31.1.09

Fragmento #73 – O pós-feminismo

Ontem passei pela melhor livraria do mundo, onde adquiri várias iguarias e tive uma conversa animada sobre assuntos femininos; o Sr. Livreiro queixou-se das feministas, com muita razão, algumas são umas verdadeiras chatas e surpreendeu-me porque tem uma perspectiva muito positiva do mundo pós-feminista. Eu admiro homens feministas no bom sentido como Rainer Maria Rilke, que a 14 de Maio de 1904 escreveu:

“As raparigas e as mulheres, na sua evolução, só temporariamente imitarão as modas masculinas, só temporariamente exercerão as profissões dos homens. Logo que acabem estes períodos incertos de transição, ver-se-á que as mulheres se prestaram a estas mascaradas, muitas vezes ridículas, apenas para extirpar da sua natureza as influências deformantes do outro sexo. A mulher, que uma vida mais espontânea, mais fecunda, mais confiante habita, está sem dúvida mais perto do humano do que o homem – o macho pretensioso e impaciente que ignora o valor do que julga amar por não estar preso às profundidades da vida, como a mulher, pelo fruto das suas entranhas. Esta humanidade, que na dor e na humilhação amadurece a mulher, virá à superfície quando esta quebrar as cadeias da sua condição social. Um dia (sinais certos o atestam já nos países nórdicos), a rapariga existirá, a mulher existirá. E estas palavras: “rapariga”, “mulher”, não significarão somente o contrário de “homem”, mas qualquer coisa de pessoal, valendo por si mesma; não apenas um complemento, mas uma forma completa de vida: a mulher na sua verdadeira humanidade.”

In “ Cartas a um jovem poeta”, Ed. Contexto, Lisboa 1994, p-73

Maria João

30.1.09

DEPOIS DE MUITO PENSAR...

…acho que este é o meu BI musical:

1 - És homem ou mulher?
Girl, youll be a woman soon
-Neil Diamond-

2 - Descreve-te
Stranger to myself, a stranger
Stranger till the end
-Peter Murphy-

3 - O que as pessoas acham de ti?
Mãe querida
Mãe querida

-Ágata-

4 - Como descreves o teu último relacionamento?
So this is goodbye,
So this is how you say it
-Stina Nordenstam-

5 - Descreve o estado actual da tua relação
Do you love me? Do you love me?
Do you love me? Like I love you?
-Nick Cave-

6 - Onde querias estar agora?
Under the waterfall
It’s cool and cold and clear
-James-

7 - O que pensas a respeito do amor?

8 - Como é a tua vida?
I go to sleep, before the devil wakes
and I wake up, before the angels take
- The Walkabouts -

9 - O que pedirias se pudesses ter um só desejo?
Salagadoola mechicka boola bibbidi-bobbidi-boo
Put 'em together and what have you gotbibbidi-bobbidi-boo
- Verna Felton (Fairy Godmother) -

10 - Escreve uma frase sábia
Tira a mão do queixo, não penses mais nisso
o que lá vai já deu o que tinha a dar.

- Jorge Palma

Ana Alexandre

29.1.09

Masoquismo


Apesar de não me terem lançado a corrente, eu acorrentei-me e aqui fiquei:

1 - És homem ou mulher?

Ele é quem quer
Ele é um homem
Eu sou apenas uma mulher
Caetano Veloso

2 - Descreve-te



3 - O que as pessoas acham de ti?

Te doy una canción y hago un discurso
Sobre mi derecho a hablar
Te doy una canción com mis dos manos
Con las mismas de matar

Sílvio Rodrigues

4 - Como descreves o teu último relacionamento?

Somos dois gritos calados
Dois fados desencontrados
Dois amantes desunidos
Amália Rodrigues

5 - Descreve o estado actual da tua relação

Enquanto que nesses brilhantes
Tens soberba e tens vaidade
Eu tenho as pedras da rua
P’ra passear à vontade

Amália Rodrigues

6 - Onde querias estar agora?

Eu quero uma casa no campo
Onde possa compor muitos rockes rurais
E ter somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais
Elis Regina

8 – Como é a tua vida?

7 - O que pensas a respeito do amor?

Eu sem você
Não sou nem porquê
Porquê sem você
Não sei nem chorar
Sou chama sem luz
Jardim sem luar
Luar sem amor
Amor sem se dar

E eu sem você
Sou só desamor
Um barco sem mar
Um canto sem flor
Tristeza que vai
Tristeza que vem
Sem você, meu amor
Eu não sou ninguém

Vinícius de Moraes

9 - O que pedirias se pudesses ter um só desejo?

Para mim
Basta um dia
Não mais que um dia
Um meio-dia
Me dá só um dia
E eu faço desatar a minha fantasia
Chico Buarque

10 - Escreve uma frase sábia


A vida é arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida
Vinícius de Moraes


Maria João

A ALTERNATIVA

Esta noite tive uma insónia terrível. Podia ter sido pior, não fosse o caso da minha senhora me ter acompanhado na vigília. Falámos sobre muitos assuntos, entre os quais surgiu a necessidade de encontrarmos uma alternativa credível ao PS nas próximas legislativas. Concluímos que não é fácil. A oposição ao actual governo tem sido feita em duas frentes. Na primeira frente temos os partidos à direita do PS. De tão desacreditados que estão, vão atacando o governo na pessoa do Primeiro-ministro. Do caso da licenciatura aos projectos do engenheiro, passando agora pelas luvas, Sócrates tem sido uma espécie de saco de boxe para gente esvaziada de conteúdos. Contra as políticas propriamente ditas, nada de relevante. Até porque um passado bem recente mostra a desgraça que foram os governos PSD e PSD/PP. Lembrem-se os eleitores disto: antes de Sócrates houve Santana, antes de Santana houve Durão, antes de Durão houve Guterres… Fiquemo-nos por aqui. São 35 anos de democracia governada por gente que transformou Portugal num dos países mais corruptos da UE. Na segunda frente temos os partidos à esquerda do PS. Aproveitam o balanço da contestação popular, aparecem na primeira fila das manifestações, mostram-se ao lado do povo, com o povo e pelo povo. Deliciam-se com sucessivos recordes de gente na rua gritando impropérios contra ministros, ministérios e supostas reformas. A contestação foi quase sempre motivada pela famigerada perda de privilégios, conquistas antigas de quem trabalha e agora se vê mais explorado do que nunca por quem manda. São exemplo disso professores, funcionários públicos, classes trabalhadoras incansáveis com resultados de excelência comprovados ao longo destes 35 anos de democracia efectiva. Em quem irão votar estes humilhados e ofendidos? Na CDU? No BE? Alguns talvez. Pelo que as sondagens vão mostrando, não muitos. É preciso, pois, encontrar uma alternativa credível, uma alternativa que traga novas ideias, uma alternativa criteriosa, fundamentada em princípios ideológicos convincentes, cativantes, uma alternativa às alternativas em vigor. Agradeço publicamente a Rui Bebiano ter resolvido este meu dilema. Afinal a alternativa está à vista de todos. É verde, é limpa, transmite esperança e confiança, é tão leve quanto os livros do Lauro Trevisan. A alternativa é o MEP, com M de Obama, a esperança, yes we can, MEP, Obama, Luciana Abreu, MEP com M de amor, e de Obama, MEP com M de Martin Luther King, Mahatma (Grande Alma) Ghandi ou mesmo o de Nelson Mandela e, por que não?, M de "Xanana" Gusmão. Eis sintetizado o programa de Rui Marques, Laurinda Alves e amigos, amigos de M de MEP, ei-lo: Obama construiu a sua vitória com base em duas ideias fortes: Esperança e Mudança. Ora, Mudança e Esperança são exactamente os dois grandes designios do MEP. Se virmos bem, MEP = Partido da Esperança + Mudança. E com esta cabalística fórmula, Sócrates que se cuide. Adversários à altura não lhe faltarão.

28.1.09

APRENDER A CONTAR #62

NAQUELE NOVEMBRO

Na véspera dos meus trinta e oito anos pensei nos poemas de Ruy Belo. E também eu quis escrever "Homenageio a tua primavera em flor". Passei o dia a desejar-te, amei o corpo adolescente.
À luz do candeeiro eu e ela falamos da nostalgia que virá por estas horas passadas junto à praia, pela imagem dos grãos de areia na sombra fulva que te cobre o sexo.
Nossos corpos perpetuam o amor, as palavras que celebram o encontro. O meu gesto, naquele Novembro em que a morte visitou as nossas vidas.

Isabel de Sá (1951), in Repetir o Poema, Edições Quasi, p. 262, Abril de 2005.

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ACORRENTADO

Sonho frequentemente com correntes, correntes a sério, férreas, inquebrantáveis. Sonho frequentemente que estou acorrentado. Por vezes consigo quebrar a corrente, outras vezes deixo-me ir na corrente, outras ainda, quando a corrente me parece ser agradável e desejável, entro em diálogo com ela:

1 - És homem ou mulher?
I'm a creep, I'm a weirdo. What the hell am I doin' here? – Radiohead

2 - Descreve-te
Cá dentro inqueitação, inquietação. É só inquietação, inquietação. Porquê, não sei, mas sei é que não sei ainda. Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer, qualquer coisa que eu devia resolver. Porquê, não sei, mas sei que essa coisa é que é linda. – José Mário Branco

3 - O que as pessoas acham de ti?
People are strange when you’re a stranger, faces look ugly when you’re alone. – The Doors

4 - Como descreves o teu último relacionamento?
If i, if I have been unkind, I hope that you can just let it go by. If i, if I have been untrue, I hope you know it was never to you. – Leonard Cohen

5 - Descreve o estado actual da tua relação
A strange kind of love, a strange kind of feeling. – Peter Murphy

6 - Onde querias estar agora?
Had to get out of there, to hide away, had to get out of there, to find my way. I troubled everything too soon, now where I want to be is, where I want to be is… under the sea. - dEUS

7 - O que pensas a respeito do amor?
Until you've flipped your heart and you have lost, you don't know what love is. – George Benson (na voz de Cassandra Wilson)

8 - Como é a tua vida?
Estou bem aonde eu não estou, porque eu só quero ir aonde eu não vou. Porque eu só estou bem aonde eu não estou. – António Variações

9 - O que pedirias se pudesses ter um só desejo?
Just serve me tomatoes and mashed potatoes, give me the simple life. - Harry Ruby / Rube Bloom (na voz de Annie Ross)

10 - Escreve uma frase sábia
E vem-nos à memória uma frase batida: hoje é o primeiro dia do resto da tua vida. – Sérgio Godinho

Passo a corrente ao Rui, ao Mário, ao Álvaro, ao Changuito, ao Lourenço, ao Manuel, ao NP e ao AMC (não se esqueçam de ir ao weblog deste senhor votar no Imperdoável).

27.1.09

CARTA ABERTA AOS MEMBROS DO P.E.N. CLUBE PORTUGUÊS

No contexto da minha entrevista à Lusa (aqui) e tendo em conta que até agora não nos foi facultado o acesso aos emails dos membros do PEN, agradeço aos membros do PEN que lerem este texto que entrem em contacto connosco (email abaixo).

São estes os nossos principais objectivos:

1. DEMOCRATIZAR O PEN

Consideramos que a actividade do PEN nos últimos anos se centrou demasiado nos elementos com funções directivas, em vez de estimular a participação de todos os seus membros e a interacção destes com a sociedade em geral.

Queremos maior rotatividade no que diz respeito à composição dos júris dos prémios literários patrocinados pelo PEN.

2. PROMOVER UMA LITERATURA VIVA

Gostaríamos de contribuir para que argumentos de autoridade valessem cada vez menos no estabelecimento do mérito literário.

Queremos que os membros do PEN tenham maior oportunidade de divulgar o seu trabalho, e solicitaremos a sua participação em eventos que possam despertar o público para obras de qualidade.

Agradeço a TODOS os leitores deste blog a divulgação deste texto.


Para sugestões, críticas e o mais que entenderem (sejam ou não membros do PEN), o meu email é:
msgtorc@hotmail.com



Rui Costa

I DO NOT UNDERSTAND


Algumas mentes sensíveis, das que não comem canja de galinha, queixaram-se ao Santo Google dos conteúdos heréticos, infiéis, desviantes e perversos do weblog Frenesi. Há tempos, fizeram o mesmo à menina limão. Não sei como a citrina (pardon my french) se safou no tribunal da inquisição, mas a verdade é que hoje pode circular nas ruas de rosto ao léu. Talvez pudessem trocar umas palavras sobre o assunto. É que custa-me ver o Frenesi com um véu. Eu sempre wish to continue mas nunca understand a pudicícia que ameaça a liberdade dos autores de blogs, deva-se ela à divulgação de imagens com estropiados (o que duvido) ou à exibição de conteúdos pornográficos (bem mais provável, neste mundo ainda tão cauteloso perante conas húmidas e caralhos entesados).

23.1.09

O AMOR É UM DESPORTO MUITO RARO!

(Lichis, La cabra mecánica)*

Esta história de amor
tem lugar num pequeno andar,
numa habitação estreita
com duas camas
e uma mesinha ao meio.
Retiram a mesinha
e juntam os colchões.

Dois, não podem mover-se, não se podem falar,
um, nem sequer sabe fechar os olhos sem ajuda.
Nos seus corpos errantes brotam
pulsos que não correspondem à prática.
Querem ir mais além,
estendendo a alma,
dando-se ao gozo de actuarem
com os recursos que não têm.
A baba cai, a língua confunde-se,
tapam as bocas despistadas
entre os membros brancos, imóveis e absurdos.

Vivos por dentro,
são percorridos pelos bichos que picam no gosto,
a carne – negada – não responde,
é uma vasilha imodesta.
Sem poderem beijar-se, nem transitar,
sem poderem chupar-se, arranhar-se, penetrar-se,
dizer-se porcarias, subtilezas,
sem se conseguirem olhar nem agradecer
as carícias que ficam de lado.

Debaixo da pele, do osso mole,
flúem as águas incendiadas
e salpicam azeite
pintando chagas como portas abertas.

O homem e a mulher têm a vida dentro,
no recheio, no fundo doce do seu sexo.
As mãos e as pernas e as bocas
nunca respondem,
nada lhes pertence dessa matéria
enquanto ganem urgentes e comovidos.

Três generosas loucas
sentam-se a seu lado
e borram com as suas mãos nos lençóis
coisas tão mal escritas como fornicar e incapacitado.
Medem os impulsos, o ritmo,
compõem um palco ilimitado e fértil
até que o coração
lhes salta em lágrimas rompendo as defesas.

Cinco pessoas numa habitação:
duas fazem amor,
três acomodam, empurram, removem e voltam.
Cinco pessoas numa habitação:
cinco fazem amor
numa habitação minúscula,
transcendem.

As duas cadeiras de rodas contemplam vazias o milagre.


Versão de HMBF.

* La Cabra Mecánica é um grupo de pop-rock espanhol formado por Miguel Ángel Hernando (aka Lichis).


Inma Luna nasceu em Madrid no ano de 1966. Jornalista de profissão, publicou os livros de poesia El círculo de Newton (2007) e Nada para cenar (Premio Local de Poesía Villa de Leganés 2005). Participou na antologia De ronda en ronda, antología itinerante de poetas españoles en México, estando igualmente representada na antologia Poesía y ética, da colecção “Voces del Extremo”. Tem colaboração dispersa por várias revistas literárias, entre as quais sublinhamos as portuguesas Minguante e Sulscrito. O poema que aqui reproduzimos integra a antologia Os Dias do Amor, organizada por Inês Ramos (2009).

22.1.09

A DEFINIÇÃO DO AMOR (2)

"Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio e quatro paredes."
Eugénio de Andrade, Adeus

Escrevi tantas vezes a palavra pai que lhe gastei todo
o significado. Quando agora escrevo pai, já não sinto
as barbas a roçarem a minha mão macia, as rugas que
os anos transportaram para a sua face, os óculos, os
dedos, a voz com que me chamava filho como se eu

me escrevesse pai. Gastei tudo o que uma palavra pode
dizer porque esqueci a sua memória. Gastei-a em maus
poemas e em maus romances, poemas e romances com
a foz ao fundo e a mãe segurando-me o corpo pequeno
sobre o muro que ladeava a praia. Gastei-a

definindo-lhe as letras, alargando-lhe o significado.
Gastei-a tirando-lhe a dízima infinita e não periódica
e colocando-lhe, depois da letra que se salvou, o mar
fechado no seu interior. Gastei-a a tentar definir o amor.


Jorge Reis-Sá nasceu em Vila Nova de Famalicão no ano de 1977. Estudou Astronomia e Biologia, dedicando-se posteriormente à edição. É responsável pelas Quase Edições. Estreou-se na poesia com o livro à memória das pulgas da areia (1999). Tem colaboração dispersa por várias antologias e revistas literárias, tendo sido co-director da revista Apeadeiro. Além de poesia publicou obras de ficção e organizou algumas antologias, entre as quais o volume Anos 90 e Agora – Uma Antologia da Nova Poesia Portuguesa (2001), posteriormente revista e aumentada. O poema que aqui reproduzimos foi copiado do livro Biologia do Homem (Quasi, 2004).

21.1.09

APRENDER A CONTAR #61

*
CONTO, n. Uma narrativa, normalmente falsa. A verdade das histórias que a seguir se transcrevem, no entanto, não foi ainda desmentida:

Uma noite, o sr. Rudolph Block, de Nova Iorque, deu por si sentado ao lado do sr. Percival Pollard, o famoso crítico.
«Sr. Pollard», disse ele, «o meu livro, Biografia de uma Vaca Morta, foi publicado anonimamente, mas não acredito que desconheça a sua autoria. E, no entanto, na sua crítica fala dele como a obra do Idiota do Século. Acha mesmo que é assim que se faz crítica?»
«Peço desculpa, caro senhor,» disse o crítico num tom amistoso, «mas não me ocorreu que podia não querer que o público soubesse quem o escreveu.»

O sr. W.C. Morrow; que vivia em San Jose, na Califórnia, dedicava-se a escrever histórias de fantasmas que faziam o leitor sentir-se como se uma fila de lagartos, acabados de sair do gelo, passasse a correr pelas suas costas para logo se esconder no seu cabelo. Nessa altura, acreditava-se que San Jose era assombrada pelo espírito visível de um conhecido bandido chamado Vasquez, que tinha sido lá enforcado. A cidade era mal iluminada, e não exagero se disser que os seus habitantes não saíam à noite sem alguma relutância. Numa noite particularmente escura, iam dois cavalheiros a conversar na rua, em voz muito alta ― para não perderem a coragem ― e, num dos sítios mais isolados da cidade, encontraram o sr. J. J. Owen, um reputado jornalista.
«Ora, sr. Owen», disse um deles, «o que o traz aqui numa noite como esta? Foi você que me disse que este é um dos sítios que o Vasquez mais gosta de assombrar! E você é dos que acreditam nessas coisas. Não tem medo de andar aqui na rua?»
«Meu caro amigo», respondeu-lhe o jornalista, com uma lúgubre cadência outonal na voz, como o som do vento que arrasta as folhas, «eu tenho medo é de estar dentro de casa. Tenho um dos contos do Will Morrow no meu bolso e não me arrisco a entrar num sítio onde haja luz suficiente para o ler.»

O General H. H. Wotherspoon, presidente do Colégio de Armas Militares, tem um babuíno como animal doméstico, com uma inteligência pouco comum, embora não deva muito à beleza. Uma noite, regressando ao seu apartamento, o General ficou surpreendido e aborrecido por encontrar o Adam (pois, sendo o general um Darwinista, era este o nome do animal) sentado à sua espera e envergando o melhor casaco do uniforme do dono, com insígnias e tudo.
«Oh meu antepassado remoto perturbado!», gritou o grande estratega, «o que é que andas a fazer fora da cama a estas horas? ― e com o meu casaco vestido!»
Adam levantou-se e, com um olhar de reprovação, pôs-se de quatro patas, como é próprio da sua espécie, e foi buscar um cartão de visita: o General Barry tinha aparecido e, a julgar pela garrafa de champanhe vazia e pelos restos de charutos, deve ter sido recebido com toda a hospitalidade enquanto ali esperava. O general pediu desculpa ao seu fiel antepassado e retirou-se. No dia seguinte, encontrou o General Barry; que lhe disse:
«Spoon, velho amigo, quando saí de tua casa, ontem à noite, esqueci-me de te fazer uma pergunta acerca daqueles charutos maravilhosos. Onde é que os arranjaste?»
O General Wotherspoon nem se dignou a responder, afastando-se imediatamente.
«Desculpa, por favor», disse Barry; seguindo atrás dele, «eu estava a brincar, é claro. Olha, eu percebi logo que não eras tu quando ainda nem tinham passado quinze minutos.»

Ambrose Bierce (1842-1914?), in Dicionário do Diabo, trad. Rui Lopes, Tinta-da-China, pp. 38-40, Janeiro de 2006.
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DIA 21

Gosto de gente assim. Curto e directo. Ou não querias para os outros o que não queres para ti. Qualquer coisa do género.

20.1.09

TRISTE MA NON TROPPO


Luís Nunes, do Lugares Mal Situados, merece um prémio pelo parágrafo que acima se reproduz. Com aquele parágrafo ele consegue escarrapachar tudo o que eu odeio neste meio, do tom pedante e presunçoso do discurso à estúpida suposição de que é possível esperar mais de um weblog do que um gesto diário de inscrição existencial. Vejamos, até hoje nenhum blog excepto o de Luís Nunes se referiu à morte do poeta Grigore Vieru. Parabéns, pois, ao Luís Nunes. Foguetes sejam lançados. Ele fez algo que mais ninguém fez. Incrível, maravilhoso, estupendo. Ao referir-se à morte de Grigore Vieru merecia uma condecoração do PR na próxima edição do dia da raça. Mas Nunes não se fica por denunciar a negligência dos outros e chamar a atenção para a sua estimável prestação, ele vai ao ponto de apontar o dedo aos “tais intelectuais da blogosfera”. Mas quem são os tais? Podemos saber? Os tais podem ser muitos e muitos podem ser ninguém. Era bom que dissesse a que tais se refere. Era, no mínimo, exuberante que o fizesse. O meio gosta de sangue, mesmo quando o pretexto é a morte de um poeta. Temos uma pista: são “senhores que escrevem vinte posts por dia, em que nos dizem que são muito inteligentes e que lêem bastante e que têm o dom da palavra”, etc., etc., etc. Só defeitos: escrever vinte posts por dia, dizer-se inteligente, ler bastante e ter o dom da palavra. O que me obstaculiza a suspeição é a referência àquele dizer-se muito inteligente, pois não vejo quem o faça neste meio e já ando por aqui há 5 anos. Quer dizer, com este parágrafo Luís Nunes não faz outra coisa acerca de si próprio. No fundo, ele diz-se mais atento que os outros, mais inteligente que os outros, ele quer dizer que não vive do aparato nem de luzes, ele quer referir que não alimenta o seu ego “com isso”, ele quer dizer que só ele se lembrou de sublinhar a morte do poeta Grigore Vieru. Campeão. Eu pensava que um weblog era um diário pessoal aberto ao mundo, pensava que era um lugar de partilha onde o pensamento podia abrir-se ao mundo. Não sabia que era um lugar de obrigações nem um cardápio de obituários. Cuidado, bloggers deste mundo, estejam atentos a quem morre por aí. Não se esqueçam nunca de, pelo menos, fazerem uma referenciazita nos vossos diários a todos os mortos deste e de outros mundos, mesmo que sejam mortos que pouco ou nada vos digam, botem uma fotografia, datas, escrevam poemas, elegias, busquem na wikipédia dados biográficos. Um morto que nada vos diga pode subitamente transformar-se num morto que sempre vos disse muito. A este propósito, reproduzo um pequeno post que escrevi há um mês: «Todos os dias morrem pessoas à nossa volta. Outras não morrem mas é como se morressem. Todos os dias, à nossa volta, se cometem crimes horrendos contra gente indefesa, frágil. Quando morre um escritor, um músico, um cineasta, alguém das artes que admiramos, que admiramos com a proximidade da distância que existe entre o artista e a assistência, a gente lamenta muito. Citam-se os autores, mostram-se fotografias, fazem-se homenagens, por vezes, pelo menos é o que aparenta, sem se saber minimamente quem se está a elogiar. Foi um criador. Os criadores criam. Deixam coisas no mundo quando morrem. E todos os dias morrem pessoas à nossa volta». Não faríamos outra coisa senão citar óbitos se, de ora em diante, nos víssemos na obrigação de referir a morte de alguém só por esse alguém ter deixado qualquer coisa no mundo para ser lembrada. Lamentável entrar assim pelo mais íntimo dos territórios, ou seja, o território dos mortos que nos apetece lembrar, os que nos dizem algo para lá da distracção com que vamos nós próprios morrendo. Algo de bom naquele parágrafo: Luís Nunes a gente já conhece. Falta-nos agora conhecer Grigore Vieru.

A verdade apanha-se com enganos


Obrigada João Aguardela pela tua boa música, de que é exemplo esta canção com enganos de meu amigo; a verdade é que fico com uma enorme vontade de dançar sempre que a oiço e oiço-a sempre que sobrevivo a algum coração míope que se cruza comigo, ressuscito quando a danço.

Maria João

19.1.09

VERSOS ÁUREOS


Mas como! tudo é sensível!
Pitágoras

Oh! homem pensador, julgas que é em ti somente
Que há a razão neste mundo onde em tudo arfa a vida?
Das forças que tu tens tua vontade é servida,
Mas dos conselhos teus o universo está ausente.

Respeita no animal um espírito agente:
Cada flor é uma alma à Natureza erguida;
Um mistério de amor no metal tem guarida;
«Tudo é sensível!» Tudo em teu ser é potente.

Teme, no muro cego, um olho que te espia:
Pois mesmo na matéria um verbo está sepulto…
Não a faças servir a alguma função ímpia!

No ser obscuro às vezes mora um Deus oculto;
E, como olho a nascer por pálpebras coberto,
Nas pedras cresce um puro espírito desperto!


Trad. Alexei Bueno.



Gérard de Nerval nasceu em Paris a 22 de Maio de 1808. De seu nome verdadeiro Gérard Labrunie, adoptou o nome de uma propriedade dos avós maternos para assinar toda a sua obra publicada a partir de 1831. Para trás tinham ficado estudos de medicina, uma tradução do Fausto de Goethe, ocupações como tipógrafo e notário. Começou a publicar em 1826, com uma comédia intitulada Elegias Nacionais. Assíduo frequentador da boémia parisiense, foi também um viajante incansável. Em 1841 sofreu uma crise nervosa, as quais se repetiram várias vezes ao longo da sua vida. Traduziu Heine, escreveu várias peças teatrais e algumas obras-primas, das quais destacamos As Filhas do Fogo. Em 1855, vivendo na miséria, encontraram-no enforcado à porta de um albergue. O poema que aqui se reproduz foi copiado do livro As Quimeras (Hiena), à venda na melhor livraria do mundo.

OBRIGADO JOÃO AGUARDELA




Ouvi a notícia da morte do João Aguardela (1969-2009) na Antena 1. Fiquei emocionado. Nascido no mesmo ano da Maria João, tinha dele a ideia de um tipo cheio de energia, um músico talentoso e ousado que gostava de transformar em novo tudo aquilo que parecia velho. O primeiro álbum dos Sitiados apareceu em 1992, ano em que fui estudar para Lisboa. Ainda o tenho, em vinil. Foi um sucesso estrondoso, muito por causa de uma canção orelhuda chamada Vida de Marinheiro. À época fizeram-se comparações fáceis e despropositadas com os The Pogues. De comum entre os dois projectos havia apenas um gosto pela renovação, um lado picaresco que nos Sitiados estava condenado à eterna melancolia que caracteriza toda a música popular portuguesa (mesmo a que parece mais abrasada). Um ano depois comprei o segundo álbum dos Sitiados, já em CD, mas acabei por vendê-lo à minha irmã. Lembro-me de umas colaborações com o Paulo Bragança – por onde andará ele? – melhores que o resto. Mas o resto era demasiado previsível. Verdade seja dita: mesmo previsíveis os Sitiados eram uma das melhores bandas portuguesas ao vivo. Quem os viu no Portugal ao Vivo lembrar-se-á do entusiasmo provocado na assistência por um Aguardela absolutamente frenético. Há um outro pormenor nesse concerto que guardarei para mais tarde, num elogio que ainda hei-de aqui fazer aos Xutos & Pontapés. Mais recentemente acompanhei dois trabalhos distintos do ex-Sitiados: Megafone e A Naifa. Nos primeiros, aprecio a ousadia de metamorfosear, recorrendo a tecnologias diversas, os registos da música tradicional portuguesa recolhidos por Michel Giacometti. Poderão confirmar no vídeo que acima se reproduz a excelência deste trabalho. Com A Naifa a música era outra, embora os territórios tradicionais nunca tenham sido abandonados. Bandas sonoras para poemas com formatos bem distintos da canção habitual. O legado que João Aguardela nos deixa é, precisamente, o legado da ousadia, da experimentação, do testemunho actualizado de uma cultura que ele sabia riquíssima. Menos rica agora. Infelizmente.

18.1.09

“Conversa de senhoras” – Ana Gusmão interpreta Ana Cristina César


sugestão de Rui Costa

16.1.09

UM SAPATO PARA MUDAR O MUNDO (5)



1. Podem ver neste site:
http://www.base.gov.pt/_layouts/ccp/AjusteDirecto/Detail.aspx?idAjusteDirecto=3620

os detalhes de um interessante “contrato” entre o Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas e o Metropolitano de Lisboa.

2. O objecto do contrato surge descrito nos seguintes termos: “Carregamento de 3 Cartões VIVA LISBOA - 50 Viagens (Ida e Volta) cada”. Trata-se de viagens de metro.

3. O Preço do contrato: 18.250,00 €

4. Ou seja, cada viagem de metro sai a 121,7 €.

5. Mas o contrato que surge em segundo lugar aqui:
http://transparencia-pt.org/?search_str=cadeira é bastante mais surpreendente.

Vejamos: A Administração Regional de Saúde do Alentejo pagou 97.560 euros a João Severo por:

- 1 armário persiana;
- 2 mesas de computador;
- 3 cadeiras c/rodízios, braços e costas altas


Rui Costa

15.1.09

O CORAÇÃO É ÓLEO


Se um homem em sonhos se vê num espelho vendo seu
rosto, cautela: isso quer dizer outra esposa.
Papiro Chester Beaty III, Museu Britânico (Tebas, 19ª Dinastia)


Se um homem sonhasse, e a si mesmo se visse a sonhar
um sonho, a si mesmo num espelho se vendo,
vendo que o coração é óleo a percorrer
o sangue, qual ralo para aonde se movesse,
seus ossos como um barco e o intestino pronto
a navegar no vento da sua respiração,

se isto é o seu olho no espelho a ver
o seu olho no sonho, a ele mesmo se vendo,
num espelho vendo o seu olho a ele mesmo
se vendo em um sonho num espelho, seu rosto
reflectido no óleo que se encrespa de vez
em quando no vento da sua respiração,

o espelho derivará e o coração assentará
como vidro na armação dos seus ossos na parede
da sua respiração, delgado seu sangue como papel e prata,
reflectindo o seu rosto em seu coração num espelho
num sonho em que a si mesmo se vê vendo-se
num espelho vendo

que os ossos boiarão e o coração há-de despedaçar-se,
os seus ossos na garganta e o intestino esticado e tenso
como veleiro ao vento da sua respiração, o seu sangue
cheio de vidro estilhaçado e o rosto como papel desfeito
vendo-se a sai mesmo no espelho do seu coração
que como óleo se derrama no espelho do seu bafo.

Trad. Júlio Henriques.


Robert Bringhurst, nascido a 16 de Outubro de 1946, em Los Angeles, estudou arquitectura, linguística, física, literatura comparada, filosofia, entre outras matérias. Foi professor de escrita criativa, literatura e história, nomeadamente história da tipografia. Estreou-se na poesia em 1972, com o livro The Shipwright's Log. Em 1982 antologiou a sua poesia num volume intitulado The Beauty of the Weapons: Selected Poems 1972–82, publicado entre nós, numa versão bilingue, pela Antígona. Poeta de espírito errante, com especial interesse nas chamadas línguas mortas e no design tipográfico, publicou ainda algumas traduções e vários livros em prosa.

UM SAPATO PARA MUDAR O MUNDO (4)


1. Margarida Moreira, a bufa que originou a suspensão de Fernando Charrua por causa de um comentário deste à “licenciatura” do engenheiro do nabal, voltou a mostrar o que bale.

2. Escreve o anjo de Sócrates em documento oficial: “O pagamento dos Magalhães, nos casos em que a isso os pais sejam obrigados, estão a receber informação por sms devendo, em todas, constar a entidade 11023.”

3. Podemos responder à directora da DREN: “as hortaliças 11023 são aves não gostam comer magalhães de que, por isso senhor dos suspensórios pagamento ser feito a.”

4. Ou mesmo: “directora burra e ignorante, largue o tacho sua inútil”.

5. Ela não larga, ela só alarga. O país precisar ela.


Rui Costa

14.1.09

UM SAPATO PARA MUDAR O MUNDO (3)


1. O movimento Plataforma Abstencionista é um recente movimento cívico que pretende apelar à abstenção num ano em que há três actos legislativos (europeias, autárquicas e legislativas). A notícia vem no Público de 10.01.2009 e a iniciativa parece-me pertinente.

2. Votar em partidos políticos é hoje uma acção esvaziada de conteúdo. Os membros dos partidos que alternam no poder (partidos alternadeiros) vão jantar aos mesmos sítios, onde discutem os negócios comuns como irmãozinhos unidos pelo lucro. Compreendo que a maior parte de nós ainda seja indiferente a isto, porque nem sempre é fácil pensar quando se vive num sistema neo-feudal.

3. As pessoas poderiam optar por resistir a oferecer qualquer tipo de legitimidade aos políticos actuais. Os próprios candidatos às próximas eleições não deveriam votar, seguindo assim o exemplo dos seus ex-eleitores. Em caso de distracção dos primeiros, os ex-eleitores poderão interpor-se entre os candidatos e as urnas (as que ainda subsistam), brandindo os livros do henrique fialho como se houvesse amanhã.

4. Precisamos de mais tempo para viver a nossa vida (em vez de o gastarmos a viver a vida dos outros). A transição para uma sociedade mais decente pode passar pelo agrupamento voluntário de pessoas que decidem resolver em conjunto os seus problemas. A utilização de formas já existentes (como é o caso das associações) não deve, no entanto, abafar a liberdade de expressão individual.

5. Não votar, mais do que um direito, é um dever cívico.

6. Acredita na democracia: não votes.



Rui Costa

13.1.09

APRENDER A CONTAR #60

CASA GUIDI WINDOWS

«Sei agora que devo morrer». E, acrescentando algumas palavras inconvenientes, saiu da sala. Elize deitou-se no chão, esperando que R. O. a pisasse, o que este fez durante algum tempo, e marcando-lhe as costas e o peito. Mas Elize não reagiu, antes suspirou, por vezes, deixando adivinhar um insólito prazer na prolongada tortura. Ouviu-se então um tiro. Correram ao quarto de Alma, que jazia por terra com uma poça de sangue a escorrer da cabeça e da garganta. Elize beijou-a nos lábios e nos seios, bebendo o sangue. R.O., sem se mover, assistia a esses preparativos de morte. «Comê-la-emos», disse Elize. Levaram-na para a cozinha, onde a cortaram aos bocados, depois de Elize ter beijado demoradamente todas as partes do corpo de Alma. «Não achas estranho que uma mulher se mate com um tiro?» perguntar-me-ia R.O. mais tarde. «A sua carne sabia a um fruto divino». Não lhe ouvi mais nada sobre Alma, nem sobre os insólitos destino e morte de Elize. Ouvi dizer que ela se refugiara no litoral, onde vendeu o corpo às passageiras tripulações de fétidos cargueiros. A doença consumiu-a, até ao estado em que a vi nas imediações do velho mercado de escravos. Os farrapos que lhe cobriam o corpo deixavam adivinhar um antigo esplendor, e os descontrolados movimentos da cabeça e dos membros não me impediram de notar o belíssimo brilho dos seus olhos. Pagámos-lhe um copo de aguardente, na taberna do cais, e enquanto a insultávamos e lhe mexíamos nos seios, ela murmurava incoerentes maldições com voz rouca. Ao trazê-la para o ar livre, devolvendo-lhe espaço e a mobilidade, reparei nos seus braços, que tanto amei, devorados pela infecção. Nessa noite bebi a água fétida dos esgotos, e contei esta história aos sinistros habitantes do lodo.

Nuno Júdice (1949), in Obra Poética (1972-1985), pp. 177-178, Quetzal Editores, 1991.

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PARABÉNS


12.1.09

DIZEM QUE É AMIGO DO SEU AMIGO #15

O primeiro dos grandes amigos não pára de surpreender a nação. Copio parte da notícia do Público por me vomitarem os dedos de asco de cada vez que escrevo certos nomes:

Armando Vara foi promovido na Caixa Geral de Depósitos (CGD) um mês e meio depois de ter abandonado os quadros do banco público para assumir a vice-presidência do Banco Comercial [Português] (BCP). O ex-administrador da CGD e ex-quadro da instituição, com a categoria de director, foi promovido ao escalão máximo de vencimento, ou seja, o nível 18, o que terá reflexos para efeitos de reforma. (…) O PÚBLICO questionou a administração da Caixa no sentido de perceber a razão da referida promoção, um mês e meio depois da saída de Vara. A instituição esclareceu que, "como é prática comum do grupo, todos os administradores quadros da CGD, quando deixam de o ser, atingem o nível 18 em termos de graduação interna". (…) Em posterior esclarecimento, a CGD diz que entre o dia da renúncia do cargo de vogal no conselho de administração [28 de Dezembro de 2007] e o dia de desvinculação laboral [15 de Janeiro de 2008], Vara passou a ser director da CGD. O PÚBLICO solicitou à CGD que enumerasse idênticas promoções realizadas nos últimos anos. Após vários dias úteis de espera e de contactos com o porta-voz oficial da instituição, não houve qualquer resposta da CGD. O PÚBLICO contactou os maiores bancos privados, no sentido de perceber se é normal a promoção de ex--administradores, mas não encontrou nenhuma prática nesse sentido.

Quem conseguir que comente esta palhaçada. Viva Portugal!

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A DIFERENÇA DOS TEMPOS


Vídeo encontrado aqui.

Resumo: Isto é uma fantochada. Tudo isto é casca. Não temos políticos com conteúdo. Tudo isto enoja qualquer cidadão. Cada coisa tem o seu tempo. Acho que as crianças têm de começar a saber ler, escrever, contar e entender. E depois é que vão para os Magalhães. Aquilo que se está a conseguir com as nossas crianças é entregar-lhes estes caixotes que felizmente eles vão destruir depressa. Tudo isto para mim é um nojo. A política em Portugal é cada vez mais um nojo, aquilo a que o Radael Bordalo Pinheiro chamava a grande porca. Eu diria, para actualizar, a grande porcaria. Tenho o maior e mais progressivo desprezo por quase todos estes políticos. Parecem daquelas santolas que há uma época que só têm casca, não têm conteúdo. É assim que nós estamos na política: santolas só com casca. Quando eu estive no governo e felizmente fomos mandados embora, oferecemos ao Mário Soares um quadro. Ouvi dizer que recentemente ofereceram ao primeiro-ministro um fato. É a diferença dos tempos.

UM SAPATO PARA MUDAR O MUNDO (2)


1. Jovens portugueses desempregados e com qualificações na área da cultura vão poder candidatar-se a estágios no estrangeiro. Diz o Público de 09.01.2009, que informa ainda, no título da notícia, haver “450 estágios” disponíveis.

2. Parece uma medida eficaz contra o desemprego: enviar os desempregados para o estrangeiro. Aliás, todos os desempregados poderiam ser considerados estrangeiros no momento em que abandonam o território nacional, devendo, em consequência, ser impedidos de regressar ao nosso país no fim do estágio (a não ser, enfim, como turistas, mas depois de arranjarem emprego “lá fora”).

3. Aos desempregados de todas as áreas (e não apenas da área da cultura) juntar-se-iam, naturalmente, todos os trabalhadores em situação precária, com excepção da dona fernanda cá do prédio e de todas as pessoas (as pessoas que nos amam e que nós ajudamos com a graça de fazer o bem) que preservam a ruralidade essencial à nossa boa terra portuguesa.

4. Finalmente, seria bom que todos os portugueses abandonassem o país. Não vou adiantar muito mais sobre o assunto, porque eu mesmo me encontro neste momento a abandonar o país. Estou neste preciso momento a abandonar o país e seria bom que todos seguissem o meu exemplo. Foi bom nascer neste arrebol.


Rui Costa

Portugal multicultural

O desafio foi-me lançado aqui e é muito difícil fazer uma análise sobre o aqui e agora de Portugal, sinto-me demasiado envolvida, não tenho distância da minha cultura, sou parte dela e vivo-a. Tudo o que lhe diz respeito, afecta-me mais do que outra qualquer. O meu habitat natural é este fim de mundo, com um clima maravilhoso, paisagens fantásticas, praias espectaculares, com o senão, “está tudo fodido” como costuma dizer a minha irmã arquitecta, que trabalha na área do património arquitectónico há mais de vinte anos, uma especialista classificada que neste momento poderá ficar sem emprego, no actual momento político do país. O principal problema de Portugal são os portugueses, no qual estou incluída? São os políticos corruptos? Vou começar pela geografia: Portugal é um pequeno país ancião, com várias civilizações por camadas, localizado entre a orgulhosa Espanha, à qual resistimos ao contrário dos outros povos ibéricos e o infinito mar. Este é o primeiro aspecto difícil no país: o seu isolamento geográfico leva sempre a duas hipóteses, voltar costas a Castela construindo muralhas ou aventurarmo-nos no misterioso grande mar. Os portugueses ou se fecham no seu território, orgulhosamente sós, permanecendo ignorantes, tacanhos e por isso são o povo mais desconfiado da Europa Ocidental, ou se aventuram no mundo; em cada português existe sempre esta dualidade, o descontentamento com a situação do seu habitat natural e a crença no paraíso que é o desconhecido resto do mundo. Os portugueses que habitam o país fecham-se com medo, desejam o que não têm neste pequeno território, invejam o que não conhecem, acham que o outro está sempre melhor, têm vergonha do país em que vivem e acreditam que tudo é maravilhoso noutros sítios, o que é mentira; os que habitam no exterior sentem saudades, têm um “cortinado roxo que lhe cobre o coração”, como cantam popularmente os açorianos, um luto em relação ao paraíso perdido, a pátria que entretanto idealizaram à distância, mas basta uma pequena estadia por cá para se revoltarem de novo e partirem em busca da ilha dos amores. Quanto ao facto de o nosso país ter uma classe política corrupta, temos 800 anos de vida sem tradição democrática, aquilo a que chamo de civilização por camadas, um enguiço e com o isolamento geográfico tudo chega a Portugal tardiamente, até a democracia tardou, chegou com uma revolução de flores. Existe um aspecto que me preocupa deveras no país actual: a educação. A democratização do ensino começou em Portugal nos finais dos anos 60, com as reformas de Veiga Simão, pouco antes do 25 de Abril, com cerca de 200 anos de atraso, visto que é uma ideia que nasceu na revolução francesa. Se tivermos em conta os países do norte da Europa, que com a reforma protestante iniciaram a alfabetização das populações, consequência de um regresso à leitura da Palavra bíblica, o atraso ainda é maior. Preocupa-me este país sem uma política de educação como deve de ser, porque poderá ser um país sem futuro. Assim, preocupa-me o estado da educação aqui e agora, que não acompanhou as mudanças sociais dos últimos anos, o actual descrédito do ensino público, com um primeiro ministro a promover o Magalhães, a máquina-solução para todos os males, quando as máquinas nunca poderão substituir as pessoas. Preocupa-me que a educação com qualidade seja de acesso apenas às elites, um verdadeiro retrocesso em termos do desenvolvimento do país democrático, que era rural há trinta anos e se transformou no actual audiovisual em tão pouco tempo; houve mudanças radicais em tudo e o aspecto positivo é que agora fazemos parte da Europa comunitária, abrimos as portas e ainda bem que assim foi, a milhares de retornados depois do 25 de Abril, à imigração dos brasileiros, dos países africanos, dos outros países da Europa, hoje em dia podemos circular livremente no continente europeu e o território português é multicultural – a meu ver este aspecto dará origem à verdadeira revolução que já começou, o cocktail de culturas das próximas gerações irá derrubar as muralhas do orgulhosamente sós, será através do sangue, dos mestiços, os preconceituosos e medrosos tabus portugueses serão destruídos através de uma revolução de valores e costumes; a falta de tradição democrática e a classe política corrupta, neste meu ponto de vista optimista, será derrubada por esta verdadeira revolução tardia, acredito nela. Os portugueses estão a mudar, os filhos da democratização do ensino, de que faço parte, serão a geração de transição para a verdadeira revolução no país, porque neste momento o mundo já está no interior do nosso território, nos portugueses que para além de continuarem a ser celtas, ibéricos, lusitanos, latinos, suevos, visigodos, árabes, judeus, são agora também africanos, brasileiros, europeus de leste, do norte, do sul, viva a nova invasão dos “bárbaros”, bem necessitados estávamos dela. Apesar da situação do aqui e agora do país me indignar, tenho esperança que a revolução já começou, uma verdadeira revolução cultural, o Portugal multicultural.

Maria João

9.1.09

UM SAPATO PARA MUDAR O MUNDO (1)

para o Zé João


1. Segundo notícia do Público de 08.01.2009, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, anunciou recentemente a vontade de construir um muro a separar a favela do “asfalto”. Não é a primeira vez que se constroem muros, apesar de os tempos terem sido difíceis para alguns (poucos) muros durante as últimas décadas do século passado.

2. Se a ideia de construir muros não é original, podemos dizer que assume agora renovado papel ao reduzir a escala: já não serve apenas para separar a nossa cidade do invasor estrangeiro, não, o muro erige-se agora dentro da própria cidade (dizer cidade é dizer país, nação, “comunidade” mais ou menos heterogénea). A divisão transporta-se para o dentro, selando os habitantes da cidade como estrangeiros uns dos outros.

3. O processo não começou agora. Os muros construídos no pensamento chamam-se preconceitos. A tecnologia deu uma ajudinha no bloqueamento dos buracos por onde recebíamos o mundo: auriculares nos ouvidos, óculos GPS nos olhos. E mais abaixo as mãos, delicadas, pressentindo as teclas do telemóvel.

4. A cada um o seu muro portátil. Um muro sólido como uma utopia, auto-suficiente como uma má metáfora. O anjo da guarda que merecemos e nos ausculta as ideias sem precisarmos de abrir a boca. É óbvio, havemos de ter o paraíso. Havemos de ter um paraíso para cada um.


Rui Costa