30.11.08

ASSALTO AO TESOURO DE MADAME MM /57


Jorge Aguiar Oliveira

APRENDER A CONTAR #52


O conto de hoje é excepcionalmente dedicado ao Pedro Amaral. Fica também a capa do livro de onde foi copiado, um exemplar que o Rui Almeida me ofereceu à porta da Fábrica Braço de Prata.


O MEU SONHO DA NOITE DE SÁBADO PARA DOMINGO ANTES DO S. JOÃO DO ANO DE 1791


Havia muito que eu estava metido dentro de uma confusa casa de sucatas, mas sem o perceber, apesar de ter visto um cão a correr em cima de um telhado e a dar um pulo de uma trave reforçada com ardósia para outra.
Entro numa sala; encontro uma jovem sozinha; interiormente, é-me dado saber que se trata de uma parenta do conde de Dompierre; parece reconhecer-me e saúda-me. Dou logo conta de que está com vertigens; parece dizer coisas ternas a um objecto que tem na frente; vejo que está a ter uma visão de um espírito e imediatamente, fazendo o sinal da cruz na fronte da donzela, ordeno ao espírito que se mostre. Vejo então uma figura de catorze a quinze anos de idade, que, sem ser feia, mostra no fato, nas feições e nos gestos, algum descaramento: amarro-a, apesar dos protestos que, em alta grita, exprime. Aparece outra mulher ainda mais obcecada; executo com ela idêntica operação. Os dois espíritos despem-se então das boas aparências e, enfrentando-me, mostram-se insolentes, ao mesmo tempo que, de uma porta que se abre, entra uma espécie de homem baixinho e gordo, com aspecto de carcereiro: tira do bolso dois pares de algemas, as quais vão, por si mesmas, apertar os pulsos dos meus dois cativos. Entrego-os aos poderes de Jesus Cristo. Não sei qual o motivo por que saí desta sala e dei entrada noutra, mas o facto é que é ali que vou fazer o interrogatório aos meus prisioneiros; estão sentados num banco, dentro de uma espécie de alcova; levantam-se ao verem-me chegar e são agarrados por seis personagens que envergam o uniforme de archeiros. Saio atrás deles; a meu lado segue uma espécie de capelão. «Vou ― dizia ele ― ter com o senhor marquês Fulano; é boa pessoa; nos meus tempos livres vou sempre visitá-lo.»
Pareceu-me que estava resolvido a segui-lo, mas vi que levava os sapatos completamente escangalhados; quis parar e apoiar os pés algures, para dar um arranjo aos tacões, quando sou atacado por um grandalhão, em meio de um pátio cheio de gente: agarrei-lhe na cabeça e amarrei-o em nome da Santíssima Trindade e de Jesus Cristo a cujo auxílio o recomendei.
― De Jesus Cristo? ― bradou a multidão que me rodeava.
― Sim ― disse eu ―, e a vós também, depois de vos prender da mesma guisa.
Chega uma carruagem; um homem que vem na portinhola chama-me pelo nome: «Então, mas o senhor Cazotte anda a falar de Jesus Cristo? Então a gente há-de ficar sob os poderes de Jesus Cristo?» Tomei então a palavra e falei detidamente de Jesus Cristo e da sua misericórdia para com os pecadores. «Que ventura a vossa! ― acrescentei. ― Ides mudar de cadeias!» «De cadeias? ― disse um homem de dentro da carruagem para cima da qual eu tinha subido. ― Será que nem um momento vamos ter descanso?»
― Ide ― disse alguém ― tendes sorte em mudar de patrão e que patrão!
O que falara em primeiro lugar dizia: «Eu tinha mais ou menos ideia semelhante.»
Virei as costas à carruagem e seguia pelo pátio fora, o qual era prodigiosamente extenso; a única luz existente era a das estrelas. Observei o céu; mostrava-se azulíssimo e muito velado; enquanto eu o comparava a outros céus que vira no meio de tanto ferro velho, começou uma tempestade a nublá-lo de todo; um terrível trovão o fez incendiar; um raio, que caíra cem passos à minha frente, veio rebolando ao meu encontro; dele saiu um espírito em forma de pássaro com o tamanho de um galo branco e de corpo mais comprido, pernas mais baixas e bico menos pontiagudo.
Corri para o pássaro, persignando-me; e, sentindo-me possuído de uma força mais extraordinária, ele veio cair aos meus pés; quis calcar-lhe a cabeça... Um homem da estatura do barão de Loi, apesar de toda a sua formosura e mocidade, vestindo cor de cinza e prata, fez-me frente e disse para não o esmagar aos pés. Tirou do bolso umas tesouras metidas num estojo guarnecido de diamantes, dando-me a entender que devia utilizá-las para degolar o bicho. Ia pegar nas tesouras quando fui despertado pelo canto da multidão que se encontrava na loja: era canto chão, sem acordes, e as palavras, não rimadas, vinham a ser: «Cantemos a nossa venturosa libertação.»
Assim que despertei, comecei a rezar; mas, desconfiando muito deste sonho, como de tantos outros através dos quais Satanás parece querer encher-me de soberbia, continuei a rezar a Deus, por intercessão da Santíssima Virgem, sem desfalecimento para dele obter a graça de conhecer a sua vontade a meu respeito, ligando, entretanto, cá na terra tudo quanto me pareça de ligar, para maior glória de Deus e conforme as necessidades das criaturas.

Jacques Cazotte (1719–1792), in A História do Diabo Enamorado de Cazotte, seguida de O Recibo do Diabo de Musset e O Diabo Engarrafado de Stevenson, org. Manuel João Gomes, trad. Luiza Neto Jorge, Arcádia, Outubro de 1977.

#1 / #2 / #3 / #4 / #5 / #6 / #7 / #8 / #9 / #10 / #11 / #12 / #13 / #14 / #15 / #16 / #17 / #18 / #19 / #20 / #21 / #22 / #23 / #24 / #25 / #26 / #27 / #28 / #29 / #30 / #31 / #32 / #33 / #34 / #35 / #36 / #37 / #38 / #39 / #40 / #41 / #42 / #43 / #44 / #45 / #46 / #47 / #48 / #49 / #50 / #51

28.11.08

ASSALTO AO TESOURO DE MADAME MM /56


Jorge Aguiar Oliveira

APRENDER A CONTAR #51

A OBSESSÃO

Datava aquela máquina de 1998.
Era portanto de um modelo bastante antigo mas havia dez anos que ela prestava óptimos serviços à firma que a tinha concebido.
Era ela quem praticamente governava a casa. Comprava, seleccionava, previa, vendia, facturava; também pensava, mas não muito. Para dirigir uma empresa, aliás, não é indispensável pensar. Bastava que a máquina fosse eficiente.
Certo dia avariou-se-lhe qualquer peça. A máquina, em vez de transmitir o balanço do fim do ano, esperado por toda a gente, deu-lhe para enviar uma delirante missiva de amor, aliás muito picante, a uma dactilógrafa dos serviços de fabricação.
Isto causou muito má impressão, até porque a máquina nesse dia não fez mais nada. Lá foi uma equipa de electrónicos examinar as entranhas da máquina, armados até aos dentes com o mais variado instrumental. Não descobriram nada, nem sequer um circuito defeituoso. E no dia seguinte, após a planificação, quando a máquina devia começar a redigir duzentas facturas, expeliu e enviou duzentas cartas pornográficas, endereçadas aos mais bem-pensantes de todos os clientes da empresa.
Foi um escândalo e julgou-se ser o momento asado para se retirar à máquina parte das suas faculdades. Foi fácil depois negociá-la, ficando apenas com as meras funções de máquina de calcular aperfeiçoada. A solução foi perfilhada pelo próprio psicanalista da empresa. Mas os números que ela debitou, a cadência assaz satisfatória, mostravam-se falsos, completamente fantasista. Computava, sim, mas como se fosse um pobre de espírito.
O médico da empresa propôs um repouso prolongado. Lá foi a máquina para um barracão desocupado.
Passados meses, houve um empregado que por acaso penetrou no barracão. Ficou pasmado ao ver que a máquina continuava em actividade. Continuava a fazer contas. Alinhava números atrás de números, números que nunca mais acabavam. O empregado pegou no rolo de papel que a máquina expelia a um ritmo implacável.
Leu. Mal queria crer no que via:

6969696969696969696969696969696969696969
6969696969696969696969696969696969696969
6969696969696969696969696969696969696969
6969696969696969696969696969696969696969

Mais nada. Só estes dois algarismos. Tinha já quilómetros e quilómetros de papel em que só se viam estes dois algarismos.

Jacques Sternberg (1923-2006), 270 Contos de Arrepiar, trad. Paulo da Costa Domingos e Manuel João Gomes, Arcádia, Fevereiro de 1977.

#1 / #2 / #3 / #4 / #5 / #6 / #7 / #8 / #9 / #10 / #11 / #12 / #13 / #14 / #15 / #16 / #17 / #18 / #19 / #20 / #21 / #22 / #23 / #24 / #25 / #26 / #27 / #28 / #29 / #30 / #31 / #32 / #33 / #34 / #35 / #36 / #37 / #38 / #39 / #40 / #41 / #42 / #43 / #44 / #45 / #46 / #47 / #48 / #49 / #50

27.11.08

ASSALTO AO TESOURO DE MADAME MM /55


Jorge Aguiar Oliveira

APRENDER A CONTAR #50

APÓS A MORTE

Sem o mínimo terror, o suicidado, depois de se ter agarrado por um instante às colgaduras da varanda (esperava-se a vinda de um rei) estatelou-se no meio da rua. Aqui principia a estranha história; o morto põe-se de pé, vai bater à porta do seu melhor amigo: a campainha não faz o mínimo barulho, e contudo ele introduz-se em casa. Fala. Alguém o terá ouvido? Ninguém responde. Vai a casa de uma senhora. Um outro assunto. A senhora, que estava a ler um poema do suicidado, entra em discussão com o poema, mas não com o suicidado. «Terei eu morrido a sério? ― pergunta ele a si próprio. ― Ainda é tempo de me arrepender dos meus erros. Dirigiu-se o suicidado para a igreja: «Pois com certeza! Cá está o meu enterro: reconheço-o pela presença do meu porteiro e da minha criada. Os meus amigos evidentemente que estão a festejar.»

Max Jacob (1876-1944), in A História do Diabo Enamorado de Cazotte, seguida de O Recibo do Diabo de Musset e O Diabo Engarrafado de Stevenson, org. Manuel João Gomes, trad. Luiza Neto Jorge, Arcádia, Outubro de 1977.

#1 / #2 / #3 / #4 / #5 / #6 / #7 / #8 / #9 / #10 / #11 / #12 / #13 / #14 / #15 / #16 / #17 / #18 / #19 / #20 / #21 / #22 / #23 / #24 / #25 / #26 / #27 / #28 / #29 / #30 / #31 / #32 / #33 / #34 / #35 / #36 / #37 / #38 / #39 / #40 / #41 / #42 / #43 / #44 / #45 / #46 / #47 / #48 / #49

26.11.08

ASSALTO AO TESOURO DE MADAME MM /54


Jorge Aguiar Oliveira

INUMERÀVEIS MADRUGADAS


Inumeráveis madrugadas,
sempre procurando o betão
emocional dos sonhos. A casa.
A porta mais fecunda
que o cimento: entra
e esvai a voluntária solidão.

Excessivas companheiras
na trepidação libérrima do desejo.
Descem profundamente as escadas,
umas a eternizarem-se, outras
passam cerca dos lábios,
mal pronunciando um beijo.

Com todas me tapo (e conheço
a casa): do acidente ou da paixão.
Exausto, vário, remoto. Pela porta
deflagram na memória. Um lago
do sublime Amor que não se alcança.
A casa. Ávida, mas temerosa
de alvorecer encantada.




Jorge Vaz de Carvalho é Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas e Mestre em Literaturas Comparadas. Cantor lírico, poeta e tradutor, publicou, pela Relógio D’Água, o livro A Lenta Rendição da Luz.

25.11.08

LIDOS OU RELIDOS EM 2008 (9)

“Contos Fabulosos”, Millôr, Desiderata (2007)



1. O desenvolvimento da micro-ficção em Portugal – o tamanho dos textos deste livro varia entre algumas linhas e três páginas - vai contribuir para que a prosa em geral perca o tom grandiloquente que ainda vive fascinado com barroquismos bacocos. O barroquismo de António Vieira ou Saramago não é bacoco, mas eles são duas activas excepções.

2. “É” como as artificiais telenovelas portuguesas, onde umas dúzias de palermas sem talento ganham o seu à custa do nosso (qualquer palavra do reportório freudiano servirá aqui).

O tal português é cerimonioso por excelência, que é a forma menos inteligente de ser-se parolo. Destes, tolerem-se os castiços, gozados sombriamente de inuendos mais estrangeirados.

3. Millôr (escritor brasileiro nascido em 1923, sobre quem podem encontrar alguma coisa
aqui) conta histórias de bandidos, abelhas, vizinhas de cima, e o que o distingue do tom português ainda dominante é isto: o jeito de conversa, de quem conta uma história com a despreocupação que a escrita portuguesa não costuma ter nas trans-/cri(a)ções (!) das falas. Curiosamente, é preciso voltar a falar de Saramago: foi ele, um barroco de formação e gosto, quem revolucionou a pontuação com o objectivo de aproximar a palavra escrita da palavra falada.

4. Millôr não revoluciona nada. Mas os portugueses deviam ler mais os escritores brasileiros.



Rui Costa

23.11.08

ASSALTO AO TESOURO DE MADAME MM /53


Jorge Aguiar Oliveria

22.11.08

APRENDER A CONTAR #49

A COR DE CADA UM

Na república do Espicha-Encolhe cogitava-se de organizar partidos políticos por meio de cores.
Uns optaram pelo partido rosa, outros pelo azul, houve quem preferisse o amarelo, mas vermelho não podia ser. Também era permitido escolher o roxo, o preto com bolinhas e finalmente o branco.
― Este é o melhor ― proclamaram uns tantos. ― Sendo resumo de todas as cores, é cor sem cor, e a gente fica mais à vontade.
Alguns hesitavam. Se houvesse o duas-cores, hem? Furta-cor também não seria mau. Idem, o arco-íris. Havia arrependidos de uma cor, que procuravam passar para outra. E os que negociavam: só adoptariam uma cor se recebessem antes 100 metros de tecido da mesma cor, que não desbotasse nunca.
― Justamente o ideal. É a cor que desbota ― sentenciou aquele ali. ― Quando o Governo vai chegando ao fim, a fazenda empalidece, e pode-se pintá-la da cor do sol nascente.
Este sábio foi eleito por unanimidade Presidente do Partido de Qualquer Cor.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Contos Palusíveis, José Olympio Editora, p. 17, 1985.

#1 / #2 / #3 / #4 / #5 / #6 / #7 / #8 / #9 / #10 / #11 / #12 / #13 / #14 / #15 / #16 / #17 / #18 / #19 / #20 / #21 / #22 / #23 / #24 / #25 / #26 / #27 / #28 / #29 / #30 / #31 / #32 / #33 / #34 / #35 / #36 / #37 / #38 / #39 / #40 / #41 / #42 / #43 / #44 / #45 / #46 / #47 / #48

21.11.08

APRENDER A CONTAR #48

ROBERTINO

Robertino, o brasileiro, falava de Zurique onde estivera um ano, com tal imprecisão que não me convencia. No restaurante italiano discutiu com o criado a confecção da lasagna e disse o mal que pôde dos portugueses que havia conhecido. Tinha o olhar duro que batia como uma pedra na minha disponibilidade quase enternecida. Fizera uma viagem de barco com um polaco clandestino que lhe mostrara no camarote maços de notas inglesas, alemãs e suíças, juntamente com relógios e jóias de senhora. ― Tive medo a princípio, depois habituei-me e passávamos as noites no bar, servidos por um malaio ― continuava Roberto, enquanto devorava a lasagna, visivelmente esfomeado. E a minha disponibilidade, quase curiosa, fazia-me abrir a carteira para pagar o jantar.
Mais tarde, já em minha casa, acompanhou com voz feminina, essas canções um tanto metálicas que deram fama a Elis Regina. E chorava.
Ele fora baby-sitter na Suíça, homem a dias na Alemanha e cozinhara uma noite para o actor Helmut Berger, numa casa de amigos. Mas Robertino trocava datas e lugares, tinha a memória fraca e pouca perícia para mercenário. Ainda por cima exibia uns flancos gordos e eu conhecera-o numa exposição de pintura.
Sou um padre, Roberto, acabei por dizer. Dou-te a minha bênção. Podes percorrer com ela os caminhos da vida.
Quando ele se foi embora corri para a casa de banho e vomitei: a minha dieta não conseguira suportar tanta gordura imaginada.

Armando Silva Carvalho (1938), O Que Foi Passado a Limpo, Assírio & Alvim, p. 356, Março de 2007.

#1 / #2 / #3 / #4 / #5 / #6 / #7 / #8 / #9 / #10 / #11 / #12 / #13 / #14 / #15 / #16 / #17 / #18 / #19 / #20 / #21 / #22 / #23 / #24 / #25 / #26 / #27 / #28 / #29 / #30 / #31 / #32 / #33 / #34 / #35 / #36 / #37 / #38 / #39 / #40 / #41 / #42 / #43 / #44 / #45 / #46 / #47

20.11.08

ASSALTO AO TESOURO DE MADAME MM /52


Jorge Aguiar Oliveira

APRENDER A CONTAR #47

EU ESTAVA ALI DEITADO

eu estava ali deitado olhando através da vidraça as roseiras no jardim fustigadas pelo vento que zunia lá fora e nas venezianas de meu quarto e de repente cessava e tudo ficava tão quieto tão triste e de repente recomeçava e as roseiras frágeis e assustadas irrompiam na vidraça e eu estava ali o tempo todo olhando estava em minha cama com minha blusa de lã as mãos enfiadas nos bolsos os braços colados ao corpo as pernas juntas estava de sapatos Mamãe não gostava que eu deitasse de sapatos deixe de preguiça menino! mas dessa vez eu estava deitado de sapatos e ela viu e não falou nada ela sentou-se na beirada da cama e pousou a mão em meu joelho e falou você não quer mesmo almoçar?
eu falei que não não quer comer nada? eu falei que não nem uma carninha assada daquelas que você gosta? com uma cebolinha de folha lá da horta um limãozinho uma pimentinha ela sorriu e deu uma palmadinha no meu joelho e eu também sorri mas falei que não não estava com a menor fome nem uma coisinha meu filho? uma coisinha só eu falei que não e então ela ficou me olhando e então ela saiu do quarto eu estava de sapatos e ela não falou nada ela não falaria nada meus sapatos engraxados bonitos brilhantes
ele não quer comer nada? escutei Papai perguntando e Mamãe decerto só balançou a cabeça porque não escutei ela responder e agora eles estavam comendo em silêncio os dois sozinhos lá na mesa em silêncio o barulho dos garfos a casa quieta e fria e triste o vento zunindo lá fora e nas venezianas de meu quarto
― você precisa compreender isso, Carlos
― não posso, Miriam
― não daria certo
― não daria certo?
― nossos temperamentos não combinam
― não é verdade
― assim será melhor para nós dois
não Miriam não é verdade Miriam não é certo Miriam não pode Miriam não pode não pode! ó meu Deus não pode
Papai estava parado à porta pensei que você estava dormindo ele falou eu sorri que vento hem! ele falou e eu olhei para a vidraça e lá estavam as roseiras frágeis e assustadas fustigadas pelo vento esse mês de junho é terrível ele falou ele estava parado no meio do quarto estava de paletó e gravata e pulôver esfregava as mãos eu vou lá no Jorge você não quer ir também? ele ficou olhando para mim esperando não Papai dar uma volta não obrigado você vai virar sorvete aí dentro ele brincou e eu ri e ele riu e então ficou sério de novo esfregava as mãos fiquei com pena dele eu sabia que ele queria me dizer alguma coisa sabia quase o que ele queria me dizer Mamãe devia ter dito a ele Artur chama o Carlos para dar uma volta e ele dissera isso mas agora era diferente era ele mesmo que queria me dizer alguma coisa e estava atrapalhado ficava atrapalhado quando queria conversar certas coisas com um filho e então esfregava as mãos não era por causa do frio Carlos eu sei o que você está sentindo ele falou eu sei como é é muito aborrecido mesmo mas há coisas piores sabe? eu olhei para ele e então ele abaixou a cabeça e de novo estava atrapalhado e de novo eu fiquei com pena dele eu sei que você gosta muito dela eu sei eu sei que isso é muito aborrecido mas ele olhou para mim não se preocupe Papai eu falei não precisa se preocupar não é nada eu sei mas você não almoçou eu estava sem fome pois é e então nós dois ficamos calados ele tirou o relógio do bolso e olhou as horas você não quer ir mesmo no Jorge? ele perguntou e eu falei que não então ele saiu do quarto escutei ele abrindo o portão e depois os passos dele na calçada o vento zunia lá fora eu estava olhando para os meus sapatos ela gostava deles assim engraxados bonitos brilhantes você é tão cuidadoso Carlos como gosto de você você não pode calcular o tanto que eu gosto de você se te acontecesse alguma coisa se te acontecesse alguma coisa não sei o que eu faria mas não vai acontecer nada bem vai? não não vai não pode se te acontecesse alguma coisa acho que eu morreria eu gosto demais de você demais demais
fechei os olhos e contei até quinhentos e recordei os nomes de todas as capitais do Brasil e da Europa e recordei os nomes de dezenas de rios e dezenas de montanhas e deitei de bruço e deitei do lado direito e deitei do lado esquerdo e deitei de bruço outra vez e pus o travesseiro em cima da cabeça e pus o travesseiro debaixo da cabeça e apertei a cabeça contra a parede e apertei mais ainda a cabeça contra a parede e apertei tanto a cabeça contra a parede que ela doeu e então virei de costas outra vez e enfiei as mãos nos bolsos colei os braços ao corpo juntei as pernas abri os olhos e estava de novo olhando através da vidraça as roseiras frágeis e assustadas fustigadas pelo vento que zunia lá fora e nas venezianas de meu quarto

Luiz Vilela (1942), in O Conto Brasileiro Contemporâneo, org. Alfredo Bosi, Editora Cultrix, pp. 291-293, 1997.

#1 / #2 / #3 / #4 / #5 / #6 / #7 / #8 / #9 / #10 / #11 / #12 / #13 / #14 / #15 / #16 / #17 / #18 / #19 / #20 / #21 / #22 / #23 / #24 / #25 / #26 / #27 / #28 / #29 / #30 / #31 / #32 / #33 / #34 / #35 / #36 / #37 / #38 / #39 / #40 / #41 / #42 / #43 / #44 / #45 / #46

TAMBÉM O QUE É ETERNO


Também o que é eterno morre um dia.
Eu tusso e sinto a dor que a tosse traz;
O doutor quer por força a ecografia,
Mas eu não estou pra tantas precisões.

Eu rio à morte com um riso largo:
Morrer é tão banal, tão tem que ser!
Disto ou daquilo, que me importa a mim?
Mas, ó horror, com fotos, não, nem documentos!

A tanta exactidão mata o mistério.
O pH, o índice quarenta...
Não quero as pulsações, os eritrócitos,
O temeroso alzaimer, ou o cancro,
Nem sequer o tão raro, do coração.

Ver o pulmão, o peito aberto, o coração,
A palpitar a cores no computador?
Eu morro, eu morro, não se preocupem,
Mas sem saber, de gripe, ou duma coisa,
Ou doutra coisa.


Manuel Resende nasceu em 1948 no Porto. É poeta e tradutor. Publicou Natureza Morta com Desodorizante (1983), Em Qualquer Lugar (1998) e O Mundo Clamoroso, ainda (2004), livro de onde copiámos o poema aqui divulgado. Colaborou com diversas revistas, entre as quais a Limiar, a DiVersos e a Inimigo Rumor. Traduziu, entre outros, Lewis Carroll, Beckett, Shakespeare, Sloterdijk e vários poetas gregos, trabalho do qual sublinhamos a tradução de Axíon Estí, de Odisséas Elytis, com o título Louvada Seja (2004).

Fragmento #69 – Perdidos e achados

Ontem, ia bastante entusiasmada dar uma aula onde colocava os alunos a escrever sobre pequenas pinturas feitas por mim, levava-as guardadas numa capa A3 debaixo do braço; saí de casa quase uma hora mais cedo para poder preparar tudo como deve de ser; dirigi-me para um dos elevadores do centro comercial do Campo Pequeno, para passar pelo Multibanco e depois apanhar o metro: à porta do elevador estava uma velhota de muletas, deixei-a passar à minha frente e a porta fechou-se; ambas ficámos à espera que o elevador descesse, mas quando olho para os botões, reparo que não carreguei em nenhum. A senhora olhou-me com o sorriso malandro e disse: já vi que está pior do que eu! Achei piada, continuei o meu caminho e quando ia quase a chegar à escola, ao sair do metro, reparo que não trazia a capa debaixo do braço: fiquei em pânico, estavam lá dentro cerca de 20 originais guardados. A primeira reacção foi pensar no meu percurso, se tinha largado a capa no metro nunca mais a iria ver, e se em último caso, não a encontrasse, como ainda tinha tempo, ia buscar mais trabalhos a casa. Voltei para trás, com a esperança de a ter largado quando levantei dinheiro: no balcão dos atendimentos do centro comercial ninguém sabia de nada. Dirigi-me então ao Multibanco, não a vi, mas estava um senhor no balcão de atendimentos do banco àquela hora, ele tinha a capa guardada, foi um alívio. Dirigi-me novamente para o metro, com a capa bem segura nas minhas mãos, tinha tempo, ia chegar à aula mesmo em cima da hora e com todo o material. Pelo caminho, lembrava-me constantemente da senhora de muletas a avisar-me que estou pior que ela, com uma enorme vontade de rir, que partidas que o destino nos prega.

Maria João

19.11.08

APRENDER A CONTAR #46

O NOVO CHEFE

Quando teve a certeza que o seu pai tinha conseguido o contrato dos fornos, que o fumo que cobria a cidade, as nuvens cálidas como a sua pele eram obra de seu pai, sentiu-se livre do amor vazio que sentia ficou legalizado.
Higiénico como um chicote, o seu coração despojou-se dos álibis da devoção, livre como uma ponte derrubada por uma tempestade, inútil e puro como um despertador afogado, inspirou profundamente cheio de gratidão na atmosfera poluída e exclamou: O meu pai conseguiu o contracto dos fornos, ele amava a minha mãe e construía-lhe vivendas no campo.
Quando teve a certeza que o seu pai tinha conseguido o contrato dos fornos, subiu a um monte de monóculos, sentou-se na corrente de ar de um cabelo, odiou com enorme naturalidade a chusma de inválidos, as suas mães, os maridos e as esposas, o sonho familiar das obrigações dignas.
Depois de descer St. Catherine Street a dançar realizou uma intervenção cirúrgica numa hospedaria. As janelas gotejavam como um congelador estragado. Do seu ódio desprendia-se uma brancura de sal sobre as calçadas. Não se salvou ninguém e sentiu-se feliz por ter possuído à luz da lua, no seu passado que pertencia já à história, cento e cinquenta mulheres.
Embriagou-se por fim. Após ter passado anos a pisar o colar de margaridas da história, feito de beleza atrás de beleza. O seu pai tinha levantado nuvens em forma de coxa, que cheiravam a caixeiros-viajantes, ciganos e violinistas. Com a segurança e o prazer genital que lhe proporcionava aquela revelação, não pôde duvidar que fora o seu pai que conseguira o contrato dos fornos.
Bêbado por fim, abraçou-se a si mesmo. Bêbado, gelado e de estômago vazio. O céu claro, mas só para ele. Sentia-se livre para tremer, livre para odiar, livre para começar de novo.

Leonard Cohen (1934), Filhos da Neve, versões de Jorge Sousa Braga e Carlos Tê, Assírio & Alvim, pp. 93-95, 2.ª Edição, 1997.

#1 / #2 / #3 / #4 / #5 / #6 / #7 / #8 / #9 / #10 / #11 / #12 / #13 / #14 / #15 / #16 / #17 / #18 / #19 / #20 / #21 / #22 / #23 / #24 / #25 / #26 / #27 / #28 / #29 / #30 / #31 / #32 / #33 / #34 / #35 / #36 / #37 / #38 / #39 / #40 / #41 / #42 / #43 / #44 / #45

18.11.08

ASSALTO AO TESOURO DE MADAME MM /51


Jorge Aguiar Oliveira

DIZEM QUE É AMIGO DO SEU AMIGO #14

Manuel Dias Loureiro nasceu em 1951. Licenciado em direito, ocupou diversos cargos em governos portugueses, entre os quais os de Ministro dos Assuntos Parlamentares e Ministro da Administração Interna em governos do PSD, partido do qual chegou a ser vice-presidente. Advogado e Gestor de Empresas, elogiou há não muito tempo a "capacidade de liderança" e a "capacidade estratégica" do primeiro-ministro José Sócrates. Segundo o jornal Público, esteve envolvido na «operação de aquisição de duas sociedades com sede em Porto Rico pela Sociedade Lusa de Negócios (SLN), em 2001 e 2002, numa transacção ocultada das autoridades e não reflectida nas contas do grupo». À época, Dias Loureiro era administrador executivo do Grupo SLN/Banco Português de Negócios (BPN). Informa ainda o Público que José Oliveira e Costa e Dias Loureiro «foram os gestores que se deslocaram-se a Porto Rico para tratar do negócio de compra de 75 por cento da NewTechnologies (empresa sem qualquer actividade), em Dezembro de 2001, e de uma posição 25 por cento na Biometrics Imagineerin» (empresa que se encontrava falida). «A operação envolveu duas empresas tecnológicas, contas em offshore e um investimento de mais de 56 milhões de euros por parte da SLN». Parabéns Portugal.
#1 #2 #3 #4 #5 #6 #7 #8 #9 #10 #11 #12 #14