dos bens materiais, regressar ao campo, aos mosteiros, reocupar terras abandonadas, voltar às cavernas se preciso for. E uma alimentação saudável, de preferência sem natas estragadas.

LABIRINTO #23

MJLF, s/ título, acrilico s/ papel, 30x21cm, 2008

Maria João

28.4.08

PENSAR POSITIVO

Foi desmantelada mais uma rede de trabalho escravo. Basicamente, funcionava assim: «a organização dividia os trabalhadores em grupos de dez e de 20 pessoas que eram transportadas por todo o país. Os explorados recebiam comida e, por vezes, em lugar do salário, droga e serviços de prostituição. Quando os ordenados eram pagos pelos empresários, os responsáveis pela organização, alegando enganos, apoderavam-se das cadernetas e códigos secretos das contas para, posteriormente, retirarem parte do dinheiro». Estas histórias impressionam-me sempre muito. São uma prova de que evoluímos muito pouco. Mas, apesar de tudo, são também a prova de que evoluímos alguma coisa. Não porque tenha havido um tempo em que nem com droga e putas os escravos eram pagos, mas pelo próprio carácter ilegal da rede. Que tenha sido desmantelada é, só por si, um pequeno sinal de que evoluímos alguma coisa.

Um tipo foi a uma esquadra da polícia de Moscavide apresentar uma queixa. Enquanto prestava depoimento, os indivíduos que eram alvo das acusações resolveram entrar na esquadra e enxertar o queixoso com uma carga de porrada. Ao que parece, este foi direitinho da esquadra para o hospital. Aí, as queixas terão sido outras. Ouvi na televisão alguns locais declarando o medo que sentem hoje nas ruas de Moscavide. Porquê? «Há para aí muita estrangeirada». - afirmou uma senhora com um ar algo medonho. Este tipo de declarações impressiona-me sempre muito. São uma prova de que evoluímos muito pouco. Mas, apesar de tudo, são também a prova de que evoluímos alguma coisa. Não porque tenha havido um tempo em que não existia estrangeirada na rua, mas pelo simples facto de haver tanta estrangeirada na rua. Que ela exista é, por si só, um pequeno sinal de que estamos melhor do que estávamos. Se não estivéssemos, a estrangeirada não viria para cá. Também não morreu ninguém nesta invasão da esquadra de Moscavide, o que é muito positivo.

É daquelas notícias que dá gosto viver em Portugal: «a junta de freguesia da Ericeira foi multada em sete mil euros por utilizar óleos reciclados para mover os carros do lixo, em vez de comprar combustíveis fósseis, pelo que o Estado se considera lesado». Como a produção do biodisel não está legalizada, o Estado não lhe mete a unha com imposto. Em suma: a junta quis ser pioneira numa forma original de proteger o meio ambiente, mas terá sido abusiva numa forma original de fugir às mandíbulas beberronas da Direcção-Geral de Finanças. Este tipo de desfecho impressiona-me sempre muito. É a prova de que evoluímos muito pouco. Mas, apesar de tudo, é também a prova de que evoluímos alguma coisa. Não porque tenha havido um tempo em que o Estado se deixava lesar, mas pelo simples facto de haver quem torne claro que a consciência ambiental é lesiva para o Estado. Que haja tanta clareza na declaração deste princípio é, por si só, um pequeno sinal de que estamos muito melhor do que estávamos. Se não estamos, estaremos.

FAZ SENTIDO

Desde sempre os homens oraram pelo essencial, suplicando chuvas onde só há deserto, clamando por sol onde apenas há gelo. A relação dos homens com o sagrado foi sempre algo comercial. Os deuses satisfazem as nossas necessidades, nós prestamos culto aos deuses. A relação não é assim tão linear, pois processa-se numa espécie de círculo onde o culto prestado garante o auxílio divino e o auxílio divino como que justifica a perpetuação do culto. Ora, se o chamado progresso das sociedades desenvolvidas foi possível, não graças a deus, mas graças aos homens, que, lá por alturas do Renascimento, começaram a olhar para o mundo com uma perspectiva mais pragmática e utilitária, a verdade é que, ao contrário do que vem sendo aclamado desde, pelo menos, Nietzsche, Deus não morreu. As necessidades é que mudaram e, com elas, a relação dos homens com o sagrado. É pois muito natural que haja quem reze por gasolina, assim como quem reza por água, terra, luz e ar consoante o que lhe seja necessário. Os homens vêem Deus no que lhes falta. Na verdade, Deus está no que falta aos homens.

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #38

INFECTADA MELOPEIA



Interpretava canções dum amor
nunca correspondido ao piano.
Nas pausas feridas, entre licores,
ia buscar as cartas do namoro
amarradas por fitas de seda,
guardadas num pequeno baú.
Por um galho de medo ou pudor
nunca as desatou. No entanto,
lia pedaços soltos do seu diário
repleto de pétalas de rosa vermelhas
espalmadas, amores-perfeitos
desbotando a tinta das palavras
de engodo. Os álbuns de fotografia
da família, foram visitados tantas
vezes, que fomos adoptando à socapa,
sem querer, seus mortos e vivos.
O retorno ao sarro era o seu asilo.

E sempre que o convite chegava
para mais um sarau, lá íamos
em estranhos passos de compaixão
fugindo dos espelhos do velório
dos nossos últimos dias.

Chegará o tempo em que toda
aquela vida irá parar a um antiquário
ou a um dos “herdeiros” do chão
da Feira da Ladra. 1940? Não,
não estávamos. Passava 99 e eu

deixei o deserto onde vivia
no dia que voaste sobre mim.


Jorge Aguiar Oliveira

27.4.08

MISTÉRIO

Depois do Nakata, eis que surge o Kanobeleg. Este último aparece envolto numa aura algo intrigante, pois vai copiar ao passado. O weblog chama-se universosdesfeitos e os textos que por lá se lêem, à excepção da canção dos Pink Floyd, são da minha autoria. Nada o indica, mas são. Foram publicados num weblog que mantive anteriormente e que se chamava, alguns lembrar-se-ão, Universos Desfeitos. Uma versão do texto dos engraxadores veio parar ao Insónia, a 6 de Setembro de 2006, e foi publicada numa revista chamada Mais Zoom. Já ao texto sobre o corpo, outro destino coube. Foi partido em duas partes e, se bem me recordo, terei de o confirmar, uma dessas partes reapareceu num dos números da Big Ode (julgo que o 3.º). O mistério é: quem será este admirador(a) que me guardou os textos e agora os republica em nome de Kanobeleg?

DOIS PANFLETOS ANTIAMERICANOS

Acabei agora mesmo de assistir a mais dois panfletos antiamericanos made in América. O primeiro, do reincidente Michael Moore, aborda o sistema de saúde norte-americano comparando-o com os sistemas públicos canadiano, francês, inglês e cubano. Confesso: sou fã incondicional de Moore. Certo que é cínico, do mais cínico que pode haver, mas nunca lhe vi um documentário que não fosse bem fundamentado, dinâmico, provocador, inquietante. Os inimigos do nosso SNS, os mesmos que pretendem colocar a nossa saúde nos tentáculos de seguradoras e indústria farmacêutica, entidades cujo interesse se resume a um lucro sem qualquer perspectiva humanitária, têm aqui um excelente exemplo do que pode esperar quem não seja amigo do amigo do amigo do amigo.

O segundo panfleto, da autoria de Brian de Palma, intitula-se Redacted. Fazendo uso das novas tecnologias da informação, de Palma conta-nos neste filme a história de um pelotão de soldados norte-americanos estacionado num posto de controlo algures no Iraque. Baseado em factos reais, esta espécie de reconstituição dos acontecimentos é muito elucidativa quanto ao sucesso da intervenção americana no território iraquiano: corpos decepados, crianças esventradas, mulheres carbonizadas. Em terminologia militar, chamam-lhes danos colaterais. O que de Palma mostra no seu filme é o que está disponível em vários canais de comunicação on-line mas escapa à informação dos mass media convencionais, fazendo-nos pensar, questionar, meditar, não só sobre os aspectos mais bárbaros duma guerra mas também sobre a hipocrisia latente que dá forma ao modo como essa mesma guerra é abordada junto das populações.

Micro # 9

O fantasma do desemprego reapareceu, está em harmonia com o tempo, ora toma lá, a alergia a tudo o que é belo, flores, passarinhos e bebe a alegria da estação do renascimento, saúde; anima-me apenas escutar o som do vizinho da frente, que vive fechado em casa há mais de vinte anos; o sol leva-o sempre a compartilhar música com o mundo: ontem ao fim da tarde brindou-me com o Elvis versão batata frita vinil rua fora, os seus graves desalinhavam e estremeciam com o rei do rock de um modo acutilante. Hoje brindou-me com a primaveril Gigliola Cinquetti. Obrigada vizinho por existires, é a música que não me deixa enlouquecer.

Maria João

QUEM É O MELHOR CANDIDATO À LIDERANÇA DO PSD?

Aguiar Branco, Alberto João Jardim, Aníbal Cavaco Silva, António Borges, António Sousa Franco, Chalana, Carlos Mota Pinto, Castanheira Barros, Durão Barroso, Emídio Guerreiro, Eskilsson, Fernando Nogueira, Fernando Santos, Francisco Pinto Balsemão, Francisco Sá Carneiro, Isaltino Morais, Jorge Nuno Pinto da Costa, José Maria Barroca, José Meneres Pimentel, Luís Filipe Menezes, Luís Filipe Vieira, Manuela Ferreira Leite, Marcelo Rebelo de Sousa, Marques Mendes, Neto da Silva, Nuno Rodrigues dos Santos, Octávio Machado, Ouattara, Paco Fortes, Patinha Antão, Pedro Passos Coelho, Pedro Santana Lopes, Pimenta Machado, Rui Rio, Valentim Loureiro, Zaroff?

26.4.08

MODAS



Não sou de modas, nunca fui, assim como também não cedo ao facilitismo das contramodas. Detesto citações obtusas, repetitivas, práticas de tucátulá, guitarras dedilhadas sempre ao mesmo ritmo, nas mesmas notas, como séries de quadros num museu poeirento. Prefiro o lado selvagem das florestas aos canteiros arrumados dos jardins. Quando morrer quero que me espalhem algures, para não ficar mecanicamente arrumado num cemitério geometricamente organizado. Ah! Como eu odeio a geometria do gosto, as leituras matemáticas, essa pseudocienciazinha a que chamam coerência. Não há coerência alguma em sermos rectos se do que fazemos queremos apenas o gosto da insurreição. Conheço muitos putos novos que são de modas, vestem as roupas de putas velhas que foram de modas, as quais, por sua vez, já haviam vestido os trapos dos ícones das modas entretanto seguidas como seguem as crias chocadas o seu progenitor. Eu quero é desnascer, sempre desnascer, rasgar os trapos, reinventar as fardas, seguir por trilhos onde, pelo menos, me seja dado o gozo de desbravar um pouco o matagal. Quero chegar ao fim do percurso com as pernas arranhadas pelas silvas, os braços mordidos pelos mosquitos, os pés sangrando de bolhas e muitas outras mordeduras. De outro modo, não valerá a pena. Preferível seria sentar-me defronte a um espelho a masturbar-me enquanto admiro, embevecidamente, a minha inigualável beleza. Ou então ficar à espera que alguém me masturbe, como, geralmente, fazem as putas velhas.

OS PACÓVIOS ARROGANTES

O lugar-comum de que as pessoas do campo são mais humildes e, por isso mesmo, mais simpáticas e prestáveis é um preconceito que apenas quem não vive no campo pode pretender sustentar. O campo está repleto de gente economicamente humilde e novos ricos que são, na mesma medida, moralmente arrogantes e estupidamente insensíveis, gente ignorante e iletrada mas radicalmente convencida da sua sapiência, a qual se fundamenta, invariavelmente, em meia dúzia de axiomas contraditórios e frases feitas ouvidas aos heróis da televisão (que tanto podem ser o Carlos Malato, a Fátima Lopes e a Júlia Pinheiro como o Fernando Rocha, o José Castelo Branco e o Cláudio Ramos). Estes heróis reproduzem ad nauseam essas mesmas frases feitas, estereótipos passados de geração em geração como se fossem verdades absolutas e inquestionáveis, aforismos com um farto valor persuasivo junto da massa acrítica que atravessa as orlas da sociedade inculta, inimiga da cultura e do saber, desdenhosa do estudo, da análise, da escola, etc. O tipo de pessoas a que me refiro faz destes heróis heróis precisamente por se rever na calculada simplicidade dos seus raciocínios. Ou então não há calculismo algum e os tais heróis são igualmente estúpidos por natureza. Mas o que considero mais deslumbrante nos campónios arrogantes é a presunção com que apontam o dedo aos forasteiros, a atitude discriminatória para com tudo o que manifeste diferença ou venha de fora, a forma ligeira como censuram putativas vaidades aos doutores e engenheiros que atravessem a rua lá da aldeia, topando-lhes narizes empinados onde, muitas vezes, há apenas carácter. Na realidade, muitas vezes, são eles, os campónios arrogantes, quem obstrui a integração dos demais. Por um qualquer complexo de inferioridade, julgam-se olhados com desdém. E é verdade que muitas vezes são olhados com desdém. Mas também é verdade que, muitas vezes, não merecem senão ser olhados com desdém. Disto tudo conclui-se apenas que a humildade não escolhe classes nem regiões, é fruto do carácter e da personalidade dos indivíduos, venham eles de onde vierem, sejam eles mais ou menos letrados.

DIZEM QUE É AMIGO DO SEU AMIGO #13

Pedro Santana Lopes nasceu em Lisboa a 29 de Junho de 1956. Licenciado em Direito, aderiu ao PPD-PSD com 20 anos. Foi Adjunto do Ministro Adjunto do Primeiro-Ministro do IV Governo Constitucional (1978-79), Assessor Jurídico no VI Governo Constitucional (1980-81), Deputado pelo Círculo de Lisboa (1980-1991), Deputado ao Parlamento Europeu (1987-1990), integrou o XI Governo Constitucional como Secretário de Estado da Cultura, liderou as Câmaras Municipais de Figueira da Foz (1998-01) e Lisboa (2002-04), tomou posse como Primeiro-Ministro do XVI Governo Constitucional. Devido à instabilidade governativa, a Assembleia da República foi dissolvida quando Pedro Santana Lopes era Primeiro-Ministro. Concorreu posteriormente como candidato do PSD, obtendo o pior resultado de sempre do seu partido. Este “menino guerreiro”, que gosta de ouvir os violinos de Chopin e escreve postais a Machado de Assis (m. 1908), foi ainda comentador desportivo, concorrente em programas televisivos e Presidente do SCP (1995-97). Enquanto dirigente desportivo ficou célebre ao declarar-se perseguido e intimidado depois de ter recebido um envelope com uma frase ameaçadora que afinal era apenas uma nota publicitária ao livro Cuidado com os Rapazes, do escritor Alface. Também exerceu funções de assistente na licenciatura de Direito e coordenou o Centro de Sondagens fundado por Paulo Portas, líder do CDS-PP, na Universidade Moderna, a mesma onde ocorreu um dos casos mais badalados de corrupção na sociedade portuguesa. Recordamos que, era Santana Lopes Presidente da CM de Figueira da Foz, quando o advogado José Braga Gonçalves, membro da direcção da Dinensino, a cooperativa proprietária da Universidade Moderna, e filho do reitor daquele estabelecimento, fechou um negócio, em Setembro, que lhe permitiria adquirir a maioria do capital de um semanário da Figueira da Foz apontado como o jornal mais crítico em relação ao presidente da câmara local. Pedro Santana Lopes foi também convidado por um seu ex-ministro, António Mexia, a desempenhar cargos de consultoria na EDP. Segundo aliados seus, do MPT, no município de Lisboa, Santana Lopes é "xenófobo", tem um "discurso bolorento", cometeu "atentados aos direitos dos lisboetas" com atitudes de "arrogância, prepotência e desrespeito pelas regras da democracia". Mas estas são apenas opiniões dos aliados. O maestro Graça Moura opta por chamar-lhe «gangster» e palhaço. Mas esta é apenas a opinião do maestro. Miguel Sousa Tavares assevera antes que ele nunca falhou em deixar tudo arruinado e de pantanas. Opinião, obviamente, de Miguel Sousa Tavares. Pedro Santana Lopes, de 52 anos de idade, solicitou a reforma aos 49 anos, recebendo desde Outubro de 2005 uma choruda pensão pelo exercício de funções no poder local. Continua por aí. Parabéns Portugal.

#1 #2 #3 #4 #5 #6 #7 #8 #9 #10 #11 #12

Caetano Veloso - Livros*


*Selecção de Jorge Aguiar Oliveira

25.4.08

25 DE ABRIL SEMPRE

Há tempos, durante um almoço de família, indaguei os mais velhos sobre aquele tempo. Tia minha, à terceira frase de recordações recalcadas, desatou a chorar. Habituei-me a ouvir falar daquele tempo com lágrimas nos olhos. Não são lágrimas de saudade, sentimento que dizem ser muito português, sentimento que julgo sempre demasiadamente português. Também não são lágrimas de alegria. São lágrimas de uma dor que ficou. A minha irmã mais avançada na idade costuma dizer que não guarda uma única boa memória da infância, que era tudo pobreza e privação. Nem quero imaginar o que possa ser isso de não guardar boas memórias da infância. Acredito nos que me são próximos, acredito na sinceridade dos testemunhos e na autenticidade das lágrimas. Vivia-se para ter o que comer, algo que vestir e pouco mais. Comia-se mal, vestia-se pior e pouco mais. Hoje, enquanto percorria os corredores do Fluviário com a mais pequena ao colo, reparava nas espécies em vias de extinção e pensava como em extinção parece também andar o bicho da memória. Quando esta gente desaparecer, quando aqueles que me contaram como foi desaparecerem, como vai ser? Tem-se feito pouco pela memória da miséria porque, apesar de tudo, ainda nos vamos entretendo muito com as probidades do mundo moderno. Ah! E as faltas, as terríveis faltas deste mundo moderno. Também pensei nelas enquanto me empanturrava num ensopado de borrego e numa garrafa de vinho branco. E, pelo jantar, voltei a pensar nisso enquanto me empanturrava numa espetada de lulas acompanhada de cervejinhas fresquinhas. Os restaurantes estavam cheios, o Fluviário estava cheio, os parques estavam cheios, dezenas de adolescentes bem vestidos, bem tratados, pareciam também estar cheios. Mas cheios de quê? O Presidente da República queixa-se da memória dos nossos adolescentes. Eu, que ainda tenho alguma memória, queixo-me de um Presidente da República que nada fez para combater essa desmemória enquanto foi, durante 10 anos, primeiro-ministro. Mas não me queixo, não me posso queixar, de ter tido hoje um dia que os meus pais jamais poderiam ter tido quando tinham a minha idade. Basta-me essa constatação simples para gritar, a plenos pulmões, mais uma vez e sempre: viva o 25 de Abril.

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #37

P DE FACA E TACHO



O pregão é pobre,
o manjerico enfezado
e a quadra é frouxa.
A sardinha e o cansaço

vivem congelados
transando nas ruelas
da Mouraria. Amanhã,
desfila a Marcha

pela Avenida repleta
de saltimbancos
do contrato a prazo
e dos trolhas

do sofrimento avulso.
O xaile da varina e
o avental da Rosa
do Mercado da Ribeira

hão-de ir parar à vitrina
do museu, onde haverá
uma foto documental
da escama do peixe

com legenda para
nenhuma criança pensar
ser a unha duma pega
travesti perdida no banco

de trás dum automóvel
à beira Tejo. Na noite
das Marchas, foliões
entre os canteiros,

fingem ver os marchantes
com as dores no corno,
cotovelo e no cu, por
pichas safadas e vadias,

que fazem duma foda,
um tempo de namoro
e dizem ficar noivos
de Santo António.

Fios dental cheirosos
a bacalhau no nariz
do polícia à paisana
e duas pernas ponteiros

de relógio que não param
de atiçar a procura
duma presa. Desfilam
os asnos, trauteando

notas vazias, engolindo
sapos a mando chantagista
dum chefe e mastigam
pizzas & hambúrgueres

ao balcão mal cheiroso
da moldada miséria.
Também andam por ali,
para serem vistos

pelos que lhes dão um
empregozito e os do voto.
Até os que travam lutas
na defesa da truta

e da libelinha, desfilam
num telejornal em busca
de protagonismo para
ganharem o troféu: o tacho.

Fatigado por não esquecer
o remorso de não ter
apanhado a onda do teu
olhar cheio de desejo e

a rejeitei, levo as mãos
aos bolsos, aspiro
o perfume dos manjericos
e entro pelas ruelas

da Mouraria boémia
para declamar um poema
ao primeiro que venha
socar a minha solidão.

Jorge Aguiar Oliveira

23.4.08

RUSSELL EDSON



O Veterinário, texto de Russell Edson, a propósito da apresentação do livro O ESPELHO ATORMENTADO, tradução de THE TORMENTED MIRROR editada pela OVNI (http://www.ovni.org). Apresentação em Coimbra, na livraria Almedina do Estádio, 4.ª feira, 23 de Abril de 2008, depois das 21h.

ARRASTÃO

Pode ser que, por mero acaso, as tuas horas sejam as minhas. Se assim for, deixa-me dizer-te que por estas horas o sol cai sobre as águas da lagoa. Parece uma luz que vem lá do fundo. A meia dúzia de pescadores no cais lançam o isco julgando, talvez, ser aquela luz o reflexo escamado dum cardume. Mais ao fundo, no alto e tonitruante mar, os arrastões barram o caminho dos peixes, os quais, colhidos pela rede, encontram a morte muito antes do isco. Alguns poucos, mais afoitos, chegam à rocha e escapam ao anzol. Porém, não lhes resta qualquer memória. Querem contar aos demais como foi a aventura e não se lembram. Só a mulher, algo embrutecida pela solidão, pode recordar aventuras antigas. Com os netos todos engrenados, nunca pensou apanhar na vida a seca dum deserto imenso. Para ela a vida parou, nada mais resta. Dantes, ainda se sentava à beira do cais a fazer umas rendas. Agora, limita-se a olhar os peixes mudos que se aventuram até à rocha. Diz que tem angústias, que por vezes responde a anúncios só para falar com alguém. Respondem-lhe que procuram gente entre os 30 e os 35, mas ela, na casa dos 60, ainda com mãos para as estufas, não pode senão ligar para calar um pouco as angústias. É possível que também no seu caso tenha havido um arrastão, lá no alto e tonitruante mar, a barrar-lhe o caminho. O nome desse arrastão é saber que não possuo.

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #36

O PERFUME DO DIABO



Virou o tempo do avesso
e a espera por ele virou eternidade
não deixando mais a noite ser
a pele da poesia.

Apeteceu-lhe voltar para mim,
suando de Rock’n’roll e a chupar
os dedos sujos da mostarda
do cachorro quente, para me ler
uns versos duma russa que tinha
descoberto e que anos mais tarde
andou na moda, por estas bandas.

Ostentava escandalosas borbulhas
prateadas no rosto e um capacete
de astronauta maluco enfiado
na peruca, para ninguém
a reconhecer na rua. Um dia
provocou uma catástrofe mundial
ao matar o número sete.
Do seis saltava-se para o oito.
O finado passou a ser
o desfiladeiro do vazio.
Pouco interessavam os gritos,
pouco interessam, porque
afinal, o tudo, pouco importa.

Ontem ela não era quem é. E tu
quem pensas que és? A luz negra?
A morte dos pingos? O perfume
do diabo? Não me faças cuspir
pró ar. Talvez tenha endoidecido
e depois? Ao menos não é o horror
das tuas conversas gananciosas
onde as palavras viram tijolos
na construção de muros. Agora

tu que estás cheia de tesão e vais
passar aqui esta noite (ao menos
esta noite) abre a janela da jaula
– como ela fazia – e grita alto
o último verso do poema
que trazes atravessado…

uma solidão sem poiso no mundo.


Jorge Aguiar Oliveira

22.4.08

O FIM DE UMA AVENTURA

Informa-me o Vítor Vicente que estão encontrados os vencedores desta aventura. Os prémios-surpresa serão enviado para os endereços postal do Francisco Curate e do Rui Almeida. Parabéns e obrigado a ambos.

(SIC)

Não sei se já vos aconteceu alguma vez darem uma lição de moral com nódoas na consciência. Pelo menos, suponho que a todos já aconteceu apontar o dedo a um defeito que é seu. E, por vezes, quase sempre inadvertidamente, corrigimos os outros dando erros similares. São situações tramadas. É o que acontece com a Inês Pedrosa na sua mais recente Crónica Feminina. Logo no primeiro parágrafo, resolve brincar, entre parêntesis, com um chinês que apareceu num Prós e Contras a tentar falar português: «(por alguma razão o «Prós e Contras» que a RTP dedicou à magna questão do Acordo, na passada segunda-feira, incluía o parecer de um chinês, fascinado com aquilo a que chamava (sic) «o novo língua portuguesa»)». Logo a seguir, a própria Inês Pedrosa, escreve o seguinte (sic): «Na referido programa televisivo…» Malvados revisores!

RIBAU, BAU, BAU, PARDAIS AO NINHO


Segunda nota, entendo que a nossa ZALI, a nossa Zona de Actividades Logísticas e Industriais, tem que ser promovida a PALI, Plataforma de Actividades Logísticas e Industriais. Isto do ZALI, além da terminologia cheirar um bocado a condição africana, com tudo o que de nobre e de subdesenvolvido a palavra pode agregar…

Se eu fosse do PPD-PSD, não perderia muito tempo com análises e reflexões sobre o estado a que chegou este partido. Quando o Ribau, uma versão erudita de Tino de Rãs, adquire o protagonismo que adquire, está tudo dito. Seja como for, não posso evitar o apelo: deixem jogar o Ribau.

21.4.08

A CULPA É DA CS

Estou a ouvir Zita Seabra barafustando contra uma reportagem publicada no Correio da Manhã que terá estado na origem da demissão de Menezes; vejo também Ângelo Correia apontar o dedo indicador à comunicação social portuguesa. Olho-os, ouço-os e lembro-me de Manuel Maria Carrilho sentado naquela mesma mesa. Terão aqueles dois lido o livro de Carrilho? Que terão dito do mesmo há praticamente dois anos?

RECEPÇÃO

Como é que se vai escrever recepção com o novo acordo ortográfico? Será receção ou, como dizem os brasileiros, recépição?
Adenda: Só para complicar um pouco, escolha uma das seguintes alternativas:
a) Como é que se vai escrever recepção?
b) Como é que vai-se escrever recepção?
c) Como é que vai escrever-se recepção?

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #35

PIZZA PARAÍSO



A dos trabalhos do campo tem um buço.
Ordenha, poda, coze pão, dá ajudas
a quem precisa, tudo dá, menos o corpo
que diz ser do senhor pai todo poderoso.
O bom amante do marido entregava-se
de corpo e alma aos diabos nas sombras
do pinhal engatando antes duma cartada
numa tarde domingueira de província.

Quando ela acedia a emprestar-lhe o corpo
ele abria um espumante e celebrava.
Duas ou três vezes por ano em Valência,
as gentes ouviam a rolha saltando.
A filha, farta de dias duros e de nada ter,
deixou de pregar colchetes nas blusas
das clientes, passando a frequentar as noites
de discoteca para encontrar quatro rodas,
apartamento na city e idas ao estrangeiro.
Em tudo esbarrou o seu sonho vulgar,
menos na qualquer coisa que sentia faltar.

Veio novo filho, novo carro, viagens
exóticas, mais amigos – sim? – bimbos
de canudo, bochechas e lábios de silicone
e finalmente a solidão mostrou-se nua
um dia ao lado duma azeitona,
salpicada de orégãos num paraíso
com pedaços de ananás
entregue à porta por um rapaz
todo giro todo piça da telepizza.


Jorge Aguiar Oliveira

18.4.08

CINCO

Hoje vou chover para outro lado. Levo comigo a aura dos teus olhos, o sorriso ingénuo com que nos brindas todas as manhãs, a doçura dos gestos mais ternos que pode um homem almejar. Hoje não irei chover sobre a nossa terra, porque é de luz a nossa terra sempre que tu ris. Danço e canto melodias antigas, danço e canto melodias novas, danço ao ritmo frenético das tuas dúvidas, canto a ansiedade das tuas respostas. Não pode haver cansaço nessas perguntas, não pode haver mágoa. Sempre que madruga olho-te pelo retrovisor. Não me vês olhar-te, nem sabes que os meus olhos estão ali, deliciados, com a pureza da tua melancolia. Como pode uma criança trazer no rosto alguma melancolia? Como pode olhar a paisagem em movimento, o movimento em paisagem, sem se interrogar? Não pode. Por isso saltas da melancolia, lenta, com aquela moleza sofrida de todas as manhãs, e esperas acordada um sonho vindouro, enquanto apontas na parede os desenhos, as construções, os adereços com que vais aprendendo a dar cor à vida. Tudo me ensinaste, tudo te devo. Ensinaste-me a falar de outro modo, a escrever de outra fala, a olhar o mundo com um espanto que julgava perdido no quotidiano bafiento das pessoas adultas. Ensinaste-me que tudo é anterior às teorias e que as teorias são anteriores às palavras, que as palavras são anteriores a si mesmas: nos gestos desregrados, espontâneos e inusitados com que brindas a existência. Eu hoje vou chover para o lado amistoso do vento. Vou tracejar a verde o coração oferecido, colar na porta do frigorífico mais um sinal de esperança, escutar atentamente as tuas dores, a minha ausência, esta tristeza de não poder estar sempre onde nos manda o coração.

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #34

SANDES DE CHOURIÇO



Deslizava suavemente os dedos
pelas pernas depiladas, esperançada
de um dia sentir os do seu homem
a provocar-lhe arrepios. Ele está casado
há trinta anos com a outra a quem ela
embruxou a morte, para se enroscar
um dia destes em seus braços. Até lá,
senta-se à noite na borda da cama,
ajeitando a camisa de dormir com
um lacinho de cetim entre os seios,
espetando uma beijoca no Padre Cruz
impresso a cores e emoldurado
em repouso na mesa de cabeceira.
Nunca tive a esperança de a ver
algum dia trocar a foto do santo
por uma do Sean Connery.

Há dias em que um ovni passa
pelo desespero e nos rapta
para esconderijos indesejados
dum tempo sem chão a arder
onde uma voz sem boca sofre.

Há dias como aquele em que sonhou
com um paquete branco deslizando
sobre os telhados da cidade, curvando
o Castelo de São Jorge e aportar ali
em pleno miradouro da Graça. E ela
de pernas abertas à sua espera para
embarcar. Afundando na imperial
o desejo ardente do paquete ser real
embebedou-se, abrindo uma torneira
do lavatório. Nas águas vieram
serpentes castigadoras para
engolir-lhe as mãos.

Assim ficou para sempre adiado
o toque de pele no corpo dele
como o primeiro toque que foi
de seu pai, que ao encava-la,
apertava-lhe as nalgas e dizia ser esta
a mais saborosa sandes universal.

Jorge Aguiar Oliveira

17.4.08

Labirinto #22

quando o dia rompeu, continuámos o caminho, eu e ela. a
paisagem foi ficando mais clara. o céu, o horizonte, as
casas. dentre as casas, uma casa. uma casa larga, baixa,
branca, com três janelas. uma dentre as janelas. a
do meio. dentro dela uma sala. uma sala ainda na penumbra.
e na penumbra da sala dentro da janela, eu e ela, eu e
a minha memória, reconhecemos: eu e ela. ela sentada no
chão, e apoiada no cotovelo. eu sentado em frente dela.
ela sentada em frente de mim, apoiada nos olhos
dela. era quanto víamos do lugar em que estávamos, eu
e ela, eu e a minha memória. e se por um instante tínhamos
pensado ter chegado ao fim do caminho, eu e ela, eu e a
minha memória, logo verificámos, que era preciso
continuar, entrar dentro de mim e ela dentro dela, e eu dentro dela e
ela dentro de mim. e no céu reflectido no vidro da jan
ela passava, brusca e leve, entre mim e ela, entre as
minhas mãos e as mãos dela, uma nuvem brusca e leve,
entre as minhas mãos e as mãos dela, mas não sabíamos
se era uma nuvem que passava agora ou uma nuvem que
passara então, entre as minhas mãos e as mãos dela, uma
pequena nuvem, brusca e leve. e tudo o que se passava era
para lá do vidro dessa janela, num eco vindo de lá dessa
janela, entre mim e ela, como podíamos ver e ouvir, eu e
ela. havia portanto que avançar, que atravessar aquela
janela, para eu entrar em mim e ela entrar nela, e para
eu entrar nela e ela entrar em mim. assim atravessámos a
janela, eu e ela, e eu fui colocar-me dentro de mim
sentado diante dela, e ela foi-se colocar dentro dela,
sentada diante de mim. porém, por estranho que pareça,
trocávamo-nos com as mãos e não nos sentíamos, movíamos
a boca e não nos escutávamos, nem eu a ela nem ela a mim,
e assim foi algum tempo ainda e algum tempo ainda
continuou a ser. até que depois, quando o dia rompeu e
acordei do costumado sonho, senti que para alguma vez a
sentir, para alguma vez a escutar, e para alguma vez me
sentir, para alguma vez me escutar, tinha que recomeçar,
na noite seguinte tinha que recomeçar, tinha que recomeçar.

Alberto Pimenta, Ascensão de dez gostos à boca, Coimbra 1977.

Maria João

OS MEUS* PARABÉNS X 3 PELOS 500.000

Para o Henrique Fialho

Faithless, We Come 1




Para a Maria João Lopes Fernandes

Peggy Lee, Johnny Guitar




Para o Rui Costa

Elbow, Grounds For Divorce





*Jorge Aguiar Oliveira

DIZEM QUE É AMIGO DO SEU AMIGO #12

Jorge Coelho (n. 1954) nasceu em Mangualde. Licenciado em Organização e Gestão de Empresas, iniciou a sua actividade política na UDP, ingressando mais tarde no PS. Deputado à AR entre 1987 e 1995, exerceu vários cargos administrativos em Macau. Foi Ministro de Estado e do Equipamento Social (Obras Públicas) no XVI Governo, demitindo-se na sequência da queda da ponte de Entre-os-Rios. Amigo de Manuel Dias Loureiro, que, por sua vez, é amigo de Durão Barroso, que, por sua vez, é amigo de Jacques Chirac, Jorge Paulo Sacadura Coelho é conhecido por Buldózer, Bombeiro, Homem do aparelho, Malabarista. Foi recentemente nomeado para a presidência da construtora Mota-Engil, empresa que conta já na sua administração com dois ex-ministros [Jorge Coelho e Valente de Oliveira], um ex-secretário de Estado [Luís Parreirão], entre outras figuras conhecidas da política nacional tais como o Dr. António Bernardo Aranha da Gama Lobo Xavier. Parabéns ao ex-dirigente socialista, por ter chegado à presidência executiva do maior grupo de construção civil de Portugal, o grupo Mota-Engil, depois de se ter demitido de Ministro das Obras Públicas na sequência da queda de uma ponte. Mas, sobretudo, parabéns Portugal!

#1 #2 #3 #4 #5 #6 #7 #8 #9 #10 #11

Um poema* de Vitorino Nemésio e uma foto de Jack Spencer



CANADÁ - FLIGHT, LISBOA / SANTA MARIA


Já voamos na rota do alumínio,
Com ar de bomba, iões de rampa, poços de ar.
Na fuga de desejos das senhoras
Há uma grande ternura de acepipes,
Panos de plástico, o medo à Morte na algibeira
E o ar altimétrico, o eterno ar.
O ozone é longe, vertical, escudo a raios:
Oh, redução de tudo a poucos elementos!
Levo hélio nos leves pensamentos
E plutónio pesado na consciência.
Tão bom, voar a fio de morte na Energia,
Lendo Simone Weil cheia de Peso e Graça!
Meus pecados contidos, se explodissem,
Fariam bem pior que eu morto a voo.
Velocidade, qual? De sedimentação?
900 km à hora e ao ar é pouco,
E mesmo assim o trem de pouso encurta já.
Ai, o burro Junot da minha infância,
Como era mais ligeiro na inocência,
Tão aerodinâmico na humildade!
Já desço à ilha que me chama às lamas quentes,
Metano e amónia que me arquitectaram.
Mais baixo fica a cucumária dos abismos,
A estrela-do-mar, que faz de cada raio um filho,
Os mil olhos e a umbela pulsátil da medusa,
Pais do meu coração de vagabundo,
Testemunhas do mar que me deu plâncton.
Meus amores flutuantes eram as rosas-dos-ventos,
Eu fui tu-cá tu-lá com sargaços e cúmulos,
Tratei aves, pintou-me a moreia malhada,
Um goraz na mão lesa do Lestinho
Deu-me fósforo aos versos
E o anel de hemoglobina a um amor taquicárdico.
Agora voo mais que o -peixe aéreo,
Plano mais que a gaivota flutuante:
Mas sempre a cálculo, a reactor, na combustão da pena,
Revelado com Deus, lido em Job e Niels Bohr,
Ondulado na luz cogitada e fotónica,
Muito pouco fiel aos mendigos de côdea
Que só apertam o cinto ao descolar da fome,
Que não viram os Andes na Falperra
Nem tocaram o Rio a pés de feltro no Galeão:
Quando muito, uma estrela ou um papagaio
Levantaram seu olhar ingénuo a fio de grude
(Olhar de pobres):— Olha! Ena! Que guita!
A lágrima é ramela
Na cara de quem só tem a pista calculada
No voo de pés juntos para a vala comum.

Mas suspendo. Aterramos sossegados,
Chega a hora do cinto na barriga:
Oprime o pensamento, aperta a esperança.
Desatá-lo ao remorso significa
Parar, pedir ao chão outra vez planta
E juízo comum, modéstia. Oh, nuvens
Furadas para baixo, à busca de destino,
Já vistas para cima em chuva como outrora
Quando a chama a petróleo era o farol de todos,
A luz do pão por Deus e o sinal do silêncio
Na comunhão dos pobres sem aviões.

Meus ouvidos registam a pressão
Da descida ao traído coração.


*Selecção de Jorge Aguiar Oliveira

16.4.08

UM CERTO TIPO DE GENTE

Conheço muita gente que faz questão de estar bem com deus e com o diabo (noutra versão seria com gregos e troianos, mas aqui eu não saberia qual dos povos identificar com deus ou com o diabo). Gente deste tipo é sempre demasiada gente. Há quem lhes chame oportunistas, calculistas, cínicos, indigentes, ambiciosos, hipócritas, interesseiros, pretensiosos, entre outros epítetos do género. Ao contrário do outro, que andava sempre de bem consigo próprio e de mal com os outros, esta gente andará sempre de bem com os outros, sejam deus ou o diabo, e de mal consigo próprios. Ainda que procurem disfarçar esse mal-estar como sabem e como podem.

TONY DE MATOS: "GOSTO DO VENTO"


Para a Maria João.

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #33

CARJACKING, TRAILER 1


Nem sempre me apetece
escrever pico, turfa ou alto mar
para te segredar
ando com os passos à deriva
ficando só
pelo
estou perdido,
esperando sentado
o revólver colado ao vidro
ameaça
numa perca de tempo
para nada ganhar.

O carro não é meu,
a chave levou o outro,
o dinheiro tem o outro.
Nestes bolsos
areias dum deserto
uma caneta vulgar
e no cadernito
poucas palavras escritas
onde nenhuma serve
o teu pé, chavalo.
Estás como eu:
um assaltante azarado.

Ambos sabemos
pertencer
à gramática sanguinária
o dedo no gatilho

e não é dando uma mão
ao alastramento do medo
que abandonarás
algum dia
as sobras e os vazios.

A mãe o padrasto e
os dois irmãos mais velhos
foram arremessados
para o charco dos sem
trabalho. No andar não
dá para criar galinhas
couves ou alfaces
para fugir da fome
para fugir dos gestos
selvagens.

Falta uma unha
para mastigar
o nylon das calças
as páginas de jornais
e um copo de água
imputável dilacera
a raiva grasnando
nas veias.

Jorge Aguiar Oliveira

15.4.08

Labirinto #21

Mauritus Cornelis Escher (1898-1970), Three Worlds, litografia, 1955

Maria João

Um conto* de António Botto e uma foto de Robert ParkeHarrison



OS SETE SÁBIOS


– Para que servem vocês? - diziam irados os homens daquele povo, a sete sábios chamados a remediar os seus imensos infortúnios.

«Confiávamos na vossa ciência para arrumar os nossos obstáculos, e afinal, dão-nos palavras e palavras que não resolvem coisa alguma!

– Assim é – confessavam os sete sábios.

– Tivéssemos nós adivinhado que a vossa sabedoria é inútil.

– Muitas vezes é inútil – responderam todos ao mesmo tempo, uns cabisbaixos, outros de cabeça erguida.

Os que mostravam a cabeça bem levantada era de tanto olharem para as estrelas, como os que a mostravam caída era de tanto investigarem os mistérios insondáveis da terra.

A serenidade dos sete sábios irritava os homens daquele povo.

– E fomos nós buscá-los a terras longínquas, com todas as honras, levando camelos e burros, e aqui vos demos a melhor hospitalidade? A carne mais fresca, peixe vivo, boa fruta, para quê? Se a vossa sabedoria ainda é menos do que a nossa? Podeis partir, impostores!

Os sete sábios, em silêncio, começaram a afastar-se e alguns foram apedrejados.

Entre a multidão enfurecida um pobre idiota arrastava um pequeno cão morto, quase a decompor-se.

Então, o sábio mais velho, voltou-se para trás e disse:

– Quem matou esse animal?

Todos ficaram calados.

– Fui eu! Fui eu! - gritou o idiota abrindo a boca numa gargalhada sem timbre.

– Pois vejam nele o que podemos fazer se tentássemos ressuscitá-lo – replicou o sábio.

«A nossa vasta sabedoria poderia dizer-vos muitas coisas para os vossos males sem remédio, mas seria como tentar dar vida a esse cão morto.

E afastaram-se, fixando aquelas caras de pasmo, de ironia e de revolta.




*Selecção de Jorge Aguiar Oliveira

AI FOI?!

No Quem Quer Ser Milionário, um jovem não sabia quem defendia que “todas as cartas de amor são ridículas”. Pediu ajuda ao público, o qual estava dividido entre Fernando Pessoa e Cesário Verde. O jovem resolveu telefonar à professora de português. Esta não só não hesitou na resposta correcta, como ainda acrescentou: “e não seriam cartas de amor se não fossem ridículas”. Jorge Gabriel, querendo dar um ar de sua graça, provavelmente entusiasmado pelos dados fornecidos pelos argumentistas do programa, resolveu rematar fazendo luz sobre a nossa ignorância: “Foi do pseudónimo Álvaro de Campos, este poema”.

AVENTUREM-SE

...falta-me precisamente vender 1 Cinzeiro para ter a edição paga...

E-mail do Vítor Vicente, da Canto Escuro, que editou O Meu Cinzeiro Azul. Quem comprar este exemplar que falta, terá direito a prémio.

A RESISTÊNCIA DOS MATERIAIS

“…Mesmo que a qualidade do romance seja indiscutível, lamento informar que não poderemos levar a cabo a sua publicação.

Achamos que o texto possui um grau de dificuldade que não se coaduna com o mercado que hoje temos na área do livro
e
que o número de leitores potenciais para este tipo de obra é demasiado reduzido para podermos correr o risco da sua edição…”




Comentário de empresa editora portuguesa acerca de “A Resistência dos Materiais”


Rui Costa

BRASILÊS DE PORTUGAL

O português praticado no Brasil é muito mais bonito que o português praticado em Portugal. O de lá é todo redondo, musical, bailarino, luminoso, poético, como bem atestam estes versos do poeta Liedson: Procurámos o golo mas não saiu. O empate não é de mau tamanho (via Poesia & Lda.). Em África, tope-se este exemplo, também vai a língua portuguesa no bom caminho. O português praticado em Portugal é demasiado português, logo muito pouco recomendável. Há excepções, como é óbvio. Mas, na sua grande maioria, é um português enfadonho, deslavado, triste e macambúzio. As excepções vêm todas da província ou dos bairros pícaros da metrópole, onde, dizem os especialistas, se fala mal português. Pena que falar bem soe sempre tão feio.

ACORDO ORTOGRÁFICO



Assisti ao debate de ontem com muito interesse, mais ainda devido ao grandíloquo decote da apresentadora (por falar em decotes, a imagem chegou-me via Lutz). Escutados os prós e os contras, devo dizer que até concordo com o acordo ortográfico. Isto é, julgo que o acordo ortográfico, na prática, é apenas uma hecatombe linguística, o que, como sabemos, não aquecerá nem arrefecerá a nossa já incomensurável miséria. Sendo assim, devo concluir que sou favorável ao acordo, desde que não me obriguem a cumpri-lo.

GRANDES NEGÓCIOS

No passado dia 7 de Abril a Caixa Geral de Depósitos debitou-me €8.50 da conta. Motivo: anuidade. No dia 7 de Novembro foram €5 por despesas de manutenção. Já no dia 9 de Agosto paguei mais €8 de anuidade, enquanto no dia 1 do mesmo mês tinham-me debitado €10 novamente por despesas de manutenção. E no dia 19 do passado mês de Junho ainda mais €10 por despesas de manutenção. Feitas as contas, no espaço de um ano foram €41,50 direitinhos da minha conta para os cofres da Caixa Geral de Depósitos, o banco público português. Se isto não é mais uma forma do Estado roubar os portugueses, então digam-me o que é.

14.4.08

IKLIMER, DE NURI BILGE CEYLAN


Ando sob o Verão à procura da chuva,
passo por entre a chuva, caminho na névoa,
e nenhuma estação me detém.

Olho a paisagem ao fundo dos dias,
uma cordilheira de mentiras, perdão,
um regresso às mesmas desculpas de sempre.

Se ao menos uma gargalhada se intrometesse
no nosso amor, se ao menos um riso
no choro gelado dos rostos desaparecidos.

Restam-me as fotografias de um quando
esquecido, registos revogados de datas
passadas. E o olvido a caminho do repouso.

LABIRINTO #20

“ Abri-o ao acaso. Os caracteres eram-me estranhos. As páginas, que me pareceram gastas e de tipografia pobre, estavam impressas a duas colunas à maneira das bíblias. A mancha do texto era densa e ordenada em versículos. No canto superior das páginas havia algarismos árabes. Chamou-me a atenção o facto de uma página par ter o número (digamos) 40514 e a ímpar seguinte 999. Voltei-a; o verso estava numerado com oito algarismos. Tinha uma pequena ilustração, como é hábito nos dicionários: uma âncora desenhada à pena pela mão pouco hábil, diríamos, de uma criança. Foi nessa altura que o desconhecido me disse:
- Olhe bem para ela, porque não voltará a vê-la.”

Jorge Luís Borges, “O Livro de Areia”, Editorial Estampa, p-134.

Maria João

EM DEFESA DE GOMES DA SILVA

Devemos a Rui Gomes da Silva um forte contributo na transferência do professor Marcelo da TVI para a RTP. Viva! Este semideus da nação está agora contra a contratação de Fernanda Câncio pela televisão do Estado. A razão é uma alegada relação da jornalista com o primeiro-ministro. Ferreira Fernandes diz que Fernanda Câncio é pré-socrática e que Rui Gomes da Silva tem mais fotos com ex-primeiros-ministros do que a jornalista do DN. É verdade. Também é verdade que Fernanda Câncio já trabalhou no Expresso, na revista Elle, na Grande Reportagem, na SIC, na Notícias Magazine e colaborou com a revista Visão, com o Jornal de Letras, com a Cosmopolitan, com a revista Marie Claire, com a Egoísta, com a Conscience. Diz-se também que tem a categoria profissional de grande repórter, signifique lá isso o que significar. Mas este currículo não tem importância alguma quando comparado com os méritos de Rui Gomes da Silva. Como todos sabemos, porque é público e notório, trata-se de um homem de imenso valor com obra de valor imenso. No entanto, nunca a obra de um homem deverá pesar definitivamente no julgamento das asserções que profira. Rui Gomes da Silva não só tem a razão do seu lado como se limita a copiar os mais elevados exemplos vindos de fora. É sabido que os funcionários públicos franceses estão hoje impedidos de comprar discos da Carla Bruni por razões que são de todos conhecidas. Quem anda com o primeiro-ministro não pode ser contratado pela RTP. E se, por mera infelicidade do destino e da sorte, calhar a algum funcionário da RTP ter uma relação com o primeiro-ministro, com o actual ou com outro qualquer que o renda, esse funcionário deverá ser imediatamente demitido, sob pena da RTP cair no descrédito de milhões de portugueses. Judite de Sousa, por exemplo, deveria sair imediatamente da RTP ou, em alternativa, divorciar-se do professor Seara. Por isso, faço minhas estas palavras, sobretudo o «antes pelo contrário»: «Nós não contestamos que a jornalista desenvolva a sua profissão com um relacionamento com qualquer político, aliás, antes pelo contrário». Repare-se que o PSD, na pessoa de Rui Gomes da Silva, até promove relacionamentos entre jornalistas e políticos. Por exemplo, não viria mal ao país se Fernanda Câncio “andasse” com Rui Gomes da Silva. Agora com o primeiro-ministro... e, ainda por cima, desenvolver essa actividade num canal público?! Que bandalhice! Não sejam badalhocos! Na SIC, na TVI e nos outros canais privados, sejam eles quais forem, tudo bem. Na RTP, santuário da moral e dos bons costumes lusitanos, nem pensar nisso. Por isso, caríssimos, aprendam: querem andar a namoriscar com políticos, mormente com primeiros-ministros, mandem currículos para as privadas. Ou então façam como a Cinha Jardim, concorram a um Big Brother. Vocês já pensaram o que seria a Cinha Jardim ser contratada para fazer um programa sobre bairros sociais na RTP? Já ponderaram bem no que seria a mulher de Durão Barroso ter sido contratada para recitar poesia na RTP quando aquele era primeiro-ministro? Não me lixem. É por causa dos precedentes que não se cumprem critérios. Para evitar situações ambíguas, o programa da Fernanda Câncio deveria ser imediatamente suspenso. Em seu lugar, um momento de ética e de deontologia, de religião e de moral, assinado pelo santo Rui Gomes da Silva.

LHASA - CON TODA PALABRA*


*Selecção de Jorge Aguiar Oliveira.

MC MAD

Vivo em Caldas da Rainha desde 2000. Antes de vir para cá, vivi 8 anos em Lisboa. E antes de viver em Lisboa, vivi em Rio Maior. Ainda gostava de viver uns tempos no Porto, numa cidade estrangeira qualquer e tenho por objectivo acabar os meus dias no interior alentejano. Praticamente cumpridos 8 anos em Caldas da Rainha, tantos quantos os vividos em Lisboa, penso na minha relação com este lugar. Vim para aqui por razões logísticas: casa barata, localização entre a fuga e o precipício, perto de ombros amigos, ideal para o sossego das crias, entre outras vantagens que não apetece enumerar. O pior é a humidade, sempre a malvada humidade. Ainda assim, gosto do meu bairro. Vivo num apartamento com vista para o Bairro dos Ciganos. Há uma velha que passa o tempo todo à janela, provavelmente a ver-me olhar para ela. A Quitéria, nome artístico de minha responsabilidade, é uma musa inspiradora inigualável. Ainda ontem arreganhou a desdentadura a um Pit Bull que o animal ganiu que parecia um Caniche. Também há raças perigosas aqui no bairro, sendo a mais ameaçadora de todas, sem dúvida, a Quitéria. Os putos labregos gozam com ela, devem julgá-la parva, doida, desventurada. Mal sabem a sabedoria que anda naqueles sapatos rotos, naquele avental emporcalhado, naquele lenço esfranjado. Enquanto passa, provocam-na com piropos ajavardados. Os ciganos riem-se das provocações. À volta da fogueira, ateada de tempos a tempos, tocam as guitarras e cantam. Às vezes abrem as portas das carrinhas e dançam ao som da música roufenha das cassetes pirata. Logo ali ao lado, os putos enrolam charros enquanto jogam à bola, vestem-se como as estrelas do rap, de pechisbeque no lugar do ouro e plástico a fazer de diamante. As raparigas andam quase sempre em grupo, aproximam-se dos rapazes, muito roliças, partilham os charros e depois partem de mão dada para outras aventuras. Vejo ainda, da varanda da minha casa, alguns sinais de modernidade: moinhos eólicos, gruas, prédios em construção, carros em circulação apressada, contentores abertos, um ecoponto praticamente inutilizado. Quando tenho saudades da agitação turística, o que é raro, faço um passeio até Óbidos ou vou à Nazaré. Mas isso acontece muito raramente. Prefiro ficar-me pelo parque a mirar os artistas da cidade, espreitar as bancas na feira das velharias, comprar pão caseiro e vegetais frescos no mercado da fruta, três carapaus para assar na brasa. Também vou, com alguma frequência, à Foz do Arelho. Bebo um café da avó e como uma filhós nos dias invernosos. Se estiver bom tempo, bebo umas imperiais numa esplanada com vista para a lagoa e, não me pesem muito as pernas, sigo até à beira-mar. Depois sento-me a olhar o horizonte e penso na vida. Penso no que são os meus dias de há 8 anos a esta parte, penso no que poderiam ter sido, penso no que jamais serão, penso no que poderão vir a ser. Penso. E fecho-me a pensar nestas coisas. A questão é esta: tenho um trabalho de merda que me permite pagar as contas, a água, o gás, a luz, as telecomunicações, a gasolina, as despesas de manutenção do carro, os serviços municipalizados, o seguro, tenho a segurança social à perna, mais um ou outro problema a moer-me o juízo, tenho preocupações várias com o cumprimento de certas e determinadas obrigações. Tenho todas essas chatices, mas, apesar de tudo, não me posso queixar. Podia estar pior, podia estar melhor. Estou. E estou aqui, agora, a partilhar tudo isto porque lá fora o sol espreita, a velha continua a mirar o vazio e eu continuo a mirar a velha.

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #32

OS RINOPIT BULL



Uma bússola sem ponteiros
uma lanterna sem pilhas
são olhares famélicos vagueando
pelas carruagens do comboio.

Uma canção escorrendo no vidro
da janela é um sedativo pró vazio
entre a Damaia e a Reboleira.

Trazem o desemprego ao pescoço
uns, enquanto outros,
o medo dele
lhes sair na rifa, escondem
nos bolsos, uns poucos cêntimos
da sobra do mísero ordenado pago
e roubado em descontos
pelos oficiais anestesistas – porque
hoje quem dá e tira, está-se cagando
pró inferno – regressando ao fim
de mais um dia às celas pagas
a prestações, suando um ar
aparentemente domesticado.

O feto da raiva vem crescendo
nos subterrâneos do medo
do mirrar cedo, e a revolta
a nascer vai ser assexuada.

Chegados às arrecadações
onde o pouco ou nada lhes pertence
caminham patéticos de um lado
para o outro,
embalando a infelicidade
de um lado para o outro

ao redor, os vapores do caldo pobre
em contraluz à diarreia no ecrã
a confiscar-lhes

o pensamento.
Sem piedade

e de dentuça arreganhada
os da manda, não deram conta
que criaram e desenvolvem
uma nova raça, cruzada de Pit Bull
e Desemprego mais Fome e
Rinoceronte-branco. Aos poucos
irão rasgando pelas noites sem rua
cegos de inanição e de dente afiado
destruindo tudo o que cheire
a sinónimo de sobrevivência.

Aos poucos, os poucos serão
muitos em rota de colisão
com os da confiscação das latas
das camas, dos tecidos modestos,
dos gestos bonitos. Nada
lhes sobrará. Nem a humilhação
que hão-de assassinar
com ácida vergonha.

É inverno, é manhã, é triste,
quando rompe dos fundos
e travessa a carruagem, man
tem calma, estilo intermitente,
grossos gestos sonhos mortais
brilhantes nas orelhas com mp3
calça de ganga golpeada,
pontapeia a porta em andamento
olhos no chão até a menina
electrónica enunciar
Queluz, próxima paragem.

Coloca os óculos frente
ao desinteresse por tudo
o que lhe circunda, pontapeia
de novo a porta que se abre,
saltando para a gare como
um Rinopit Bull solto para a luta
dentro duma urna de voto.

Jorge Aguiar Oliveira

13.4.08

DEATH PROOF


Um exercício de estilo secante, vazio, inconsequente. Se a intenção era fazer bem um filme mau, falhou. O resultado é apenas um filme enfadonho. E isto tudo apesar da excelente banda sonora, das gajas boas, da lap dance, da alta velocidade e da pancadaria de meia-noite.

ISENTO

De facto, Ruy, «é realmente uma desgraça ter nascido em Portugal. Sentimo-lo quando nos nasce um filho. Parte para a vida em desvantagem». De facto, Ruy, tudo isso me parece muito razoável, embora Portugal nada tenha que ver com isso. Temos boas praias, boas serras, temos pitéus de levar ninfas ao desespero e néctares de transformar deuses em energúmenos. Os nossos anjos, Ruy, andam todos muito equivocados. Ainda não perceberam que as estações pararam neste país, pararam num tempo que está dentro do sangue, que corre dentro do sangue, não de Portugal, que esse só tem veias de pedra, mas dos portugueses. De facto, partimos em desvantagem. Não por termos pouco espaço, mas por, sendo pouco o espaço, serem tão deploráveis aqueles que o ocupam. As contas são tuas: «Se toda a gente nos lesse, seriam nove milhões. Ora treze milhões nasciam há uns tempos por ano na China». Mas a China, Ruy, com tantos milhões, não há-de ser muito mais agradável do que Portugal. No outro dia vi um documentário sobre uma tribo nómada da Amazónia. Chamam-se Zo-é, se bem me lembro. Terão eles preocupações destas? O problema deles não é o espaço, Ruy. Nem o tempo. Muito menos não haver quem os leia. O problema deles é o nosso problema, ainda que o nosso problema não tenha árvores gigantescas, cascatas translúcidas, papagaios de mil cores e raízes do tamanho de casas. O problema deles é o nosso problema. Chama-se sobrevivência. Mas o nosso problema não tem tanta vegetação. O nosso problema tem relatórios, resmas de papel timbrado, tem paredes de cimento, dióxido de carbono, farmácias e hospitais, químicos, facturas, recibos verdes, contratos a prazo, trabalho temporário, ordenados mínimos, reformas, cemitérios de mármore. A nossa sobrevivência tem capas grossas, títulos em relevo, badanas douradas, textos de contracapa, prefácios, posfácios, introduções, notas de rodapé. E tem artigos nos jornais, títulos, muitos títulos, artigos, imensos artigos, tem articulistas, tem fazedores de opinião, a nossa sobrevivência tem muita opinião, e tem críticos, mesmo antes de ter caçadores, e tem analistas, mesmo antes de ter caça, e tem lombadas multicolores e gente que se queixa disso. De facto, Ruy, partimos em desvantagem. Afinal, nascemos em desinfectados hospitais, somos, durante a vida, controlados ao milímetro por inspecções periódicas, seguradoras, bancos de sangue, altas autoridades, fiscalizadores. E, ainda por cima, temos que refazer as contas: porque não há, na melhor e mais utópica das possibilidades, nove milhões predispostos à leitura de axiomas inúteis. Porque temos imensos escritores, escrevinhadores, escriturários, temos imensos editores, toda a gente a viver do ar, ou quase, porque ninguém paga a ninguém o trabalho de pegar numa caneta, assim como ninguém paga a ninguém o trabalho de viver. Temos saldos negativos, contas para pagar, taxas, impostos, assinaturas mensais e muita, mesmo muita, falta de respeito por quem cria e faz e se atira de cabeça e corpo e membros para o abismo do futuro. O nosso problema, ainda para mais, é termos depois de tudo que aturar a imbecilidade dos pobres de espírito, tão afoitos no anonimato, na especulação, no elogio podre de perfídia, insinuante, nas críticas vazias de conteúdo e cheias de inveja e de ódio e de cobiça e de comichão. Porque há sempre aqueles que, mordidos pelas melgas, em melgas se transformam. E não vêem para lá dos bolsos vazios, não vêem para lá das prateleiras dispersas, não vêem para lá dos quinze minutos que anseiam de abraços, citações, menções, medalhas, lembretes, foguetes, colunas, recortes de jornal. Os Zo-é, Ruy, até as mulheres partilham, entre eles o ciúme parece não existir, vivem numa espécie de território desnascido ainda antes de havermos caído em desgraça. Não perdem tempo a olhar o erro, a sonhar com o altar, a selar envelopes para concorrerem a prémios, não perdem tempo a admirar um inimaginável sucesso nem a pensar no que possa ser ou não ser o sucesso, pois para eles sucesso não mais há-de ser do que ter o que comer, mulher e crias para dar continuidade a uma forma de vida tão distante e tão viva e, por isso mesmo, tão ameaçada. Porque nós ameaçamos tudo o que vive, porque nós, irremediavelmente moribundos, ameaçamos tudo o que vive com o nosso desespero, a nossa desgraça, o nosso desalento, as nossas ilusões, as nossas utopias, os nossos deuses de barro, os nossos desaires, os nossos malogros, as nossas frustrações, a nossa indústria, a nossa divina economia. Vê bem, Ruy, como ainda antes de termos sido concebidos, já nos andamos todos a abortar uns aos outros. Vê bem, Ruy, e diz-me: se é desvantagem ter nascido em Portugal ou se, por outro lado, é antes desvantagem ter nascido português.

12.4.08

Tom Waits, God's away on business*



*Selecção de Jorge Aguiar Oliveira.

Um poema* de João Miguel Fernandes Jorge e uma foto de Troy Paiva




SOPA ENLATADA DE ORIGEM MICAELENSE


Cheguei muito tarde ao quarto do hotel. Às cinco da
manhã ainda estava a ler, sem nenhum sono. Para não
pensar nas coisas tristes da vida, liguei o televisor.
E andei de canal em canal. Quando, em português, o
entrevistador disse «Senhora professora, a senhora que
é uma técnica, uma especialista em Moby Dick, o que é
que acha dos baleeiros açoreanos?»
(No rodapé estava a palavra «escritora».)
A mulher era quase toda cabeleira, sorriu, complacente
com o termo «técnica» e radiante com «especialista».
Respondeu, como se esperava, os baleeiros açoreanos
eram muito bons, muito corajosos, homens de fibra, com
H grande. Desliguei o aparelho e comecei mesmo a
pensar em coisas tristes.
Tanta gente morta. Conheço mais gente morta do que viva.
Tanta gente velha. Eu próprio. Como é que eu iria
morrer? Imaginei vários cenários. Voltei a ligar o
televisor. Ainda a professora. Tinha um laço grande no
pescoço. Um casaco pardo, com gola azul marinho. Ia
dizendo ao jornalista que, os continentais, agora,
olhavam os açorianos com outros olhos, eram mais
compreensivos. «Porquê?» «Porque, com a Europa, os
continentais sentem-se como se estivessem numa ilha,
sentem a mesma orfandade [sic] dos ilhéus.» Cortei o som.
Apaguei a imagem. Voltei a pensar em coisas tristes.
Uma amiga minha morrera na véspera. E
aquela mulherzinha tão viva, com tanto cabelo, usando
palavras, invocando em vão o nome dos portugueses. Tanta
gente a vê-la por esse mundo fora. E o dia já clareava. A
tarefa mais difícil é, de facto, passar de poeta a cristão.
(Kierkegaard quem o diz) e eu sei que é assim.



*Selecção de Jorge Aguiar Oliveira

11.4.08

PARABÉNS

Ao Eduardo Barrento, pelo 1º prémio da categoria Natureza no Prémio Fotojornalismo Visão/BES 2008.

ESPECIAL DE CORRIDA

Esta ânsia de em tudo encontrar um especialista, um estudioso, um jovem especializado nisto e naquilo e naqueloutro. Esta ânsia de antecipar o nome, de o classificar, de lhe outorgar um título. Vivemos nesta ânsia e desta ânsia ninguém nos tira. Mesmo quando, respeitosamente, pedimos que nos tratem apenas por aquilo que mais somos: pessoas, leitores, seres humanos defeituosamente colocados num mundo defeituoso. Mesmo quando, encarecidamente, pedimos que nos chamem apenas pela humana condição de estarmos vivos e de, por isso, sofrermos. Porque esta ânsia de em tudo vislumbrar um doutor, um estudioso, um especialista, um senhor professor, é a ânsia de nem sequer sabermos copiar uma frase, de nem sequer sabermos discernir o talento do trabalho, de nem sequer sabermos que deveríamos, pelo menos, saber qualquer coisa antes de nos reduzirmos ao trato. Constatar que tanta gente ainda vive nesta ânsia deixa-me ansioso, a pensar no que seria de mim se não fossem coisas tão simples como estar agora aqui a declarar que considero o meu país uma região inóspita, um lugar cada vez mais inabitável, sufocante, estupidamente provincial, passe a redundância, no modo como trata, promove, elogia e paga a fatal ignorância dos pobres de espírito. Não entendo, não consigo entender, cada vez mais tenho dificuldades em aceitar esta ânsia. E penso noutros que, muito antes de mim, se viram assim atirados para a poça lamacenta do desrespeito. Pois trata-se, no mínimo, do mais elementar respeito. Mas que esperar de uma país aparente, de um país engravatado, de um país que cultiva a superficialidade a ponto de tratar um vulgar leitor por especialista e estudioso? Juro que a culpa não é minha. Nada fiz para merecer o título. Antes pelo contrário, tudo fiz para que ficasse bem esclarecido, no limite, que não passo de um vulgar desempregado que, por essa involuntária condição, tem tempo para ler e para escrever e para matar moscas. Devia haver quem nos pagasse tal actividade tão ecológica. Devia haver quem pagasse o desemprego, sempre estamos a contribuir para a protecção do ambiente evitando o consumo de insecticidas. Vou especializar-me no assunto, vou estudá-lo profundamente, para que no futuro possa merecer, então, essa condição de estudioso de alguma coisa, de especialista em alguma coisa. Nem que seja em matar moscas.

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #31

GUARDANAPO


Se eu adivinhasse
que partirias antes de mim
teria guardado o guardanapo
sujo dos teus lábios,
para poder agora
encostar os meus
ao perfume dos teus

e morrer devagarinho.

Quando a saudade vem
de mão dada com a alma,

quando vem…
malvada vem.

Jorge Aguiar Oliveira

10.4.08

ÓCULOS ESCUROS


Tão chocados, com tantos choques, que parecem galinhas chocadeiras, carrinhos de, uns contra os outros, chocados apenas porque é chocante ninguém se chocar. Eles não se chocam com a minha pobreza sentada à beira-mar, nem com o tempo que perco à espera de uma aberta ou, na melhora das hipóteses, de um raio que me leve daqui para sempre. Eles cacarejam como poedeiras, são Colombo incubado no seu paradoxo post-mortem e ouvi-los é como acreditar que do ovo mexido surgirá um pinto com asas, a penugem de uma gemada, claras em castelo republicano. Eles não se chocam com a precariedade dos salários, mas chocam-se com a precariedade das ementas. A infindável miséria de quem trabalha e cumpre não é chocante, mas não haver guardanapos sobre a mesa é deveras preocupante. Eles não se deixam chocar pela revolta de quem não tem como fugir a um miserável destino, pois eles são chocados pelo destino de quem não tem revolta. Quem pode ocupar-se da fome dos outros quando vive de dar fome à fome? Eles são o mais plausível argumento da nossa falta de esperança. Desvio os olhos do mar, concentro-me no monitor e observo-os atentamente: galos de crista aparada, madeixas cinzentas, a franja caindo sobre a testa luzidia, pós que disfarçam as rugas de quem se curva, faz a vénia e dança o aperto das mãos, os abraços camaradas, as pregas das gravatas, os botões de punho, fatos aprumados, condizentes com o modo cinzento das palavras. Tudo o que dizem é óbvio, tão óbvio que de igualmente anódino se torna bárbaro. E elas, muito mais pós-modernas na sua feminilidade natural, gesticulam ao ritmo das teorias uma cartilha de insuportáveis lugares comuns. Chamam a isto o futuro? Pode o futuro ser um apontamento moralista, um vestido de cores leves? Pode o futuro ser uma entusiasmada repetição do passado? Se isto é o futuro, digam-me qual o corredor do passado. Quero regressar a essa maresia, a esse lugar onde não haja futuro, não quero este futuro, quero desistir do futuro, quero voltar para trás e não mais olhar em frente, quero perder-me num eco fundo, no fundo ecóico de uma brancura silenciosa, sem teorias, sem ideias para a vida dos outros, sem políticas, livre de caminhos, percursos, carreiras, estações, livre de tudo o que insinue uma certa forma de vida certa. Prefiro a ergonomia dos incultos, a mendicidade, prefiro o analfabetismo dos avós, prefiro o Perdigoto escarrando as botas, o Cipriano saltando por cima da sombra, o Mimi adormecido nos caixotes do lixo, os barretes piolhentos do Pé-Descalço, as figuras pífias de um cão vadio. Prefiro adormecer sobre o ombro dos meus pais, mesmo crente de que eles jamais entenderão a minha angústia, tão ocupados que andam com o aniversário dos netos. Não quero esse futuro curvado dos bons fatos, restaurantes gourmet, férias mecânicas em hotéis de luxo. Prefiro acampar no mato bravo do insucesso e morrer para sempre esquecido. Não troco o sal do mar ao cloro das piscinas, não troco as massagens do vento ao spa incensado das fábricas do belo. O futuro não pode ser essa beleza de roupão, chinelos turcos e barbas de silicone. Se vos vejo assim nesse presente, se vos desconfio assim nesse futuro, que poderei eu ansiar senão a paz e o sossego de uma voluntária solidão?

LABIRINTO #19

MJLF, s/ titulo, acrilico s/papel, 21x30cm, 2008

Maria João

AGRADECIMENTO

Agradeço ao GAF esta sugestão, a qual, por me parecer muito razoável, passará à prática brevemente. Só uma adenda: não gostaria que aqueles posts fossem entendidos como crítica de livros. A crítica de livros, como a entendo, é outra coisa bem diferente. Aqueles textos são apenas posts de um leitor que gosta de partilhar com outros leitores visões, perspectivas, gostos, interpretações sobre livros. E, tanto quanto possível, arriscar um pouco na sempre subjectiva construção de uma leitura.

ÚLTIMAS

Inês Ramos, do Porosidade Etérea, sugere um programa do incansável Luís Gaspar dedicado à poesia erótica. Ouvir aqui.

O poeta Rui Cóias, autor do belíssimo Fundamentos da Passagem, resolveu mudar-se para o Boulevard Hotel, com imagem de David Hockney à cabeça.

Outro poeta, Victor Oliveira Mateus, chega à blogolândia com A Dispersa Palavra. A juntar a uma lista de poetas, cada vez mais extensa, praticantes da bloga.

9.4.08

teoria lírica (7.CINCO CANÇÕES DE AMOR E MAIS NADA)

1.

Tanto pó, tanto lixo
e o cetim
que nunca mais acaba.

2.

Andrade, come agora a mesa do jantar
para ficarmos juntos mais um bocadinho.

3.

Acabei agora de resolver
um daqueles problemas impossíveis, impossíveis.
A perseverança é bestial, não é?

4.

O meu amor é tão docinho
que até me dói o coração nos dentes.

5.

Sim, é para toda a vida
o Domingo.




Rui Costa

TORNADO


Quando eu era pequeno contavam-me histórias de tornados, de homens levados pelo vento, de casas aspiradas pelo céu, animais rodopiando no ar como se dançassem. Contavam-me histórias de homens espetados em forquilhas, atrelados separados das máquinas, tractores lavrando o ar e culturas desfeitas. Com o tempo, fui percebendo que a meteorologia que me contavam estava condicionada pelos acasos das intempéries. Mas, dentro de mim, um tornado foi ganhando forma, desfazendo as culturas da minha alma, atirando-me contra as paredes dos sonhos, arrasando tudo o que fui construindo nos terrenos da memória. Esse tornado a que alguns chamam esquecimento acompanha-me há muito, obriga-me a sucessivas mortes lentas, uma espécie de suicídio intermitente, mas algo constante. Eu mato-me todos os dias para que algo possa viver além de mim. Os destroços que ficam à passagem desse tornado interior são palavras inarticuladas, textos imperceptíveis, ideias confusas, imagens sem nexo, são casas assoladas por um desejo construtivo que nunca logra atingir os fundamentos necessários a uma habitação coerente e homogénea. É um problema demasiado frequente, este de não termos tempo para construir com homogeneidade a nossa casa, de sermos uma antecipação constante à ordem, de não nos controlarmos, de nos entregarmos a um impulso e de nos deixarmos orientar por esse mesmo impulso. Para quem está de fora, a ciência dos instintos revelará desordem, desorganização, desinteresse, desleixo. Nos casos mais complacentes, pode inspirar alguma ternura, um certo afecto motivado por algum reconhecimento, o reconhecimento de um pouco de talento sem freios nem rédeas. Quem está de fora não pode entender que não há governo para o vento, sobretudo quando ele nos toma na forma de um tornado. Quem está de fora não pode entender. Pode apenas escutar e, escutando, saborear a candura do desalinho ou repelir-se com o desarranjo das definições. Por isso acautelo-me e, de certo modo, desvio-me de quem está de fora, pois quem está de fora jamais compreenderá que cá dentro nada há de partilhável, é tudo tempestade, tormenta, inferno, agitação, é tudo inquietude, desalento, desencanto, desilusão, é tudo um nome gretado pela acção demoníaca das palavras. Quando eu era pequeno, contavam-me histórias de tornados. Prefiro não contar histórias dessas às minhas filhas. Terrível seria vê-las também serem levadas pelo vento, tornadas naquilo que eu sou sem nunca o haver desejado.